13 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "Tokyo Story" (Viagem a Tóquio)

 Provavelmente uma das obras mais conhecidas de Yasujiro Ozu, "Tokyo Story" justifica em pleno o estatuto de obra-prima que lhe tem sido atribuído por vários sectores da crítica, deixando-nos perante um cineasta com enorme maturidade, com um estilo muito próprio e temáticas que marcam transversalmente as suas obras. O tom é mais pessimista e arriscamos até a dizer cínico do que nos seus filmes mudos e em algumas obras sonoras realizadas no pós-Guerra, algo visível no último terço e na abordagem mais crua nos relacionamentos entre pais e filhos. Os relacionamentos familiares surgem como elementos-chave de várias das obras de Yasujiro Ozu, algo visível também em "Tokyo Story", com o cineasta a deixar-nos mais uma vez com o contraste de gerações, os intrincados relacionamentos entre pais e filhos, a dissolução da unidade familiar, mas também um retrato duro e cheio de humanidade sobre a chegada à terceira idade. Nesse sentido, somos apresentados a Shukichi (Chishū Ryū) e Tomi Hirayama (Chieko Higashiyama), um casal de idade avançada, oriundo da cidade de Onomichi, que viaja até Tóquio para visitar os seus filhos. Entre estes encontra-se Koichi (Sō Yamamura), um médico que é casado com Fumiko (Kuniko Miyake), tendo dois filhos, Minoru e Isamu. O momento em que o filho mais velho de Koichi e Fumiko mostra o seu desagrado pelas alterações na casa, devido à chegada dos avós, é revelador das dificuldades que se vão avizinhar para conciliar a chegada destes elementos com o status quo antes da sua vinda. A filha mais velha do casal, Shige (Haruko Sugimura), é casada com Kurazo e gere um salão de beleza. Ambos não têm tempo para cuidar dos pais, com Shukichi e Tomi a ficarem boa parte do tempo sozinhos em Tóquio, tendo em Noriko (Setsuko Hara), a nora, viúva do falecido filho do casal (encontra-se desaparecido há demasiado tempo, algo que conduz a que a possibilidade deste estar vivo seja cada vez mais remota), a melhor companhia. Noriko trata-os com alguma doçura e candura (veja-se que é a única a preocupar-se em mexer delicadamente o leque para tornar mais agradável a presença do casal idoso devido ao alto calor que afecta o território), preocupando-se com os familiares do seu falecido esposo, mostrando que alguns dos laços mais fortes nem sempre são os de sangue. Gradualmente percebemos que a relação entre pais e filhos nem sempre foi boa, embora tudo tenha mudado quando os petizes cresceram, ganharam responsabilidades e formaram as suas próprias famílias, com as suas rotinas a serem quebradas com a chegada dos progenitores.

Quase nada do que nos é apresentado ao longo de "Tokyo Story" é assim tão diferente daquilo que podemos viver na realidade e é também por isso que este filme tanto nos toca. Basta pensarmos naquele familiar que aparece sem ser convidado na nossa casa e não sabemos muito bem o que fazer com ele, mas também nas dificuldades acrescidas pelo aumento das responsabilidades inerentes à idade adulta, tais como o trabalho, algo que, por vezes, torna mais complicada a tentativa de encontrarmos mais tempo livre para estarmos com aqueles que gostamos. Vale ainda a pena realçar que Shukichi e Tomi contam ainda com mais filhos, incluindo Kyoko (Kyōko Kagawa), a mais nova, que vive junto destes, tendo uma relação de maior proximidade com os pais. Yasujiro Ozu apresenta-nos com um misto de melancolia, delicadeza e pessimismo estas relações entre pais e filhos, enquanto Shukichi e Tomi percebem que são a melhor companhia um do outro. O casal teve os seus problemas outrora, mas manteve-se unido, desafiando as adversidades encontradas ao longo da vida, procurando voltar a estar alguns momentos com os seus filhos. Chishū Ryū, colaborador regular de Yasujiro Ozu, atribui uma credibilidade natural ao seu personagem, um indivíduo simples nos gestos, algo desapontado com os seus filhos mas pronto a aceitar aquilo que a vida lhe dá. Este beneficia imenso do estilo de filmar de Ozu, muito marcado por planos fixos, enquanto os actores e actrizes olham para a câmara de filmar como se se estivessem a dirigir directamente para o espectador e o tornam cúmplice das suas vidas. Shukichi é um dos vários personagens das obras do cineasta que encontramos a dedicar-se esporadicamente aos prazeres momentâneos, desfrutando de saqué com os amigos, enquanto se recordam de episódios do passado e colocam a conversa em dia. Ryū é bem acompanhado no elenco por elementos como Chieko Higashiyama e Setsuko Hara, com Yasujiro Ozu a reunir mais uma vez diversos actores e actrizes que estiveram em vários dos seus trabalhos. Chieko Higashiyama aparece sóbria como é apanágio dos elementos que permeiam o elenco das obras de Yasujiro Ozu, sendo visível na sua pessoa os efeitos da idade e uma calma própria de quem já não se surpreende tanto com o que a vida tem para lhe dar. Os momentos que a dupla passa nas termas quentes de Aiami, para onde é enviada pelos filhos, expõem a calma deste casal em relação aos acontecimentos dados pela vida, embora não se habituem bem a certas características do local. A nora é o maior apoio de Shukichi e Tomi, com Setsuko Hara a surgir como a graciosidade em pessoa, conseguindo transmitir mais uma vez tanto com os seus gestos e olhares (veja-se como evita dizer mal do filho do casal, embora o seu rosto denote algum sofrimento por actos menos correctos), enquanto dá vida a Noriko. Não é só nas interpretações que encontramos elementos habituais das obras cinematográficas realizadas por Yasujiro Ozu. Este brinda-nos ainda com os seus pillow shots que dividem muitas das vezes as sequências, onde não contamos com a presença humana mas sim com elementos como roupa estendida (típico dos filmes do cineasta), mas também os planos tatami, parecendo tudo pensado ao pormenor, incluindo os cenários. Veja-se as casas, decoradas a preceito, mas também o rigor que Yasujiro Ozu apresenta a colocar os actores e actrizes nos cenários, elaborando um conjunto de planos muitas das vezes marcados por enorme simetria.

Temos ainda os cenários exteriores, dos subúrbios de Tóquio, muitas das vezes marcados pela presença das fábricas e do fumo a sair das mesmas, um território ligado à modernidade onde gente ligada ao passado parece já não ter lugar. O passado e o presente surgem expostos na dicotomia entre os monumentos históricos de Tóquio e os edifícios modernos, com Yasujiro Ozu a deixar-nos mais uma vez perante este choque entre a modernidade a tradição do seu país. Ozu desenvolve a narrativa de forma delicada, explorando as idiossincrasias dos seus personagens, o contraste entre gerações, entre pais e filhos, tudo com uma aparente simplicidade e muita arte, não faltando mais uma vez a utilização paradigmática das elipses e a presença do comboio, que chega e que parte, que une e afasta, enquanto o realizador nos aproxima cada vez mais do seu cinema. O cineasta compõe cada plano com uma atenção notável, explora as relações sem maniqueísmos ou melodramas forçados, apresentando episódios aparentemente rotineiros que até acabam por se repercutir e muito junto de nós. Teremos nós comportamentos semelhantes aos filhos deste casal? Não teremos nós descurado muitas das vezes a família? "Tokyo Story" apresenta-nos uma história que se desenrola em boa parte em Tóquio, universal em muitas das temáticas abordadas, sendo capaz de nos fazer reflectir e emocionar com os seus personagens e comportamentos. Os netos pouco conviveram com os avós, os filhos pouca atenção concedem aos pais, enquanto os últimos dias da dupla de protagonistas se parecem aproximar e estes guardam consigo as memórias de quem muito viveu, com o último terço a arrasar-nos emocionalmente e a Shukichi. Este sabe que poderia ter sido melhor para a esposa, tendo uma enorme gratidão para com Noriko, uma mulher cuja vida também foi marcada por algumas infelicidades. Os momentos finais são de pura dor, exposta com uma sobriedade e harmonia que apenas Yasujiro Ozu consegue obter de forma tão perfeita, deixando-nos perante as vicissitudes do ciclo da vida e das mudanças ocorridas nos seres humanos ao longo da sua existência. Ficamos ainda perante um certo cinismo nas relações familiares, algo que Ozu tinha explorado de forma exímia em "The Munekata Sisters" e volta a abordar com enorme acerto, ficando paradigmaticamente representado nos momentos da segunda metade do enredo. Nesse sentido, é quase de partir o coração acompanhar muitas das vezes a história de Shukichi e Tomi. O casal guarda memórias da sua relação, do crescimento dos filhos, da II Guerra Mundial, das transformações do território no pós-Guerra, das adversidades e felicidades que viveram, enquanto Yasujiro Ozu encapsula tudo isto neste magnífico exemplar cinematográfico, daqueles que merecem ser vistos, revistos e apreciados vezes sem conta.

Título original: "Tôkyô monogatari".
Título em inglês: "Tokyo Story".
Título em Portugal: "Viagem a Tóquio".
Realizador: Yasujiro Ozu.
Argumento: Kōgo Noda e Yasujiro Ozu.
Elenco: Chishū Ryū, Chieko Higashiyama, Setsuko Hara, Haruko Sugimura, Kuniko Miyake.

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