09 março 2015

Resenha Crítica: "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" (Musicais da Broadway: Uma Herança Judaica)

 "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" surge como um documentário informativo e dinâmico sobre a importância dos compositores e letristas judeus para os musicais da Broadway, mas também sobre a história destes últimos. Realizado e produzido por Michael Kantor, este documentário elaborado inicialmente para a televisão apresenta-nos a elementos como a influência do Teatro Yiddish, localizado no Lower East Side de Nove Iorque, nos musicais da Broadway, passando pelo despontar de nomes como os irmãos George e Ira Gershwin, as transformações introduzidas por Stephen Sondheim, até à polémica encenação de "The Producers" por parte de Mel Brooks que ridicularizava Adolf Hitler. É também a evolução da Broadway e da sociedade que vamos acompanhar, embora falte um pouco de maior densidade na exploração do contexto que envolve os interessantes episódios deste documentário narrado por Joel Grey. Nesse sentido, "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" tem um especial interesse por nos dar a conhecer ou recordar a influência judaica nos espectáculos musicais da Broadway, bem como alguns dos nomes mais influentes que rodearam os mesmos. Não faltam elementos como Irving Berlin, George Gershwin, Kurt Weill, Leonard Bernstein, Adolph Green, Lorenz Hart, Richard Rodgers, Stephen Sondeim, Oscar Hammerstein II, Jule Styne, Mel Brooks, entre tantos outros nomes que marcaram a história dos musicais da Broadway. Veja-se o caso do compositor George Gershwin que teve sucessos como "Rhapsody in Blue" (1924), "An American in Paris" (1928) e "Porgy and Bess" (1935), com este último a ser bastante realçado. Um dos primeiros sucessos de George Gershwin é "Swanee" (1919), desenvolvido com a colaboração de Ian Caesar, uma música cujos ritmos são muito semelhantes às canções judaicas, algo salientado e exemplificado ao piano por Michael Tilson Thomas (neto de Boris e Bessie Thomashefski), enquanto a narração salienta que este é o trabalho mais popular do compositor. Curiosamente, George Gershwin foi rejeitado pelos elementos do Teatro Yiddish devido a ser considerado "demasiado americano", algo que fica realçado com "Rhapsody in Blue", um espectáculo no qual a influência do jazz e blues parece ser latente. Já Ira Gerwish, o irmão, ficou conhecido pela escrita de canções, tendo colaborado muitas das vezes com George. Estes compositores e letristas mencionados procuravam reunir diversas influências culturais, com os elementos musicais judaicos a mesclarem-se com os dos EUA, algo que também fica latente no caso de Irving Berlin, exposto como um dos compositores e letristas mais proeminentes da Broadway, com várias das suas canções a manterem relevância nos dias de hoje. A adaptação de Berlin, nascido na agora Bielorrússia, ao território dos EUA não passou apenas pela assimilação dos elementos musicais, mas também pela própria utilização de um nome artístico distinto para parecer natural deste país, tal como fizeram outros colegas de profissão: Irving Berlin na realidade chamava-se Israel Isadore Beilin; Ira Gershwin tinha como nome de nascimento Israel Gershowitz, tal como o irmão se chamava Jacob Gershowitz mas assumia o nome artístico de George Gershwin, entre outros exemplos.

No caso de Irving Berlin este foi ao ponto de elaborar duas canções icónicas da cultura popular dos EUA, nomeadamente, "White Christmas" e "Easter Parade", expondo não só aquilo que ele deu ao país, mas também o que assimilou do mesmo ao longo dos seus cerca de sessenta anos de carreira (viveu entre 11 de Maio de 1888 e 22 de Setembro de 1989). Outro dos nomes proeminentes na Broadway e no panorama musical dos EUA foi Kurt Weill (2 de Março de 1900 a 3 de Abril de 1950), um judeu alemão que saiu do seu país após a ascensão do III Reich. Este seria um dos vários alemães que viriam a marcar a cultura dos EUA, um pouco como os cineastas, actores e actrizes que saíram da Alemanha após a ascensão de Adolf Hitler ao poder. Já Lorenz Hart (letrista) e Richard Rodgers tiveram algumas dificuldades iniciais em ascenderem na Broadway, até sobressaírem com a ritmada "Manhattan", uma canção que é apresentada parcialmente no documentário. Um dos poucos compositores não judeus a vingar na Broadway foi Cole Porter, com este a adoptar os ritmos dos primeiros após alguns fracassos, com o filme a expor a influência destes na música deste artista. Antes destes elementos, o documentário apresenta-nos ainda a Boris Thomashefsky, um judeu que sobressaiu no Teatro Yiddish, um espaço cuja história pouco é explorada embora a sua influência nos musicais da Broadway seja mencionada. A vida destes elementos e as suas carreiras são abordadas de forma bastante sucinta, com o documentário a procurar oferecer sobretudo uma visão geral sobre estes compositores e letristas que marcaram a História da Broadway e influenciaram Hollywood, ao mesmo tempo que expõe o melting pot da cultura dos EUA. Os próprios compositores como David Shire ("Baby", "Big", etc.), Stephen Schwartz ("Godspell", "Wicked", etc.) e Marc Shaiman ("Hairspray", "Smash", etc.) exibem ao piano algumas das diferenças e semelhanças entre os ritmos da música das peças de teatro judaicas e os ritmos associados aos afro-americanos (blues, jazz), algo que acaba por funcionar de forma didática para o espectador menos versado nas artes musicais ou menos atento aos pequenos pormenores. Diga-se que ao longo do documentário assistimos ainda às mudanças temáticas dos espectáculos ao longo dos anos, com estas alterações a estarem muitas das vezes ligadas ao período histórico em questão. Veja-se o caso de "West Side Story", uma peça da Broadway com canções compostas por Leonard Bernstein e letras escritas por Stephen Sondeim. Tal como é salientado, "West Side Story" aborda questões que ainda são relevantes nos dias de hoje, tais como a emigração para os EUA e a assimilação da nova cultura e a influência que os emigrantes também trazem. Diga-se que parece ser uma tendência que veio a aumentar com o tempo, com as colaborações entre Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II a abordarem questões sociais em peças como "Show Boat" e "Carousel", com este último a ter causado bastante polémica devido a nem todos os elementos do público compreenderem o humor negro utilizado. Se "Carousel" foi polémico, já "Fiddler on the Roof" surgiu com um dos primeiros musicais da Broadway a contar com protagonistas e temas judaicos, algo até então nem sempre comum de se ver. O documentário aponta "Fiddler on the Roof" como a primeira peça da Broadway a centrar-se na temática, embora como realce P.S. Colbert no DVDVerdict, anteriormente já "Milk and Honey" tinha abordado o tema. Diga-se que as temáticas relacionadas com os outsiders e aqueles que vinham de fora ou tinham parcas condições eram abordadas, uma situação que ressoava junto dos elementos judaicos, embora não fosse abordada com a forma directa de "Fiddler on the Roof", um dos muitos musicais marcantes que contou com o contributo de judeus, com a Broadway, como é salientado no documentário, a surgir como um local onde estes eram encarados pelo seu trabalho e não por serem ou não elementos judaicos.

 Temos ainda as mudanças introduzidas por Stephen Sondheim, com "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" a deixar-nos diante de um conjunto de indivíduos de enorme talento que marcaram de forma indelével os musicais nos EUA, mas também a sua cultura popular. Não quer dizer que tenham sido sempre totalmente aceites pela sociedade, mas aos poucos deixaram de ser outsiders, com o documentário a transmitir a acertada ideia que os EUA só têm a ganhar se assumirem de vez os benefícios culturais de serem um país marcado pela vinda de emigrantes. Hoje é um tema ainda quente, mas não deixa de ser curioso verificar como este país beneficiou imenso deste melting pot, com Michael Kantor a expor de forma eficaz o quão relevantes foram os judeus para os musicais, ao mesmo tempo que permeia a obra com trechos de muitos dos seus trabalhos, algo que introduz em alguns momentos um ritmo contagiante a "Broadway Musicals: A Jewish Legacy". Ao longo de "Broadway Musicals: A Jewish Legacy", Michael Kantor deixa-nos com imagens e vídeos de arquivo, comentários e depoimentos de historiadores como Philip Furia, Stuart J. Hecht e Laurence Maslon, bem como de elementos como Jamie Bernstein (a filha de Leonard Bernstein), Ben Sidran (produtor musical), Michael Strunsky (sobrinho de Ira Gershwin), Mary Ellin Barrett (filha de Irving Berlin), Josh Kun (crítico musical), Charles Strouse (compositor de "Annie", etc.), entre muitos outros que ajudam a atribuir um maior dinamismo, credibilidade e conteúdo ao documentário, enquanto ficamos perante vários elementos que comprovam a influência que os vários compositores e letristas judeus tiveram ao longo da História dos musicais da Broadway e até da cultura popular dos EUA. Temos ainda momentos mais informais, sobre os bastidores e as relações entre estes indivíduos, com as filhas de Adolph Green e Leonard Bernstein a abordarem o início da relação de amizade e profissional dos respectivos pais, num campo de férias (considerado um local importante para a formação de alguns destes elementos a nível de personalidade), enquanto "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" nos deixa perante um vídeo de arquivo duma colaboração destes com Betty Comden, no qual ficamos diante dos mesmos a tocarem e cantarem a música "Carried Away" (de "On the Town"). O filme conta ainda com os seus próprios momentos musicais, com David Hyde Pierce (o Niles Crane da série "Frasier") a cantar sobre a importância de ter um judeu numa peça da Broadway para obter sucesso, ou Matthew Broderick e Kelli O'Hara a interpretarem a canção "Let's Call the Whole Thing Off" de Ira Gerwish, com a dupla a expor as diferentes formas de pronunciar palavras como "potato", "tomato" e "pijama". É óbvio que o documentário beneficiaria de uma maior contextualização histórica, apesar desta estar presente, bem como de um maior desenvolvimento da história dos elementos retratados, mas nem por isso deixa de cumprir o objectivo primordial de demonstrar a influência benéfica dos judeus na cultura popular dos EUA. Diga-se que várias das músicas destes elementos e os seus trabalhos viriam a enraizar-se na cultura popular dos Estados Unidos da América, algo visível nos dois exemplos dados das músicas escritas e compostas por Irving Berlin. "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" confirma ainda o fascínio e interesse de Michael Kantor pela História da Broadway, ou não tivesse anteriormente produzido e realizado "Broadway: An American Story", uma minissérie documental de seis episódios que acompanha um período temporal compreendido entre 1893 e a data em que estes trabalhos foram lançados (2004). São muitos anos de História, nos quais os judeus tiveram um enorme relevo, como podemos ver em trabalhos como "My Fair Lady", "West Side Story", "Fiddler on the Roof", "Annie", "The Producers", entre tantos outros que marcaram a Broadway e a cultura popular. Dinâmico e informativo, "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" cumpre com eficácia a tarefa de nos apresentar à importância dos elementos judaicos para os musicais da Broadway, servindo sobretudo como um bom ponto de partida sobre uma temática que merece e deve ser realçada.

Título original: "Broadway Musicals: A Jewish Legacy".
Realizador: Michael Kantor.

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