27 março 2015

Resenha Crítica: "Inherent Vice" ("Vício Intrínseco")


     Estamos no início da década de 70, num bairro de aspeto marginal com ruas estreitas e casas pobres de madeira, situadas à beira do Oceano Pacífico, na cidade de Los Angeles. A metrópole não se assemelha à dos dias de hoje mas calculamos que para lá caminha, com os seus vastos descampados transformados em locais de construção que, mais tarde, resultarão em prédios feios e altos de betão, ocasionalmente sobrepostos a pequenas comunidades cujo destino provavelmente nem chegaremos a saber; uma metrópole composta por uma chusma de chanfrados desprovida de valores morais, refugiada no vício e acorrentada à depravação, avivada por gangues de motoqueiros nazis ou de negros nacionalistas, um departamento policial violento e um detetive com sérios problemas para controlar a sua raiva. No meio deste estranho bando de personagens, no tal bairro à beira do oceano, reside um hippie simpático com patilhas fartas e cabelo despenteado (Joaquin Phoenix), que quando não se encontra a fumar charros está a exercer, profissionalmente, as funções de detetive privado.

     “Inherent Vice” começa precisamente com “Doc” Sportello, (assim é o seu nome), a receber em sua casa uma jovem bela (Katherine Waterston) e de aspeto inocente, vestida com classe e deslocada desta espelunca, que descobrimos ser uma ex-namorada que o protagonista já não via há um ano. Confidencia-lhe ela, preocupada, ligeiramente paranoica até, que agora é a amante de Micky Wolfmann (Eric Roberts), o conhecido magnata do ramo do imobiliário, o qual está em vias de ser internado num manicómio pela sua conspirativa esposa. A própria interlocutora foi convidada a participar no internamento mas, resolutamente, rejeitou a oferta, requisitando o auxílio de Doc para travar a maquinação. Sportello acede ao pedido mas, com pena sua, a conversa não avança muito mais, e a jovem abandona velozmente a sua casa encaminhando-se para o fundo da rua, enquanto escrutina à esquerda e à direita por desconfiar que está a ser perseguida. Instalar-se-á posteriormente no conforto do seu descapotável, agradecendo ao protagonista e arrancando estrada fora, deixando o ex-namorado a observá-la a afastar-se, pela segunda vez, com um olhar triste e demorado.
     Os acontecimentos que se seguem não nos são particularmente claros, tal a forma convulsa com que se vão sucedendo, mas seja como for aplicar-me-ei no seu resumo. Recomecemos no dia seguinte num consultório que Doc, sabe-se lá porquê, possui numa clínica dentária. Um novo caso ser-lhe-á apresentado: um membro da Black Guerrilla Family - uma organização afro-americana marxista revolucionária que, realmente, existiu mesmo nesta época - solicita ao detetive para cobrar o dinheiro que, outrora, um membro da Irmandade Ariana lhe ficou a dever na prisão. Intrigado pela singularidade da aliança, o doutor ainda lhe questiona: «And you say you did business with who, now? The Aryan Brotherhood?»; ao que o revolucionário responde, defensivamente: «Listen, we shared some of the similar opinions about the U.S. Government, that’s all.» Mais importante do que esta simples curiosidade, porém, é o facto de o auto proclamado ariano ser, por coincidência, um dos guarda-costas do citado Micky Wolfmann.
     Doc encaminha-se portanto para um local de construção, propriedade do referido magnata, onde supostamente encontraria o tal nazi, mas, para sua surpresa, depara-se unicamente com um estabelecimento de massagens implantado num espaço completamente desértico. Dirigindo-se à receção é atendido por uma atraente funcionária asiática (Hong Chau) que, infelizmente, descreditará o seu pedido por um «pussy eaters special», serviço destinado unicamente aos membros da polícia. Desencantado com a situação, decide ao invés explorar os cantos do pequeno edifício. Ao virar uma esquina, no entanto, apanha uma bastonada na cabeça, tombando inconsciente e redondo para o meio do chão. Acorda com o sol a bater-lhe na cara, encostado a um cadáver ensanguentado de um tipo com uma suástica na face, e rodeado por dezenas de revólveres e de carros da polícia chefiados por uma das personagens mais curiosas da trama, o detetive "Bigfoot" Bjornsen (Josh Brolin), que com o seu ar de sacana saúda-o alegremente com um: «Congratulations, hippie scum!»
     O relacionamento entre Doc e Bigfoot é extremamente bizarro mas, por mais que pareça alicerçar-se no ódio, desconfiamos que há por ali uma espécie de amizade proveniente doutros tempos. Bigfoot é um fulano estranhíssimo, mais ainda que o protagonista, carregando perpetuamente um olhar duro e pouco amigável que se complementa com uma raiva explosiva e latente, originária de um sentimento enraizado de tristeza. Vemo-lo numa ocasião a desferir pontapés no protagonista só porque lhe apetece, noutra a entrar em sua casa e comer-lhe a erva toda, completamente possuído, e noutra ainda a ajudá-lo numa investigação para depois deixar-lhe vinte quilos de heroína no porta-bagagens do carro. Voltando ao ponto da narrativa em que ficámos, ou seja logo depois de ter apelidado alegremente o protagonista de «hippie scum», Bigfoot encaminha-o para um escritório onde, após proferir uns quantos comentários maliciosos, e antes de o libertar, revela-lhe passageiramente o súbito desaparecimento de Micky Wolfmann da face da terra.
     Nessa mesma noite Sportello recebe dois telefonemas de importantes consequências: o primeiro proveniente de Bigfoot, que por cortesia e também por gozo informa-o de que a sua ex-namorada também desapareceu, e o segundo por parte de uma mulher que requere os seus serviços, pedindo-lhe para ir a casa dela no dia seguinte. Esta inesperada cliente embrenhará o protagonista no seu terceiro caso, ao rogar-lhe que tente descobrir o paradeiro do seu marido, um saxofonista de ar simpático e com um nariz grande (Owen Wilson) que as autoridades consideraram ter recentemente falecido. Escusado será dizer que eventualmente, com o auxílio da asiática da casa de massagens, o detetive descobrirá o paradeiro do saxofonista que, como se suspeitava, se encontra vivo mas a temer pela sua morte.
     Mais curioso ainda será o facto de que, sabe-se lá como, e nem me peçam para explicá-lo porque seria preciso quem escrevesse melhor que eu para o fazer, os três casos investigados por Sportello estão todos interrelacionados e desembocam invariavelmente numa misteriosa organização asiática apelidada de The Golden Fang. Pelo meio deste percurso atribulado, outros fenómenos insólitos desenrolar-se-ão à frente dos nossos olhos, como é o caso da aparição de um prédio moderno e luxuoso com uma turba de dentistas e respetivos clientes viciados em sexo ou em heroína, ou a entrada em cena de um casarão decrépito de dois andares cheio de jovens revolucionários, tanto hippies como nazis, que às tantas se sentam à mesa de jantar para comer pizza como se estivessem a encenar a última ceia. Isto para não falar nalguns episódios protagonizados pelo próprio Sportello, sendo um deles o momento em que a ex-namorada reaparece de repente em sua casa e, antes de uma cena muito breve de sexo, começa a esfregar repetidamente os seus pés descalços na perna do detetive. Esta última cena, aliás, reflete não apenas a proximidade desta atmosfera à de uma alucinação, ou de um sonho, mas também a atenção dada por Paul Thomas Anderson a estes invulgares pormenores, ora focando os pés e as sandálias do protagonista, ora mostrando-o a tratar da sua cabeleira.
     Nunca é de mais salientar este aspeto: desconstruir o sentido da narrativa de “Inherent Vice” não é tarefa fácil de executar. Sucede que enquanto estamos a tentar compreender os contornos de um caso, eis que nos aparece um outro à nossa frente. E se porventura pensamos que a sua resolução é complicada, ei-la tão simples volvidos cinco minutos. E solucionado o caso, o que acontece? Paul Thomas Anderson mostra-nos outro ainda mais irresolúvel. Há reviravoltas em excesso e consequências insólitas, e a maior parte do tempo nem sequer sabemos ao certo o que se está a passar nem como chegamos a este ponto, nem sequer quem são aquelas novas personagens que, de repente, apareceram no ecrã, como quem não quer a coisa. Este aspeto, no entanto, deve ter sido propositado. A ideia de Paul Thomas Anderson terá mesmo passado por conceder um ritmo frenético e imprevisível ao enredo, tão alucinado como o seu estranho protagonista, que, como nós, parece meio perdido nesta sucessão de acontecimentos.
     Para complementar a estranheza da narrativa o realizador envolveu-a numa atmosfera singular que, com algumas influências dos filmes noir dos anos 40, ilustra com um olhar curioso a década de 70 dos Estados Unidos, representando o seu contexto social através das aparições de membros de organizações nacionalistas, hippies, africanas ou nazis, desencantadas com o rumo da política norte-americana, chegando mostrar-nos a figura da personagem de Owen Wilson a gritar revoltado contra o presidente Richard Nixon no que parece ser um comício. Para este ambiente contribuiu também, por exemplo, uma banda sonora cronologicamente posterior e, todavia, adequada a esta atmosfera, e até a introdução de termos linguísticos do calão popularizado neste período, evidente em vários diálogos ao longo do filme e, mesmo, em situações inesperadas, como num anúncio televisivo a uma empresa de Micky Wolfmann, relatado por um tipo de óculos escuros e uma afro imponente, que ao referir-se a equipamentos de cozinha e a empréstimos com juros consegue fazer uso de expressões como «out of sight», «groovy» e «buzz-kill». Este vocabulário também é aproveitado na narração em voz off que vai surgindo de vez em quando na história, proferida num tom estiloso e inteligente, uma semelhança com os filmes noir dos anos 40, levada a cabo por uma amiga do protagonista (interpretada por Joanna Newsom) que, apesar de ter pouco relevo no que quer que seja, parece conhecer bem os seus estados de espírito. Estarão porventura a pensar, e eu próprio não consegui evitar fazê-lo, que escolher uma figura irrelevante como narradora do filme não parece fazer muito sentido, mas relembremo-nos da tendência de Paul Thomas Anderson, em “Inherent Vice”, de privilegiar o que dá mais estilo em detrimento do que seria mais lógico.
     A excentricidade das personagens também se adequa à estranheza desta atmosfera, a começar pela do seu protagonista viciado em erva, um hippie discreto mas muito expressivo, que partilha algumas semelhanças com os detetives dos filmes noir como sucede na sua relação complicada com a lei e com as personagens do sexo feminino, e ainda num constante apego ao seu maço de cigarros. O carisma e o talento de Joaquin Phoenix, bem como o jeito meio tosco e a boa natureza do seu Doc Sportello, fazem com que seja fácil simpatizarmos com esta simpática personagem, que apesar de não ter a perfeita noção daquilo em que se está a meter não deixa de encarar as situações mais insólitas com estranheza, é certo, mas também com aparente despreocupação. A turba de chanfrados estende-se ainda a outras figuras disfuncionais interpretadas por atores talentosos, constantemente focados em close ups, como os já mencionados Josh Brolin e Owen Wilson, sem esquecer um dentista imparável, depravado e viciado em heroína interpretado por Martin Short.
     Após o visionamento de “Inherent Vice” não é difícil de perceber em que consistiram, à partida, as ambições de Paul Thomas Anderson. Já compreendemos, através de entrevistas, que é um apreciador dos romances de Thomas Pynchon, e que a escrita dele fá-lo sentir como se «estivesse pedrado» ou «a flutuar». Andando há alguns anos a planear a adaptação dos seus livros, decidiu-se finalmente pelo que dá o nome ao filme. A sua preocupação, ao contrário dos seus filmes anteriores, não passou por elaborar um retrato profundo de uma personagem meio perturbada, mas sim por adaptar ao ecrã um livro psicadélico com influências noir – que por acaso também tem personagens perturbadas. Assim se explicam algumas semelhanças com os filmes dos anos quarenta, como a convulsão do seu argumento, demasiado dependente de reviravoltas e de estranhas coincidências, salpicado de innuendos de cariz sexual, tal como se compreende a sua preocupação em criar uma atmosfera invulgar e contagiante, povoada por um bando de loucos viciados em droga. E o que diriam esses chanfrados após visionarem “Inherent Vice”? Se por um lado imaginamos Bigfoot Bjernsen a pontapear violentamente o projetor do filme, enraivecido por ele não estar tão bom como os anteriores de Paul Thomas Anderson, também é verdade que por outro percecionamos Doc Sportello a franzir inicialmente o sobrolho para, depois, elogiar o seu sentido de humor, a sua atmosfera inebriante e o seu carismático e heroico protagonista.

Ficha Técnica:

Título original: "Inherent Vice"
Título em Portugal: "Vício Intrínseco"
Título no Brasil: "Vício Inerente"
Realização: Paul Thomas Anderson
Argumento: Paul Thomas Anderson
Elenco: Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Owen Wilson, Joanna Newsom, Katherine Waterston, Hong Chau, entre outros.

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