26 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "Shiva" (7 Days)

 Shiva é o nome dado dentro do judaísmo ao período de sete dias de luto mantidos pela morte de uma pessoa próxima. Este é também o título do segundo filme realizado pelos irmãos Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz, após terem elaborado "To Take a Wife". Em comum estes dois filmes têm o facto de nos apresentarem ao interior do quotidiano de uma família, com a câmara de filmar a voltar a exibir com enorme realismo a vida dos protagonistas no interior de uma habitação, para além de contar com as presenças de Viviane (Ronit Elkabetz) e Eliyahu (Simon Abkarian), a dupla de personagens principais de "To Take a Wife". Estes serão ainda protagonistas de "Gett: The Trial of Viviane Amsalem", o terceiro e suposto último capítulo da trilogia, embora em "Shiva" estes tenham um papel bem menos central do que em relação ao primeiro filme realizado pela dupla formada por Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz. A própria câmara de filmar procura evitar os close-ups, apresentando-nos planos mais abertos de forma a permitir colocar-nos diante da miríade de personagens que envolvem a narrativa, com quase todos estes a quebrarem os rituais associados ao período de luto. Viviane encontra-se no local devido à morte de Maurice, um dos seus vários irmãos. No local encontramos vários familiares desta, incluindo a mãe, os seis irmãos e as duas irmãs, todos com objectivos e personalidades relativamente distintos, a maioria a passar por algumas dificuldades, sejam do foro económico, sejam do foro pessoal. Os momentos iniciais são marcados pelo enterro, mas também pelo sinal de perigo do ataque inimigo através do sinal da sirene, com quase todos os personagens a colocarem as máscaras de protecção. Estamos em Israel, em plena Guerra do Golfo, numa fase complicada desta nação, com as ofensivas militares adversárias a causarem algum receio. No entanto, as maiores explosões acontecem no interior da casa de Ilana (Keren Mor), a viúva da Maurice. Os espelhos são tapados, os retratos retirados ou voltados ao contrário, enquanto a família fica sete dias no local para supostamente prestar tributo ao falecido. Eliyahu visita o espaço para tentar uma reconciliação com Viviane, mas esta parece decidida a querer o divórcio, encontrando-se a viver sem este. O personagem interpretado por Simon Abkarian salienta que prefere morrer a conceder-lhe o divórcio, enquanto ela mostra-se disposta a traí-lo de forma a manchar a reputação do esposo. Estão longe de apresentarem grande intimidade ao longo do filme, com Viviane a procurar evitá-lo, até finalmente dialogarem e esta expor o seu cansaço por Eliyahu não lhe conceder o divórcio. No primeiro filme os momentos entre ambos eram de enorme tensão. Em "Shiva" percebemos que a relação pode continuar no papel, mas terminou na prática, com Viviane a ter ainda um momento de maior "calor humano" com Ben Loulou (Gil Frank), um indivíduo que se encontra a ajudar os Ohayon (a família de Viviane) a tratar de questões práticas. Ronit Elkabetz volta a sobressair a interpretar esta mulher que procura a independência em relação à figura masculina, apresentando a sua forte personalidade quer junto de Elyahu, quer junto de elementos como Simona (Hanna Azoulay Hasfari), uma das suas irmãs, com quem esta não se parece dar relativamente bem, algo que vai conduzir a um dos momentos mais intensos do filme. 

Paz é tudo o que não reina nesta casa marcada por um espaço amplo e sentimentos à flor da pele. Meir (Albert Lluz) está a concorrer a Presidente da Câmara e encontra-se a tratar do material da campanha durante este período, para além de abordar assuntos relacionados com os bens de Maurice com alguns dos restantes elementos masculinos. Os bens do falecido, ou a falta destes, incluindo duas lojas, são elementos de discussão entre vários irmãos, tal como a possível falência da fábrica de Haim (Moshe Ivgy), um indivíduo que outrora ajudara os familiares, chegando até a pagar salários mais elevados para lhes proporcionar alguma estabilidade, mas agora depara-se com uma situação complicada. Veja-se quando o encontramos no primeiro terço do filme a contactar Ben Loulou sobre um possível comprador para a fábrica. Ita (Hana Laszlo), a esposa, emprestou-lhe uma larga quantia, que agora tem de devolver ao seu tio, com este dinheiro investido a outrora poder ter servido para o casal viver de forma desafogada ao invés deste ter utilizado boa parte das verbas na fábrica. Esta pretende que o esposo convença os irmãos a ajudarem a reaver o dinheiro em excesso que este pagou e serviu para cada um comprar uma casa própria em apenas três anos, bem como a viajarem duas vezes por ano ao estrangeiro, algo que demonstra a generosidade de Haim na hora do pagamento. A discussão acende-se entre os vários elementos, com Jacques (Rafi Amzaleg) a mostrar-se pouco disponível para ajudar o irmão, surgindo como o exemplo paradigmático do quão mal funciona esta família. Itamar (Alon Aboutboul), tal como David (David Ohayon), parecem mais compreensivos em relação à situação do irmão, parecendo certo que, quando podia, Haim foi um indivíduo que não teve problemas em ajudar os familiares. Esta aderência de Itamar, incluindo à possibilidade de vender a sua casa para ajudar o irmão, traz-lhe problemas com Ruthi (Orit Cher), a esposa, com a relação entre estes dois a surgir como um dos vários matrimónios marcados por problemas dos personagens que rodeiam o enredo de "Shiva". Veja-se o já citado desacordo entre Viviane e Eliyahu, mas também entre Ita e Haim, já para não falar no facto de Lili, a mulher de Jacques, estar a pensar em abandoná-lo, tendo outrora nutrido sentimentos amorosos por Maurice, o irmão deste último. Diga-se que destes elementos, tal como no primeiro filme, aquele que mais parece respeitar a tradição religiosa é Eliyahu, com o próprio a desaprovar as atitudes dos familiares de Viviane, ao salientar que estes estão a desrespeitar a memória de Maurice. A situação dos elementos masculinos encontra-se muito entroncada nas conversas sobre o negócio de Haim e as pretensões de Meir em ser eleito, com Jacques a preferir apostar numa vitória deste último e conseguir um trabalho na política do que ajudar o primeiro. Meir é apresentado como um indivíduo ambicioso, que não tem problemas em aconselhar Elyahu a mentir para convencer Vivianne a falar consigo, algo que o personagem interpretado por Simon Abkarian rejeita, exibindo, para o bem e para o mal, as suas fortes convicções em relação ao respeito pelo casamento. 

Não deixa de ser latente e até algo irónica a representação do aspirante a político como um elemento mentiroso e algo calculista nas suas ideias. Veja-se que começa desde logo a pensar em vender as duas lojas que eram utilizadas por Maurice, mas utiliza posteriormente o argumento que era para ajudar Haim, com Albert Iluz a criar um personagem que está longe de ser um exemplo moral. Diga-se que ao longo de "Shiva" o que encontramos é a memória de Maurice a ser desrespeitada, talvez com excepção de Hanina (Sulika Kadosh), a mãe deste, com os irmãos e irmãs a incorrerem em variadas infracções aos rituais. Desde logo por tratarem de questões de negócios, algo que é exposto nos momentos iniciais, com Haim e Ita a terem uma conversa no carro e posteriormente na casa de Maurice, onde expõem o quão afectada a relação se encontra pelas adversidades financeiras, mas também pelo carácter pouco pragmático do primeiro. Temos ainda exemplos de elementos como Evelyn (Evelin Hagoel), a irmã de Therese, que fica mais algum tempo no local para ver se conquista Ben Loulou, embora este esteja interessado é em Viviane. Evelyn e Therese (Ruby Porat Shoval), a esposa de Meir, passam muito do seu tempo na cozinha, a preparar os cozinhados, enquanto abordam temas como o interesse na primeira em Ben Loulou, críticas a Viviane, entre outros assuntos que variam entre a puerilidade e o tom mais crítico. Diga-se que não vão faltar cochichos no interior desta família, bem como muitas discussões, tais como a protagonizada por Simona, com esta a expor a falta de apoio dos familiares quando o esposo faleceu. Simona logo entra em conflito com Viviane, mas também com Ilana, com o trio de actrizes a sobressair nestes momentos de maior intensidade emocional, onde ressentimentos antigos parecem vir ao de cima e são impossíveis de contornar tendo em conta a obrigação de ficarem no interior da casa durante os sete dias de luto. Embora não tenha a intensidade, nem provoque o desgaste de "To Take a Wife", "Shiva" surge como um drama familiar competente, capaz de expor os problemas de uma família que tem de conviver durante sete dias na mesma casa, embora esta pareça uma tarefa difícil, sobretudo devido às personalidades e objectivos distintos de cada um. Ora são razões profissionais, ora são razões pessoais, não faltam motivos para estes personagens entrarem em quezílias no interior deste espaço fechado, onde os sentimentos facilmente andam à solta, alianças são iniciadas e quebradas, ao mesmo tempo que a dupla de cineastas dá espaço para os vários elementos do elenco sobressaírem. Inicialmente ficamos meio perdidos no meio desta família numerosa, da qual praticamente apenas conhecemos Viviane e Eliyahu, tal como estes personagens lidam com facetas nem sempre conhecidas uns dos outros, mas Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz conseguem "desatar relativamente bem o nó" ao mesmo tempo que nos deixam perante o cumprimento de um ritual que parece trazer mais problemas do que soluções. 

Existe algum realismo na procura de representar os episódios que envolvem estes personagens, com a própria cinematografia a dar-nos conta do forte contingente humano que preenche este cenário de uma habitação que temporariamente lida com uma família recheada de problemas. "Shiva" por vezes deixa-nos com grupos de dois ou três personagens a falar, tal como os reúne praticamente na sua totalidade em cenas de maior emotividade, com Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz a colocarem o foco da narrativa nas personalidades destes homens e mulheres, algo que se torna mais perceptível após uma segunda visualização do filme. A dupla de realizadores aborda ainda o contexto da Guerra do Golfo, com a falência do negócio de Haim a poder estar associada ao conflito, enquanto assistimos a estes personagens temerosos perante o som das sirenes que avisam do perigo que se avista. Estes são elementos judeus marroquinos ainda presos às tradições que procuram cumprir, embora nem sempre tenham grande sucesso nesse desiderato. Não faltam exemplos para darmos, tais como as discussões entre as mulheres; as negociatas mais fervorosas entre os homens; o beijo entre Viviane e Ben Loulou; David, um elemento oportunista que procura ser o cantor do jingle de campanha de Meir e anda com os posters pela casa; Evelyne a utilizar descuidadamente um lenço e batom vermelhos para seduzir Ben Loulou; trazerem carne por engano para a refeição, entre vários outros momentos que facilmente invadem a nossa memória. A refeição é marcada por recordações que fazem em relação ao falecido e aos seus gostos alimentares, mas também pelo desgosto de Ilana perante o falecimento do marido. Isso não significa que não seja criticada, com muitos elementos, incluindo Lili, a apontarem a ambição excessiva desta e os luxos pretendidos pela mesma pelo desgaste provocado em Maurice, com este a ter falecido de ataque cardíaco. Ainda cumprem alguns rituais, tais como as rezas, embora a maioria destes elementos varie entre a dor pela perda e o pragmatismo da necessidade de seguir em frente. No final, sobressai sobretudo a capacidade de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz em deixarem-nos perante sete dias intensos de uma família que procura cumprir o período de luto pela morte de um familiar numa reunião que promete reabrir feridas mal saradas que causam alguns conflitos entre os diversos elementos.

Título original: "Shiva". 
Título em inglês: "7 Days".
Realizadores: Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz.
Argumento: Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz.
Elenco: Ronit Elkabetz, Albert Iluz, Yaël Abecassis, Keren Mor, Simon Abkarian, Moshe Ivgy.

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