10 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "Wild" (Livre)

 Alguns filmes costumam vir acompanhados por um subtítulo. No caso de "Wild" faria todo o sentido que esta obra cinematográfica viesse acompanhada pelo subtítulo "Fragmentos da Vida de Uma Mulher", com Jean-Marc Vallée a colocar-nos perante a dura caminhada da sua protagonista pela trilha Pacific Crest (percurso pedestre e equestre que se estende da fronteira dos Estados Unidos da América com o México até à sua fronteira com o Canadá), em 1995, num percurso com mais de mil milhas, enquanto somos apresentados em diversos flashbacks a uma plêiade de momentos relevantes que conduziram Cheryl Strayed a tomar esta decisão. O argumento do filme, escrito por Nick Hornby, foi baseado no livro "Wild: From Lost to Found on the Pacific Crest Trail" da autoria de Cheryl Strayed, no qual esta aborda as suas memórias, com "Wild" a efectuar uma representação bem viva, provavelmente com muitas liberdades à mistura, desta complexa mulher. Diga-se que a complexidade desta figura feminina foi um dos vários motivos que conduziram Reese Witherspoon a assumir a produção do filme. A actriz decidiu fundar a Pacific Standard com Bruna Papandrea, tendo em vista a contribuírem para a criação de material cinematográfico que desse espaço para as mulheres terem papéis de relevo em Hollywood, algo que nem sempre é possível. Veja-se que o primeiro filme produzido pela Pacific Standard foi "Gone Girl", uma obra que deu oportunidade para Rosamund Pike destacar-se como raramente tinha feito até então. Em "Wild" cabe a Reese Witherspoon ter um papel com um impacto e densidade que já não a víamos ter desde "Walk the Line" e num nível mais secundário em "Mud". Esta convence-nos das dúvidas da protagonista ao longo da caminhada, da sua pouca preparação para a mesma, da sua procura em encontrar-se a si própria e aprender a conviver com as suas memórias após um período menos positivo da sua vida. O trabalho de montagem é muitas das vezes fulcral para dinamizar o enredo e atribuir uma maior complexidade a esta mulher, com o filme a não poupar em rápidas deambulações no tempo que permitem dar a conhecer mais sobre o passado de Cheryl e dos elementos que estiveram próximos da protagonista. Uma música pode trazer a recordação de uma memória positiva com a mãe, um momento de maior dificuldade pode remeter para os erros que cometeu e lhe dão força para encarar esta caminhada como um desafio a si própria. A caminhada é o fulcro da narrativa, seja pelas montanhas, seja por territórios mais desérticos e arenosos, seja por matas, seja por espaços rodeados de neve, enquanto conhece algumas pessoas pelo caminho e enfrenta os seus actos do passado com um misto de força, desilusão, arrependimento e nostalgia. A nostalgia encontra-se inerente aos tempos em que a sua mãe era viva. A morte desta foi um dos elementos que conduziram à quebra da protagonista do ponto de vista mental e a embrenhar-se numa espiral descendente. Esta tem uma tatuagem. A certa altura temos o flashback que remete para o dia em que esta fez essa tatuagem ao lado de Paul (Thomas Sadoski), o seu futuro ex-marido. O tatuador pergunta as razões para a tatuagem e estes logo comentam que é para marcar a separação. Ela diz que o traiu. Ele demonstra algum embaraço embora saliente o carácter pouco fiel desta. Ela confirma que traiu o esposo várias vezes. Ele ainda a parece amar e nutre um ressentimento acentuado, ela sabe que errou, embora não se encontre totalmente arrependida dos seus erros, uma situação que atribui ainda mais complexidade a esta personagem. 

 Aos poucos percebemos que esta mulher atravessou uma fase complicada na sua vida, tendo resolvido tomar um conjunto de atitudes nem sempre recomendáveis para esquecer os problemas, algo que contribuiu para piorar ainda mais a sua existência. Cheryl tinha em Barbara (Laura Dern), a sua mãe, o seu maior apoio. As duas frequentavam aulas na universidade, embora a segunda fosse sempre mais optimista em relação à vida, algo que procurou passar, nem sempre com grande sucesso, à sua filha. Barbara criou Cheryl e Leif (Keene McRae), os seus dois filhos, após se ter divorciado do marido, um homem alcoólico e violento. Barbara era o baluarte destes, mas a notícia de que esta padecia de uma doença terminal e a sua morte conduziram a que Cheryl tomasse atitudes como iniciar a utilização de drogas, entre as quais formar um vício por heroína, e trair o esposo com vários homens, algo que conduziu ao divórcio entre ambos. Diga-se que os homens nem precisavam de fazer grande esforço, com a própria a facilitar imenso o processo de algo que não a parece orgulhar no presente, embora também não se arrependa totalmente. Um dos elementos que sobressai em "Wild" passa exactamente pelo filme não procurar desculpar os actos da protagonista, tal como esta começa a perceber que os mesmos fazem parte de um processo de aprendizagem. Todos cometemos erros, Cheryl provavelmente mais do que a conta, mas terá de aprender a conviver com os mesmos e a lidar com os seus instintos para poder seguir em frente com a sua vida. É óbvio que o passado a marca, uma situação notória nos constantes e assertivos flashbacks, mas também nas cartas trocadas com o ex-marido. A relação entre Cheryl e o esposo raramente é explorada durante o período em que se encontravam unidos a nível matrimonial, com o filme a exibir sobretudo o relacionamento dos mesmos nos momentos que antecedem e se seguem ao divórcio, embora a troca de cartas entre ambos, mesmo após a separação, enquanto esta efectua a caminhada, demonstre a cumplicidade que ainda mantêm. Esta sabe que foi a principal causadora do final de um relacionamento que durou mais de sete anos, com o filme a procurar apresentar o ex-marido da protagonista como alguém que também sofreu com a queda desta. Veja-se o momento em que se beijam no findar do processo de divórcio, bem como a procura deste em ajudá-la a sair da espiral descendente em que se encontra. Já o relacionamento de Cheryl com a mãe é exibido como fulcral, com Laura Dern a ter espaço para sobressair como uma mulher bem mais experiente do que a filha em relação à vida, procurando sempre realçar o lado positivo das situações em que se encontra, algo que procura transmitir para a protagonista. Os diálogos da personagem interpretada por Laura Dern por vezes parecem saídos de um livro de auto-ajuda mas beneficiam da credibilidade da actriz a proferir os mesmos, para além de ser notória a boa dinâmica desta com Reese Witherspoon, algo que incrementa os momentos entre mãe e filha nos flashbacks, bem como a dor que Cheryl sente pela perda. A certa altura encontramos um flashback de um diálogo menos simpático de Cheryl para com a sua mãe. No presente, esta parece estar arrependida do mesmo, numa introspecção que até a mim me fez pensar se um dia, mais tarde, não irei lamentar muitas das discussões que tive com os meus pais. Diga-se que, ao contrário de Cheryl, felizmente ainda não tive de lidar com esse sentimento de perda de alguém tão importante do ponto de vista afectivo. Não sei como reagirei. Sabemos que Cheryl fica destroçada a um ponto de auto-destruição que culmina com esta caminhada balsâmica que nos é apresentada. Cheryl decide caminhar solitária por um território nem sempre fácil de percorrer, sobretudo quando se tem como única companhia alguns livros e os seus próprios pensamentos. 

 Quase todos nós, em alguns momentos, precisamos de estar sós e reflectir. Seja num momento de maior depressão, seja numa decisão importante a ser tomada, entre todo um variado conjunto de contextos. Falo por mim. Por vezes quando estou completamente na merda, ir correr durante um período de tempo é um meio único de escapismo, embora nem sempre resulte. As calorias perdidas são o menos. O mais importante são aqueles momentos em que desafiamos o nosso corpo ao mesmo tempo que, ou aproveitamos completamente para descomprimir, ou ficamos perante os nossos pensamentos. No caso de Cheryl, não estamos perante uma corrida no parque mas sim diante de uma caminhada de elevadas proporções para a qual esta não tem experiência, nem está preparada. Foi um acto que tomou num impulso. Sentia-se completamente na merda e sem rumo, ou pelo menos é o que o enredo dá a entender, e partiu para uma iniciativa que irá ocupar vários meses da sua vida. Acima de tudo, Cheryl procura encontrar um rumo a dar à sua vida, tentar saber lidar com o passado e aprender a conviver consigo própria, enquanto ultrapassa uma série de adversidades, sejam estas desconhecer como montar uma tenda, o medo de dormir ao relento, a falta de água, ter comprado o combustível errado para o fogareiro, uma unha do pé que tem de arrancar, dois estranhos que não parecem ter as melhores das intenções, entre muitas outras contrariedades. Cheryl ainda pensa em desistir, algo latente nos momentos iniciais enquanto anda de forma vagarosa perante um calor abrasador, pragueja e questiona no que se foi meter. Diga-se que esta tem sempre a oportunidade de desistir, mas não o faz, ao mesmo tempo que procura aprender a viver desta maneira. Pelo caminho esta conhece um conjunto diversificado de elementos, tais como Frank (W. Earl Brown) e a esposa deste. Esta inicialmente desconfia de Frank, mas este indivíduo ainda a convida para jantar e deixa-a tomar banho em sua casa, revelando-se surpreendentemente afável. Também conhece Greg (Kevin Rankin), um elemento simpático que se encontrava a praticar montanhismo e posteriormente reencontra em Kennedy Meadows, bem como Jonathan (Michael Huisiman), um indivíduo com quem tem sexo após conhecê-lo em Ashland, algo que comprova os instintos sexuais bem vivos da protagonista, para além de um duo duvidoso, entre outros elementos. É uma jornada e tanto, com Reese Witherspoon a conseguir dar a dimensão que a personagem exige, quer a nível psicológico, quer a nível físico, parecendo notório que a actriz investiu em ter aqui um trabalho onde pudesse explanar alguns dos seus recursos como actriz. Veja-se as dificuldades latentes que Cheryl apresenta inicialmente para carregar a mala de viagem (uma situação algo cómica a nível inicial), ou a incerteza no seu rosto em relação a continuar esta dura caminhada, já para não falar no momento de insolência e revolta perante o psicólogo após a morte da mãe num flashback, com Reese Witherspoon a ser credível na exposição dos sentimentos dicotómicos desta mulher. O trabalho de caracterização também ajuda, despindo o rosto da actriz, procurando torná-la como uma comum mortal de forma a que não a encaremos como "Reese Witherspoon a interpretar Cheryl Strayd", enquanto procura explorar esta personagem complexa, uma mulher que está longe de ser um exemplo, tal como todos nós estamos longe de estar livres de defeitos. Um dos méritos de "Wild" encontra-se exactamente nesta procura em expor e explorar as virtudes e defeitos desta personagem, ao mesmo tempo que Jean-Marc Vallée exibe mais uma vez competência a explorar as potencialidades dos seus actores e actrizes. Veja-se os casos de Matthew McConaughey e Jared Leto em "Dallas Buyers Club", com estes a sobressaírem em bom nível e a terem interpretações marcantes.

 Reese Witherspoon teve uma interpretação recheada de brilhantismo em "Walk the Line" ao dar vida a June Carter com uma vivacidade notória, moldando a sua voz e personalidade à protagonista. Em "Wild" fica notório que o debate sobre os papéis de relevo para mulheres que passem uma determinada faixa etária é assaz importante. Nesse sentido é com especial interesse que esta empresa de produção de Reese Witherspoon deve ser acompanhada, bem como os próximos passos a tomar pela actriz. Em entrevista ao Deadline, Witherspoon salientou alguns objectivos da Pacific Standard "(...)the imperative was to create interesting roles for women. I’ve never thought I was right for every single role, and I’m actually thrilled to help craft opportunities for actresses", algo que exibe a sua chegada a um ponto interessante da sua carreira, tendo em Cheryl Strayed uma personagem que permite colocar em prática esse desiderato. Jean-Marc Vallée nem sempre aproveita todas as potencialidades de "Wild", incluindo os territórios por onde Cheryl caminha, uma situação que em alguns momentos tira o escopo grandioso desta jornada com uma estrutura por vezes algo episódica. Pedia-se um pouco mais de contemplação e reflexão durante esta jornada e menos personagens a aparecerem (independentemente de fazerem parte do livro ou não, estamos a abordar "Wild" como uma obra cinematográfica), embora o cineasta consiga extrair uma interpretação digna de atenção a Reese Witherspoon, para além de desenvolver os atributos que tornam esta personagem interessante de seguir. Cheryl diz asneiras, faz sexo sem problemas, utiliza drogas, gera discussões, surgindo como alguém carregado de defeitos e virtudes, consciente dos mesmos, que aos poucos descobre que o melhor caminho para lidar consigo própria é aceitar-se e aprender com os erros. O próprio argumento de Nick Hornby contribui para a construção da personagem, enquanto Witherspoon surge longe do estereótipo da fragilidade que podemos associar à sua figura. "Wild" é um veículo que permite à actriz brilhar, ao mesmo tempo que nos deixa perante uma jornada solitária, longe de ser original no cinema (veja-se o muito superior "Into the Wild"), mas exposta de forma competente por Jean-Marc Vallée. Este consegue atribuir ritmo e interesse ao enredo, apresentando-nos a uma jornada solitária que ganha muito com a sólida interpretação de Reese Witherspoon, uma actriz que exibe mais uma vez que, com os papéis certos e o realizador certo, consegue explanar o seu talento. Em "Wild", Reese Witherspoon consegue convencer-nos das incertezas que acompanham a protagonista ao longo desta sua caminhada, ao mesmo tempo que ficamos perante uma figura complexa, marcada por imensos defeitos e virtudes, enquanto tem de aprender a lidar consigo própria, com as mudanças que conheceu ao longo da vida e os actos que tomou ao longo da mesma. Por vezes nem sempre é fácil olhar para o passado e retomar as memórias menos felizes, algo que torna ainda mais adversa esta caminhada de Cheryl. A cinematografia consegue expor com competência a jornada hercúlea desta mulher, sobretudo quando a temperatura é mais adversa, quer quando a neve cobre o território, quer quando o calor é insuportável, quer quando parece já não ter mais forças para andar, enquanto os flashbacks são utilizados de forma feliz para atribuir mais densidade à protagonista e maior dinamismo ao enredo. Quanto ao filme, vale a pena repetir que nos deixa perante fragmentos da vida de uma mulher, inspirada livremente numa figura real, ao mesmo tempo que esta procura superar as adversidades e conhecer-se melhor a si própria e se vai dando a conhecer ao espectador. Não é um filme arrebatador, nem é propriamente inovador ou capaz de aproveitar todo o potencial dos cenários, mas está longe de merecer a total indiferença, conseguindo apresentar-nos esta jornada de forma dinâmica e eficaz, ao mesmo tempo que nos coloca perante uma forte e complexa personagem feminina.

Título original: "Wild".
Título em Portugal: "Livre".
Realizador: Jean-Marc Vallée. 
Argumento: Nick Hornby.
Elenco: Reese Witherspoon, Laura Dern, Thomas Sadoski, Michiel Huisman, Gaby Hoffmann.

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