26 março 2015

Resenha Crítica: "Hungry Hearts" (Corações Inquietos)

 Os momentos iniciais de "Hungry Hearts", um filme realizado por Saverio Costanzo, não faziam prever os tensos e inquietantes acontecimentos que se seguiriam com o desenrolar do enredo. É um plano a rondar os cerca de oito minutos, sem cortes, no qual assistimos a Jude (Adam Driver) e Mina (Alba Rohrwacher) presos no interior de uma casa de banho de um restaurante chinês. O momento é caricato, sobretudo devido ao facto do cheiro emanado pelos dejectos de Jude ainda se encontrar bem activo. Para piorar, este ainda tem de entrar uma segunda vez na sanita, com o seu estômago a desregular na hora errada. É uma situação caricata esta em que os dois se conhecem, com Saverio Costanzo a aproveitar o timing de Adam Driver para o humor e a boa dinâmica deste com Alba Rohrwacher para o episódio resultar praticamente na perfeição. O argumento é inteligente e sagaz o suficiente para transformar este momento aparentemente banal num estranho iniciar de uma relação, ao mesmo tempo que desperta alguns risos, naquele que é um dos poucos momentos de leveza de "Hungry Hearts". Jude é um engenheiro. Mina é uma italiana que trabalha nos EUA numa embaixada. Ambos vivem em Nova Iorque, com esta cidade a não ter sido escolhida ao acaso por Saverio Costanzo. Nova Iorque tanto é exposta como um espaço cheio de vida, como logo de seguida é exibida como adensadora da alienação daqueles que habitam o local, que o digam a dupla de protagonistas, dois elementos aparentemente solitários. Pouco tempo depois encontramos Jude e Mina num momento de maior intimidade, a fazerem sexo, algo que resulta em consequências inesperadas para ambos, com a segunda a ficar grávida. Os planos de Mina, tendo em vista a regressar a Itália, saem gorados, com esta a decidir ficar, acabando por casar com Jude. O casamento é marcado por uma atmosfera festiva, onde não falta a presença da música "Flashdance...What a Feeling", uma canção presente no filme "Flashdance", escrita por Giorgio Moroder, Keith Forsey e Iren Cara, interpretada por esta última, para além de um momento em que o personagem interpretado por Adam Driver canta em italiano em honra e homenagem à esposa. A banda sonora acompanha os ritmos da narrativa. Inicialmente surge mais leve, viva e efusiva, algo notório com "What a Feeling", posteriormente os ritmos ficam mais brandos até surgirem tensos e inquietantes. Diga-se que a banda sonora por vezes é alternada por momentos de silêncio cortante, com Saverio Costanzo a ter a percepção de como utilizar a banda sonora e os silêncios ao serviço da criação de uma atmosfera gradualmente opressora, onde os nervos parecem andar à flor da pele. O casamento parece ser um dos últimos momentos de felicidade entre o casal. Mina começa a entrar em pânico em relação à gravidez e ao bebé que carrega no ventre, sobretudo a partir do momento em que uma vidente lhe diz que o rapaz é uma "criança índigo" ou seja predestinada. Aliado ao receio em ser mãe, o pânico de Mina é crescente, com esta a pretender deixar de fazer ecografias, a não querer frequentar médicos, tal como não pretende ser operada no parto. No entanto, a gravidez prematura conduz a que seja operada, com o bebé a ser colocado numa incubadora. Esta logo procura quebrar as regras dos médicos e tocar na criança. Parece claramente instável do ponto de vista emocional, mas o pior ainda está para vir. Não quer que o filho se alimente de nada a não ser o que planta no terraço, não o deixa sair para fora de casa para não perder a sua pureza, com as suas ideias a conduzirem a que o jovem não ganhe peso nem cresça. Mesmo quem vem de fora tem de lavar as mãos, tirar os sapatos à entrada, deixar o telemóvel bem longe da criança, com as paranoias de Mina a adensarem de dia para dia. Jude começa a ficar preocupado com o filho, levando-o a um médico que aconselha a que o jovem, já com sete meses, seja acompanhado por um pediatra e coma alimentação dos boiões para crianças que contêm carne e os nutrientes necessários tendo em vista ao petiz ter um crescimento saudável.

Mina fica possessa e irritada com a decisão do esposo. Ela é vegan, ou melhor, tornou-se, procurando que o filho também seja, uma situação que não se adequa ao crescimento adequado do mesmo, sobretudo sem o devido acompanhamento médico. Aos poucos, os sorrisos iniciais e os momentos de maior intimidade entre o casal são trocados por olhares mais carregados, diálogos mais ríspidos e discussões violentas. Vozes levantam-se, sentimentos são expostos de forma mais virulenta, enquanto a câmara de filmar parece movimentar-se ao sabor dos estados de espírito e transmitir-nos essa inquietação a ponto de quase partilharmos os sentimentos com os protagonistas. Gera-se uma disputa de poder pela educação e saúde do rebento que promete aos poucos atomizar a frágil relação destes dois elementos, com o espaço da casa de ambos a tornar-se num local opressor onde os sentimentos mais negros parecem intensificar-se como labaredas de um fogo que teima em alastrar-se de forma incessante. É notório que ambos procuram proteger o filho, mas as crescentes perturbações do foro mental por parte de Mina parecem cegá-la em relação aos efeitos secundários que a sua procura incessante em deixar o rebento "puro" estão a deixar no mesmo. Mina está a enfrentar uma profunda depressão pós-parto e a lidar com a maternidade de forma negativa, algo que prejudica a sua mente e o seu casamento. A paranoia de Mina é crescente, com esta a deixar de trabalhar e a trancar-se no apartamento onde vive com Jude e o filho, com o espaço da habitação a gradualmente tornar-se opressivo. Gradualmente parece que estamos a entrar nas obras cinematográficas da "trilogia do apartamento" de Roman Polanski ("Repulsion", "Rosemary's Baby", "The Tenant"), onde o cineasta utilizava o espaço interior da habitação de forma exímia, enquanto os protagonistas lidavam com situações de paranoia e inquietação, quase a roçar a loucura, algo visível por exemplo em "The Tenant", onde o protagonista ficou obcecado com a história do suicídio da antiga moradora do prédio. No entanto, "Hungry Hearts" parece ter bebido mais de "Rosemary's Baby", onde tínhamos um casal aparentemente afável, com a maternidade a afectar de forma latente a protagonista, com esta a desconfiar (e bem) dos produtos elaborados pelos vizinhos e do obstetra que lhe recomendaram. No caso, de "Hungry Hearts" não temos uma arreigada vertente sobrenatural (o máximo que encontramos é a referência da vidente ao "bebé índigo"), mas sim um pânico crescente, bem como um deteriorar físico e mental da protagonista, com o espaço da habitação a parecer muitas das vezes contribuir para o mesmo. A casa torna-se sufocante, com Mina a não pretender sair da mesma, enquanto Jude pretende levar o bebé para sair. Gera-se um desconforto entre ambos que resulta em discussões violentas, com ambos a apresentarem um desgaste latente, exposto nos rostos dos personagens. Adam Driver puxa dos galões e exibe que os elogios que tem vindo a receber e o prémio de Melhor Actor na edição de 2014 do Festival de Veneza são mais do que merecidos. Este tanto nos contagia com o seu humor e estilo meio à vontade e aparentemente despreocupado, como é capaz de exibir com a mesma facilidade o desespero e pânico do personagem que interpreta, bem como o receio em relação aos actos da esposa. Quer tentar defender o casamento mas aos poucos percebe que a vida do filho está em perigo se seguir os conselhos de Mina, procurando apoio em Anne (Roberta Maxwell), a sua mãe. "Hungry Hearts" também é um filme sobre a maternidade. Mina procura proteger o filho de uma maneira estranha, enquanto Anne passa a certa altura a ser o grande baluarte de Jude. Anne e Jude não pareciam muito próximos, mas aos poucos esta revela o seu espírito maternal, encontrando-se disposta a tudo para defender o personagem interpretado por Adam Driver e o neto.

A tensão entre Anne e Mina é latente, mas também entre a segunda e o esposo. Este tem de alimentar o filho às escondidas, enquanto Mina decide continuar a dar-lhe produtos como um óleo que prejudica a saúde do rebento. Está (aparentemente) a matar o filho e não dá por isso, ou talvez seja o seu inconsciente a falar, e a depressão associada à gravidez e maternidade esteja a contribuir para estes actos. A mente de Mina parece ser um turbilhão de sentimentos, desejos, escolhas, com Alba Rohrwacher a conseguir transmitir-nos isso mesmo. O seu rosto é uma fonte de sentimentos prontos a serem transmitidos, atribuindo uma intensidade notável à personagem que interpreta. Inicialmente, Mina desperta a nossa simpatia. Posteriormente faz-nos temer o pior, irrita-nos, gera alguma comoção, com a actriz a conseguir criar uma personagem que, para o melhor e o pior, não nos deixa indiferentes. Chegamos a temer o que Mina pode fazer à criança, mas também aquilo que pode acontecer a esta mulher. Parece chegar a situações extremas de loucura e obsessão, embora também tenha momentos onde nos deixa com sinais claros de que ama o filho, com "Hungry Hearts" a parecer muitas das vezes procurar confundir-nos em relação aos sentimentos dos protagonistas. Adam Driver e Alba Rohrwacher vivem episódios intensos a interpretarem estes dois personagens, enquanto Saverio Costanzo revela-se exímio a criar uma atmosfera de crescente tensão entre Jude e Mina que vai resultar em momentos nem sempre agradáveis de se ver, com a unidade familiar a devastar-se. Por vezes desgasta-nos com as atitudes de Mina, por vezes parece que no último terço existe um esticar da corda por parte do realizador em termos de redundâncias e algumas incoerências na narrativa, com o final a parecer muitas das vezes uma forma preguiçosa de terminar a situação. Tem impacto e gera perturbação mas, tendo em conta a atmosfera opressora criada entre o casal, esperava-se que a resolução da contenda ficasse entre os dois. A própria cinematografia contribui para o adensar da inquietação em volta dos personagens. A câmara movimenta-se ao sabor dos sentimentos, os close-ups são utilizados de forma exímia para expor os estados de espírito dos protagonistas, enquanto assistimos a uma utilização de ângulos inusitados que contribuem praticamente para um distorcer da imagem, expondo a desorientação em volta dos acontecimentos. Os eventos principais de "Hungry Hearts" ocorrem praticamente na casa do casal, com estes a não contarem com amigos, nem pessoas muito próximas, num enredo onde ficamos perante o crescente desequilibro de Mina, com o espaço da habitação a surgir como o opressor palco primordial da narrativa, com Saverio Costanzo a mais uma vez parecer ir beber inspiração a Roman Polanski. Não controla os ritmos da narrativa de forma tão exímia como Polanski, nem o registo do filme, algo notório no último terço, mas nota-se em quase todos os poros de "Hungry Hearts" que existe ali muito do magnífico cineasta polaco, algo já exposto ao longo do texto, embora Saverio Costanzo raramente se atenha exclusivamente a estas referências criando algo próprio. O argumento do filme foi baseado no livro de Marco Franzoso, apresentando qualidades que são exacerbadas pela realização de Saverio Costanzo e pelas interpretações de Alba Rohrwacher e Adam Driver. Facilmente ficamos inquietos em relação aos episódios do enredo, enquanto assistimos ao desabar de uma relação iniciada de forma caricata, numa obra cinematográfica tensa e envolvente, capaz de abordar temáticas relacionadas com o casamento, a paternidade e maternidade, ao mesmo tempo que permite à sua dupla de protagonistas sobressair. O último terço de "Hungry Hearts" não está à altura daquilo que nos foi oferecido ao longo de boa parte do filme, mas nem por isso deixamos de estar diante de uma obra cinematográfica capaz de nos desgastar, inquietar e surpreender, embora fique sempre a ideia que Saverio Costanzo não soube desatar o nó da intensa teia narrativa que criou.

Título original: "Hungry Hearts".
Título em Portugal: "Corações Inquietos". 
Realizador: Saverio Costanzo.
Argumento: Saverio Costanzo.
Elenco: Adam Driver, Alba Rohrwacher, Roberta Maxwell.

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