07 março 2015

Entrevista a Shlomi Elkabetz sobre "Gett: O Processo de Viviane Amsalem"

 Esta Sexta-Feira, dia 6 de Março de 2015, tivemos a oportunidade de entrevistar Shlomi Elkabetz, o co-realizador e co-argumentista de "Gett: O Processo de Viviane Amsalem". A entrevista decorreu no 12º piso do Altis Grand Hotel, com o realizador a demonstrar uma disponibilidade assinalável e até algum bom humor a responder às questões colocadas por estes dois bloggers (Aníbal Santiago e Hugo Barcelos). Aproveitamos desde já para agradecer a disponibilidade demonstrada pela Alambique (distribuidora do filme em Portugal), pela directora da Judaica - Mostra de Cinema de Cultura e a Shlomi Elkabetz. A entrevista pode ser lida já de seguida:

Rick's Cinema: Tal como "To Take a Wife" e "The Seven Days", "Gett: The Trial of Viviane Amsalem" foi realizado pelo Shlomi e pela Ronit Elkabetz, através do argumento dos próprios. Como tem sido esta colaboração profissional com a sua irmã?

Shlomi Elkabetz: Eu e a Ronit tínhamos decidido fazer um filme juntos, na altura eu estava a viver em Nova Iorque e ela em Paris, e a ideia era fazer um filme sobre um rapaz e uma rapariga, e acabou por incidir sobre a mãe de ambos que, em vários aspetos, se assemelhava à nossa mãe. Foi nela que nos inspirámos e foi uma excelente experiência. Nós dizemos sempre que nós não escrevemos “To Take a Wife”, nós basicamente “vomitámos” para o papel.
 Ainda demorámos algum tempo a arranjar financiamento mas lá decidimos colaborar e, quanto mais trabalhámos no projeto, mais interessante ele se tornou, a história começou a ficar mais forte e a nossa relação mais profunda. Sempre gostámos um do outro mas isto era algo novo nas nossas vidas. Para agilizarmos o processo da escrita decidimos optar por escrever num local longe de casa, à porta fechada, por duas ou três semanas, cerca de dezasseis horas por dia; sempre no mesmo quarto, no mesmo computador, escrevíamos em papéis, improvisávamos e ensaiávamos, sem atores, connosco a interpretar todos os papéis, e discutíamos os aspetos visuais do que queríamos filmar.
 Demorámos ainda cerca de dois ou três anos a preparar o filme e, quando chegámos ao set, já estávamos preparados. Alistávamos todas as opções que nos estavam disponíveis e, depois, começámos a filmar e a lidar com a realidade das filmagens – estávamos muito conectados e eu sabia quando ela estava, ou não, satisfeita, e vice-versa, e se havia alguma questão falávamos nela abertamente. Somos irmão e irmã, homem e mulher e dois realizadores. É uma relação muito complexa, mas muito boa.

RC: Para além de co-realizar e co-escrever o argumento, a Ronit ainda interpreta Viviane nos três filmes. Pode falar-nos um pouco de como é dirigir a sua irmã?

SE: A experiência mudou muito ao longo dos anos. Não é uma questão, apenas, de ser o realizador a dirigir-se à atriz; é uma questão de o irmão mais novo dela (ela tem mais dez anos do que eu) dizer-lhe o que deve fazer. No início foi bastante cansativo, muito intenso, mas não demorou muito tempo até conseguirmos falar um com o outro sobre o que queríamos e, antes do primeiro filme, já tínhamos uma maneira de nos entendermos.
Além disso, não somos o tipo de realizadores que se dirigem a um actor preocupados com as complexidades psicológicas da personagem, focamo-nos mais na silhueta. Muitas vezes, a nossa direção passava por dizer: «Olha para a direita; olha para a esquerda». Os aspectos psicológicos já constam no argumento/história. E, às vezes, quando a minha irmã me queria complicar a vida, eu dizia-lhe apenas: «Olha, se olhares para a esquerda ficas melhor, com a luz.» (Risos) Não, estou a brincar, é só uma piada! Ao trabalharmos, olhamos ainda para grande parte dos frames, e dirigimo-nos ao monitor e observamos os planos. E eu gosto muito dela e de tê-la como atriz, e adoro a sua compleição, e os seus olhos, que nos dizem tantas histórias.



RC: A cena inicial de "To Take a Wife" na qual os irmãos procuram dissuadir Viviane de se divorciar acaba por remeter para "Gett: The Trial of Viviane Amsalem". Quando começaram a desenvolver os personagens já tinham pensado neste trabalho a longo prazo?

SE: Sim, quando tivemos a ideia de escrever uma história sobre uma mulher, a primeira pergunta que colocámos a nós próprios foi: “O que é que a Viviane desejava?” E a resposta não foi: “A Viviane quer um divórcio”. A Viviane queria, acima de tudo, ter uma vida melhor e ser mais feliz com o marido. Em “Gett” é que ela quer obter o divórcio.
Já sabíamos que, eventualmente, ela iria recorrer aos tribunais. Mas, inicialmente, ela ainda tenta fazer com que as coisas resultem, e tenta obter liberdade dentro da sua casa, na sua vida familiar. Na fase seguinte, em “7 Days”, ela já aparece junto da sociedade e, em “Gett”, recorre finalmente aos tribunais, questionando: «O que podem fazer por mim?». "To Take a Wife" é muito próximo da experiência que tínhamos em casa, da nossa mãe, mas ela nunca foi para os tribunais. No caso de "Gett" assistimos a este lado da história, com a Viviane a ir do plano privado para o público.

RC: Durante a preparação do argumento do "Gett" contactaram com algumas mulheres que se tentaram divorciar com ou sem sucesso?

SE: Houve, antes, muitas mulheres que nos contactaram. Também logo depois de “Take a Wife”, muitas mulheres vieram ter connosco e dizer-nos “isto é a minha história”. E, quando “Gett” saiu, imensas mulheres nos disseram “eu sou a Viviane, esta é a minha história”.




RC: E quais foram as repercussões que "Gett" gerou em Israel, a nível da lei do divórcio?

SE: Foi fantástico. Quando estávamos à procura de trabalhos sobre este tema não encontrámos nada. Não havia nenhuma representação na cultura, na música, no cinema, ou em qualquer outra forma de arte, havia apenas uma cena num filme israelita feito nos anos 70. E perguntámo-nos como seria possível que ninguém falasse na questão do divórcio.
 E antes, quando perguntávamos às pessoas o que achavam do divórcio, do “gett”, elas diziam «não sei, não sei bem» mas hoje todas têm uma opinião. Se perguntas «o que achas de as mulheres não conseguirem obter um divórcio?» elas referem imediatamente o “Gett”, o filme.
 O filme foi, assim, um evento cultural, um evento político, e constituiu um movimento por si só. E foi fantástico o que aconteceu nos tribunais rabínicos, em que perguntaram aos juízes se tinham visto o filme e eles disseram que «não, não vi o filme». Mas a corrente foi muito forte e eles tiveram que respeitá-la e acabaram por ver o filme. E observaram os juízes rabínicos do filme, e nunca estavam de acordo com a sua representação. Quando lhes perguntámos sobre o que acharam, eles convocaram a imprensa e fizeram uma declaração, em que disseram que «bem, nós nunca falamos desta forma» e «nós não fazemos isto, nem aquilo», só abordando termos técnicos, mencionando ainda «nós não dizemos “fique no seu lugar”, nós dizemos “fique pelo seu lugar”». E foi essa a sua reação e, no dia seguinte, foi feito um simpósio.
 Agora a produção quer voltar a exibir o filme, e nós fomos convidados, e quiseram convidar mulheres que estão nesta situação, convidaram rabinos, e é muito excitante, de certa maneira, como o filme começou a influenciar a realidade de várias formas.

RC: Uma das cenas em que despertou à atenção foi a forma como filmaram Viviane a caminhar no tribunal a focarem-se nas sapatilhas desta, um pouco a fazer recordar "The Trial of Joan of Arc" de Robert Bresson. Esta foi uma das inspirações para o vosso filme?

SE: Houve filmes que serviram mais de inspiração, como o do Carl Dreyer, com a Maria Falconetti, “A Paixão de Joana d’Arc”, e, mais tarde, de várias formas, o filme do Robert Bresson. Este filme é muito específico, e no plano de abertura vemos Joana d’Arc a entrar dentro do tribunal, e enquanto ela caminha ela está a andar em direção à liberdade, ou à morte, ou ao fogo, e aí a câmara foca os pés dela. E nós queríamos conectar todos estes filmes, e estas cenas, e trazer o realismo do tribunal para o cinema. Queríamos levá-lo de volta à história, ao cinema. Queríamos trabalhar nesta cena em que ela está com uns sapatos muito simples, com os quais tu podes caminhar para a praia tal como podes caminhar com eles para a morte. Pensámos muito se iríamos filmar a cena num plano estático ou um plano em movimento em que ela estivesse a andar. E pensámos «não, a Viviane está a progredir. Não está presa». Mesmo que ela pareça estar parada durante duas horas, ou cinco anos, ela não se está a mexer, nem a falar, mas está a progredir, e queríamos criar no filme uma sensação de que ela está a movimentar, a progredir, a avançar para a próxima etapa, e tomámos essa decisão.

RC: O próprio vestuário parece condizer muitas das vezes como o estado de espírito da Viviane. O momento em que esta aparece com um vestido vermelho parece já paradigmático do cansaço desta. Estes pormenores já estavam pensados previamente no argumento?

SE: Não, o argumento é muito simples, não escrevemos nenhumas direções, escrevíamos os diálogos e os lugares – “quarto, manhã” – não escrevemos nada, ou quase nada, sobre os estados de espírito. Como eu já referi, quando falei sobre o meu trabalho com a Ronit como realizadores, não desenvolvemos muito o aspeto psicológico das personagens, preocupámo-nos mais com a silhueta – sobre a forma do corpo, a forma como as roupas expressavam o que a personagem estava a sentir, o modo como a luz incidia sobre as roupas, como o cabelo se enquadrava com a cara – várias vezes, uma e outra vez, de muitos pontos de vista.
 Uma parte muito relevante dos ensaios relaciona-se com o vestuário, em vestir cada um com as suas roupas, e ver como elas se enquadravam com o estado de espírito – «e isto vai ser azul, e isto cinzento, e isto será apertado, e isto mais solto, e o cabelo estará do lado direito, e a kippah yamaka do lado esquerdo» – e começámos a criar a imagem como um todo, e tentámos encontrar algo que despertasse a sensação mais adequada, uma sensação psicológica, e dissemos «ok, é esta a imagem», e agora, com isso, começaremos a filmar.
 E, nesse momento em particular, as testemunhas começam a discutir entre si, e não compreendem o que se passa, o julgamento deixou de ser sobre o cabelo, passou a ser sobre quem é o melhor rabino. E nesse momento a Viviane começa a deixar-se ir, a sonhar, e ela não repara mas solta o cabelo, o que não lhe é permitido, e o cabelo cai, e a Viviane já não quer saber, não está para se sujeitar a estas humilhações.

RC: A entrada em cena das testemunhas por vezes traz um tom cómico ao filme devido ao absurdo das situações. Tomaram como um risco juntar humor a um filme tão intenso do ponto de vista emocional?

SE: Não sei se foi um risco, mas digo-vos uma coisa. Quando escrevemos o argumento estávamos a rirmo-nos tanto… no momento em que entrou a primeira testemunha, começámo-nos a rir. A partir do momento em que se senta, o irmão da Viviane, começa por defendê-la, mas imediatamente toma o partido do marido dela. E no momento da escrita em que isso aconteceu dissemos: «ok, este é o palhaço a ir ao tribunal, e a começar a fazer o seu pequeno espetáculo». E esse momento aconteceu, durante a escrita, e pensámos muito nisto, e foi difícil para a Viviane lidar com este personagem inicialmente gentil, que subitamente se torna inflexível.

RC: Embora "Gett" seja um filme que resulta de forma individual, ao assistirmos a "To Take a Wife" ficamos perante a diluição do casamento na prática e a forma como afecta os filhos, em "Seven Days" já encontramos Viviane e Elisha separados. No terceiro filme assistimos à luta de Viviane para conseguir o divórcio. Pode falar-nos um pouco do processo de criar uma continuidade entre estes três filmes ao longo do tempo, e estará disponível para realizar um quarto filme?

SE: No primeiro filme, eu e a Ronit estávamos presos. No segundo, saímos para a sociedade e, não tendo arranjado uma solução, no terceiro filme recorremos à Lei, ao Estado, e pedimos lá a nossa liberdade. Agora, estamos livres. Estamos livres, em vários sentidos. Por isso, agora seria interessante vermos o que vamos fazer com a nossa liberdade, e poderíamos realizar um filme – o que estamos a fazer com a nossa liberdade? Um filme novo centrar-se-ia, então, na nova vida de Viviane. Como iria ela lidar com a liberdade? O que iria ela fazer num mundo em que está em liberdade? Porque ela não se lembra do que é a liberdade. Ela nasceu livre, mas depois foi trancada, numa fase inicial da sua vida. Penso que seria muito interessante vê-la num quarto filme.

RC: Tendo em conta o sucesso que o filme alcançou não apenas em Israel mas no estrangeiro, já recebeu propostas para realizar em Hollywood? É algo que lhe agrada ou estaria preocupado por uma eventual perda de liberdade que isso implicasse?

SE: Boa pergunta. A última pergunta é uma grande pergunta! (Risos). Eu sinto-me livre, de qualquer maneira, por isso penso que será apenas uma questão de encontrar uma boa história. Eu tirei algum tempo para mim depois de “Gett”, cerca de dois meses, e conheci algumas excelentes pessoas, e produtoras, por isso, se encontrar uma boa história, porque não? Se não encontrar uma boa história, então farei outra coisa. Porque eu tenho excelentes histórias para o cinema israelita. Eu adoro-as. Se encontrar uma boa história, na qual tenha alguma coisa para dizer, então será uma possibilidade.

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