25 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "To Take a Wife" (Ve'Lakhta Lehe Isha)

 No final de "To Take A Wife" ficamos desgastados. Passados uns minutos de assistirmos ao filme pensamos no quão mais devastados devem estar os personagens que permeiam a narrativa, embora saibamos que estes são figuras ficcionais. Um dos maiores feitos de "To Take a Wife" centra-se em conseguir que facilmente nos esqueçamos que estamos a acompanhar personagens ficcionais e nos envolvamos nesta história de um casamento à beira da ruptura, com o lar da dupla de protagonistas a facilmente transformar-se num palco onde as discussões abundam e a felicidade surge em doses diminutas. Viviane (Elkabetz) e Eliahou (Simon Abkarian) são os causadores de grande parte deste desgaste devido à forma extremamente realista e intensa com que Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz apresentam-nos o quotidiano deste casal cujo casamento se encontra num estado latente de degradação. Até se podem ter amado no passado mas, no presente, Viviane e Eliahou apenas parecem conseguir magoar-se um ao outro, ao mesmo tempo que as suas constantes discussões afectam e de que maneira três dos seus quatros filhos, Eviatar (Kobi Regev), Gabrielle (Omer Moshkovitz) e Lior (Yam Eitan). Tudo é muito privado e acontece no interior da habitação deste casal, o sufocante cenário primordial do filme, onde muitas discussões ocorrem, muitos sentimentos são expostos ou reprimidos, mas pouca intimidade parece existir entre Viviane e Eliahou. Diga-se que entre estes dois reina a tensão. Estamos em pleno ano de 1979, em Israel, em particular na cidade de Haifa, onde nos momentos iniciais acompanhamos a câmara centrada essencialmente no rosto da protagonista em close-ups por vezes extremos. O desconforto e tristeza no rosto desta é latente, enquanto fuma imenso e sobressaem as suas unhas pintadas de vermelho a contrastarem com a palidez do seu rosto. Em sua volta, os irmãos procuram dissuadi-la de divorciar-se, sobretudo devido às graves repercussões que isto lhe iria trazer de acordo com as leis rabínicas. Eliahou e Viviane são oriundos de Marrocos, tendo ido viver para Israel, um local mais moderno que impele a segunda a procurar ter mais liberdade de acções. Viviane não prossegue com o divórcio mas ao longo do filme é latente que já não existe amor entre esta e Eliahou. Uma das poucas vezes em que a encontramos a ter um momento mais alegre é numa memória que parece saída de um sonho, de um encontro com Albert (Gilbert Melki), num jardim, onde os filhos desta ainda são mais jovens. As cores são mais vivas do que em boa parte de todo o filme, as pétalas de flores caem pelos seus corpos, a iluminação é mais forte, com as recordações deste caso extra-conjugal a reacenderem-se quando Albert telefona a dizer que está temporariamente de regresso a Israel. Albert pretende reencontrar-se com a amante, após tê-la desiludido antes de partir com a família e ter ido trabalhar para África. Viviane passou os seus anos a reprimir sentimentos. Eliahou não é diferente. Este é um indivíduo religioso e austero a nível da exposição dos sentimentos, que pretende incutir os mesmos ideais nos filhos, embora estes não lhe pareçam ligar em relação a essa questão, sobretudo Eviatar, o mais velho, um pré-adolescente que apresenta atitudes típicas da idade que tanto desafiam a autoridade da mãe como do progenitor, apesar de se parecer dar melhor com a primeira. Nesta casa, temos ainda a presença da mãe de Eliahou, uma mulher que varia entre a intromissão e o silêncio em relação à situação do casal. A habitação surge também como um local onde, para além de Viviane cuidar dos filhos, ainda trabalha como cabeleireira. Esta não é a típica mulher conservadora e dependente em relação à figura masculina, procurando exibir a sua individualidade e personalidade, algo que afecta de sobremaneira os valores conservadores do esposo.

Eliahou não sabe bem como reagir perante algumas reacções e atitudes da esposa, variando entre a repressão das ideias desta e a passividade, acabando pelo meio por demonstrar toda a sua desorientação e alguma dissimulação. Tudo parece servir para discutirem, seja uma refeição, seja uma viagem, seja qualquer pequeno acto que ganha proporções ainda mais gravosas. Ela quer que ele lhe dê mais atenção ou o divórcio. Ele é enigmático mas não parece disposto a conceder grandes facilidades no que diz respeito a divorciar-se. A realização de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz, bem como a cinematografia de Yaron Scharf, contribuem para este realismo e atmosfera sufocante que rodeia a relação do casal, com a primeira a acumular ainda a função de protagonista. Ronit Elkabetz é uma das estrelas do cinema contemporâneo de Israel, tendo em "To Take a Wife" a sua estreia na realização de longas-metragens, contando com o apoio do irmão, Shlomi Elkabetz. A dupla viria ainda a realizar obras como "7 Days" e "Gett: The Trial of Viviane Amsalem", os dois filmes que complementam esta trilogia iniciada em "To Take a Wife" que provavelmente ainda contará ainda com mais obras cinematográficas. Diga-se que foi "Gett: The Trial of Viviane Amsalem" que permitiu dar uma maior visibilidade a esta (por enquanto) trilogia ao ter sido nomeado para Melhor Filme em Língua Não Inglesa na edição de 2015 dos Globos de Ouro, algo representativo de que, apesar de todas as limitações que podemos apontar a estas premiações, não deixa de ser notório que podem alavancar alguns filmes que poderiam infelizmente passar despercebidos do grande público. No caso de "To Take a Wife", o filme não contou com distribuição em Portugal, tal como "7 Days" foi ignorado, ao contrário de "Gett: The Trial of Viviane Amsalem" que terá distribuição da Alambique Filmes. Não condenamos a não exibição das outras duas obras, sobretudo porque a Alambique é uma das distribuidoras que mais diversidade e qualidade a nível de escolhas apresenta em Portugal, mas seria interessante que os três filmes fossem exibidos em sala. No caso de "Gett: The Trial of Viviane Amsalem", este vai estrear em Portugal na terceira edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura, um evento que tem permitido descobrir algumas obras cinematográficas de qualidade que, por vezes, até por meios menos lícitos são difíceis de encontrar, tais como "Félix et Meira". Mas não nos dispersemos e voltemos a "To Take a Wife", uma obra que nos expõe de forma realista e intensa ao quotidiano de uma família a passar por diversas adversidades. Todas as famílias passam por maiores ou menores fases de dificuldades. No caso de "To Take a Wife" parece notório que este casamento de vinte anos de duração está prestes a ruir e a arrastar consigo todos os que se envolvem com a vida do casal. O exemplo mais notório é o da jovem Gabrielle. Raramente encontramos Gabrielle a proferir uma palavra ou a intrometer-se junto dos pais. Tal como nós, esta observa imenso. Ao contrário do espectador, esta tem de lidar de perto com as discussões, bem como com o facto do seu pai ir ao seu quarto para apresentar argumentação contra Viviane. Omer Moshkovitz consegue expor-nos a aparente dificuldade com que a jovem observa aquilo que a rodeia, sempre sem saber bem o que fazer ou se deve tomar partido por alguém. Diga-se que o elenco mais jovem tem algum destaque, sobretudo devido a estarem constantemente na "linha de fogo" das discussões entre os pais, embora caiba a Ronit Elkabetz e Simon Abkarian terem o maior destaque. Para além de co-realizar e co-escrever a trilogia, Ronit Elkabetz ainda protagoniza a mesma, exibindo alguns dos dotes para a representação que a tornaram tão conhecida no seu país natal.

Ronit Elkabetz sobressai sobretudo nas cenas de maior intensidade emocional, quando chega a um ponto limite em que começa a bater com as mãos no marido, quase que a pedir uma reacção do mesmo e não indiferença, expondo a forte personalidade desta mulher. Ronit consegue ainda que muitas das vezes nos esqueçamos que estamos a ver uma actriz a representar, tal como Simon, com a realização a por vezes conceder um tom documental e trazer ao de cima o nosso lado mais voyeur, quase que nos deixando perante os bastidores de um casal à beira do abismo. Com o desenrolar da narrativa vamos descobrindo mais elementos sobre esta mulher que procura marcar a sua independência, tendo o enorme desejo em tirar a carta de condução e ter o seu próprio carro, algo que a leva a pedir um empréstimo, embora o seu marido não esteja muito agradado com a ideia. É também Viviane quem parece procurar manter a casa a "funcionar", com a sua vida a desenrolar-se quase sempre a um ritmo frenético. Ao acordar tem de preparar os filhos e a filha para irem para a escola, tem ainda de lidar com um filho que parece ter alguns meses de idade e uma sogra que muitas das vezes desaprova as suas atitudes, para além de ter de atender várias clientes. Tudo isto já é por si só razão para provocar algum stress, junte-se uma relação matrimonial complicada e a situação pode assumir contornos "explosivos". Eliahou ainda fica mais irritado quando Viviane marca uma viagem para Tiberias em conjunto com Yvette, uma amiga, e o marido desta, tendo em vista a passarem poucos dias no território. Ele fica irritadíssimo pois a viagem coincide com o Sabat, um dos poucos rituais religiosos que este parece conseguir cumprir a sério, com esta marcação a surgir para o protagonista como mais um sinal de desrespeito da esposa em relação à religião e à sua pessoa. Ela fica irritada pela possibilidade de ter de viajar mais uma vez sem a companhia do marido, quase como se fosse "uma viúva". Por um lado, compreendemos os motivos deste, mais pelo facto da viagem ter sido planeada sem a opinião dele ter sido questionada. Por outro, compreendemos as razões desta pretender viajar em família. Não parecem existir dúvidas que Eliahou é um homem relativamente ausente, por vezes frio a expressar as emoções, que parece ter perdido por completo a química com a esposa, apesar de ainda parecer nutrir sentimentos por esta. Também não parecem existir dúvidas que Viviane há muito parece ter perdido o amor pelo marido e o convívio com o mesmo é algo que nem sempre é fácil. O divórcio parece ser a melhor solução para ambos, mas as leis religiosas bastante conservadores dificultariam e muito o processo. Diga-se que Eliahou tem esperança que a relação ainda volte a dar certo, tal como Albert parece desejar reacender o caso com a protagonista. A própria presença de Albert no território faz com que Viviane exiba mais uma vez um sorriso, nomeadamente quando fala sobre o mesmo com Yvette, com esta última a surgir como uma das suas poucas confidentes da protagonista. É uma recordação positiva de um caso onde parece ter conhecido um amor que a preencheu de uma forma que a relação com o esposo já não consegue. Num encontro que ocorre no café, onde voltamos a ver a protagonista com um rosto menos carregado, Viviane reúne-se com Albert. Vários anos se passaram, vários segredos do caso entre ambos são revelados ao espectador. Será que ela seria mais feliz com Albert? A verdade é que ele também a desiludiu numa fase fulcral da sua vida, algo que a deixa sempre temerosa em relação ao mesmo. É também notório que esta não está livre de culpas no falhanço do casamento, com o filme a procurar explorar de forma realista o findar de uma relação matrimonial.

Viviane e Eliahou até podem estar casados, mas dificilmente poderemos falar dos mesmos como um casal unido. Tal como os filhos do casal, também nós nem sempre compreendemos os seus actos, nem os ataques de histeria da protagonista. Diga-se que não sabemos tudo sobre o passado destes personagens, com muito a ficar implícito pelos gestos no presente. Veja-se o diálogo onde a protagonista salienta as viagens que fez apenas com os filhos ou o flashback quase em forma de sonho do envolvimento desta com Albert. O desejo do divórcio parece partir apenas desta, embora também pareça algo temerosa em avançar para a separação em definitivo. Os familiares salientam as qualidades do esposo, mas esta apenas encontra os defeitos, parecendo certo que Eliahou por vezes guarda alguma dissimulação e frieza, embora também a tente agradar. Os próprios filhos não seguem a religiosidade conservadora do pai, mas também não parecem compreender todas as discussões entre os progenitores. Por sua vez, Eliahou procura expor as suas qualidades e exibir os defeitos da mãe, em momentos que exibem o que de pior pode acontecer em relações em ruptura, com este a tentar que os rebentos tomem partido de um dos lados, como se não tivesse culpa nenhuma no que está a acontecer. O rosto pálido de Viviane no início do filme, exposto em close-up quase extremo, entristecido e marcado pela repressão de sentimentos, demonstra bem o quão desanimada esta se encontra. Os irmãos dela logo exibem o desagrado pela ideia de Viviane em divorciar-se, numa sociedade que contrasta elementos modernos com tradicionais que por vezes chocam de frente e criam situações complicadas. Esta pretende que as suas vontades sejam ouvidas, que os seus desejos sejam cumpridos ou pelo menos tidos em conta, algo que parece ir contra o conservadorismo do esposo. Este é enigmático. Quando está na frente das outras pessoas finge uma afabilidade que nem sempre demonstra, tais como demonstrar os seus dotes como cozinheiro, quando é o primeiro a causar uma discussão por chegar a casa e não ter nada para jantar. Se Viviane exprime os seus sentimentos de forma bem visível, por vezes até com alguma histeria, já Eliahou reprime mais os mesmos, com as suas intenções a nem sempre serem perceptíveis. A certa altura do filme encontramos este no cemitério a confidenciar junto do túmulo de um familiar. Percebemos que está exausto e desesperado com a situação em que se encontram. Os filhos não o seguem para a sinagoga, nem o parecem respeitar, a mulher cada vez afasta-se mais, enquanto o próprio não parece saber bem o que sente e aquilo que é o melhor a ser feito. Por vezes, também parece ser notório que existe incompreensão de parte a parte, com "To Take a Wife" a conseguir construir um retrato complexo da dupla de protagonistas, deixando-nos muitas das vezes perante situações para as quais não sabemos para qual lado pender, embora a solidão sentida por Viviane e a ausência do esposo sejam notórias. A dinâmica entre Ronit Elkabetz e Simon Abkarian, convincentes como um casal à beira do abismo, eleva um filme a espaços claustrofóbico que não tem problemas em aventurar-se pela intimidade da vida de um casal, expondo a complexidade da situação em que a dupla de protagonistas se encontra envolvida. O argumento explora a intimidade de um casal de maneira arrasadora e realista, com "To Take a Wife" a envolver-nos no interior desta claustrofóbica relação com enorme eficiência, naquele que é o primeiro capítulo de uma recomendável trilogia.

Título original: "Ve'Lakhta Lehe Isha".
Título em inglês: "To Take a Wife". 
Realizadores: Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz.
Argumento: Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz.
Elenco: Ronit Elkabetz, Simon Abkarian, Gilbert Melki, Sulika Kadosh, Omer Moshkovitz, Yam Eitan, Dalia Beger.

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