01 março 2015

Resenha Crítica: "Anderswo" (Anywhere Else)

 Noa (Neta Riskin), a protagonista de "Anderswo", é uma jovem que se encontra a preparar uma tese sobre palavras cujo significado não é traduzível. Ouve os discursos de outras pessoas e estuda os seus movimentos corporais, tendo em vista a procurar não só perceber o significado destas palavras mas também os sentimentos que se encontram inerentes a estas. Nesse sentido, "Anderswo" deixa-nos muitas das vezes perante diversos vídeos gravados por Noa, tendo em vista a elaborar a sua tese, a começar por um indivíduo que lhe fala sobre o significado da palavra "saudade" e a impossibilidade de traduzir este sentimento na sua totalidade para alemão. Na faculdade, Noa não consegue o apoio para o seu estudo, considerado pouco fundamentado, algo que a deixa num beco sem saída e numa crise existencial. Esta é uma israelita que se encontra a viver e estudar em Berlim há oito anos, contando com a companhia de Jörg (Golo Euler), o seu namorado, um trompetista que pretende mudar-se para Estugarda, onde tem marcada uma audição. A relação entre estes dois, apesar de um ou outro problema, parece relativamente boa, pelo menos até Noa decidir inesperadamente regressar a Israel, a casa dos seus pais, e procurar reencontrar-se. Percebemos que a relação com Jörg vive momentos instáveis, não só por esta ter viajado sem avisar o namorado, mas também por numa conversa online esta perguntar se ele tem mais algum assunto a falar e este responder que não. Não existem grandes demonstrações de saudades entre ambos, embora a relação pareça ter condições para continuar. Em Israel, Noa reencontra Rachel (Hana Laslo) e Yossi Guttermann (Dov Reiser), os seus pais, bem como Netta (Romi Aboulafia), a irmã, e Dudi (Kosta Kaplan), o irmão. A relação de Noa com a mãe e a irmã parece relativamente complicada, sobretudo com a segunda, com a protagonista a ter alguma proximidade com o irmão mais novo, um jovem militar que aos poucos começa a ter muitas dúvidas em relação a esta actividade profissional. Veja-se quando no último terço decide não se apresentar, algo condenado pela sua mãe e pelo seu pai. Em Israel, Noa reencontra elementos do passado, mata saudades, incluindo da avó, uma mulher que adoece de forma grave, algo que a retém no local mais tempo do que previsto. Diga-se que Noa parece desde cedo pretender ficar algum tempo no território. Noa é uma mulher peculiar ainda em busca do seu lugar no Mundo e de se encontrar a si própria, ou melhor, de assentar ideias e perceber aquilo que pretende para o seu futuro. A sua tese parece uma boa ideia, mas não é bem recebida pela Universidade, tem as propinas em atraso e um namoro que parece estar por um fio. Como resolver isto tudo? No caso de Noa, esta decide regressar temporariamente a casa, para aquele local onde parece sentir sal nos lábios, um território que a prende embora nem esta pareça conseguir explicar de forma paradigmática as razões para esta atracão.

Esta quer criar um dicionário para palavras incapazes de serem traduzidas, enquanto a própria parece viver um momento que nem ela consegue perceber, tão complicado como os termos para os quais pretende criar uma tradução. É uma mulher a passar por uma fase adversa que procura apoio na família, reencontrando familiares importantes mas também diversos problemas que afectaram a sua vida e parecem ter contribuído para a mudança para a Alemanha. O quotidiano de Noa em Israel muda com a chegada surpresa de Jörg ao território, com este a não ser bem recebido por todos os elementos, em grande parte devido a ser alemão. Veja-se que a avó de Noa perdeu toda a sua família no Holocausto, enquanto o pai da protagonista e o irmão não têm grandes problemas em serem inconvenientes. Diga-se que muitas das vezes esta situação não é propositada, com a diferença entre culturas e mentalidades a proporcionar um choque esperado do qual tanto podem sair momentos constrangedores como de algum humor. A chegada de Jörg até parece reacender a relação do casal, mas os problemas logo começam a surgir, com o primeiro a apresentar algum desconforto no território após um período inicial onde parecia que poderia ser feliz. A sua chegada a Israel não poderia ser numa altura mais irónica: durante o Yom Hazikaron ou Dia da Memória. O feriado serve acima de tudo para homenagear os veteranos e soldados mortos do Estado de Israel e da Força de Defesa de Israel que morreram no conflito israelo-árabe, para além de relembrar aqueles que foram vítimas do terrorismo. A certa altura do filme o pai de Noa pergunta a Jörg se na Alemanha também existe um "Dia da Memória" em honra aos soldados, uma situação que gera um certo desconforto neste indivíduo, ou o passado bélico pouco recomendável da Alemanha não estivesse bem vivo. Dudi logo ironiza com a situação, tendo uma relação estranha com este indivíduo a quem exibe a sua camisola de Bastian Schweinsteiger, uma das estrelas do Bayern de Munique e da Selecção Alemã. Aos poucos, Jürg até forma uma certa ligação com Dudi, ao mesmo tempo que sente algumas dúvidas em relação ao namoro com Noa, algo que se deve sobretudo às diferenças que começam a apresentar entre ambos. Veja-se quando apresenta ciúmes de Yoav, um médico e amigo de infância da protagonista, com este indivíduo a ter a clara aprovação da família desta. Alguns destes momentos são intercalados com os testemunhos de elementos a abordarem as palavras que não podem ser totalmente traduzidas, com estas a terem algum relevo ao longo do filme, sobretudo por se adequarem a diversos episódios vivenciados por Noa. Veja-se o caso da saudade, com Noa a não poder criar o seu dicionário onde utilizaria o termo, embora seja capaz de exprimir esse sentimento em relação à sua casa e à sua avó. No território reencontra a avó, uma mulher de quem é muito próxima, e o resto da sua família, mas boa parte dos seus problemas continuam. Veja-se a discussão que tem com a irmã e a mãe no interior do carro, algo revelador de problemas antigos que ainda não se encontram bem sanados, com a realizadora Ester Amrami a ter neste momento no veículo uma cena claustrofóbica e intensa, onde fica paradigmaticamente representado o vulcão de sentimentos que percorre esta família. Nesse sentido, apesar do reencontro com a avó e a experiência de certos sentimentos incapazes de serem traduzidos, o regresso de Noa ao território parece sempre marcado por um sabor algo agri-doce, com esta a procurar aqui o seu lar, embora também pareça "desadaptada" do mesmo.

"Anderswo" não foge muito ao esquema dos filmes de "redescoberta", ou procura da(o) protagonista em reencontrar-se, destacando-se acima de tudo pela simplicidade e humanidade com que Ester Amrami aborda as suas temáticas, por vezes com algum humor e drama à mistura, enquanto nos deixa perante um choque de realidades latente, quer da parte de Noa, quer da parte de Jörg. Noa parece sentir-se repentinamente deslocada em Berlim, algo que a leva a regressar a Israel onde aos poucos também começa a apresentar algum desconforto. Esta é interpretada com subtileza por Neta Riskin, uma actriz capaz de fazer sobressair os anseios desta personagem, de expor as dificuldades em que Noa se encontra, quer a nível pessoal, quer a nível profissional. Parece amar Jörg mas distancia-se do mesmo. Parece querer continuar os estudos mas desiste perante a rejeição da sua tese, encontrando-se numa fase menos positiva da sua vida, algo que ainda é adensado pelo internamento da avó e por "ferver" com enorme facilidade. Também Ester Amrami, a realizadora do filme, mudou-se de Israel para Berlim, uma situação que certamente terá inspirado a cineasta na exposição de diversos episódios vividos por Noa. Talvez esta situação ajude a explicar a credibilidade que Ester Amrami incute a diversas situações e a facilidade com que consegue despertar a nossa atenção para pequenos actos quotidianos dos personagens. A própria representação de Israel expõe a complexidade do território, mas também alguma insegurança. Veja-se como um pequeno acto como as autoridades a revistarem a mala de Noa na noite das comemorações permite exibir desde logo a apertada segurança, mas também os noticiários ou a menção ao conflito na Faixa de Gaza. O conflito é mencionado mas não é o cerne da narrativa, com Ester Amrami a preocupar-se acima de tudo com questões quotidianas dos civis, com as dúvidas da sua protagonista e a sua incapacidade em encontrar um espaço onde sinta pertencer totalmente. A cineasta realiza uma obra de aparente simplicidade, competente a explorar os relacionamentos e os sentimentos que afectam a protagonista. Esta procura escrever sobre o significado de palavras não traduzíveis, mas também descobrir a essência dos sentimentos que rodeiam as mesmas. Procura em Israel descobrir aquilo que falta à sua vida, embora esta seja tarefa complicada, com Jörg a deslocar-se ao país e a sentir as dificuldades de adaptação pelas quais a namorada certamente passou quando foi viver para Berlim. Apesar da química com Neta Riskin nem sempre funcionar, Golo Euler tem uma interpretação relativamente convincente como este indivíduo que desafia o estereótipo de alemão frio e sem sentido de humor, deparando-se com uma cultura diferente e um território onde ainda existe algum ressentimento em relação aos episódios da II Guerra Mundial e ainda se encontra envolvido em questões polémicas. A relação entre Noa e Jörg encontra-se num impasse, tal como a vida profissional desta, numa obra que se destaca pela simplicidade e humanidade com que apresenta e explora as suas temáticas.

Não é um filme extremamente original, mas consegue captar o choque de culturas, as crises que os seres humanos vivem em algumas fases das suas vidas e os problemas familiares dos mesmos, ao mesmo tempo que nos expõe a alguns elementos típicos da cultura e sociedade de Israel. Veja-se desde logo as celebrações do Dia da Memória, algo visível quando todos param para um momento de silêncio no meio da rua em sinal de respeito, bem como no cemitério, entre tantos outros momentos. No caso da cena em que todos param no meio da rua ao som da sirene, ficamos perante um dos vários momentos onde notamos que Noa também não se encontra totalmente adaptada ao território. Todos os elementos devem sair do carro, ficar de pé, sérios e em silêncio. Noa reencontra Jörg, descobrindo a surpresa que este lhe fez, algo que a leva a quebrar desde logo os protocolos. Temos ainda a empregada da avó de Noa, uma mulher que teve de se adaptar a uma cultura distinta da sua, com o filme a lançar de forma amiúde algumas piadas que, quem não estiver totalmente ao corrente da cultura judaica e da sociedade de Israel, muitas das vezes irá ficar a "apanhar bonés". A câmara de filmar segue atentamente estes personagens, deslocando-se muitas das vezes com os mesmos (boa utilização dos close-ups), conseguindo transmitir-nos os sentimentos destes elementos numa obra que conta ainda com um interessante conjunto de personagens secundários. Veja-se desde logo o irmão mais novo de Noa, mas também a sua mãe, uma mulher demasiado protectora, para além da avó da protagonista, uma idosa que guarda em si as memórias da II Guerra Mundial. A certa altura encontramos esta a falar para a neta num dos vídeos gravados por Noa. É talvez um dos momentos mais tocantes e relevantes do filme, onde gestos e palavras se unem. Mais do que as várias línguas que a avó de Noa aprendeu, ou aquela em que esta se sente mais confortável a falar, aquilo que parece ser mais importante para esta mulher são os sentimentos, sobretudo aqueles que nutre pela neta. É por isso que muitas palavras, tal como muitos sentimentos, nunca são totalmente traduzíveis. Noa percebe isso, tal como a realizadora deverá ter percebido quando se mudou para a Alemanha, com Ester Amrani a apresentar-nos a uma protagonista que facilmente desperta a nossa atenção. Não é facilmente traduzível, ou melhor, talvez até seja, mas vive um conjunto de situações com as quais facilmente nos identificamos, exploradas com enorme acerto por uma cineasta que sabe aquilo que está a fazer ao mesmo tempo que conta com uma actriz competente a dar vida à personagem principal. "Anderswo" surge assim como uma obra aparentemente simples e profundamente humana, ao mesmo tempo que nos deixa perante temáticas como o choque de culturas, a procura de uma mulher em reencontrar-se a si própria, pequenos pedaços da cultura e sociedade de Israel, enquanto Noa depara-se com um conjunto de sentimentos que, tal como muitas das palavras que pretende colocar no seu dicionário, têm mais significado quando são sentidos. E "Anderswo" é um filme que pede para ser sentido.

Título original: "Anderswo".
Título em inglês: "Anywhere Else". 
Título em Portugal: "Noutro Lugar".
Realizadora: Ester Amrami.
Argumento: Ester Amrami e Momme Peters. 
Elenco: Neta Riskin, Golo Euler, Hana Laszlo, Hana River, Romi Aboulafia.

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