05 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "The Tale of the Princess Kaguya" (O Conto da Princesa Kaguya)

 Por vezes questionam-me sobre a minha paixoneta pelo cinema asiático (nem sempre tão colocada em prática como pretendo) e pelas razões de gostar do mesmo. O termo cinema asiático faz-me sempre uma enorme comichão pois traz várias limitações, tal como a denominação cinema europeu, devido às diferenças a nível de produções cinematográficas em cada país dos continentes citados (para além das próprias produções nacionais conterem por vezes uma enorme diversidade). Confesso que a minha tarefa estaria bastante facilitada se todas as pessoas que me questionam sobre o gosto pelos filmes oriundos do continente asiático assistissem a "The Tale of the Princess Kaguya", uma obra cinematográfica de enorme beleza, candura e graciosidade para a qual é praticamente impossível ficar indiferente. O seu realizador é Isao Takahata, o mesmo de um dos grandes filmes da História do Cinema, "Grave of the Fireflies", o estúdio que produziu o filme é o Studio Ghibli, os desenhos são elaborados como se fossem pequenas aguarelas, feitos à mão, enquanto tudo se desenrola a um ritmo complacente com o fluir do tempo e da vida. Não deixa de ser curioso que esteja nomeado para o Oscar de Melhor Filme de Animação numa categoria que conta ainda com "Big Hero 6" e, se este não tivesse sido injustiçado, teria "The Lego Movie" também como companheiro na competição. Os dois últimos exemplos são antagónicos de "The Tale of the Princess Kaguya". Ambos têm as suas qualidades mas apresentam um ritmo frenético e intenso, claramente mais virados para um público contemporâneo. "The Tale of the Princess Kaguya" é atemporal. É um filme que Isao Takahata desenvolve a um ritmo muito próprio, deixando-nos perante um enredo baseado no conto popular "The Tale of the Bamboo Cutter", datado do Século X, ao mesmo tempo que remete para uma fábula de encantar. Não se limita a encantar. Emociona, diverte, encanta, surpreende, deslumbra e comove. É um filme de enorme beleza a nível visual e narrativa, mas também de enorme humanidade na forma como Isao Takahata desenvolve o enredo, ao deixar-nos perante o crescimento de uma jovem para a idade adulta, mas também diante de temáticas como o papel da mulher no Japão do período representado, o questionar sobre o que traz realmente a felicidade, o papel da família, ao mesmo tempo que ficamos ainda perante elementos associados aos contos de encantar e às fábulas ou a protagonista não tivesse sido descoberta no interior de um bambu. Sanuki no Miyatsuko (Takeo Chii) encontra-a num bambu que brota rapidamente, pensando que esta tem algo de divino, tratando-a como sua filha e princesa, com Ona (Nobuko Miyamoto), a sua esposa, a aceitar a presença de Kaguya (Aki Asakura), mais conhecida como "Takenoko" (Pequeno Bambu) pelos jovens que habitam este território rural. Kaguya surge inicialmente como uma jovem mulher adormecida, muito pequena, a ponto de caber na mão de Sanuki, um cortador de bambu que fica extasiado com a presença deste novo elemento na sua vida. Pouco depois, a protagonista logo regride e transforma-se num bebé até começar a crescer de forma exponencial. Veja-se como rapidamente começa a dar os primeiros passos, com Isao Takahata a apresentar estes momentos com enorme candura, enquanto nos deixa com Takenoko a andar de forma meio desconjuntada. Todos percebem que esta não é uma rapariga completamente comum, sobretudo devido a crescer a uma velocidade acima da média, enquanto forma amizade com os jovens que habitam o local, em particular Sutemaru (Kengo Kora), um rapaz que vai ficar marcado durante boa parte do tempo nas suas memórias. Este é um dos elementos mais velhos do grupo, com quem Takenoko partilha algumas brincadeiras e tropelias, tais como roubar frutas, nadar no lago, caçar um faisão, entre outras aventuras e desventuras. No entanto, o pai da protagonista tem outros planos para esta, sobretudo quando corta um bambu e descobre ouro e noutro aparecem-lhe tecidos de grande valor, pensando que é um sinal divino para que esta tenha outro estilo de vida.

Sanuki decide mudar-se para a capital e tentar que a filha granjeie o estatuto de princesa, mesmo que seja algo contra a vontade da mesma, com Kaguya a sentir-se sempre mais à vontade no campo onde pode apreciar os pequenos prazeres da natureza. Ainda parece demonstrar um entusiasmo inicial com os luxos mas este logo desaparece quando o pai a proíbe de ver os antigos amigos. Os primeiros trinta minutos do filme são sobretudo marcados pela candura desta jovem pelo território rural, enquanto forma amizades e vive de forma intensa e livre, algo que será coartado na chegada à capital, não só devido ao estatuto que os pais lhe querem dar, mas também pela chegada gradual à idade adulta. Esta é oficializada como princesa por Inbe no Akita (Tatekawa Shinosuke), o elemento que define o nome da protagonista como Kaguya. Na capital, a jovem passa não só a contar com uma casa claramente mais espaçosa e luxuosa, mas também roupas mais caras, vistosas e coloridas, sobressaindo todo o detalhe colocado nas mesmas, para além de contar com a presença de uma aia e de Sagami (Atsuko Takahata) uma instrutora que procura ensiná-la a agir como uma princesa. Escusado será dizer que Kaguya vai relutar imenso em seguir os ensinamentos, entre os quais cortar os pelos das sobrancelhas por completo e pintar os dentes de negro, para além de uma série de protocolos para os quais esta não parece ter muita paciência. Kaguya é um espírito livre. É uma jovem que quer desfrutar da vida e pouco parece ligar aos luxos, ao contrário do seu pai. Diga-se que Sanuki e Ona ao trazerem Kaguya para a capital pensam estar a fazer o melhor para a filha, embora esta não pareça encontrar neste local rodeado de luxos a felicidade que apresentara outrora. Isao Takahata deixa-nos perante um questionar se a riqueza e poder trazem mesmo felicidade ao mesmo tempo que nos coloca diante de uma jovem que não tem problemas em desafiar os protocolos da sua sociedade e a tradição, mesmo que isso implique ridicularizar os seus pretendentes após estes fazerem promessas aparentemente impossíveis. Ainda vamos ter alguns momentos de humor inerentes à capacidade de Kaguya em desafiar os seus pretendentes, mas também devido à forma meio ridícula como procuram demonstrar a afeição por esta. No entanto, mais tarde ou mais cedo a verdadeira origem de Kaguya vai ser revelada e esta acaba por ser colocada diante de uma situação que inicialmente até poderá ter desejado embora se arrependa com enorme facilidade. A certa altura esta salienta o que ama no nosso planeta e na convivência com os mortais, enfatizando a palavra "sentimento". "The Tale of the Princess Kaguya" é um filme de animação que mexe com os nossos sentimentos e sentidos, brilhante na forma como as suas imagens são elaboradas, complexo quando tem de o ser a abordar temáticas difíceis, ao mesmo tempo que exibe a capacidade de Isao Takahata em nos comover. Ele bem nos avisa a certa altura do filme mas não o queremos ouvir e depois saímos lixados, numa obra que tem muito dos contos e fábulas populares japonesas, mas também da cultura nipónica. Nesse sentido, vamos assistir à história de uma jovem encontrada num ramo de bambu, cujo mistério e beleza vai encantar todos à sua volta quando chega à idade adulta, embora o número de pretendentes pareça ser a menor das suas preocupações. Esta tem uma relação de proximidade com os pais adoptivos, mas também com o território do campo onde inicialmente se encontrava instalada, acabando aos poucos por ter de lidar com algumas contingências nem sempre agradáveis da idade adulta, com "The Tale of the Princess Kaguya" a exibir que o papel da mulher no Japão deste tempo pode nem sempre ser o mais agradável, sobretudo quando existe alguém como a protagonista que claramente parece pouco disposta a casamentos arranjados e exibir, e bem, a sua personalidade vincada.

O único elemento que deixou marca nesta, para além dos pais, foi Sutemaru, um indivíduo que ainda encontra brevemente, embora não estejam destinados a ficar juntos. No final, ficamos também diante da incapacidade da protagonista em travar o destino tendo de aceitar o mesmo, seja este agradável ou cruel, algo muito nipónico, com Isao Takahata a ferir-nos e à sua personagem ao mesmo tempo que nos deixa perante a complexidade do ser humano. Veja-se o pai de Kaguya, um homem que parece fascinado pelo poder, apesar de querer sempre o melhor para a sua filha, embora por vezes se esqueça que os seus desejos e os de Kaguya podem nem sempre estar em consonância. Existe um enorme cuidado no estabelecimento desta relação entre pais e filhos, mas também na representação do território e do guarda-roupa, sobressaindo sobretudo quando esta família se muda para a capital e procura impor o estatuto nobiliárquico de Kaguya. Esta nem parece estar para aí virada, mas o seu pai considera que Kaguya é proveniente da realeza, alguém vindo dos "céus", sobretudo devido aos vários milagres inerentes à sua pessoa: Kaguya apareceu num bambu, com um corpo a caber na palma de uma mão, regride para bebé e cresce mais rápido do que qualquer ser humano comum; surgem tecidos e ouro do bambu ou das imediações do local onde esta foi encontrada, ou seja, muitas coincidências para Sanuki não levar a sério que está diante de uma predestinada. Este é um indivíduo que por vezes assume posturas ridículas perante a sociedade para ver a sua filha ser aceite na mesma. Veja-se quando ironizam com o facto deste ter comprado o título de princesa para Kaguya, mas também a sua procura constante em querer casar a filha. Não é mal intencionado, bem pelo contrário, cometendo alguns erros pelo meio apesar de pretender ajudar sempre Kaguya, embora não pareça claramente perceber que a felicidade desta não está na vida como uma princesa mas sim no território rural. Já a mãe desta surge como uma figura mais ponderada e apagada, enquanto a instrutora quase que se passa com a insolência da aluna, tal a procura da protagonista em fugir aos protocolos. Esta procura viver a vida de forma intensa, é questionadora do mundo que a rodeia, surgindo como uma mulher com valores bem mais modernos do que aqueles apresentados pela sociedade do seu tempo. "The Tale of the Princess Kaguya" é também um filme sobre tradições, sejam estas uma nomeação, uma festa que dura três dias para oficializar o nome de Kaguya, os pretendentes que se reúnem para cortejarem Kaguya, a presença do Imperador, embora nem este último pareça ser capaz de despertar a atenção da protagonista. Esta quer viver, descobrir, sentir e apreciar cada momento da sua passagem pela Terra, livre de amarras protocolares ou casamentos arranjados. Quando a amarram, as cores tornam-se mais esbatidas e frias, com a utilização da paleta cromática a ser utilizada com grande rigor. Um exemplo que por vezes até tem um efeito cómico é quando algum personagem se irrita e logo fica com a cara com tonalidades encarnadas, embora existam muitos outros casos a realçar. Os quimonos da protagonista, por vezes cor de rosa, são exemplo disso, bem como as tonalidades verdejantes dos bambus, com tudo a parecer ter sido pensado ao pormenor. Veja-se quando encontramos Kaguya em enorme correria, a fugir da festa protocolar onde ninguém a pode ver e encontra-se isolada, com as cores a serem apenas preto, branco e as vestes vermelhas destas. Parece praticamente desenhado a lápis de carvão, naquele que é um dos momentos definidores do filme, saído de um sonho bem real ou de uma realidade próxima de um sonho, ou melhor pesadelo, de Kaguya, no qual esta regressa temporariamente ao território rural e percebe que todos saíram do mesmo e só regressarão às montanhas daqui a dez anos, quando o mesmo voltar a ficar fértil e tiver árvores. Fica desconsolada e quando acorda volta a estar no interior da sua casa, onde observa a festa pelas frestas de bambu. A depressão desta parece ser latente, sentindo alguma melancolia por um passado que não pode recuperar, um presente que nem sempre lhe agrada e um futuro completamente incerto.

No final, a melancolia apodera-se de Kaguya, dos seus pais e de nós, com Isao Takahata a apresentar-nos alguns momentos marcados por enorme lirismo e tristeza, mas também de amor de alguém pelo nosso planeta, incluindo pelas virtudes e defeitos do mesmo. Diga-se que "The Tale of the Princess Kaguya" é um filme que se parece também interessar pelo quotidiano, por aqueles pequenos momentos que reunidos fazem grandes memórias, algo notório com Ona a amamentar a jovem princesa, os primeiros passos de Kaguya, o fascínio desta pela natureza, a amizade formada com Sutemaru, entre tantos outros episódios. Isao Takahata já não realizava um filme de animação desde "My Neighbors the Yamadas", lançado originalmente em 1999. "The Tale of the Princess Kaguya" foi lançado originalmente em 2013. É caso para dizer que valeu a pena a espera, com Isao Takahata a apresentar-nos a uma obra marcada por um enorme perfeccionismo, com as cores a surgirem bem vivas, a delicadeza a rodear as imagens e o enredo e a sentirmos estar perante uma obra cinematográfica especial. A certa altura do filme podemos ouvir a protagonista a cantar uma música marcada por enorme melancolia e nostalgia. Aos poucos esses sentimentos assolam-nos, um pouco como à protagonista, uma jovem que procurou na Terra viver aquilo que nunca conseguiria ter na Lua. Esta é uma jovem apaixonada pelas imperfeições do nosso planeta, pelas virtudes e defeitos deste espaço, que adora observar a natureza e os animais. Veja-se quando lhe oferecem um pássaro numa gaiola e logo solta o mesmo. Este é também um filme onde os sentimentos andam à solta, sejam mais alegres, sejam de maior tristeza, com "The Tale of the Princess Kaguya" a exibir mais uma vez Isao Takahata como um cineasta excepcional. Não nos apresenta a uma obra marcada pelo realismo de "The Grave of the Fireflies", preferindo antes mesclar temas bem reais com elementos associados às lendas populares e fantasia. A preocupação com o papel da mulher na sociedade japonesa é algo que atravessa as obras de cineastas como Mikio Naruse, Kenji Mizoguchi, entre outros. Em "The Tale of the Princess Kaguya" ficamos perante uma jovem que tem de lidar muitas das vezes com o facto de viver numa sociedade patriarcal, embora seja claramente irreverente e independente para o seu tempo. Assistimos ao seu crescimento, desde que era uma bebé, até se transformar numa adolescente e numa adulta que desperta a atenção de todos, enquanto procura sentir como pode durante o tempo em que se encontra na Terra, ao mesmo tempo que são abordadas temáticas como o papel da mulher na sociedade, o materialismo, a dicotomia entre o campo e a cidade, entre muitas outras. Kaguya aprende ainda a tocar o koto, um instrumento musical, algo que fez parte das instruções a que esteve sujeita, com a música a ter um papel de relevo em "The Tale of the Princess Kaguya", sobressaindo a banda sonora de Joe Hisaishi, um colaborador habitual de Takeshi Kitano e Hayao Miyazaki, que contribui para esta mescla de fantasia, melancolia e sonho que rodeia o enredo do filme. "The Tale of the Princess Kaguya" supostamente estreia em Portugal em 2015. A acontecer essa estreia, com as vozes originais, será um acontecimento cinematográfico. Não é por estarmos diante daquele que promete ser um dos melhores filmes de animação a estrear nas nossas salas de cinema em 2015, é mesmo por "The Tale of the Princess Kaguya" ser uma das melhores obras cinematográficas que vão estrear comercialmente em Portugal no decorrer deste ano.

Título original: "Kaguyahime no monogatari"
Título em inglês: "The Tale of the Princess Kaguya".
Título em Portugal: "O Conto da Princesa Kaguyahime".
Realizador: Isao Takahata.
Argumento: Isao Takahata e Riko Sakaguchi.
Elenco vocal: Aki Asakura, Kengo Kora, Takeo Chii, Nobuko Miyamoto.

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