02 março 2015

Resenha Crítica: "Black Sea" (Mar Negro)

 Falta convicção, ideias, criatividade, coerência, emoção, sentimento e capacidade de surpreender a "Black Sea", um filme realizado com pouca inspiração por parte de Kevin Macdonald, enquanto se afunda pelas profundezas das obras cinematográficas incapazes de deixarem marca. Não é que estivéssemos à espera de um filme com tanto valor como as barras de ouro pretendidas pela equipa liderada pelo Capitão Robinson (Jude Law), mas também não era necessário ficarmos diante de uma obra cinematográfica que nunca sai da mediania. Robinson é-nos apresentado no início do filme como um indivíduo que trabalhou cerca de trinta anos como piloto de submarinos, competente, com espírito de liderança e fortes valores profissionais. No início de "Black Sea", Robinson é despedido da Agora, uma empresa privada onde trabalhava há cerca de dez anos. A sua actividade é considerada obsoleta, tal como os submarinos deixaram de ter a relevância de outrora (excepção feita em Portugal mas não nos dispersemos). Este fica irritado com a forma desumana como é descartado, tal como foram Kurston (Daniel Ryan) e Blackie (Konstantin Khabenskiy), dois antigos colegas de profissão e amigos pessoais. É então que Kurston surge com a ideia de efectuarem uma missão privada para tentarem encontrar um submarino que conta com cerca de quarenta milhões de dólares em barras de ouro, enviadas por Estaline a Adolf Hitler durante a II Guerra Mundial. O submarino afundou, com o paradeiro do mesmo a ser supostamente desconhecido, embora Kurston descubra o mesmo a noventa metros da superfície, bem como a Agora e o Governo da Geórgia, embora um conflito político desta nação com a Rússia conduza a empresa e os georgianos a não poderem efectuar uma investida ao local devido a não poderem infringir a lei. Robinson e Reynolds encontram-se com Daniels (Scoot McNairy) e o chefe deste último, um magnata com objectivos obscuros que vai financiar o pagamento do submarino para a equipa recrutada pelo primeiro iniciar a missão. Pouco sabemos sobre este investidor, embora mais tarde surja uma reviravolta em relação à sua identidade, numa tentativa desesperada do argumento em dar maior intensidade a algo que desde o início cheira sempre a esturro. A missão é secreta, ou seja, a serem bem sucedidos, os elementos teriam de vender o ouro e trocar o dinheiro, embora nunca seja esclarecido como pretendem efectuar este processo ou se os dobrões encontram-se marcados (o que seria provável). O que interessa ao argumento é que Robinson reúne rapidamente uma equipa composta por doze elementos, metade da Rússia, metade britânicos (nunca fica esclarecido o local de nascimento do protagonista já que Jude Law apresenta um sotaque a variar entre o inglês e o russo de forma incoerente ao longo do filme, embora Robinson pareça ser escocês), com todos a receberam a mesma parte, algo que vai irritar elementos como Fraser (Ben Mendelsohn), um integrante da equipa cujas intenções maliciosas nunca enganam. Da equipa destaca-se ainda Tobin (Bobby Schofield), um jovem de dezoito anos de idade, sem grandes posses, que deu a Robinson a notícia que Kurston cometeu suicídio. Com excepção de Tobin e Daniels, todos os elementos que integram a equipa são antigos especialistas nas respectivas áreas que hoje em dia encontram-se sem grandes perspectivas de vida, surgindo como um grupo de desajustados da sociedade que procura enriquecer nesta aventura que poderá valer dois milhões de dólares a cada um. 

Sem grandes apresentações destes personagens ou desenvolvimento do espírito do grupo que vai trabalhar em conjunto, "Black Sea" logo coloca estes elementos a trabalhar no submarino enquanto se aventuram até ao Mar Negro e preparam-se para colocar as suas vidas em risco. Aos poucos a tensão aumenta entre os integrantes da equipa, quer entre os russos e os britânicos, quer no interior do segundo grupo. A obrigação de Daniels estar presente, um elemento que é claustrofóbico, pouca confiança traz ao grupo, tal como os russos exibem comportamentos pouco simpáticos para com Tobin devido a pensarem que ele é virgem, algo que consideram poder dar azar. Para tirar quaisquer dúvidas sobre este caso, logo vamos encontrar Tobin a observar a foto tirada à radiografia do seu futuro filho, enquanto Robinson desenvolve uma relação quase paternal para com o jovem. Diga-se que ao longo do filme, vamos ter referência ao jovem filho de Robinson e ao casamento falhado do protagonista (com direito aos flashbacks das mesmas cenas na praia), mas pouco do seu passado é assertivamente explorado. Um dos problemas de "Black Sea" é exactamente a falta de espessura do argumento, a incapacidade de desenvolver os personagens e o seu passado, bem como as suas personalidades, com Kevin Macdonald a pouco explorar os mesmos ao longo do filme. Por vezes dá sinais de querer mostrar que a febre do ouro pode vir a invadir a alma dos tripulantes, por vezes parece que nos vai dar um filme sobre sobrevivência num meio adverso, por vezes parece que nos vai dar uma fita sobre uma conspiração relacionada com uma grande empresa, por vezes parece que vai elaborar um filme exploitation onde aguardamos pacientemente por cada morte, por vezes parece que vai fazer um comentário social contra o capitalismo, por vezes parece que nos vai apresentar a uma história de redenção, mas fica quase sempre a meio caminho de tudo. A febre do ouro parece afectar o discernimento do protagonista, mas também a sua luta anti-grandes corporações, com Jude Law a tentar dar algum carisma ao personagem ao mesmo tempo que se perde por um sotaque bizarro que distrai mais do que incrementa o protagonista. Robinson está longe gerar uma febre pelo ouro como Dobbs (o personagem a quem Humphrey Bogart dá vida em "The Treasure of Sierra Madre"), tal como está distante de ser uma figura marcante ou complexa. Se é verdade que Robinson procura segurar a equipa, também não deixa de ser notório que tem tremendas dificuldades em travar Fraser, um elemento que se encontra contra os russos e não tem problemas em eliminar quem se meta no seu caminho. Fraser é interpretado por Scoot McNairy, um actor competente a explorar o lado tresloucado e violento do seu personagem, surgindo a par de Jude Law e Ben Mendelsohn como os elementos que mais sobressaem ao longo do elenco. 

Bobby Schofield ainda tem algum tempo no enredo para se tentar destacar mas pouco carisma apresenta, enquanto o argumento efectua notoriamente um paralelismo entre o personagem que interpreta e o filho de Robinson, com o protagonista a procurar cuidar do jovem tripulante como nunca fez com o rebento devido a estar sempre ocupado com o trabalho. Temos ainda os elementos russos, cada um com uma especialidade, mas poucos conseguem afirmar a sua personalidade, com excepção de Morozov (Grigoriy Dobrygin), um indivíduo que sabe falar inglês, algo que pouco espaço dá para os actores deste país brilharem e remete para outro dos problemas do filme. A certa altura do enredo, um "acidente" leva a que o submarino afunde, algo que conduz a ser necessário descobrir o veículo nazi para encontrarem não só o ouro, mas também a peça que falta para colocar tudo a funcionar novamente. Existem mortes nesse acidente, mas pouco nos importamos, tal como praticamente não nos preocupamos com o destino dos personagens precisamente devido à falta de densidade dos mesmos, apesar de não faltarem eventos que vão colocar em causa a integridade destes ao longo do enredo. É praticamente impossível gerar alguma preocupação pelos personagens quando Kevin Macdonald é incapaz de gerar o mínimo de empatia entre os mesmos e os espectadores, ou pelo menos tentar desenvolver as suas personalidades para além dos estereótipos apresentados inicialmente. Temos momentos de alguma tensão, tais como uma busca fora do submarino, em particular nas profundezas do Mar Negro, ou o último terço onde percebemos que poucos elementos vão sobreviver, mas muitos destes episódios perdem impacto perante a falta de dimensão de vários personagens. A própria atmosfera que rodeia o interior do submarino, o cenário primordial de "Black Sea", nem sempre se revela tão opressora ou claustrofóbica como poderíamos esperar ou a banda sonora dá a entender, algo que se torna caricato se pensarmos que estamos perante personagens que estão num espaço fechado localizado nas profundezas do mar e em constantes conflitos entre si. "Black Sea" embrenha-se pelos mares e esquece-se de se embrenhar pelas almas dos personagens, de torná-los credíveis junto dos espectadores e fazer-nos preocupar com os seus destinos ou pelo menos ficarmos a conhecer melhor as suas personalidades, algo que tira impacto a alguns momentos mais intensos. Mesmo o protagonista está longe de conseguir despertar o nosso total interesse, sobretudo no que diz respeito ao seu papel falhado como pai e marido, já que estes elementos são utilizados apenas de forma ilustrativa e nunca como algo que sirva o real desenvolvimento do personagem. É um indivíduo revoltado que procura manter a equipa sob a sua liderança, mesmo quando as suas atitudes parecem menos razoáveis, parecendo disposto a tudo para conseguir o ouro, embora nunca ceda nos princípios de dividir o mesmo quinhão para cada elemento. 

A intrepidez de Robinson raramente está em causa, ao contrário de Kevin Macdonald, cuja realização surge desprovida de chama e interesse. A cinematografia de Christopher Ross sobressai ao longo do filme, sobretudo no que diz respeito à utilização da paleta cromática, com as tonalidades azuis e vermelhas a surgirem em contraste no interior do submarino, um pouco como os sentimentos dos personagens. O aproveitamento da paleta cromática é inspirado, tal como o cuidado na representação das divisórias do submarino, ao contrário do argumento, num filme de submarinos que inicialmente ainda tenta uma alusão interessante a Adolf Hitler e Josef Stalin, criando todo um ambiente intrigante que se dilui pouco tempo depois dos créditos iniciais. Existe potencial para mais, sobretudo a nível do argumento, com este a ser incapaz de atribuir espessura ao enredo e a boa parte dos personagens que povoam o mesmo. A ameaça russa é salientada mas raramente sentida, os discursos anti-grandes corporações são expostos embora pouco impacto causem, enquanto assistimos a um decréscimo gradual do contingente do submarino, com vários personagens a morrerem. Diga-se que Daniels coloca inicialmente a questão do que poderá acontecer se algum elemento começar a pensar em eliminar outros para aumentar os proveitos nos lucros, algo de que Robinson tem consciência, apesar de pouco fazer para evitar uma situação destas. Aos poucos a atmosfera começa a ficar mais carregada entre os personagens, com Fraser a sobressair como um dos elementos mais violentos, Daniels como um manipulador e Robinson como um capitão que aos poucos parece ser consumido pelo desejo de ficar rico. Jude Law nem sempre convence, nem parece estar à vontade neste papel, apesar de ser o elemento em maior destaque num filme em que Ben Mendelsohn e Scoot McNairy muitas das vezes "roubam-lhe a cena" e Kevin Macdonald fica a meio caminho entre aquilo que terá idealizado no papel e aquilo que conseguiu criar. É um filme que procura apresentar uma caça ao tesouro com uma premissa relativamente interessante, ancorada na II Guerra Mundial e algum realismo que aos poucos se vai perdendo, tal como "Black Sea" se perde facilmente diante de filmes de submarinos muito mais interessantes e conseguidos como "The Hunt for Red October". Entre a caça ao ouro, a luta pela sobrevivência, alianças e traições internas, a equipa do submarino liderada por Robinson lida com uma série de adversidades e reviravoltas que perdem muito do efeito devido a uma realização pouco inspirada de Kevin Macdonald, que afunda "Black Sea" pelas profundezas da banalidade.

Título original: "Black Sea". 
Título em Portugal: "Mar Negro". 
Realizador: Kevin Macdonald.
Argumento: Dennis Kelly.
Elenco: Jude Law, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, Grigoriy Dobrygin, Konstantin Khabenskiy.

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