04 março 2015

Resenha Crítica: "Félix et Meira" (Félix e Meira)

 Existe uma enorme diversidade de obras cinematográficas que abordam romances improváveis. Umas com maior sucesso, outras com menor sucesso. "Félix et Meira", a terceira longa-metragem realizada por Maxime Giroux, aborda esta temática de forma delicada e terna, expondo os sentimentos dos seus personagens com enorme sobriedade e humanidade. É uma agradável surpresa. A premissa indica uma obra que, na teoria, poderá estar recheada de lugares-comuns. Na prática ficamos diante de um drama humano credível, sensível e capaz de nos envolver. Para essa agradável situação muito contribuiu a realização de Maxime Giroux, mas também as interpretações de Hadas Yaron, Luzer Twersky e Martin Dubreuil, um trio que sobressai pela forma como expressa a procura dos seus personagens em reprimirem muitas das vezes os seus sentimentos. Nesse sentido, "Félix et Meira" destaca-se pela sobriedade com que este triângulo amoroso entre Meira, Shulem e Félix é apresentado, mas também pela forma como nos surpreende na representação dos personagens que muitas das vezes fogem aos estereótipos que lhes podemos querer colocar. Meira (Hadas Yaron) é uma judia hassídica criada e educada para respeitar os valores tradicionais da sua religião. Esta é casada com Shulem (Luzer Twersky), um indivíduo rigoroso nos cumprimentos dos procedimentos e modo de vida da religião de ambos. Shulem e Meira têm uma filha e vivem em Mile End, um bairro localizado em Montreal, no Canadá. Este é um local apresentado inicialmente como frio, recheado de neve e cores pouco vigorosas, um pouco a fazer recordar o estado da relação entre Shulem e Meira. Se Shulem veste-se e vive de acordo com os ideais da sua comunidade, já Meira parece sempre sentir-se deslocada da mesma e das limitações que este estilo de vida lhe coloca. As outras mulheres chegam a ter catorze filhos, Meira tem apenas uma e toma a pílula para evitar ter mais rebentos, algo que choca algumas das suas conhecidas. Não é a única acção que esta toma a desafiar o mundo fechado em que vive. Esta gosta de ouvir música soul, algo que representa para si a liberdade que não encontra em casa, uma situação notória quando Shulem entra no local e logo a obriga a parar de tocar a mesma. Perante esta ordem, Meira finge-se de morta, num protesto aparentemente infantil mas representativo de como esta se parece sentir. Meira parece deslocada de todo o mundo que a rodeia mas não é a única. Félix (Martin Dubreuil) vive no mesmo bairro de Meira e Shulem, embora inicialmente não se conheçam. Este é um pintor de pouca expressão, aparentemente despreocupado em relação à vida, incluindo em relação à sua herança, que nos momentos iniciais do filme visita o pai, pouco tempo antes deste falecer. Não contactavam aos anos, mas Félix decidiu que deveria rever o pai uma última vez. Ainda recebe a visita da sua irmã, uma das poucas pessoas de quem parece ter proximidade, uma mulher que procura aconselhá-lo a ter um plano para a vida, disponibilizando-se até a ceder uma parte da herança deixada pelo progenitor. Diga-se que ter proximidade com a irmã significa falar com a mesma de forma amena, com Félix a nem sequer conhecer o namorado desta, um indivíduo com quem esta mantém uma relação há... sete anos. Félix é um indivíduo solitário, tal como Meira está longe de ter uma legião de amigas. Esta ainda conta com a presença de várias mulheres em sua volta, da filha e do marido mas parece sempre deslocada do mundo que a rodeia.

Num momento do primeiro terço do filme, Félix mete conversa com Meira, com esta a não parecer demonstrar grande interesse no mesmo. A própria língua que fala separa-os, com este a ter de falar inicialmente em inglês durante alguns momentos do filme, embora a situação mude com o desenrolar da narrativa. Aos poucos começam a desenvolver uma relação marcada não só por uma enorme afinidade mas também curiosidade de parte a parte. Meira não pode olhar os homens nos olhos, não pode ouvir a música que pretende, foi educada a não fazer tudo aquilo que deseja embora guarde no seu interior uma certa vontade em quebrar as regras. Félix nunca se viu perante tantas limitações como aquelas sentidas por Meira, embora mais tarde descubramos, através de uma carta deixada pelo pai, que o protagonista sempre foi uma figura meio à parte da família. A proximidade entre os dois aumenta quando Meira pede se pode ouvir música na casa de Félix, algo que não consegue na sua habitação. Este leva-a ainda a casa do seu falecido pai, onde jogam pingue-pongue, em sentido literal e figurado, com ambos a abordarem temas como as pinturas de cada um, pelo menos até a irmã do protagonista aparecer e Meira ficar irritadíssima por ter sido vista. Meira e Félix são dois elementos que partilham muito em comum, apesar de todas as diferenças que os poderiam separar. Gradualmente começam a aproximar-se cada vez mais, com uma viagem a Brooklyn a marcar breves momentos aparentemente idílicos entre ambos, com a cinematografia de Sara Mishara, muito marcada por planos fixos, por vezes de longa duração, a destacar-se em diversas cenas (veja-se quando Meira e Félix estão na janela do hotel, de noite, com as tonalidades azuis a dominarem o cenário). Meira foi para os Estados Unidos da América obrigada pelo esposo para assentar ideias. Félix decide segui-la. Nos EUA, Meira e Félix dão pela primeira vez as mãos, saem juntos, observam os edifícios altos que rodeiam os locais por onde deambulam, dançam ao som de músicas de ritmos aparentemente ciganos. Durante a noite, quando visitam a Times Square, é possível ficarmos diante das cores e luzes que rodeiam a cidade, representativa de todo um mundo novo para Meira, mas também do estado radiante em que estes se encontram. Esta é interpretada pela sublime Hadas Yaron (que pudemos ver recentemente em "Fill the Void", uma obra distribuída em Portugal pela Alambique), uma actriz capaz de demonstrar com enorme sobriedade os sentimentos que a sua personagem procura reprimir. Guarda em si a vontade de soltar os seus desejos, tendo ideias e ideais que divergem e muito da comunidade na qual foi criada e educada, algo que é exposto de forma regular ao longo do filme. Não a vemos ter grandes demonstrações de fúria ou desespero. Nem esta é mal-tratada por aqueles que o rodeiam. No entanto, é notório que aspira a maior liberdade ou pelo menos tem curiosidade em poder ter mais espaço para poder desfrutar do quotidiano do que aquele que tem na actualidade. Essa parece ser uma das várias razões para Félix a atrair, com este a ser o oposto do marido e dos elementos que a rodeiam. Félix é um tipo solitário, de ideias próprias, que procura fazer aquilo que lhe agrada, embora pareça relativamente afectado pela morte do pai. Com Félix, assistimos Meira a finalmente poder ouvir música à vontade, a dançar e a pintar, bem como a perder o medo ou pelo menos o receio de olhar um homem de frente. São pequenos hábitos que não pode ter num meio que a parece sufocar, enquanto Félix descobre nesta mulher todo um mundo novo e um conjunto de sentimentos que o conquistam. Provavelmente, o próprio sabe que se pode estar a envolver num problema, mas nas questões do amor e dos afectos nem sempre a razão leva a melhor. Félix e Meira que o digam, embora a relação entre os dois seja construída de forma natural e em "lume brando" por Maxime Giroux. Inicialmente estes formam uma espécie de amizade que aos poucos parece evoluir em algo mais, embora Meira nem sempre pareça convencida da ideia de trocar a sua vida por algo incerto.

Estes são personagens que teriam tudo para nunca se envolverem, mas acabam por gerar uma atracção mútua. Não é um envolvimento arrebatador, nem quente a nível sexual, com ambos a parecerem gerar algo inicialmente platónico que aos poucos se concretiza em pequenos gestos. Veja-se quando a câmara de filmar se foca nas mãos dos dois quando o casal as une, ou quando dançam num momento de maior relaxamento. Meira estava no Brooklyn em casa do primo do marido e da mulher deste, com o seu caso a ser descoberto por Shulem. O esposo de Meira parte para a violência física. Félix não responde, talvez devido a entender perfeitamente a raiva sentida por Shulem. Meira observa algo surpreendida tudo aquilo que está a acontecer. Não se pense que Maxime Giroux apresenta Shulem como um indivíduo frio e sem sentimentos. Pode não dar a Meira aquilo que ela pretende, em parte devido aos seus ideias culturais e religiosos, mas é um indivíduo bem intencionado, que pode ter dificuldade em compreender as atitudes da esposa, mas nem por isso deixa de as entender. É certo que comete um ou outro acto menos feliz, mas não deixa de ser notório que gosta da esposa, apesar da frieza que muitas das vezes evidencia. A certa altura do filme, encontramos Shulem a visitar a casa de Félix. Tememos um confronto violento. Na realidade, o que encontramos é um marido preocupado com a mulher que ama de forma incondicional e teme vir a perdê-la para sempre, numa conversa que é antecedida por alguns silêncios constrangedores. Teme também que a filha não poderá voltar a ver a mãe pois, se Meira abandonar Shulem, será expulsa da comunidade e não mais poderá regressar. Shulem quer que Félix esteja ciente disso antes que tome qualquer decisão sobre Meira, procurando que os sentimentos desta não saiam feridos e que os seus actos não afectem a filha da protagonista com o primeiro. É um diálogo emotivo, que nunca descai para o sentimentalismo, extremamente bem filmado, onde a personalidade destes dois homens fica bem visível. São diferentes mas isso não implica que um seja bom e o outro seja mau. Nesse sentido, "Félix et Meira" sobressai exactamente pela complexidade com que nos apresenta este triângulo amoroso, ao mesmo tempo que Maxime Giroux evita efectuar julgamentos sobre os seus personagens. Deixa essa difícil tarefa para nós. Queremos ver Meira a finalmente libertar-se das amarras da sociedade em que se encontra ou permanecer fiel ao marido e ao grupo no qual está "integrada"? É uma pergunta de resposta complicada e Meira está consciente da difícil situação em que se encontra. Tem uma relação estável com Shulem, marcada por alguma frieza e incapacidade de se exprimir como uma mulher livre. Outras mulheres preferem seguir um caminho oposto e ser fiéis ao modo de vida para o qual foram criadas. Existe em Meira uma sede de descoberta e de viver, de abraçar a alma da música Soul, de ser livre e poder exprimir-se. Não é uma mulher de muitas falas. Diga-se que a farta oratória não é algo que seja um denominador comum no trio de protagonistas, com "Félix e Meira" a ser marcado muitas das vezes por momentos de silêncio, onde os rostos e os gestos parecem significar mais do que muitas palavras. Veja-se o caso de Luzer Twersky, com este a interpretar o marido da protagonista com notável acerto, procurando expor a ambiguidade deste personagem que, por um lado, sente-se embaraçado pelos actos da esposa mas, por outro lado, parece amar a mesma. O actor consegue transmitir essa situação, apesar de ter algumas cenas mais intensas com Hadas Yaron, embora também fique na memória o momento em que Shulem e Félix se sentam à mesa para falarem sobre a protagonista.

Félix é interpretado por Martin Dubreuil, um actor eficaz a expor o espírito livre do seu personagem mas também alguma da tormenta relacionada com o pai. Este é solteiro, tendo um estilo de vida que inicialmente fascina Meira. Esta também gostava de poder experimentar a liberdade de ser solteira, de poder viver livre das amarras que lhe foram impostas e acima de tudo fazer aquilo que mais gosta. No entanto, também reluta em deixar o mundo no qual foi educada. "Félix e Meira" aborda com a sobriedade necessária a reunião entre duas figuras de mundos completamente distintos. Ele é pragmático e solteiro, não tendo problemas em pintar, fazer o que lhe apetecer e não estabelecer grandes planos para o futuro. Ela é casada, tem uma filha e a sua religião não permite muitos dos actos que esta efectua. Maxime Giroux desenvolve a relação destes dois com enorme humanidade e naturalidade, nunca se esquecendo da complexidade da mesma, atribuindo especial atenção aos pequenos gestos entre os personagens. Félix e Meira não vivem momentos que poderemos considerar arrebatadores, mas parecem complementar-se quase na perfeição, com um a ter no outro os ingredientes que faltavam às suas vidas. Mais uma vez voltamos à situação de estarmos diante de uma obra cinematográfica que nos coloca perante uma relação amorosa improvável. No caso de "Félix et Meira", esta destaca-se exactamente pela complexidade e humanidade que Maxime Giroux atribui aos personagens principais, fugindo a representações unidimensionais ao mesmo tempo que sabe utilizar os lugares-comuns. Por vezes surpreende-nos com um momento mais tenso, por vezes deixa-nos perante um episódio mais doce, ao mesmo tempo que não deixa de abordar questões relacionadas com o grupo no qual Meira se encontra inserida. No final, é sempre Meira quem está mais em destaque, bem como Hadas Yaron, a sua intérprete, uma actriz que dá provas que bons papéis femininos continuam a existir. Yaron atribui dimensão à sua personagem, aproveita o bom argumento que tem à sua disposição para elevá-lo e criar uma personagem que facilmente nos fascina pela forma como desafia as barreiras que lhe são colocadas e consegue fazer sobressair a sua individualidade, num colectivo onde as figuras femininas nem sempre se conseguem impor. Tem uma personalidade forte, embora isso não implique que deixe de estar recheada de dúvidas. A primeira vez em que experimenta umas calças de ganga surge num momento entre o cómico e o profundamente humano, com esta a sentir-se estranha por estas apertarem tanto junto às pernas, ao que Félix explica que apenas o tempo faz com que estas se moldem ao corpo. Este momento ocorre quando os dois personagens estão nos EUA, partilhando uma relação de amizade e cumplicidade que Meira não parece ter com o marido. Tal como Félix, também parece procurar o seu lugar no Mundo e encontrar-se a si própria. Félix teve problemas durante boa parte da sua vida com o pai, embora isso não implique que não tenha ficado afectado pela sua morte. Aos poucos assistimos Félix e Meira a gerarem uma afectuosidade crescente, desenvolvida de forma gradual e convincente, ao mesmo tempo que vamos sendo conquistados para o interior do quotidiano destes seres humanos que procuram acima de tudo sentir e encontrarem o seu lugar no Mundo. Filme delicado e terno na abordagem das relações humanas, "Félix et Meira" surge como uma agradável surpresa que facilmente nos conquista e embrenha para o interior da história desta dupla de protagonistas, ao mesmo tempo que nos delicia com uma cinematografia primorosa por parte de Sara Mishara.

Título original: "Félix et Meira".
Título em inglês: "Félix and Meira". 
Título em Portugal: "Félix e Meira".
Realizador: Maxime Giroux.
Argumento: Maxime Giroux, François Delisle e Alexandre Laferrière .
Elenco: Martin Dubreuil, Hadas Yaron, Luzer Twersky.

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