13 março 2015

Resenha Crítica: "Cinderela" (2015)

 Acompanhado por um conjunto de elevados valores de produção, notórios no cuidado a nível dos cenários e do guarda-roupa, "Cinderella" capta o espírito do clássico filme de animação homónimo da Walt Disney. Para o bem e para o mal não estamos perante um filme em live action que pretende apresentar uma versão revisionista da obra de animação, algo que resulta num romance açucarado, marcado por um tom algo naïve, anacrónico e coerente ao longo de toda a sua narrativa. "Cinderella" não procura, nem tenta esconder os seus propósitos, com o realismo a nunca fazer parte de um enredo marcado pela fantasia onde uma jovem fala com animais, exibe uma enorme doçura para com todos aqueles que a rodeiam, embora alguns revezes coloquem-na numa situação adversa, enquanto Kenneth Branagh realiza uma obra com alguma classe, capaz de captar a atmosfera do filme de animação e trazê-la para o campo da realidade. A jovem é Ella (Lily James), uma rapariga que cresceu numa casa espaçosa, rodeada por uma quinta, onde habitou com o seu pai (Ben Chaplin) e a sua mãe (Hayley Atwell). Estes pareciam formar a família perfeita, com a mãe da protagonista a procurar incutir-lhe valores como coragem e bondade, repetidos até à exaustão ao longo do filme, até a personagem interpretada por Hayley Atwell adoecer e posteriormente falecer. Alguns anos mais tarde, o pai de Ella casa-se com Lady Tremaine (Cate Blanchett), uma viúva que vem acompanhada pelas suas fúteis, espampanantes e berrantes filhas, Drizella (Sophie McShera) e Anastasia (Holliday Grainger). Tremaine vem ainda acompanhada pelo seu gato Lúcifer, que promete colocar em perigo os quatro ratos de estimação de Ella, uma jovem que procura falar com os animais como se estes a compreendessem, com esta a apresentar bondade até diante destes elementos. No entanto, a morte do pai de Ella conduz a que esta seja mal-tratada pela madrasta e as meias-irmãs, a ponto de passar a ser praticamente encarada como uma criada, sendo confinada a viver no porão. Não sai de casa devido a ter prometido aos pais tomar conta da mesma, mas os momentos são de grande infelicidade. É num momento de maior tristeza que vagueia pelo bosque, onde conhece um indivíduo chamado Kit (Richard Madden) que se encontra a caçar um veado com diversos elementos. Esta logo procura travar Kit, despertando a atenção do mesmo, desconhecendo que está a falar com um príncipe. Pouco tempo depois, Kit organiza um baile, onde convida os elementos da nobreza e plebeus para ver se reencontra a misteriosa jovem que despertou a sua atenção. A madrasta proíbe Cinderela de ir ao baile, chegando a rasgar o vestido cor de rosa (que outra cor poderia ser) que pertencera à mãe da protagonista mas, como sabemos, a Fada Madrinha (Helena Bonham Carter) aparece e salva a situação. Uma abóbora é transformada num luxuoso coche, um cisne é transformado num condutor do veículo, os ratos viram temporariamente cavalos, com tudo a terminar à última badalada da meia-noite. Cinderela desperta a curiosidade de tudo e todos no baile, encantando o príncipe, que logo dança com esta. A dança é coreografada com cuidado e classe, acompanhada por uma banda sonora a preceito e um romantismo notório, até Cinderela ter de sair à pressa e deixar cair um dos seus sapatos de cristal. O resto da história não é novidade, com o príncipe a procurar a portadora do sapato, tendo em vista a pedi-la em casamento.

 O grão-duque (Stellan Skarsgard) procura que o príncipe case com alguém da nobreza que permita expandir o território do pequeno reino ainda administrado pelo rei (Derek Jacobi). No entanto o príncipe apenas quer casar por amor, algo que o leva a procurar a todo o custo por Ella, num romance completamente anacrónico que emana Walt Disney por todos os seus poros. Se podemos apontar alguns problemas a "Cinderella", tais como as enormes doses de lamechice e ideais relacionados com uma relação amorosa que não ressoam nos dias de hoje, o mesmo não se pode dizer da sua procura em respeitar o filme de animação produzido por Walt Disney (inspirado, tal como este filme, no conto de Charles Perrault). Diga-se que, embora não esteja vivo, a mão deste parece estar em todo este filme que nos apresenta a uma história recheada de fantasia, candura e algum humor. Uma jovem parece assistir passivamente aos maus-tratos a que é sujeita, muitas das vezes até com um sorriso, fala com ratos, acredita em fadas-madrinhas e príncipes encantados, parecendo demasiado simpática e cândida para ser verdade, ou, pelo menos, para soar verdadeira. O próprio momento em que esta utiliza os sapatos de cristal é paradigmático do tom de conto de fadas do filme, com o realizador Kenneth Branagh a não procurar alterar esta característica da história, com a colaboração entre a Disney e a Swarowski a resultar numa peça de vestuário valiosa que revela mais uma vez o cuidado e adequação do guarda-roupa (existe muito mérito da figurinista Sandy Powell, a mesma de "Shakespeare in Love", "The Departed", "The Other Boleyn Girl", "Hugo", entre outras obras cinematográficas). Lily James e Richard Madden procuram atribuir alguma credibilidade aos personagens que interpretam, mesmo quando os diálogos surgem demasiado açucarados, conseguindo convencer-nos do tom naïve de Cinderela e Kit, bem como do amor que une os dois personagens. James consegue transmitir uma doçura latente à personagem que interpreta, a um ponto que quase nos convence de toda a extrema bondade de Cinderela. Madden interpreta um elemento que procura a jovem que arrebatou o seu coração, quebrando regras protocolares e os conselhos daqueles que lhe são mais próximos. Se Lily James e Richard Madden destacam-se pela candura e bondade que atribuem aos personagens que interpretam, já Cate Blanchett aparece imponente, deliciosamente malvada e espampanante como esta mulher oportunista que procura o melhor para si e para as suas filhas. Blanchett rouba o destaque na maior parte das cenas que protagoniza, conseguindo fugir dos elementos caricaturais e criar uma das personagens de maior destaque do filme, enquanto Helena Bonham Carter tem uma pequena mas deliciosa participação como a Fada Madrinha, gerando alguns momentos de humor advindos das transformações caricatas que elabora. A Fada pouco aparece, mas quando surge é para nos deixar diante de alguns momentos de humor, apesar de faltar alguma da mordacidade que esperaríamos com a presença desta magnífica actriz. Também Nonso Anonzio, o intérprete do capitão e amigo do príncipe, protagoniza alguns momentos de leveza, ao contrário de Stellan Skarsgard que empresta algum do seu carisma ao pragmático grão-duque. Skarsgard é um dos exemplos paradigmáticos do talento do elenco secundário do filme, nem sempre bem aproveitado mas capaz de atribuir uma dimensão que o argumento de Chris Weitz nem sempre consegue dar ao procurar seguir em demasia a "cartilha Disney". Já Holliday Granger e Sophie McShera praticamente não saem de um tom caricatural, interpretando as esgrouviadas meias-irmãs de Ella, duas jovens sem talento para praticamente nada que procuram conquistar o príncipe no baile mas apenas caem no ridículo.

 O baile é um dos vários momentos onde fica representado todo o cuidado colocado na decoração e aproveitamento dos cenários, incluindo a nível da preparação dos figurantes, com o espaço do palácio a surgir grandioso e adequado à solenidade do evento. É neste espaço que Ella e Kit dançam e firmam definitivamente a sua paixão, com este local a ser um dos vários cenários do filme a sobressaírem, tal como o guarda-roupa. Veja-se a imensidão de fatos de Cate Blanchett, sobressaindo as vestimentas verdes, ou as cores berrantes utilizadas pelas filhas da madrasta de Ella. As cores berrantes contrastam com o estilo discreto de Ella que apenas sobressai no baile, ao contrário do príncipe, habituado a vestes mais luxuosas. O guarda-roupa e os cenários são o ponto alto do filme, bem como o aproveitamento dos mesmos, com a história a provavelmente dizer mais a quem é fã do filme de animação original e deste tipo de contos de fadas. Por um lado, elogia-se não existir revisionismo, por outro Ella parece muitas das vezes uma personagem sem sal, tal como o príncipe, que ficam sempre a perder para figuras como a madrasta e o grão-duque, ambos mais cínicos, mais complexos, mais memoráveis, a ponto de muitas das vezes apreciarmos mais a presença de Blanchett no ecrã do que a de James. O romance é anacrónico, marcado por uma faceta de contos de fadas da Walt Disney, algo que se torna simultaneamente como uma das maiores forças e fraquezas do filme. Por um lado respeita o filme de animação, por outro parece demasiado naïve e "açucarado" para nos convencer totalmente, apresentando uma visão da mulher demasiado dependente do homem para ser feliz (uma visão que, apesar do sucesso de filmes como "Fifty Shades of Grey", acredito já ter mudado). Veja-se ainda os momentos de Cinderela com os seus ratos de estimação, algo que até pode trazer algum humor ao filme mas nem por isso nos faz esquecer que estamos diante de uma humana a falar para... ratos (em CGI). No entanto, é praticamente inegável que estamos diante de uma obra com elevados valores de produção, muito marcada por elementos comummente associados aos filmes de animação clássicos da Walt Disney, surgindo como uma das adaptações mais competentes dos mesmos, com a própria cinematografia de Haris Zambarloukos e a banda sonora de Patrick Doyle a procurarem adaptar-se aos mesmos. Estamos diante de um conto de fadas com actores e actrizes reais, mesclado com elementos da Walt Disney, elevados valores de produção e um elenco relativamente competente, numa obra que está longe de surpreender ou entusiasmar, embora me seja difícil negar o refinamento que Kenneth Branagh procura incutir nesta adaptação. Com um guarda-roupa cuidado, um conjunto de cenários que ficam na memória, uma utilização extravagante da paleta cromática, um romance açucarado e uma atmosfera que parece saída de um conto de fadas da Walt Disney, "Cinderela", para o bem e para o mal, respeita o filme de animação que lhe antecedeu, com Kenneth Branagh a demonstrar que é possível adaptar este material para live action. Não me convenceu totalmente, mas também não me aborreceu, existindo a noção da minha parte que não sou propriamente o público-alvo deste filme, embora tenha ficado eternamente agradecido a Branagh por ter-me poupado a números musicais.

Título original: "Cinderella".
Título em Portugal: "Cinderela".
Realizador: Kenneth Branagh.
Argumento: Chris Weitz.
Elenco: Lily James, Richard Madden, Cate Blanchett, Stellan Skarsgård, Holliday Grainger, Derek Jacobi, Helena Bonham Carter.

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