10 março 2015

Resenha Crítica: "Corre, Rapaz, Corre" (Lauf Junge lauf)

 "Corre, Rapaz, Corre" apresenta-nos a um jovem resiliente, com um enorme espírito de sobrevivência e capacidade de superar as adversidades, em plena Polónia durante a II Guerra Mundial. Por vezes parece fazer-nos recordar a jornada de sobrevivência de Wladyslaw Szpilman, o protagonista de "O Pianista" de Roman Polanski, um indivíduo que, tal como Srulik (Andrzej Tkacz), procurou resistir às atrocidades cometidas contra os judeus, superar o medo e as adversidades, mesmo quando o desespero quase parecia levar a melhor. A diferença é que Srulik é um jovem de oito anos, tendo de amadurecer mais rápido do que as crianças da sua idade ao deparar-se muitas das vezes perante um meio adverso, onde as atrocidades contra os judeus são mais do que muitas, enquanto procura trabalhar em diversas quintas em troca de comida. Este muda o nome para Jurek, de forma a que não desconfiem de si, embora aos poucos perceba que as suas origens são difíceis de esconder, mesmo quando tenta renegá-las como forma de sobrevivência, sendo perseguido por soldados das SS e até por alguns polacos mais traiçoeiros que pretendem ganhar dinheiro ao denunciarem e/ou entregarem elementos judaicos junto das autoridades alemãs. Jurek viu a sua mãe ser transportada para um campo de concentração, tendo perdido o pai e fugido do gueto em Varsóvia, iniciando uma jornada de sobrevivência que irá durar entre 1942 e o final da II Guerra Mundial. Realizado por Pepe Danquart, tendo como base o livro "Run, Boy, Run", uma obra literária inspirada em alguns elementos da vida de Yoram Fridman, o filme homónimo não poupa em episódios marcantes da vida do protagonista, por vezes algo repetitivos, mas capazes de evidenciarem de forma latente a degradação a que este se encontrou sujeito. Inicialmente encontramos este jovem sozinho, perto de um tronco, num cenário marcado pela neve e as tonalidades frias, até o enredo recuar seis meses. Ficamos perante o jovem Jurek, junto de um grupo de jovens judeus que procuram sobreviver na floresta, ensinando-o a roubar, a desinfectar feridas com urina, bem como a esconder-se pelo espaço florestal tendo em vista a escapar aos guardas das SS que procuram capturar judeus e elementos da resistência que se encontrem por este território. Numa fuga, Jurek perde-se do restante grupo acabando por encontrar temporariamente abrigo junto de Magda Janczyk (Elisabeth Duda), uma mulher cujos filhos e esposo combatem pela resistência. Magda ensina Jurek a mentir, bem como a rezar, e alguns elementos associados ao cristianismo, dando um terço ao rapaz e um conjunto de alicerces para este poder sobreviver fora daquele espaço. Esta tem de abandonar Jurek após a sua habitação começar a ser mais vigiada do que o costume, algo que a coloca em perigo, bem como ao jovem. O medo paira por quase toda a narrativa de "Run, Boy, Run", com Pepe Danquart a conseguir criar uma atmosfera relativamente opressora em volta do destino do jovem. Veja-se quando um casal finge procurar ajudá-lo e entrega-o aos elementos das SS, com este a acabar por conseguir fugir, até encontrar trabalho na quinta da Sr.ª Herman (Jeanette Hain), uma mulher que mantém um caso com o oficial alemão do qual o protagonista fugiu. O elemento das SS fica impressionado com a força interior e impertinência de Jurek, deixando-o a trabalhar no local até o jovem sofrer um grave acidente que o vai levar a perder um braço. São muitas as desventuras de Jurek ao longo deste filme marcado por uma enorme crueza, representando o anti-semitismo através do olhar desta criança. O próprio Jurek, a certa altura do filme, parece revoltar-se por todas as situações que vive, devido a ser judeu, sem perceber que o problema não é seu, mas sim de um louco e daqueles que seguiram as suas políticas anti-semitas.

Ficamos diante da jornada de sobrevivência de um jovem num território hostil, marcada por diversos episódios que não lhe permitem formar grandes laços, talvez com excepção da Sr.ª Janczyk que ainda reencontra e irá sofrer as consequências de ter ajudado este jovem. A vida de Jurek não é fácil. Tendo em conta a sua idade, certamente esperaríamos ver este jovem a brincar e divertir-se com os colegas, bem como a estudar, mas ao invés disso este tem de lutar pela sua vida. Embora a narrativa por vezes parece estender-se em demasia para o conteúdo que realmente tem para nos dar, é impossível negar o impacto a nível emocional que esta jornada de Jurek é capaz de nos causar. Perde os pais, não sabe o que aconteceu à restante família, pouco tempo depois de ganhar a companhia de um simpático rafeiro depara-se com o mesmo a ser baleado por engano por elementos da resistência, forma amizades que se dissipam, é traído, revolta-se contra si e contra o Mundo, sonha com um passado que se desvanece pela memória enquanto procura sobreviver. Provavelmente luta a pensar que o futuro será melhor, tendo algum sucesso no desiderato de sobreviver, embora não se possa falar em sorte numa situação cruel como esta. Através do caso particular de Jurek, Pepe Danquart consegue dar-nos uma ideia de quão hediondas eram as políticas anti-semitas de Adolf Hitler e de como a população muitas das vezes compactuava ou não com as mesmas. Nesse sentido, "Corre, Rapaz, Corre" é capaz de dar uma visão plural, não só exibindo elementos prontos a livrarem-se do protagonista e a descriminarem-no por ser judeu, mas também ao deixar-nos perante seres humanos que o aceitam. Este fica cheio de dúvidas, embora tenha no seu pensamento os ensinamentos do seu pai para nunca se esquecer que é judeu, apesar de em alguns momentos revoltar-se com os actos que lhe infligem devido à sua origem. É um filme por vezes duro de se assistir, colocando-nos perante um lado negro da humanidade ao mesmo tempo que nos deixa com alguma esperança na mesma ao apresentar-nos elementos como este jovem resiliente. Este aventura-se pela floresta, pelas aldeias e territórios do campo, foge dos soldados alemães, sobrevive a uma grave operação, enquanto assume uma identidade que não é a sua ao mesmo tempo que procura não se esquecer da sua proveniência. O jovem Andrzej Tkacz é competente a interpretar este rapaz que se depara com um conjunto enorme de adversidades no interior do território da Polónia em plena II Guerra Mundial, com Srulik a surgir como uma figura complexa e recheada de dúvidas que se depara com um conjunto de situações que nem sempre compreende. As próprias dúvidas que o personagem começa a criar a nível de identidade e religião reflectem a complexidade que o argumento procura atribuir a este rapaz que luta pela sua vida. Não faltam ainda alguns momentos de tensão, tais como fugas pela floresta e de um campo alemão, com a cinematografia e a banda sonora a contribuírem muitas das vezes para a intensidade destas sequências protagonizadas por Srulik. Pepe Danquart deixa-nos perante um retrato do anti-semitismo através do ponto de vista deste jovem judeu, numa obra que, apesar de ser protagonizada por uma criança, está longe de ser destinada para o público infantil. A crueza da II Guerra Mundial fica bem representada, bem como das políticas anti-semitas, ao longo de um filme que nos coloca diante de uma estrutura narrativa algo episódica e repetitiva, por vezes incapaz de desenvolver os vários elementos que apresenta. Existe pouco tempo para explorar os personagens que rodeiam o protagonista, algo visível nas cenas com os jovens judeus, mas também na primeira família com a qual fica a habitar algum tempo, algo que raramente dá espaço para o elenco secundário sobressair ou os personagens que estes actores e actrizes interpretam evoluírem ao longo do enredo. Talvez aqui valha a pena recuperar novamente o exemplo de "O Pianista", nem que seja pela capacidade apresentada por Roman Polanski em agarrar por completo a narrativa e elevá-la, algo que Pepe Danquart nem sempre consegue. Pepe Danquart tem a vida facilitada devido ao poder da história que tem para nos contar, conseguindo transmitir com sucesso e impacto as dificuldades sentidas pelo jovem protagonista, embora falte algum refinamento que permita a "Corre, Rapaz, Corre" distinguir-se de outros filmes que abordam estas temáticas.

Título original: "Lauf Junge lauf".
Título em inglês: "Run Boy Run".
Título em Portugal: "Corre, Rapaz, Corre".
Realizador: Pepe Danquart.
Argumento: Heinrich Hadding e Pepe Danquart.
Elenco: Andrzej Tkacz, Kamil Tkacz, Zbigniew Zamachowski, Mirosław Baka. 

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