03 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "Still Alice" (O Meu Nome é Alice)

 O que fazer quando sentimos as nossas memórias a serem roubadas e a nossa identidade a desvanecer-se perante uma doença ainda sem cura? A resposta a esta questão não é fácil e duvido que qualquer um de nós reagisse a esta situação da mesma maneira. Diga-se que esta é uma questão que vai afectar Alice (Julianne Moore), a protagonista de "Still Alice", um filme baseado na obra literária homónima da autoria de Lisa Genova que aborda a doença de Alzheimer através do ponto de vista desta mulher. Por todos os problemas que se possam apontar a "Still Alice", tais como a falta de densidade de alguns personagens secundários, subtramas pouco exploradas ou abordadas de forma apressada, é meritória a procura da dupla de realizadores em sensibilizar o público em relação aos efeitos cruéis do Alzheimer. A realização de Richard Glatzer e Wash Westmoreland e a banda sonora de Ilan Eshkeri não escondem aquilo que procuram: comover o espectador com a história de Alice. O enredo é na maioria previsível, embora surpreenda no final, não tanto por alguma reviravolta estrondosa mas por um momento comovente e marcado por alguma ternura entre uma mãe e a sua filha mais nova, com a dupla de realizadores a apresentar um trunfo que eleva o filme da mediania: Julianne Moore. Esta tem em "Still Alice" uma daquelas interpretações capazes de facilmente nos inquietarem e sensibilizarem, dotando a sua personagem de uma enorme humanidade e personalidade, mesmo quando o argumento não ajuda. Diga-se que os realizadores, em parte, tiveram a vida facilitada: basta colocarmos a questão do que seria e faríamos se um familiar nosso padecesse da mesma doença ou se fossemos nós próprios a padecer da mesma e aos poucos o filme começa a apoderar-se de nós, enquanto assistimos ao rápido degradar mental e até físico de Alice Howland (Julianne Moore). Alice é uma especialista em linguística, uma profissional de renome, respeitada, conhecida pelo seu dom para a oratória, que aos poucos começa a ter pequenos lapsos de memória, algo que não considera normal. Essa situação torna-se notória quando se encontrava a fazer jogging e perde a noção do rumo de casa e esquece-se de uma palavra durante uma conferência. É então que contacta Travis Benjamin (Stephen Kunken), um neurologista que aos poucos começa a desconfiar de que esta padece de Alzheimer. Todos pensam que Alice é nova demais, incluindo a própria, para padecer da doença. No entanto, Alice sofre de Alzheimer familiar, algo que pode ter passado hereditariamente para algum dos seus três filhos, nomeadamente Anna (Kate Bosworth), Tom (Hunter Parrish) e Lydia (Kristen Stewart). Alice é casada com John (Alec Baldwin), um homem ligado à área da ciência, dedicado ao trabalho, com quem parece manter uma relação feliz, marcada por alguns momentos de felicidade e cumplicidade, mas também alguns arrufos. John e Alice são ambiciosos, construíram carreiras interessantes, vivem relativamente acima da média, e formam uma família que conta com alguns problemas mas nem por isso deixa de se conseguir reunir com alguma frequência. Anna procura ter um filho com Charlie (Shane McRae); Tom encontra-se a tirar o curso de medicina; Lydia, a mais nova, encontra-se dedicada ao teatro e a tentar ser actriz, com o pai a financiar a companhia onde esta actua, surgindo quase como a "ovelha negra" da família. A construção do relacionamento de Alice com os filhos não deixa de ser algo superficial, com Kate Bosworth e Hunter Parrish a terem pouco para fazer, enquanto Kristen Stewart é o elemento que mais se destaca do grupo, quer pelas divergências que Lydia apresenta em relação à progenitora e a Anna, quer por inicialmente não compreender totalmente o estado em que se encontra a mãe, quer por ser aquela que lhe vai dedicar mais tempo. 

 Kristen Stewart surge convincente como uma jovem aspirante a actriz algo despreocupada com a vida, que procura continuar a contactar com a mãe, nem que seja online devido a estar a viver temporariamente na Califórnia, enquanto o estado de Alice vai piorando a olhos vistos. O argumento incute pouco tempo na construção dos personagens e dos seus relacionamentos antes da revelação da doença, com "Still Alice" a procurar avançar rapidamente para a sua temática central a um ponto que torna necessário inserir uma nova consulta desta no médico para que este explique não só a Alice e ao esposo, mas também ao espectador, que existem casos em que a doença pode avançar de forma demasiado rápida, de forma a procurar dar uma credibilidade ao rápido degradar da memória da protagonista. Alice procura guardar no iphone informações básicas como o nome das filhas e do filho, a sua morada, entre outros assuntos, para além de criar uma pasta no computador com um vídeo onde procura dar instruções a si própria para tomar todos os comprimidos guardados numa divisória da cómoda de forma a terminar com o sofrimento a partir do momento em que se deixar de recordar de elementos essenciais. O que faríamos nesta situação? No caso de Alice existe um misto de determinação e desorganização, com esta a não conviver bem com o facto de estar a perder algo que lhe é e era bastante precioso: as suas memórias. Ao longo do filme vamos assistindo assim ao degradar gradual de Alice, por vezes de forma mais rápida do que o esperado por esta, com a dupla de realizadores a parecer investir em demasia no melodrama de forma a forçar o espectador a comover-se com a situação da protagonista, embora tratem os efeitos desta doença com o devido respeito que os doentes que dela padecem merecem. É uma doença e uma temática delicada de abordar, algo que nem sempre é explorado com a devida sagacidade por parte de Richard Glatzer e Wash Westmoreland, com estes a falharem ainda no capítulo do desenvolvimento das relações familiares da protagonista e no estabelecimento de um núcleo de personagens secundários fortes. Kate Bosworth e Hunter Parrish têm um ou outro momento onde sobressaem como dois dos filhos de Alice, mas os seus personagens pouco evoluem ou são explorados ao longo do enredo, enquanto Stephen Kunken fica com o papel de médico simpático e compreensivo que surge na trama de forma esporádica. Já Kristen Stewart sobressai em alguns momentos como a filha problemática sem futuro profissional definido cuja relação com a mãe se vai fortalecendo ao longo do enredo, tal como Alec Baldwin evidencia competência a expor a procura do seu personagem em apoiar a esposa e manter a ambição profissional, tendo alguns momentos emocionalmente mais poderosos quando está com Alice. John ama a esposa e parece ter realmente apreciado o tempo em que viveram juntos, mas é notório que não está preparado para ver esta a perder as memórias dos episódios que partilham em comum. Veja-se quando combinam ir correr e esta se esquece por completo onde fica a casa de banho, desesperando por completo por se perder no interior da sua própria casa. É um momento degradante para ela que mais uma vez ganha dimensão exactamente devido ao desempenho de Julianne Moore, com esta a transmitir-nos o misto de vergonha e desespero de Alice ao urinar nas calças devido a não encontrar a casa de banho.

 O casamento de Alice com John é marcado pelos feitos que conquistaram em conjunto e pela felicidade de ambos no passado, embora o argumento pudesse claramente incutir ainda mais densidade a este relacionamento. Veja-se quando o personagem interpretado por Alec Baldwin recebe uma tentadora oferta de emprego, que implica uma mudança de casa, um tema atirado para a narrativa para pouco ser explorado. Ainda existe uma discussão deste com a esposa, mas logo a narrativa avança, com o argumento e a dupla de realizadores a atirarem com temáticas secundárias ou subtramas e a voltarem a pegar nelas de forma nem sempre bem conseguida. Uma dessas subtramas encontra-se relacionada com a procura de Anna e Charlie em terem um filho, algo que avança de forma pueril e só volta a ter relevância no último terço quando esta tem gémeos. Esta situação deve-se ao facto de Richard Glatzer e Wash Westmoreland procurarem centrar quase tudo em Alice, uma decisão que permite a Julianne Moore ter a oportunidade de destacar-se como esta mulher que aos poucos começa a esquecer-se de situações até então consideradas básicas para si, com a dor da personagem a ser latente. Moore consegue explorar o sofrimento da sua personagem pelas constantes perdas de memória, bem como o desespero que sente por não conseguir utilizar e articular as palavras como antes, o seu medo em se esquecer dos filhos, ou seja, o seu receio em perder-se em si mesma. Existe um momento poderosíssimo quando esta dá uma palestra na Associação de Apoio aos Portadores de Alzheimer, onde lê um texto muito pessoal com o auxílio do seu marcador amarelo para não se perder a meio. Nesta conferência, Alice salienta que se encontra a aprender "a arte de perder todos os dias": "A perder os meus modos, a perder objectos, a perder o sono e, acima de tudo, a perder as memórias (...) Tudo o que acumulei na vida, tudo para o que trabalhei tanto para conquistar, agora tudo isso está a ser levado embora. Como podem imaginar, ou como vocês sabem, isso é o inferno. Mas fica pior. Quem nos leva a sério quando estamos tão diferentes do que éramos? O nosso comportamento estranho e fala confusa mudam a percepção que os outros têm de nós e a nossa percepção de nós mesmos. Tornamo-nos ridículos. Incapazes. Cómicos. Mas isso não é quem nós somos. Isso é a nossa doença". A citação é longa, tal como este monólogo de Alice demora algum tempo, com Julianne Moore a emocionar-nos pela forma sentida e profundamente humana como expõe o discurso da personagem naquele que é um dos momentos de maior inspiração de "Still Alice". Após este discurso passamos definitivamente a perceber o que esta mulher sente e aquilo que esta se encontra a enfrentar, ao mesmo tempo que existe sempre um certo sentimento de perda por sabermos que esta situação da personagem é irreversível. Aos poucos vemos esta a não saber o nome da filha, a desconhecer a namorada do filho, a perder a noção de onde se encontra e dos episódios que vive. Num dia bom quase que consegue esconder a doença, num dia mau vira um farrapo humano. Quando descobre a doença salienta ao esposo que preferia ter cancro, uma afirmação que parece exagerada embora aos poucos percebamos a aflição que é perder a noção de quem nós somos e de quem nos rodeia através desta personagem. 

 O marido procura embrenhar-se no trabalho encontrando-se muitas das vezes ausente. Muitas das vezes não o percebemos, ou melhor até entendemos a atitude. Nem todos reagimos da mesma maneira às adversidades e parece notório que este não está preparado para ver a esposa perder-se no meio de uma doença que a destrói mentalmente e a debilita fisicamente. Numa cena entra em pânico por perder o telemóvel onde guarda informação relevante sobre as filhas e o filho, bem como sobre si própria, exibindo posteriormente uma alegria por ter encontrado o aparelho um dia depois. É então que vemos o desconsolo do personagem interpretado por Alec Baldwin ao salientar que o telemóvel se encontrava perdido há um mês. A desolação é visível no seu rosto, com Alec Baldwin a exibir imenso apenas com os gestos faciais. Estamos longe dos momentos de felicidade do início do filme, nos quais ficamos diante da celebração do quinquagésimo aniversário de Alice, onde se encontram presentes Anna, Tom, John e Charlie, naquela que é uma forma rápida de apresentar os personagens. A partir daqui sabemos que Anna e Charlie procuram ter um filho, enquanto John tenta terminar o curso. Lydia também é apresentada, embora posteriormente, tendo uma relação complicada com Anna. A partir do momento em que sabem da doença de Alice, estes elementos ficam devastados, embora o impacto nem sempre tenha a força esperada devido ao parco desenvolvimento dos relacionamentos entre a protagonista e alguns elementos secundários. Diga-se que esta é uma luta muito pessoal de Alice, que ainda procura continuar a dar aulas e a lutar contra o impossível, mesmo sabendo que mais tarde ou mais cedo irá perder as recordações de quem era, algo que torna "Still Alice" num filme nem sempre fácil de se ver. Julianne Moore compele-nos a seguir a personagem que interpreta, a seguir o seu sofrimento por perder qualidades que tomava por garantidas e aos poucos fazer-nos pensar de como reagiríamos se esta situação acontecesse a um familiar nosso. Moore é a pedra de toque do filme. O argumento é algo irregular e pouco denso, a realização e a cinematografia estão longe de se destacarem de forma clarividente, por vezes pedia-se mais tempo para as temáticas serem exploradas com mais assertividade e cuidado, cabendo à actriz explanar o seu talento e comover-nos como Alice. A actriz consegue dar credibilidade aos momentos em que Alice vai perdendo a memória, esquecendo-se de elementos sobre aqueles que lhe são próximos ao mesmo tempo que não perde totalmente a vontade de viver. Quando Anna finalmente tem os seus gémeos, Alice logo procura que a deixem segurar num dos bebés. Até nós temos medo do que esta poderá fazer. O resultado é um momento comovente com Alice a mostrar ainda o seu instinto maternal, numa das várias cenas do filme que facilmente nos deixam comovidos. "Still Alice" nem nos engana nos seus propósitos, ao surgir como um melodrama que parece mais preocupado em despertar a atenção do espectador para os efeitos do alzheimer do que ficar guardado para a História como uma obra inovadora ou até muito acima da média. Nem vamos comparar a um telefilme, nem a trabalhos televisivos, pois só quem não acompanha os mesmos é que poderá utilizar esse argumento para adjectivar negativamente um filme (veja-se a qualidade de séries como "The Affair"), com "Still Alice" a surgir como uma obra cinematográfica simples, com notórios problemas em sair da mediania, tecnicamente pouco vistoso, que sobressai sobretudo pela força da sua temática principal e de elementos como Julianne Moore, Kristen Stewart (2014 foi um excelente ano para a actriz) e Alec Baldwin. É um filme que procura comover o espectador mas também despertar à atenção para os efeitos do Alzheimer, ao mesmo tempo que surge como um veículo para Julianne Moore explanar o seu talento, com a actriz a surgir com uma interpretação poderosa, emotiva, que facilmente nos emociona e destroça.

Título original: "Still Alice". 
Título em Portugal: "O Meu Nome é Alice". 
Título no Brasil: "Para Sempre Alice".
Realizador: Richard Glatzer e Wash Westmoreland.
Argumento: Richard Glatzer e Wash Westmoreland.
Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Hunter Parrish.

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