18 março 2015

Resenha Crítica: "The Congress" (O Congresso)

 Qual o papel dos actores e das actrizes no cinema contemporâneo? "The Congress" apresenta-nos a um mundo onde a tecnologia evoluiu a um ponto em que os actores e actrizes podem ser reproduzidos digitalmente e utilizados pelos estúdios a bel-prazer nas obras cinematográficas que assim entenderem. Para isso é necessário que estes ditos actores e actrizes aceitem assinar um contrato que os obriga a não poderem representar durante o período de tempo em que o mesmo se encontre em vigor. Robin Wright, a interpretar uma versão ficcional de si própria, é colocada diante de uma proposta deste tipo por parte de Jeff Green (Danny Huston), o representante da Miramount Studios. Esta inicialmente reluta mas o próprio agente da actriz, Al (Harvey Keitel), salienta que "Sempre foste a marionete deles. De todos eles, dos produtores, realizadores. Eles dizem o que tens de fazer, como te deves comportar, como deves interpretar, como deves sorrir, como deves amar (...)", algo que entronca numa lógica de procurar convencê-la a aceitar a oferta. Existe aqui algo de perverso nesta representação do agente e do produtor que apenas encaram os actores e os actrizes como meras ferramentas, deixando de lado o seu papel único na elaboração e construção dos personagens, ao mesmo tempo que existe uma crítica de Ari Folman à forma como o "sistema" dos estúdios por vezes se torna controlador a um ponto de não existir a mínima liberdade criativa. O que acaba por estar aqui em causa é exactamente isso: o assumir de um estúdio que pretende utilizar uma actriz como assim entender para os vários projectos cinematográficos que tem em mãos, de forma a não ter de consultar a mesma. É óbvio que os actores e actrizes também tomam escolhas menos felizes nas suas carreiras e nas suas vidas pessoais, algo representado nesta figura ficcional de Robin Wright, com a actriz a ser capaz de explorar as dúvidas que assolam a mente da personagem a quem dá vida. A própria protagonista tomou atitudes erráticas ao longo da sua vida pessoal e profissional, com Al e Jeff a realçarem como esta parece ter desperdiçado uma carreira promissora. No entanto, em "The Congress", aquilo que está em jogo é esta deixar de poder tomar opções, sejam estas boas ou más, a partir do momento em que assine o contrato. Existe ainda algum espaço para a ironia, advinda do absurdo das situações e dos comentários mordazes sobre a indústria cinematográfica, tais como o facto de Robin Wright recusar papéis em filmes sobre o Holocausto ou de elementos com deficiência mesmo quando isso implica uma maior possibilidade de vencer prémios, ou o do facto do público não parecer ser tido nem achado nestas questões colocadas pelo estúdio. É uma realidade alternativa que nos é apresentada com mordacidade, cinismo e algum realismo, com Danny Huston a surgir como o estereótipo do executivo do estúdio que pensa acima de tudo no lucro e muito pouco na criatividade. Curiosamente, "The Congress" surge sempre no caminho oposto de Jeff e opta por ir pela criatividade, pelo desafiar do espectador, procurando colocá-lo a pensar e ao mesmo tempo deixar Robin Wright brilhar como esta actriz algo melancólica que tem ainda de pensar nos seus dois filhos, Aaron Wright (Kodi Smith-McPhee) e Sarah Wright (Sami Gayle).

 Aaron padece de uma doença que o leva a gradualmente perder a visão e audição mas não a enorme fertilidade criativa. Sarah é impertinente e de opiniões fortes, procurando expor sempre as suas ideias e ideais junto da mãe e daqueles que a rodeiam. Estes vivem num espaço meio desértico, perto de um aeroporto, onde Aaron fica muitas das vezes a brincar com o seu papagaio de papel. A habitação parece paradigmática do isolamento a que Robin Wright (personagem) se sujeitou, procurando afastar-se de tudo e todos. Perante uma série de indecisões, Robin acaba por aceitar assinar o contrato. O processo de digitalização desta é um momento memorável, com as suas vestes brancas e o seu rosto expressivo e cheio de sentimento a sobressaírem no interior de uma espécie de "jaula" redonda e azul onde esta se encontra a ser digitalizada. É uma cedência que retira a Robin todos os seus direitos como actriz, com esta a continuar a aparecer como uma mulher de trinta e quatro anos no grande ecrã. É a sua figura que o estúdio pretende, não a sua alma, com esta a abdicar da sua vida como actriz. A narrativa logo avança vinte anos, ou seja, quando se encontra a terminar o contrato de Robin Wright com a Miramount Studios. Esta vai até à cidade de Abrahama, onde é obrigada a tomar um produto que a torna numa personagem animada, tendo em vista a participar no "Congresso Futurista" da Miramount. A sua figura cinematográfica tornou-se a estrela da franquia "Rebel Robot Robin", enquanto esta é confrontada com um mundo animado onde os seres humanos assumem estranhas atitudes, parecendo saído de um desenho animado dos Looney Tunes com ácidos pelo meio. Robin recebe uma nova proposta da Miramount, agora para deixar também que a sua essência seja parte do estúdio, com as pessoas a poderem transformar-se nesta. Ou seja, existe a possibilidade de cada elemento tomar um produto e transformar-se temporariamente no seu actor ou actriz preferido, enquanto o cinema como meio criativo parece estar a definhar. Robin assina o contrato mas logo se arrepende, ao mesmo tempo que lida com uma rebelião contra a tecnologia, sendo temporariamente protegida por Dylan Truliner (Jon Hamm), o Chefe do Departamento Robin Wright na Miramount. Sem querermos entrar em mais detalhes, o realizador Ari Folman vai utilizar a animação e ainda o live action para explorar algumas das possibilidades que os formatos permitem. Utiliza a animação para criar um mundo de possibilidades aparentemente infinitas e ilusórias, bem como o live action para expor toda uma realidade distópica pouco aprazível, com parte da humanidade a ter preferido partir para o território animado. No meio de tudo isto, brilha Robin Wright num dos grandes papéis da sua carreira, quer quando aparece corporalmente, quer a emprestar a sua voz, sobressaindo também o magnífico trabalho de Ari Folman, sobretudo a nível do argumento (tendo como base o livro "The Futurogical Congress"). Folman mostra-nos que, felizmente, continua a existir espaço para a criatividade no cinema, para fazer os espectadores reflectirem e divagarem sobre as obras cinematográficas e a Sétima Arte, para explorar o talento de actrizes como Robin Wright, ao mesmo tempo que apresenta uma realidade alternativa que, em certa medida, até entronca no nosso quotidiano.

 Quantas obras cinematográficas formatadas pelos estúdios, sem grande espaço para a criatividade, estreiam nas salas de cinema? Veja-se o caso da mão de ferro de estúdios como a Marvel, independentemente de gostarmos dos seus filmes ou não, que procuram afastar realizadores que se desviem em demasia do seu padrão. Ou, fora dos blockbusters, com Paul Schrader a ter perdido recentemente o direito à montagem final de "Dying of the Light". Felizmente vivemos numa realidade onde ainda continuamos a assistir a alguns trabalhos criativos brilhantes, nos quais "The Congress" se insere, com Ari Folman a ter momentos de enorme inspiração, quer nas cenas com actores e actrizes reais, quer nos coloridos momentos de animação, colocando-nos perante uma realidade alternativa que até poderia ser o "sonho molhado" de alguns executivos dos estúdios mas felizmente, ou esperamos nós, não está para acontecer para breve. A realidade de "The Congress" a espaços é algo pessimista para a criatividade artística, procurando expor os perigos que o mau uso da tecnologia pode trazer, ao mesmo tempo que nos deixa perante a boa utilização da mesma, resultando numa representação complexa e pouco maniqueísta. "The Congress" surge-nos assim como um filme que desafia as barreiras dos géneros cinematográficos, do cinema, dos sentimentos, da ilusão e da realidade, naquela que é uma experiência desafiante a nível narrativo e sensorial ao mesmo tempo que nos coloca perante alguns momentos brilhantes da Sétima Arte. É também uma alegoria sobre a nossa sociedade, sobre a dicotomia entre o ser e o parecer, com parte da população a preferir viver na ilusão ao invés de permanecer na realidade, num filme onde as medidas ditatoriais do estúdio quase que podem servir para extrapolarmos para os perigos do controlo excessivo de uma entidade sobre outra, quer a nível pessoal, quer a nível colectivo. Veja-se o caso do controlo dos Estados totalitários sobre a população e o seu quotidiano, com a Miramount a pretender exercer essa coerção em relação aos seus actores e actrizes. As cenas de animação são marcadas por momentos que variam entre o realismo, o comentário social e a alucinação, com Ari Folman a não ter problemas em expor uma visão da arte, da vida e da individualidade e personalidade do ser humano que podemos ou não "comprar" mas é capaz de nos fazer reflectir. Iríamos nós preferir viver numa ilusão onde seríamos felizes, ou lidar com uma realidade pouco aprazível? É uma pergunta de resposta difícil, com "The Congress" a não ser um filme de questões fáceis, procurando extrapolar e muito a sua premissa inicial, algo que nos deixa diante de uma obra cinematográfica que tanto é capaz de abordar o papel de uma actriz no cinema como de nos deixar perante uma reflexão sobre a condição humana. Existe ainda espaço para o elenco sobressair, seja Robin Wright como uma actriz em decadência, seja Paul Giamatti como o médico do filho da protagonista, seja Danny Huston como o tirânico executivo do estúdio, entre outros actores e actrizes, com Ari Folman a demonstrar o respeito que a Miramount não apresenta em relação a estes profissionais. No final, o trabalho dos actores e das actrizes terá sempre de ser valorizado, mas também o dos realizadores e realizadoras e de toda a equipa que os acompanha, com "The Congress" a exibir isso mesmo, tendo sido uma das grandes estreias nas salas de cinema portuguesas em 2014.

Título original: "The Congress".
Título em Portugal: "O Congresso". 
Título no Brasil: "O Congresso Futurista".
Realizador: Ari Folman.
Argumento: Ari Folman.
Elenco: Robin Wright, Danny Huston, Paul Giamatti, Jon Hamm, Harvey Keitel.

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