11 março 2015

Resenha Crítica: "Les Combattants" (Os Combatentes)

 Aparentemente simples mas incrivelmente sentido, "Les Combattants" desafia e utiliza os elementos dos romances e dos filmes de transição para a idade adulta de forma sublime, alicerçando-se numa realização seguríssima de Thomas Cailley e na enorme química da sua dupla de protagonistas. Falar em química e dinâmica entre Adèle Haenel e Kévin Azaïs é quase redundante, tal a forma como estes parecem incutir uma enorme naturalidade aos actos, diálogos e gestos dos personagens que interpretam, elevando um argumento que consegue explorar com uma habilidade notável a história de uma relação entre uma dupla com uma enorme pancada. O elemento do elenco que mais sobressai é Adèle Haenel, com esta a interpretar uma jovem aparentemente arisca e feroz que pretende entrar no exército, em particular nos Paraquedistas, e frequentar um estágio no Verão para se preparar para esta aventura profissional. Luta na praia contra jovens da sua idade, faz "batidos de peixe", expõe as suas opiniões de forma crua, não tem problemas em vestir uma camisola de alças sem sutiã que realça muitas das vezes os seus seios, apresenta ideias muito próprias sobre a humanidade, tendo estudado Macroeconomia, algo que lhe interessava tanto como ficar parada a olhar para o dia de ontem. Esta jovem é Madeleine Beaulieu, uma personagem que tão depressa não vamos esquecer. A sua personalidade é forte, a naturalidade com que a actriz expõe as suas falas é sublime, seja quando está a falar sobre animais de estimação e salienta que os gatos comem os donos três dias depois destes morrerem, seja quando está no meio de um estágio militar e não tem problemas em exibir as suas opiniões, seja no meio da floresta onde se procura fazer de forte. Faz-se de forte mas também é frágil, tendo em Arnaud Labrède (Kévin Azaïs) o elemento que melhor procura e consegue entende-la. Quando não consegue, Labrède vai ao sabor do destino e segue-a, não devido a ser um stalker, mas sim por estar longe de ser um jovem com uma vida com enorme sentido, encontrando em Madeleine algo que o atrai e intriga de forma indelével. O pai faleceu recentemente, pelo que Arnaud, em conjunto com Manu (Antoine Laurent), o seu irmão, procura administrar o negócio que pertencera ao progenitor. Trabalham no negócio de produtos de decoração e de madeira, incluindo quiosques de jardins. Os acasos acontecem ao longo da vida, pelo que também podem acontecer no cinema, algo que adquire contornos caricatos quando Arnaud procura vender um quiosque de jardim aos pais de Madeleine e estes logo perguntam a opinião da filha que se revela ainda mais arisca do que o costume. Arnaud e Madeleine já se tinham conhecido na praia, quando numa demonstração de defesa e ataque efectuada por militares os dois são colocados frente a frente. Ele não quer bater em mulheres. Ela quer dar-lhe porrada. Ele vê-se aflito para a vencer, acabando por mordê-la na mão, num golpe baixo para se soltar. A animosidade é grande e ainda parece aumentar com o tempo em que Arnaud fica a construir a estrutura perto do piscina onde Madeleine costuma nadar de forma estranha. Dela não conhecemos grandes amigos. Dele sabemos que é próximo de Xavier (William Lebghil) e Victor (Thibaut Berducat), com o segundo a pretender ir trabalhar para o Canadá após as férias do Verão, tendo em vista a alcançar um futuro mais estável, algo que não parece conseguir em França. Existe sempre um comentário de cariz social ao longo do filme, capaz de realçar a crise económica que afecta a França (um caso que certamente irá ressoar com alguns sectores do público português), uma situação notória no facto do desemprego ser elevado, na falta de perspectivas para os jovens e no comentário de que o maior empregador da França ser o exército, sendo apenas seguido do McDonalds...

Madeleine quer ir para o exército e prepara-se de forma dura para isso. Arnaud não aparenta estar muito interessado nesta possibilidade profissional mas parece claramente intrigado com a figura de Madeleine. Esta não é uma Margot Robbie ou uma Marion Cottillard, mas sim uma jovem aparentemente comum, de forte personalidade, que nos conquista e ao protagonista exactamente pelo conjunto de características incomuns que nos apresenta. A relação entre os dois é desenvolvida nos tempos certos, de forma credível e sincera, com Arnaud a gradualmente interessar-se cada vez mais por esta jovem a ponto de a convidar para jantar com a mãe e o irmão, bem como a sair com os amigos. O jantar é hilariante com esta a apresentar uma visão apocalíptica do Mundo, algo que entra em desacordo com Manu, enquanto a saída fica marcada pelo cinismo dela em relação às figuras femininas que vão dançar com roupas minúsculas para a discoteca em busca de atenção. Também ela procura atenção, ainda que de outra maneira, tal como procura definir-se como ser humano e encontrar o seu lugar no Mundo, um pouco como acontece como Arnaud, ainda que de forma distinta. Os polos opostos atraem-se, "Les Combattants" exibe isso mesmo. A relação entre Madeleine e Arnaud vai ser o foco da narrativa, com Thomas Cailley a embrenhar-se por caminhos nem sempre esperados, mesclando romance, elementos militares, história de sobrevivência e algum humor, numa obra que facilmente nos conquista, sobretudo devido ao fascínio que a dupla de protagonistas nos desperta. O argumento, escrito por Thomas Cailley e Claude Le Pape, consegue desenvolver as personalidades destes jovens, conceder-lhes algum mistério de forma a que descubramos mais sobre os mesmos ao longo do enredo, ao mesmo tempo que permite desenvolver a relação entre estes dois de forma natural. Se Adèle Haenel interpreta uma "fera" que nos apaixona pelas suas peculiaridades, já Kévin Azaïs dá vida a um elemento bem mais sóbrio e menos seguro em relação ao futuro. Em princípio deverá ficar a trabalhar no negócio que pertencera ao seu pai, mas isso não implica que esta solução o deixe completamente satisfeito, embora também não fique propriamente chateado. Apenas não o parece motivar e estimular. A entrada de Madeleine em cena deixa a vida de Arnaud em erupção, parecendo o estímulo que lhe faltava para mudar. Temos aqui dois jovens, de personalidades em formação, embora com ideias próprias, sobretudo Madeleine, e aos poucos deixamos de imaginar como será possível o quotidiano de um sem o outro. Arnaud decide alistar-se no estágio com os militares para ficar mais tempo com Madeleine e testar uma nova possibilidade profissional. Aos poucos a relação desenvolve-se de forma estranha, muito marcada por alguma ingenuidade, um pouco à imagem destes dois jovens, com Thomas Cailley a dotar os pequenos momentos de um tom especial. Veja-se quando Arnaud pinta a cara de Madeleine com tinta de camuflagem no estágio do exército. Parece um momento completamente anódino. No entanto, rapidamente ganha uma certa sensualidade, representando um momento de intimidade entre estes dois personagens. Curiosamente, o estágio com os elementos do exército parece mais difícil para Madeleine do que para Arnaud. Aos poucos percebemos que provavelmente esta gosta ainda menos daquilo do que o próprio protagonista, enquanto os assistimos, em actividades de grupo e exercícios físicos, até um acto pouco simpático de Madeleine conduzir o protagonista a desistir de toda esta actividade. 

O que assistiremos posteriormente é a um romance envolvente, no meio de um espaço selvagem, mesclado com elementos de sobrevivência em meios adversos, com a cinematografia de David Cailley a conseguir captar com destreza o território e a forma como os protagonistas se envolvem pelo mesmo e vivem uma experiência única. É o nascer do amor e da cumplicidade que "Les Combattants" nos apresenta, mas também a luta para sobreviver numa sociedade que será bem mais selvagem para os dois do que os momentos que vão viver na floresta. Diga-se que estes momentos na floresta parecem funcionar exactamente como uma metáfora para a vida destes dois elementos no futuro, quer fiquem juntos durante mais tempo, quer um dia se separem, tendo de lidar com um conjunto de adversidades, um pouco como lhes irá acontecer no quotidiano fora daquele local, ao mesmo tempo que este local é aproveitado de forma exímia ao longo deste período do enredo. A cinematografia, tal como a banda sonora, é essencial para um filme que pode não "inventar a roda" mas tem o condão de nos fazer acreditar nos seus personagens, de fazer com que os seus sentimentos pareçam credíveis e com que estes facilmente nos conquistem. Percebemos as razões para Arnaud se sentir intrigado por Madeleine, tal como Thomas Cailley torna credível o interesse desta no jovem. Ela é arisca, abrutalhada, mas sem grande experiência de vida. A pouca experiência é comum aos dois, embora Arnaud pareça ter muito menos problemas em expor os seus sentimentos. São dois jovens "combatentes" que lutam pelos seus ideais numa França que é descrita como um território em crise, embora jovens como Arnaud e Madeleine nos digam que existe esperança no futuro. Nem que seja esperança no facto do cinema ser capaz de nos trazer personagens tão fascinantes como esta dupla, numa obra cinematográfica marcada por uma interpretação imaculada de Adèle Haenel, uma realização segura de Thomas Cailley e um argumento capaz de não se reduzir aos meros lugares-comuns e desafiar as nossas expectativas em diversos momentos. O último terço é exemplo disso, mas também a própria capacidade destes dois jovens protagonistas em surpreender-nos. No final ficam os sentimentos expressos ao longo da obra, os sorrisos esboçados pela forma como Madeleine expõe as suas ideias sem pudores mesmo quando choca todos à sua volta, a curiosidade e envolvimento de Arnaud com esta jovem, a cinematografia de David Cailley mas acima de tudo a certeza de que Thomas Cailley é um nome para seguir com enorme atenção e de que Adèle Haenel criou uma personagem que dificilmente sai da memória. Pelo menos da minha memória.

Título original: "Les Combattants". 
Título em Portugal: "Os Combatentes".
Realizador: Thomas Cailley.
Argumento: Thomas Cailley e Claude Le Pape.
Elenco: Adèle Haenel, Kévin Azaïs, Antoine Laurent, Brigitte Roüan.

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