09 março 2015

Resenha Crítica: "Focus" (2015)

 Caso paradigmático onde o estilo se sobrepõe de forma clarividente à substância, "Focus" surge como uma obra cinematográfica cheia de ritmo, reviravoltas, humor, crimes, cenários luxuosos e exóticos, uma banda sonora contagiante e uma dupla de protagonistas cheia de carisma que apresenta uma química assinalável. É essa química entre Will Smith e Margot Robbie que aguenta e sustenta muito do enredo do filme, mesmo quando as reviravoltas se revelam excessivas e o argumento pede para muitas das vezes aceitarmos as suas incoerências ou pelo menos esboçarmos um sorriso com as mesmas. Smith e Robbie por vezes fazem-nos recordar Steve McQueen e Faye Dunaway em "The Thomas Crown Affair", com o carisma e dinâmica de ambos a sustentarem a leveza do argumento. No caso de "Focus", Will Smith interpreta Nicky Spurgeon, um vigarista que ganha a vida a elaborar golpes e assaltos, sejam a joias e carteiras, a duplicar cartões de crédito, a furtar programas informáticos que permitem acesso a dados valiosos sobre desportos automobilísticos, tendo montado uma rede que trabalha de forma eficiente. Para este é essencial nunca perder o foco ou pelo menos fazer com que as suas vítimas se esqueçam de observar o essencial. É um indivíduo confiante, cheio de estilo, que gosta de se vestir bem, consumir vinhos refinados, instalar-se em hotéis caros e expor a enorme habilidade para o crime, algo que é hereditário, com o seu pai e o seu avô a terem exercido esta actividade pouco recomendável. Se Nicky é o símbolo da confiança, já Jess (Margot Robbie) é um caso de uma aspirante a vigarista e ladra que ainda comete alguns pequenos erros que facilmente a denunciam. Veja-se quando tenta seduzir Nicky tendo em vista a assaltá-lo, em conjunto com um comparsa, mas logo é desmascarada pelo protagonista. Esta é bela e sensual, capaz de saber utilizar os seus atributos para a profissão pretendida, com Margot Robbie a surgir elegante, carismática e credível como esta novata no mundo do crime. Jess logo procura receber lições de Nicky, com este a inseri-la no seu grupo de trabalho. Os momentos iniciais do filme servem sobretudo para estabelecer a dinâmica entre Nicky e Jess, ao mesmo tempo que cometem alguns golpes, conquistam-se e conquistam-nos. É então que, após um golpe milionário sobre Liyuan (BD Wong), um viciado no jogo, em plena tribuna do Mercedes-Benz Superdome, num jogo de futebol americano, Nicky decide deixar Jess em Nova Orleães. Paga o valor pelo papel dela nos assaltos e golpes, mas abandona-a surpreendentemente, quando os dois pareciam estar a formar uma relação do ponto de vista sentimental. Parece sobretudo uma decisão tomada para não se envolver em demasia com Jess, embora também pareça demasiado tarde para este acto. A narrativa avança três anos. Nicky encontra-se a trabalhar com Rafael Garriga (Rodrigo Santoro), o dono de uma equipa de automóveis, tendo em vista a infiltrar-se junto de McEwen (Robert Taylor), um dos rivais do personagem interpretado por Rodrigo Santoro, e vender-lhe um programa falso que daria vantagem ao cliente do protagonista. Em Buenos Aires, Nicky descobre que Jess namora com Garriga, ou pelo menos é isso que este pensa, ao longo de uma obra que vai contar ainda com muitas mais reviravoltas, mentiras, romance, algumas surpresas e muito estilo, com o território argentino a ser palco de alguns episódios emocionalmente intensos, ao mesmo tempo que somos gradualmente conquistados para o interior de uma obra cinematográfica que procura não se levar totalmente a sério.

 Glenn Ficarra e John Requa, a dupla de realizadores e argumentistas, parecem ter consciência das limitações e qualidades do argumento que criaram, elaborando um caper/heist film marcado por enorme leveza a fazer recordar obras como "The Thomas Crown Affair", "How To Steal a Million", nas quais a química e dinâmica entre a dupla de protagonistas era essencial. Remete ainda para a leveza de filmes de assalto como "Topkapi", "Ocean's Eleven", entre tantos outros, que nos deixam diante de alguns assaltos/golpes intrincados, embora "Focus" muitas das vezes perca o foco e deambule pelo romance e a comédia, tendo em Will Smith e Margot Robbie os seus maiores trunfos. É certo que os assaltos e os golpes poderiam ser mais bem explorados ou pelo menos terem mais intensidade, também é notório que o argumento é marcado por uma enorme simplicidade, para além de algumas reviravoltas desafiarem o nosso lado mais pragmático, mas no final fica a sensação que "Focus" consegue cumprir o objectivo de nos divertir e entreter minimamente ao longo do período da sua duração, isto se quisermos encarar esta obra cinematográfica como um produto de entretenimento e deixar de lado os extremismos idiotas nos quais este tipo de filmes não são considerados cinema. Poderia ser muito melhor? Certamente que sim. No entanto, a dinâmica da dupla de protagonistas, aliada a uma banda sonora cheia de estilo, a cenários que variam entre o luxuoso e o exótico, a momentos que deambulam entre o caricato e o marcante, conduzem a que "Focus" cumpra no capítulo de nos envolver para o interior da história de Nicky e Jess. Diga-se que, talvez o maior golpe nem seja efectuado por Nicky e Jess, mas sim por Glenn Ficarra e John Requa, com estes a serem capazes de nos envolverem para o interior de uma história relativamente simples, sempre conscientes das limitações do argumento e da parvoíce de algumas reviravoltas, ao mesmo tempo que pedem para sorrirmos e desfrutarmos do enredo. A dupla evita demasiadas explicações na apresentação inicial da equipa de Nicky, tal como não se parece preocupar com grandes desenvolvimentos das figuras que envolvem os protagonistas, embora boa parte dos elementos secundários até despertem a nossa atenção. Veja-se o caso de BD Wong que interpreta o estereótipo de milionário asiático que é viciado no jogo, ou Rodrigo Santoro a interpretar um vigarista latino, para além de Gerald McRaney num papel bastante peculiar. Vale ainda a pena realçar Adrian Martinez como Farhad, o amigo desbocado do protagonista, um elemento que serve muitas das vezes como alívio cómico numa obra onde o humor, a intriga, o romance e as mentiras estão sempre muito presentes. Também os valores de produção são notórios, algo visível nos cenários interiores e exteriores, expostos de forma competente pela assertiva cinematografia de Xavier Pérez Grobet, bem como no guarda-roupa utilizado por Margot Robbie. Esta alia talento, sensualidade e elegância, enquanto sobressai quer pela personalidade da personagem que interpreta, quer pelas suas vestes, quer pelo seu corpo, com este último a ser essencial para vários dos golpes que Jess protagoniza. Por sua vez, Will Smith consegue que simpatizemos quase sempre com este vigarista e ladrão, que procura deixar as emoções de lado embora raramente consiga ser competente neste quesito. Robbie e Smith formam uma dupla convincente, sendo capazes de trocarem as falas aparentemente mais simples com um estilo e carisma inerente ao talento de ambos, mas também devido a uma química que é essencial para muito do enredo funcionar. No final, "Focus" não se propõe a muito mais do que isto. A deixar-nos perante uma dupla de protagonistas com carisma, capazes de cometerem os crimes mais elaborados, ao mesmo tempo que acabam por deixar as emoções envolverem-se muitas das vezes nos seus actos. O próprio argumento parece levar-se pelos sentimentalismos perto do final, numa fase do filme em que já nos rimos a cada nova reviravolta e revelação, ao mesmo tempo que percebemos que o "foco" de "Focus" está na relação entre Jess e Nicky. Will Smith e Margot Robbie conquistam-se e conquistam-nos ao longo de "Focus", ao interpretarem uma dupla de vigaristas cheia de estilo que protagonizam uma obra cujo enredo pode perder algumas vezes o foco mas raramente deixa de prender a nossa atenção. O argumento é limitado, a história também, mas é um dos casos paradigmáticos em que o estilo sobressai em relação à substância, com "Focus" a conquistar-nos pela mescla de todas as suas virtudes e defeitos.

Título original: "Focus". 
Realizadores: Glenn Ficarra e John Requa.
Argumento: Glenn Ficarra e John Requa.
Elenco: Will Smith, Margot Robbie, Rodrigo Santoro, B.D. Wong. 

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