06 março 2015

Resenha Crítica: "Esclavo de Dios" (Escravo de Deus)

 "Esclavo de Dios" de Joel Novoa procura problematizar a questão do fundamentalismo islâmico através do seu protagonista, Ahmed (Mohammed Al Khaldi), ao mesmo tempo que nos apresenta a um enredo que teve como base um atentado real causado em Buenos Aires, na Argentina, em 1994. Um dos elementos que mais sobressaem ao longo de "Esclavo de Dios" centra-se na procura de Joel Novoa em analisar a psicologia e evolução comportamental de Ahmed, um fundamentalista islâmico que se depara com uma encruzilhada quando é chegada a hora de sacrificar a sua vida. Este é um indivíduo que é treinado desde jovem para ser um mártir, após o seu pai ter sido assassinado. No início do filme encontramos Ahmed, ainda jovem, acompanhado pelo seu pai, com este último a ser morto, um acto que ocorre no fora de campo, com Joel Novoa a preferir deixar-nos diante do rosto do jovem perante a morte do progenitor, quando ambos habitavam no Líbano. O enredo logo avança para Janeiro de 1990, em Caracas, na Venezuela, onde Ahmed se encontra com Salim (Fayez Ajwad Amd), o seu mentor e contacto, que o instiga a estabelecer a vida por lá e casar-se, sempre sem contar a ninguém a sua verdadeira identidade, até ser chamado para cumprir a sua missão. Nesse sentido, é atribuída documentação falsa a Ahmed que lhe permite ficar com o nome de Javier Hattar, para além de lhe ser dado dinheiro e um emprego como cirurgião num hospital proeminente. A narrativa avança de forma rápida para 1994, expondo alguns momentos de Ahmed com Ines (Daniela Alvarado), desde o namoro ao casamento, bem como com o filho de ambos, de dois anos de idade. A marcar este avanço temporal encontram-se as instruções de Salim, com a narração deste a servir como meio de ligar os diferentes períodos temporais, para além de surgir como explicação óbvia para os actos do protagonista. Ahmed é uma das figuras centrais de "Esclavo de Dios" a par de David (Vando Villamil), um agente da Mossad que se encontra a trabalhar na Embaixada de Israel em Buenos Aires. Tal como Ahmed, David perdeu um familiar na sua juventude devido a assassinato, nomeadamente o tio, com estes episódios a marcarem a existência de ambos durante a idade adulta. David é-nos apresentado como um agente frio e meticuloso, disposto a tudo para travar as intenções terroristas na área que lhe é designada. A dedicação ao trabalho parece afectar o seu quotidiano com a esposa e a filha, com a primeira a pretender abandonar a casa. É nos momentos iniciais que vemos os elementos da Mossad a eliminarem um indivíduo, supostamente sírio, traficante de droga, que se encontrava em fuga. David não fica perturbado pela morte deste, mas sim pelo facto do suposto criminoso já não poder falar e ceder informações que poderiam ser revelantes. Embora apenas se cruzem pessoalmente a meio do filme, o quotidiano de David e Ahmed vai estar mais próximo do que ambos podem pensar, com o personagem interpretado por Mohammed Alkhaldi a participar na célula que o agente pretende travar. Ahmed é designado, bem como outros terroristas islâmicos, para se deslocar à Argentina, em particular para Buenos Aires, tendo em vista a praticarem uma série de atentados anti-judaicos. Este instalam-se num local onde convivem, espelham a sua confiança e fé, e no caso de um personagem mais jovem alguns dos seus receios, enquanto aguardam pela chegada da hora de sacrificarem a sua vida em nome de Alá.

Ahmed parece inicialmente convicto dos seus propósitos na vida, incluindo quando festeja como se fosse um adepto de futebol o sucesso de um colega no atentado à Asociación Mutual Israelita Argentina, algo que resulta no assassinato de oitenta e cinco pessoas. Tal como nos assassinatos dos pais de Ahmed e David, o atentado, baseado num caso real, não é exposto, com este a ocorrer no fora de campo, até as suas consequências serem exibidas. A sonoplastia exacerba o som da explosão que ocorre enquanto David estava no café, num episódio que coloca a sua posição em risco na Mossad, mas nem por isso retira vontade deste em desmantelar de uma vez por todas a rede de terroristas. David é um indivíduo judeu que vive para a sua profissão, apresentando crenças aparentemente distintas do personagem interpretado por Mohammed Alkhaldi. Ahmed parece alguém que sempre esteve consciente dos propósitos para os quais foi treinado embora, apesar do argumento nem sempre explorar a sua relação familiar, pareça demasiado preso aos laços que criou com a mulher e o filho. Quando chega a vez de Ahmed a ter de cometer um acto terrorista, as dúvidas começam a surgir junto deste homem. Reza, pede forças, mas apenas surgem na sua memória a mulher e o filho, começando a questionar-se sobre quase tudo aquilo em que acreditava, algo que vai colocar a sua vida e da sua família em perigo. Mohammed Al Khaldi destaca-se a interpretar este personagem complexo, de poucas falas e aparentemente seguro em relação aos seus actos, que aos poucos começa a duvidar do seu papel no interior da célula terrorista na qual se encontra integrado. A certa altura salienta bem alto que não é Alá que lhe pede para explodir com o seu corpo e uma sinagoga mas sim os elementos do grupo, com "Esclavo de Dios" a finalmente a revelar a sua faceta e atribuir uma maior complexidade e alguma polémica à temática que aborda. Seria certamente mais fácil para Joel Novoa representar um agente da Mossad a liderar uma equipa contra elementos fundamentalistas islâmicos unidimensionais que apenas pensam em matar. Também os representa mas procura demonstrar que nem todos os islâmicos são terroristas e mesmo no seio dos mais fundamentalistas pode existir espaço a um questionamento inesperado. É uma procura do cineasta em abordar que nem tudo na vida é a preto e branco, ou se preferirem nem tudo é linear, problematizando uma temática polémica ao mesmo tempo que enriquece um enredo onde muitas das vezes se pedia mais desenvolvimento das relações entre Ahmed e David e as respectivas famílias. É certo que as relações familiares são representadas, mas pedia-se um pouco mais de desenvolvimento e problematização sobretudo para expor as razões para a mulher e o filho terem uma relevância tão grande junto do protagonista, quando este sabia que mais cedo ou mais tarde iria ser chamado para sacrificar a sua vida em nome da causa. Os momentos de Ahmed com a esposa são muitas das vezes marcados por silêncios, com "Esclavo de Dios" a exacerbar antes os gestos trocados entre ambos, parecendo existir alguma intimidade entre o casal, embora estas sequências percam impacto devido à falta de exploração da vida do personagem em família. Se Mohammed Al Khaldi sobressai pelas dúvidas que incute no seu personagem, um indivíduo treinado para matar, construir aparelhos explosivos e respeitar Alá, já Vando Villamil consegue expressar a obstinação de David no cumprimento das suas missões. É um elemento que vive para o trabalho, mesmo que para isso tenha de matar e colocar a sua existência em perigo.

Enquanto Ahmed fundamenta as suas acções pela sua devoção a Alá, David procura acima de tudo ser competente. Ambos apresentam problemas nas suas vidas pessoais que os vão afectar a nível profissional, ainda que de forma distinta, com Ahmed a questionar toda a sua missão. Ahmed encontra-se longe de ser um indivíduo fundamentalista como Salim, um elemento procurado pela Mossad que tenta conquistar elementos para o interior da célula terrorista. A casa de Salim, em Caracas, é reveladora da prosperidade que este terrorista alcançou, marcada por diversos quadros e um enorme espaço, cabendo a este coordenar os elementos do grupo à distância, pedindo que façam os sacrifícios em nome de Alá embora o próprio esteja longe de pretender colocar em prática os mesmos. Ficamos perante um certo cinismo, com o fundamentalismo de muitos indivíduos a surgir como um meio para colocarem em prática actos que pertencem a uma agenda que pouco está ligada com a religião, algo que aos poucos o protagonista começa a perceber. Joel Novoa embrenha-se por uma temática polémica abraçando a mesma com enorme à vontade, criando um universo narrativo relativamente credível, marcado por dois personagens principais com algum carisma. Mohammed Al Khaldi e Vando Villamil conseguem convencer como estes dois personagens em lados opostos da barricada, com o último terço a ser marcado por um adensar da tensão em volta dos acontecimentos que envolvem o enredo, algo que é incrementado pela cinematografia. Ahmed terá de escolher entre a família e cometer suicídio, algo que implicará ter de entrar em fuga do grupo extremista no qual está inserido e das autoridades. David quer de uma vez por todas travar esta célula terrorista, com Ahmed a ser uma peça importante no tabuleiro deste jogo onde dificilmente existirão vencedores e derrotados definitivos. A temática do terrorismo e do fundamentalismo é algo que infelizmente continua bastante actual e na ordem do dia e não parece tão depressa ter um fim à vista. "Esclavo de Dios" procura explorar um pouco a complexidade destas pequenas células, compostas por elementos oriundos e instalados em diferentes locais, algo que torna a sua localização muitas das vezes difícil de rastrear. No caso do enredo de "Esclavo de Dios", este é inspirado num episódio real ocorrido na Argentina em 1994, com Joel Novoa a procurar explorar o lado da célula terrorista e da Mossad através da dupla de protagonistas. Curiosamente, ou talvez não, o caso retratado ganhou uma relevância extrema não só pelas notícias de ataques terroristas como ao Charlie Hebdo que têm chocado o Mundo, mas também pela morte de Alberto Nisman, em Janeiro de 2015. Nisman foi um procurador argentino que acusou a Presidente Cristina Fernández de Kirchner de ter encoberto a responsabilidade do Irão no ataque terrorista, algo que ganhou contornos ainda mais polémicos devido a ter aparecido morto na banheira da sua casa, devido a um tiro na cabeça. Este terá alegadamente sido assassinado quando procurava levantar questões sobre um caso que resultou em oitenta e cinco mortes (vale a pena darem uma leitura pela notícia completa).

 O caso atribui ainda uma maior e inesperada relevância ao filme, com Joel Novoa a apresentar alguns pormenores bastante interessantes para um estreante em longas-metragens. O cineasta já contava com experiência na realização de curtas-metragens, bem como na função de director assistente, elaborando um thriller a espaços intenso que aborda um tema ainda quente na Argentina, ao mesmo tempo que nos deixa diante de um protagonista que foge ao estereótipo de terrorista unidimensional que muitas das vezes surge como antagonista dos filmes. Ahmed surge inicialmente como um elemento pronto para morrer e encontrar a "felicidade" na outra fase da sua vida, mas a ligação com a mulher e a filha, bem como a sua consciência, levam-no a questionar os actos que se prepara para praticar supostamente em nome de Alá. Este surge como uma excepção, com os seus colegas a considerarem-no um traidor, mas um dos méritos de "Esclavo de Dios" passa exactamente por exibir um indivíduo que prefere seguir aquilo que acredita e não aqueles que procuram ordenar atentados. É óbvio que também ficamos diante de alguns terroristas prontos a sacrificarem as suas vidas para defenderem os seus ideais religiosos, ou melhor, a vontade dos seus líderes. Se "Esclavo de Dios" acerta na exploração do dilema moral do protagonista e na sua representação, o mesmo não acontece em situações onde o argumento parece mal amarrado. A relação de Ahmed com a esposa e a filha é uma dessas situações, para além de nunca ficarmos com justificações plausíveis para a forma como este conseguiu abandonar repentinamente o trabalho e a sua vida em Caracas. Diga-se que o quotidiano do protagonista em Caracas pouco é aproveitado, tal como a sua função de médico pouco é explorada. Mesmo a relação de David com a esposa e a filha surge representada de forma bastante pueril, algo que a ter sido abordado com mais densidade teria atribuído uma maior espessura à narrativa. Não são elementos que vão afectar a temática central do filme mas certamente iriam atribuir maior densidade à mesma, com Joel Novoa a conseguir entroncar com sucesso os elementos ficcionais com o contexto histórico que rodeava o território de Buenos Aires. Veja-se desde logo a presença da Mossad para travar os terroristas, com o ataque planeado por Ahmed a ser ficcional, embora o atentado à Asociación Mutual Israelita Argentina seja baseado num caso verídico. A própria investigação desenvolvida pela Mossad é apresentada com alguma credibilidade, com o protagonista a chegar a procurar utilizar a imprensa para conseguir travar novos ataques terroristas, conhecendo uma série de elementos perigosos que podem colocar em perigo a segurança no território. Vale ainda a pena realçar pequenos pormenores como a gravação dos vídeos por parte dos terroristas antes dos ataques, com "Esclavo de Dios" a procurar expor estes momentos com algum realismo, tal como procura explorar o funcionamento de uma célula criminosa no interior de um espaço citadino e as constantes preocupações em escaparem às autoridades. As cenas de maior acção são filmadas com acerto, sobressaindo desde logo a perseguição que resulta na morte do criminoso no primeiro terço do filme, para além do intenso final onde não vão faltar tiros, mortes e decisões inesperadas. Entre fundamentalistas islâmicos que preparam ataques contra judeus, um terrorista que recua nas suas intenções e um agente da Mossad aparentemente inflexível, "Esclavo de Dios" mescla elementos de policial com drama, ao mesmo tempo que aborda de forma fluída temáticas que são bastante polémicas e extremamente actuais.

Título original: "Esclavo de Dios". 
Título em Portugal: "Escravo de Deus". 
Título em inglês: "God's Slave". 
Realizador: Joel Novoa.
Argumento: Fernando Butazzoni.
Elenco: Mohammed Alkhaldi, Vando Villamil, Daniela Alvarado.

Sem comentários: