25 março 2015

Resenha Crítica: "The Bad Sleep Well" (Warui yatsu hodo yoku nemuru)

 Depois de nos colocar diante das mudanças sociais, culturais e económicas do Japão no período do pós-Guerra ("Drunken Angel", "One Wonderful Sunday", etc), mas também do medo da bomba atómica ("I Live in Fear"), para além de filmes de época como "Seven Samurai" e uma adaptação livre de "Macbeth", Akira Kurosawa aventura-se novamente pelo universo narrativo de William Shakespeare em "The Bad Sleep Well", uma história de vingança baseada com várias liberdades à mistura em "Hamlet". É a história de uma vingança preparada de forma inteligente, em lume brando, enquanto Akira Kurosawa aproveita para efectuar um comentário sobre a corrupção em algumas grandes corporações e as suas relações promiscuas com as entidades governamentais. Procura mais uma vez explorar um tema do Japão do seu tempo, um pouco como tinha feito em obras como "One Wonderful Sunday", "Drunken Angel", "The Quiet Duel", "Scandal", "Stray Dog", entre outras, ao mesmo tempo que apresenta uma maturidade cada vez maior a trabalhar as imagens, num filme onde existe uma certa atmosfera de malaise que vai rodear toda a narrativa, incluindo o seu final. No início do filme somos colocados diante do casamento de Yoshiko Iwabuchi (Kyoko Kagawa), a filha de Iwabuchi (Masayuki Mori), o vice-presidente da Corporação Pública para o Desenvolvimento da Terra, com Koichi Nishi (Toshiro Mifune), o secretário deste último, e amigo de Tatsuo Iwabuchi (Tatsuya Mihashi), irmão da noiva e filho do personagem interpretado por Masayuki Mori. O casamento é alvo da cobertura da imprensa, em busca de uma história relacionada com o evento ou uma possível detenção. É pelos jornalistas que ficamos a saber que Iwabuchi, bem como Moriyama (Takashi Shimura) e Shirai (Kō Nishimura), dois dos elementos da confiança deste último na empresa estatal para onde trabalham, ascenderam após um caso de corrupção que ocorrera há cinco anos e envolvera o estranho suicídio de Furuya, um assistente. O caso envolvia concorrência ilegal e subornos, tendo sido abafado pelo trio que também está longe de estar livre de suspeitas. Diga-se que isso é visível no casamento, onde se encontra presente Hatano, o presidente da Dairyu Construções, uma empresa privada que conseguiu alguns contratos "esquisitos" com a empresa de Iwabuchi, liderada por Arimura (Ken Mitsuda). Esses contratos conduzem a que Hatano saliente no discurso para os noivos que não tem laços pessoais a unir a sua empresa à de Iwabuchi, algo que é desde logo alvo de troça por parte dos elementos da imprensa e nos deixa com a certeza que existe alguma corrupção ali pelo meio, tal o desconforto apresentado pelo personagem. Os elementos da imprensa surgem quase como os informadores sarcásticos do espectador, com os discursos proferidos pelos personagens durante o casório a reflectirem algum mal-estar de vários elementos. Veja-se o próprio discurso de Shirai a ameaçar o cunhado de morte se tratar mal a irmã, mas também o brinde impessoal de Moriyami, entre vários elementos. O próprio casamento é marcado pela estranheza de não se saber bem o passado de Nishi, nem as suas pretensões, para além de que o interesse deste em Yoshiko deixa algumas dúvidas. Esta é uma jovem delicada, coxa de uma perna, frágil, que parece realmente interessada no protagonista, embora este amor nem sempre pareça correspondido. Nishi tem outros planos muito próprios, ou não fosse na realidade Itakura, o filho ilegítimo de Furuya, tendo trocado de nome com o personagem interpretado por Takeshi Katō (a assumir temporariamente a identidade de Itakura).

O personagem interpretado por Toshiro Mifune pretende vingar-se e desmascarar publicamente os homens que conduziram à morte do seu pai, em particular, Iwabuchi, Moriyama e Shirai, tendo para isso um plano que se encontra a colocar em prática de forma perspicaz. Os planos do protagonista, bem como a sua identidade, são revelados de forma gradual, com este a procurar expor os crimes de Iwabuchi e companhia, bem como colocar os mesmos atrás das grades. O próprio casamento é marcado pela detenção de Wada (Kamatari Fujiwara), assistente-chefe de contratos da empresa da qual Iwabuchi é vice-presidente, com as notícias mais tarde a darem conta ainda de Miura (Gen Shimizu), responsável pela contabilidade da Dairyu, também ter sido detido para interrogatório. Não conseguem tirar informações de relevo destes dois elementos, embora pareça certo que existam vinte e três milhões de ienes não declarados nos livros de contabilidade da Dairyu. Existem ainda suspeitas que o contrato que a Corporação Pública estabeleceu com a Dairyu, a envolver valores mais avultados do que o costume, num concurso público efectuado em moldes estranhos, permitiu a alguns dos elementos beneficiarem pessoalmente do mesmo. Tudo é muito abafado, algo visível quando os elementos responsáveis por investigar o caso decidem libertar temporariamente Miura, para logo de seguida pretenderem detê-lo por corrupção, embora este receba por código as instruções para cometer suicídio, um acto que cumpre à risca. Também Wada procura seguir essas instruções, procurando atirar-se para o interior de um vulcão em actividade, mas é interrompido por Nishi. Quase todos pensam que Wada morreu, mas Nishi utiliza este elemento como uma figura-chave para o seu plano de vingança. Diga-se que este começara algum tempo antes, algo notório no bolo de casamento, uma réplica do local do edifício da empresa, que conta com uma flor no interior do andar onde ocorrera o suposto suicídio de Furuya. É um símbolo que deixa quase todos incomodados, com a banda sonora e a cinematografia a acentuarem este sentimento, ao mesmo tempo que vamos ficando com a procura de Nishi em desmascarar aqueles que conduziram à morte do seu pai, um elemento que cometeu suicídio nos moldes de Miura. O protagonista conta com a ajuda do verdadeiro Nishi, bem como de Wada, com este último a aparecer esporadicamente junto de Shirai, um indivíduo que gradualmente pensa estar a ficar louco. Nishi ainda estabelece um plano para descredibilizar Shirai junto dos seus colegas, com Moriyama a ficar encarregue de tratar do caso, algo que pode implicar a morte do personagem interpretado por Kō Nishimura. O problema é que Nishi começa realmente a amar Yoshiko, com a jovem a despertar um lado distinto do mesmo, algo que aos poucos promete comprometer os seus planos. A sua ferocidade inicial contrasta com o desejo de rever a noiva, parecendo certo que mais tarde ou mais cedo a sua identidade vai ser descoberta, algo que vai despertar a fúria de Tatsuo, um indivíduo que, durante o discurso de casamento, tinha prometido eliminar o cunhado se este enganasse Yoshiko. Nishi ainda consegue raptar Moriyama e colocar o mesmo em cativeiro até este aceitar ceder informações sobre as fraudes praticadas pela sua empresa, mas Akira Kurosawa procura acima de tudo demonstrar que na realidade nem sempre a justiça vence. Esta é a primeira obra de Akira Kurosawa produzida pela sua companhia, a Kurosawa Production Co., com o cineasta a procurar expor a corrupção a nível das grandes corporações através desta história de vingança, ao mesmo tempo que exibe alguma promiscuidade entre uma empresa estatal e uma empresa privada, procurando explorar uma temática que reflecte uma problemática que afectava o Japão deste período e não só. É um país a lidar com uma nova realidade, com as transformações do pós-Guerra ainda a fazerem-se sentir, numa obra lançada em 1960, ou seja, o término da II Guerra Mundial ainda estava bem vivo.

 O conflito tinha terminado há mais de uma década mas o território modificou-se do ponto de vista social, económico e cultural, algo representado nesta promiscuidade entre as empresas públicas e privadas, com Akira Kurosawa a apresentar algum pessimismo em relação às grandes corporações, em particular no que diz respeito à corrupção. A esta crítica social, Kurosawa junta a história de vingança de Nishi, interpretado por Toshiro Mifune, um colaborador habitual do cineasta, que sobressai mais uma vez pelo carisma que atribui aos elementos a quem dá vida. É uma interpretação mais contida a nível de gestos e expressividade por parte de Mifune, com este a dar vida a um indivíduo aparentemente calculista nos seus objectivos, que procura vingar-se daqueles que conduziram à morte do seu pai, mesmo que para isso tenha de assumir uma identidade falsa e cometer alguns actos moralmente e legalmente condenáveis. Nota-se que não é um indivíduo de má índole, acabando por começar a nutrir sentimentos por Yoshiko, uma personagem interpretada com grande delicadeza e sobriedade por parte de Kyōko Kagawa. A vida matrimonial do casal é marcada pelas constantes ausências de Nishi, para além de não dormirem no mesmo quarto, com o protagonista a procurar colocar em prática o seu plano de forma secreta. A descoberta do plano e da verdadeira identidade de Nishi não é uma surpresa, bem pelo contrário, surgindo como um momento que mais tarde ou mais cedo esperamos, embora não possamos dizer o mesmo do desfecho de "The Bad Sleep Well". Akira Kurosawa consegue controlar os ritmos da narrativa, contando muitas das vezes com um hábil trabalho de montagem (tanto temos planos de longa duração como de curta duração, compostos de forma exímia), mas também com uma banda sonora que tanto se adequa aos momentos da narrativa como contrasta com os mesmos. Este procura ainda apresentar algum realismo na exposição das temáticas, ao mesmo tempo que consegue mais uma vez atribuir densidade psicológica aos personagens que povoam o enredo e extrair algumas interpretações de bom nível dos elementos que integram o elenco. Veja-se o caso já falado de Toshiro Mifune, com este a interpretar um dos protagonistas das obras de Kurosawa que se encontram a lidar com dilemas morais. Existe o conflito do protagonista entre tentar ser tão cruel como os personagens dos quais procura vingança, utilizando a fotografia do pai para instigar a raiva interior, embora essa situação pareça relativamente impossível, com este a manter um sentido de moral que não parece existir em elementos como o sogro. É certo que se infiltra no interior da habitação do inimigo, mas aos poucos até começa a nutrir sentimentos românticos pela filha do homem que abomina. Outro colaborador habitual do cineasta é Takashi Shimura que em "The Bad Sleep Well" interpreta um elemento corrupto que trabalha para o antagonista. O personagem interpretado por Shimura está longe de apresentar os dilemas morais dos elementos aos quais dera vida em "Scandal", "I Live in Fear", "Drunken Angel", entre outras obras cinematográficas nas quais colaborou com Kurosawa, mas convence como este indivíduo que esconde parte das evidências que permitem culpar legalmente Iwabuchi. Ainda tenta vigiar Shirai, mas este último acaba por enlouquecer, algo que trava a ideia do primeiro e de Iwabuchi em mandarem alguém eliminá-lo. O antagonista principal é interpretado por Masayuki Mori, um indivíduo que colaborou com cineastas como Akira Kurosawa e Mikio Naruse, tendo em Iwabuchi um empresário corrupto que representa um lado negro do mundo dos negócios, num Japão ainda muito ligado à tradição, algo latente nos suicídios como prova de lealdade para com os seus superiores. Ou seja, encontramos ligados elementos capitalistas e até ocidentais nestes negócios mas também uma longa tradição japonesa, com Miura quase a poder ser comparado aos samurais que cometiam seppuku, demonstrando total lealdade para com aqueles com quem trabalha. Apesar de toda a frieza e corrupção que envolvem os actos deste indivíduo, disposto a utilizar dinheiro do Estado em construções públicas com empresas coniventes a "encherem-lhe os bolsos", também não deixa de ser notório que este procura ser um bom pai para Yoshiko, embora acabe por trair esta última num momento crucial do filme.

Já Wada surge como um elemento mais complexo, disposto a fazer com que pensem que está morto para poder desmascarar os actos pouco lícitos dos seus superiores, nos quais esteve envolvido. Nem sempre parece completamente à vontade com os actos praticados por Nishi, apresentando ainda resquícios de lealdade para com aqueles que o pretendiam ver morto, embora ainda procure colaborar com o protagonista. Se Wada surge como um elemento relativamente calmo, já Tatsuo é um tipo alcoólico e explosivo que, apesar de todos os seus problemas, é bem intencionado na procura de ver a irmã a ser feliz. Diga-se que o próprio protagonista também parece querer que Yoshiko seja feliz, embora nem por isso abdique de procurar expor o pai desta junto das autoridades. Toshiro Mifune e Kyoko Kagawa protagonizam dois momentos que ficam particularmente na memória, marcados por alguma ternura. O primeiro quando Yoshiko cai e Nishi logo procura socorrê-la. O segundo no último terço, quando este expõe a sua identidade e sentimentos. É uma relação complicada a destes dois personagens, com o sentimento de vingança de Nishi em relação a Iwabuchi a não se extinguir e prometer afectar aqueles que o rodeiam, incluindo o amigo que assumiu temporariamente o nome de Itakura. Será que todos estes actos de vingança valerão a pena? Tal como em "Rashomon", Akira Kurosawa não nos concede respostas absolutas, bem pelo contrário, deixando-nos perante um homem marcado por vários contrastes, embora pareça certo que nunca chega a atingir os níveis de malícia de vários dos executivos que nos são apresentados. Vale ainda a pena realçar Kō Nishimura como Shirai, um indivíduo que aos poucos começa a pensar que está a ficar louco, sobretudo quando se depara com Wada, com o seu estado mental a deteriorar-se a olhos vistos ao longo do enredo, algo que o actor consegue deixar transparecer. Ao longo destas quase duas horas e meia de filme, Akira Kurosawa consegue explorar ou dar alguma dimensão a estes personagens, sobressaindo mais uma vez o trabalho das imagens, em particular a utilização da luz e das sombras. Mérito também para a cinematografia de Yuzuru Aizawa, sobressaindo sobretudo nas cenas interiores. Veja-se o esconderijo de Nishi, localizado em Musashihara, nas ruínas de uma fábrica de munições, com este espaço a ser utilizado pelo protagonista para esconder Wada e manter Moriyama em cativeiro. O espaço é marcado por pouca iluminação onde muitos dos planos do protagonista são pensados, enquanto assistimos ao trio formado por Nishi, Wada e o verdadeiro Nishi a planear os passos seguintes que passam por denunciar Iwabuchi e companhia junto da imprensa. Diga-se que a utilização da iluminação e das sombras sobressai ainda em algumas cenas exteriores. Veja-se os momentos em que Shirai pensa estar a ver um morto, bem como o momento em que o primeiro é abordado por um assassino num beco junto à sua habitação, com o contraste entre a luz e as sombras a ficar latente. O próprio protagonista é alguém que vive entre a luz e as sombras cujo sentimento de justiça deve-se mais a cumprir a sua vendetta pessoal do que a propriamente fazer cumprir a lei, com o próprio Nishi a transgredir muitas das vezes a mesma. É uma utilização expressionista das sombras numa obra que nos remete ainda para a atmosfera de malaise dos filmes noir, para além dos personagens moralmente duvidosos, entre outros elementos. Ficamos assim perante uma crítica de Akira Kurosawa à corrupção nas grandes corporações, bem como à promiscuidade entre o Estado e as empresas privadas, mas também diante de um competente filme de vingança marcado por uma atmosfera de pessimismo latente e interpretações acima da média pela parte do elenco de luxo que compõe o filme.

Título original: "Warui yatsu hodo yoku nemuru".
Título em inglês: "The Bad Sleep Well". 
Realizador: Akira Kurosawa.
Argumento:
Hideo Oguni, Eijirô Hisaita, Akira Kurosawa, Ryûzô Kikushima, Shinobu Hashimoto.
Elenco: Toshiro Mifune, Masayuki Mori, Kyōko Kagawa, Tatsuya Mihashi, Takashi Shimura, Kō Nishimura.

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