23 março 2015

Resenha Crítica: "High and Low" (Tengoku to jigoku)

 A carreira de Akira Kurosawa é assaz interessante de observar, com o cineasta a envolver-se pelos diferentes géneros com um sucesso notório. Desde filmes épicos de samurais como "Seven Samurai", "Ran" e até os populares "Yojimbo" e "Sanjuro", passando pelos dramas do pós-guerra como "No Regrets for Our Youth", "Scandal", "One Wonderful Sunday", para além de filmes que envolvem elementos da yakuza como "Drunken Angel", já para não falar da adaptação de obras literárias ocidentais como "Throne of Blood" ("MacBeth"), o já citado "Ran" ("King Lear"), "The Idiot" (inspirado na obra homónima de Fyodor Dostoyevsky), entre outros exemplos, Akira Kurosawa mostrou uma capacidade única em elevar as obras cinematográficas, criar momentos marcantes para os cinéfilos, apresentando um rigor e uma paixão pelo material que desenvolveu que é transmitido facilmente para o espectador. No caso de "High and Low" assistimos a um filme noir mesclado com elementos de thriller e filme de investigação policial, ao mesmo tempo que são integradas temáticas sobre o lado negro do capitalismo e das grandes corporações, as assimetrias sociais, dilemas morais, num filme inquietante, intenso, executado com precisão e a noção dos ritmos por parte de Akira Kurosawa. Nos momentos iniciais de "High and Low" parece que estamos diante de um drama inserido no interior de uma empresa de calçado, com Kingo Gondo (Toshiro Mifune) a não procurar baixar os níveis de qualidade da National Shoes, mesmo que isso implique lucros mais baixos, algo que vai contra os ideais dos seus colegas. Começa desde logo a ser exposta uma crítica contra a procura destes empresários em estimularem o consumo através de produtos que se deterioram com facilidade, num exemplo particular que certamente servirá para expor uma realidade mais lata. Fica presente uma crítica ao capitalismo, algo exemplificado nas disputas de poder no interior da National Shoes, mas também nas motivações do raptor (mas já lá vamos a este ponto da narrativa). Tendo em vista a obter o controlo da empresa na qual trabalha há mais de vinte anos, Gondo decide hipotecar todos os seus bens de forma a conseguir um valor que lhe permita adquirir acções a um ponto de ser o accionista maioritário, algo que é colocado em causa quando recebe um telefonema arrasador. Um elemento anónimo liga a dizer que raptou Jun, o filho de Gondo, exigindo trinta milhões de ienes para libertar o jovem, caso contrário irá eliminar o mesmo. Gondo e a esposa entram em pânico, com este a ponderar desde logo a aceder aos desejos do raptor, incluindo não contactar a polícia. É então que surge Jun e todos percebem que o elemento raptado foi Shinichi, um amigo do primeiro e filho do motorista de Gondo. A situação muda de figura para o protagonista mas não deixa de ser grave, algo que o promete colocar num difícil dilema moral. Começa desde logo por contactar a polícia e salienta que não vai dar o dinheiro, algo que vai contra a ideia da esposa que pretende ver o marido a salvar o jovem Shinichi. O motorista entra em desespero perante o rapto do filho, enquanto Gondo fica numa situação complicada. Se aceder a pagar o resgate pode perder o dinheiro e os seus bens, bem como uma posição privilegiada na empresa. Se não aceder irá provavelmente condenar um jovem da idade do seu filho à morte, ainda que não tenha directamente culpa no caso.

Gondo é um dos vários personagens/protagonistas das obras de Akira Kurosawa que tem de lidar com um intrincado dilema moral, com o cineasta a conseguir muitas das vezes que nos coloquemos na posição deste empresário. O que fazer numa situação destas? Toshiro Mifune é sublime a expor a inquietação do personagem que interpreta, um empresário idealista mas frio em certas situações do foro profissional, que fica diante de um dilema moral de difícil resolução. O que faríamos nós perante esta situação? É uma questão que nos colocamos durante estes momentos intensos onde Gondo tem de decidir o futuro de um jovem e o seu próprio destino. Qualquer que seja a decisão tomada, esta irá afectar sempre a vida pessoal. Não dar o dinheiro irá envolver carregar a culpa por uma morte e a destruição da sua imagem na praça pública. Dar o dinheiro implica salvar um jovem mas arrasar com tudo aquilo que construiu para a sua vida. Podemos dividir a narrativa de "High and Low" em três partes. A primeira na qual assistimos a este dilema moral do protagonista, na maioria a desenrolar-se na habitação de Gondo, onde este aguarda ansiosamente pelos telefonemas do raptor. A segunda onde encontramos as autoridades em busca do criminoso, com o filme a apresentar uma vertente de policial ou de investigação policial. A terceira parte encontra-se relacionada com a descoberta do raptor e dos actos criminosos que este cometeu para encobrir o seu acto, para além de nos ser exposta a sua personalidade. Nestas duas últimas partes deixamos de estar no espaço superior da casa do protagonista, símbolo de prosperidade, com o enredo a passar a desenrolar-se no lado "baixo" da cidade. O filme foi lançado originalmente em 1963 mas, para não estragarmos algumas das reviravoltas e surpresas a quem não o viu, iremos procurar ao máximo restringir a informação sobre a terceira parte de "High and Low". Na primeira parte, assistimos ainda à chegada de elementos da polícia a casa de Gondo, incluindo 'Bos'n' Taguchi (Kenjiro Ishiyama), Tokura (Tatsuya Nakadai), entre outros elementos, para além do espaço contar temporariamente com a presença de Kawanishi (Tatsuya Mihashi), o secretário do protagonista. Os momentos são de dúvida. Gondo não sabe se irá enviar Kawanishi para entregar o cheque e assumir de vez o controlo maioritário da empresa, ou se desiste da ideia de utilizar o dinheiro que pediu emprestado para esse fim. Pelo caminho é traído por Kawainishi e percebe que o raptor consegue observá-lo do lugar onde telefona. A casa de Gondo é luxuosa e espaçosa, encontrando-se localizada num território elevado, quase que expressando a sua superioridade financeira em relação a boa parte da população local. Nestes momentos de indefinição, o espaço da casa surge como o cenário primordial, um local que ganha contornos sufocantes, onde os sentimentos são expostos de forma bem viva e o descontrolo parece por vezes tomar a alma dos seus habitantes. Akira Kurosawa conduz estes momentos com a eficiência e a classe que podemos esperar de um cineasta com uma maturidade latente, capaz de nos manter inquietos, de nos questionar de forma amiúde sobre o que faríamos nesta situação e utilizar o cenário da casa de forma exímia (o próprio posicionamento da casa do protagonista em relação ao restante território não é inocente, exibindo as assimetrias sociais entre este indivíduo de posses elevadas e os elementos que vivem na zona baixa do local). O aproveitamento dos cenários é uma das imagens de marca de Akira Kurosawa, com este a conseguir com sucesso explorar o confinamento a que se encontram sujeitos os personagens durante estes períodos de indecisão. Cada vez que o telefone toca gera-se um burburinho, a cada nova indicação dada pelo raptor nota-se uma dificuldade de Gondo em manter a frieza, com a atmosfera a ser carregada e a cinematografia e trabalho de montagem a serem essenciais para tudo funcionar junto do espectador.

A esposa e o filho do protagonista pretendem que este pague o resgate, o motorista suplica pela salvação do rebento, enquanto a polícia procura manter a calma, com Taguchi a surgir como uma figura imponente e Tokura como um elemento pragmático. Estes minutos são de indecisão e imprevisíveis. Não sabemos o que esperar do protagonista. Nem nós saberíamos o que fazer. É então que Gondo acede a pagar a verba pedida. Tem de atirar a mesma num comboio, embalando o dinheiro em duas malas que contam com produtos que permitem rastrear as mesmas através do fumo cor de rosa que emanam após serem queimadas (diga-se que esta situação vai quebrar de forma sublime os tons a preto e branco do filme, com as tonalidades rosa a invadirem a narrativa num determinado momento). Não sabe se irá recuperar o dinheiro ou se esta medida irá garantir a salvação do jovem Shinichi mas pelo menos parece trazer-lhe alguma paz consigo próprio e no seio da sua família. Os momentos no comboio também são de incerteza, com Gondo a estar acompanhado pelos elementos da polícia e a perceber que o antagonista planeou o acto de forma a conseguir fugir com a verba pedida. Será que o raptor vai entregar Shinichi com vida? Será que Gondo irá conseguir recuperar o dinheiro? Será que o criminoso vai ser detido? Não revelaremos muito mais sobre o enredo a não ser que aquilo que se segue é uma investigação policial intrincada, com o departamento da polícia a envolver-se pelas ruas da cidade tendo em vista a encontrar pistas que o conduza ao criminoso. Pouco a pouco vão descobrindo elementos sobre o raptor, com a segunda metade do enredo a perder o foco que estava em Gondo, passando a concentrar-se na busca efectuada pelos polícias ao criminoso. A investigação é demorada, apresentada de forma realista, com Takeshi Katō e Kenjiro Ishiyama a sobressaírem como dois dos polícias em busca de um criminoso que parece ter preparado tudo de forma meticulosa. No escritório da polícia, em particular no departamento de investigação, liderado pelo personagem interpretado por Takashi Shimura (um colaborador habitual de Kurosawa), encontramos os agentes da autoridade a cruzarem informações que foram reunindo, com a atmosfera que os rodeia a ser quente, não só a nível de sentimentos mas também de temperatura com estes a recorrerem constantemente a leques para evitarem o calor (a fazer recordar o calor de "Stray Dog"). Seguem-se momentos inquietantes, onde o destino de Gondo também está em jogo devido a ter perdido a verba que hipotecara e a perder o lugar que tinha na empresa onde trabalhava, com Akira Kurosawa a não limitar a sua narrativa à premissa inicial, apresentando-nos a uma obra com um argumento sublime e uma realização capaz de transmitir a urgência da resolução de todo este intrincado caso. A terceira parte da narrativa centra-se na procura meticulosa da polícia em deter o criminoso e juntar provas para incriminar este indivíduo. Deixamos de estar na casa que fica no alto da cidade, quase a observar calmamente a populaça, com Chuck Stephens a descrever na perfeição um pouco do que encontramos quando os polícias partem para as ruas: "Behold, at last, the Low: a sordid sin-market filled with mixed-race couples and manic frugging, squabbling sailors and cat-eyed slatterns, ravaged junk-zombies and undercover cops from Hell. Here, talk is useless and chaos holds supreme, and in all of Kurosawa’s filmmaking, there is nothing else quite so chaotic and obscene". Diga-se que não falta a exposição da presença de toxicodependentes no território, as gentes menos cultas e remediadas, com a investigação a ocorrer num plano distinto dos momentos iniciais de "High and Low" (parece mais estarmos diante de uma obra de Seijun Suzuki como "Gate of Flesh", onde este não tem problemas em representar os elementos de escalões sociais mais baixos e alguma "podridão", do que de Kurosawa). Ficamos assim em contraste com a primeira parte do filme, onde boa parte se desenrola no interior de uma habitação que se encontra a ser observada do exterior pelo antagonista. Posteriormente, a esquadra e as ruas da cidade surgem como cenários primordiais, numa obra cinematográfica inspirada livremente no livro "King's Ransom: An 87th Precinct Mystery", escrito por Ed McBain, com Akira Kurosawa a apresentar uma atmosfera noir onde o pessimismo rodeia parte do enredo e alguns personagens são moralmente questionáveis.

O próprio protagonista prepara-se para tomar conta da empresa à revelia dos restantes accionistas, um trio traiçoeiro, procurando fazer valer o seu ponto de vista. Este é um indivíduo dado a valores já considerados algo antiquados, mesclando no seu interior as várias contradições de um Japão entre a tradição e a modernidade. Por um lado pretende conservar a qualidade dos sapatos da empresa onde trabalha, por outro age como um empresário feroz e calculista que utiliza o facto da National Shoes estar cotada em bolsa para procurar tomar conta da mesma. Já os restantes elementos da empresa, com excepção do dono, procuram efectuar sapatos baratos e modernos, prontos a estragarem-se com facilidade e serem consumidos em maior número. É uma visão do mundo empresarial nem sempre simpática esta que Akira Kurosawa demonstra (diga-se que o mundo empresarial também está longe de ser representado de forma simpática pelo realizador em "The Bad Sleep Well"), com o cineasta a deixar uma crítica implícita a alguns novos valores capitalistas que envolvem a sociedade japonesa. Um rapto conduz a que o quotidiano de Gondo mude, com "High and Low" a deixar-nos diante de uma obra que mescla elementos de suspense, investigação policial, vinganças, traições, dramas familiares, ao mesmo tempo que deambula por entre os géneros e os diferentes registos com uma facilidade impressionante. Tanto sobressai quando a narrativa se encontra confinada a uma casa que facilmente se parece transformar numa prisão, como se destaca a filmar os polícias a procurarem seguir o criminoso nas ruas, num filme marcado por um enredo tenso e inquietante. A investigação policial é apresentada de forma credível, a tensão na casa de Gondo na primeira parte é sentida, a busca pelo criminoso é sempre interessante de acompanhar, numa obra cinematográfica onde Akira Kurosawa demonstra a sua enorme habilidade para realizar obras cinematográficas acima da média mesmo dentro de géneros distintos. Akira Kurosawa volta a trabalhar com Toshiro Mifune, bem como Tatsuya Nakadai, dois colaboradores habituais, com o elenco a exibir enorme competência, incluindo Tsutomu Yamazaki como o perigoso criminoso. A presença de Yamakazi também é essencial para "High and Low" funcionar, com a sua revolta em relação a Gondo a entroncar nas assimetrias sociais do território associadas à loucura deste raptor que preparou meticulosamente um plano para se vingar de um elemento poderoso da sociedade. A frieza do antagonista contrasta com as reacções mais quentes do protagonista, um elemento que surpreendentemente ganha a simpatia dos populares, com os momentos finais entre os dois a serem simplesmente magistrais. O calor marca o território, mas são os sentimentos que mais parecem ferver ao longo de um enredo onde assistimos ainda a uma representação da imprensa bem mais simpática do que em "Scandal". É a imprensa que permite expor algumas das injustiças que vão ser cometidas contra Gondo, bem como facilitar a captura do raptor, com os vários jornalistas a colaborarem com as autoridades. Entre raptos, traições, perseguições, dramas familiares, comentários de pendor social e imagens marcantes, "High and Low" é mais uma adição recomendável ao currículo de Akira Kurosawa, um dos cineastas mais relevantes da História do Cinema, ou pelo menos cujas obras conseguem deixar uma marca inolvidável nesta pessoa que escreve este texto.

Título original: "Tengoku to jigoku". 
Título em inglês: "High and Low". 
Realizador: Akira Kurosawa.
Argumento: Eijirō Hisaita, Ryuzo Kikushima, Akira Kurosawa, Hideo Oguni.
Elenco: Toshiro Mifune, Tatsuya Nakadai, Kyōko Kagawa, Takashi Shimura, Tsutomu Yamazaki.

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