20 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "Scandal" (Shûbun)

 Akira Kurosawa coloca-nos perante a procura de uma revista sensacionalista em ganhar dinheiro a todo o custo com a criação de uma falsa história de um romance entre Ichiro Aoye (Toshirō Mifune) e Miyako Saijo (Shirley Yamaguchi), algo que vai afectar de forma indelével a vida destes dois elementos. Aoye é um artista que se encontra a efectuar uma pintura do Monte Kumotori, acompanhado por três indivíduos que observam com um misto de atenção e humor a forma peculiar como este interpreta e retrata o espaço. Este é conhecido pelo seu estilo algo peculiar e personalidade forte, utilizando uma moto como meio de transporte, vestindo-se de forma simples, tendo em Sumie (Noriko Sengoku) uma das suas modelos. É no momento em que se encontra a pintar o monte, acompanhado pelo trio, que é abordado por Saijo, uma cantora bastante conhecida. Saijo pretende que estes indiquem o melhor caminho para chegar a Kaminoyu. Pelas indicações recebidas, esta percebe que o local fica situado a grande distância, contando com a simpatia de Aoye para chegar ao hotel sem ter de ir a pé, com este a oferecer boleia, devido a também estar instalado no mesmo. Aoye não conhece inicialmente quem é esta mulher, algo que apenas descobre quando chega ao hotel e se gera um enorme burburinho pela presença da mesma. Não falta até a presença de dois paparazzis prontos a tirarem fotografias a Miyako Saijo. Esta é uma jovem e bela cantora que facilmente desperta a atenção nos locais por onde circula, embora Akira Kurosawa resista acertadamente à tentação de criar um romance entre Saijo e Aoye ao longo da narrativa. Perante a recusa de Saijo em tirar fotografias, os paparazzi procuram encontrar um meio de registar a presença desta no local, algo que conseguem quando esta se encontra num momento casual a falar com Aoye na varanda do quarto. Até estão em quartos separados, mas isso pouco vai importar para a história que vai ser publicada na revista Amour. Os paparazzi logo exibem as fotos ao editor de ambos na revista, um indivíduo que decide publicar a história como se Aoye fosse o novo namorado de Saijo. O escândalo logo contribui para a venda de um número avultado de exemplares, com o editor a procurar desde logo imprimir mais revistas tendo em vista a satisfazer a enorme demanda popular. Asai está pouco preocupado com a veracidade da história ou se esta terá implicações negativas na vida dos dois elementos visados, tal como o público que compra parece disposto a acreditar em tudo sem questionar, com Akira Kurosawa a efectuar uma crítica à imprensa sensacionalista e à falta de rigor da mesma através deste boato que é criado em volta de Aoye e Saijo. Ambos ficam bastante afectados, sobretudo devido à opinião pública tomar a relação como algo de concreto, uma situação que não é real, embora traga-lhes um mediatismo que estes não esperavam. A exposição de arte de Aoye começa a receber mais gente. A venda de bilhetes para os concertos de Saijo aumentam. No entanto, o interesse não é no trabalho de Aoye e Saijo, mas sim no esclarecimento sobre a possível relação entre ambos. É então que Hiruta (Takashi Shimura), um advogado de pouco estatuto, decide contactar Aoye para convencê-lo a avançar com um processo por difamação contra a revista "Amour". Inicialmente Aoye desconfia deste indivíduo cujo escritório fica situado no interior de um terraço, mas convence-se ao conhecer Masako (Yôko Katsuragi), a filha do advogado, uma jovem que padece de tuberculose e se encontra em estado terminal. 

Saijo parece relutante em entrar com um processo em tribunal, enquanto Aoye parece mais decidido, ao mesmo tempo que o editor da revista parece convencido que vai levar de vencida o processo. Este surge representado como um indivíduo completamente sem escrúpulos, que procura subornar Hiruta e aproveitar-se do vício deste pelo jogo, ao mesmo tempo que acredita na possibilidade de contornar a lei. O último terço muda a faceta de "Scandal" para filme de tribunal, enquanto Akira Kurosawa aproveita para efectuar uma defesa do direito à privacidade, uma crítica ao jornalismo sensacionalista e às possíveis brechas na lei que podem não defender os cidadãos. Hiruta começa a defesa de forma bem intencionada, mas a sua personalidade volátil e fraca deixa-o na dúvida sobre o que fazer em relação ao caso, algo que vai prejudicar a defesa de Aoye e Saijo. Por sua vez, Masako procura que o pai siga o caminho certo e defenda a dupla, com o filme a dar algum tempo para a exploração do drama familiar, sobretudo devido à situação terminal desta jovem e à amizade que cria com Aoye. O próprio advogado sente-se mal pelas decisões que toma em alguns momentos e pelas desilusões que provoca na filha, algo que fica latente na noite de véspera de Natal, com este e Aoye a protagonizarem alguns momentos de excesso de consumo de álcool, após o protagonista e Saijo terem decidido visitar Masako. Toshiro Mifune interpreta um personagem bem mais sóbrio do que o yakuza ao qual dera vida em "Drunken Angel", a sua primeira colaboração com Akira Kurosawa, contribuindo para dar algum carisma a este pintor com fortes ideais, que aparenta uma enorme dureza embora também seja capaz de actos de maior sensibilidade. Esta situação fica visível quando o encontramos a conduzir a sua mota, a transportar uma árvore de Natal para casa de Masako e assim alegrar esta jovem. Se Aoye é sensível quando deve ser, com Akira Kurosawa a dar alguma relevância aos pequenos momentos quotidianos destes personagens, também é implacável no que diz respeito à defesa do seu bom nome. Poderia deixar passar esta mentira mas quer que seja feita justiça e o seu nome seja limpo, num caso que afectou também a personagem interpretada por Shirley Yamaguchi, uma cantora que tem de lidar ainda com os preconceitos da época. O hate mail desta sobe de forma tão rápida como a venda de bilhetes, nesta sociedade japonesa do pós-Guerra, a lidar com elementos da modernidade, embora ainda apegada aos valores tradicionais. No entanto, cabe a Takashi Shimura ter um dos personagens mais complexos do filme, com este a interpretar de forma sublime um advogado bem intencionado, mas algo influenciável, um indivíduo por vezes algo patético na forma como em alguns momentos deixa cair os seus valores morais. Veja-se que sente alguma revolta pela forma como a imprensa trata a dupla de protagonistas embora aceite dinheiro dos elementos da "Amour", algo que o deixa constrangido em tribunal. É um homem complexo cujos actos nem sempre combinam com o seu bom fundo, tendo na filha um importante barómetro moral. Yôko Katsuragi interpreta uma personagem frágil e debilitada, representativa de uma mulher que padece de um dos problemas da época, com a tuberculose a ser uma realidade que afecta alguns sectores da população. A presença de Masako é fulcral para Akira Kurosawa expor a procura desta personagem em tentar que o pai tome as decisões moralmente mais acertadas ao invés de ceder aos instintos mais vis e pouco recomendáveis, algo que atribui mais densidade a esta complicada relação entre Hiruta e a filha. 

Já a revista "Amour" representa o pior que a imprensa nos pode dar, surgindo como um meio de comunicação social que vive dos rumores e das fofocas, com Akira Kurosawa a expor a forma como não podemos, nem devemos confundir liberdade de imprensa com invasão de privacidade e permissão para mentir ao leitor. Diga-se que o editor da revista e até a maioria dos trabalhadores surgem representados de forma relativamente unidimensional, procurando apenas alcançar os objectivos, ou seja, subir as vendas o máximo possível. É a Hiruta a quem cabem as maiores dúvidas, surgindo como um elemento imprevisível de quem nunca sabemos bem o que esperar em tribunal. Ficamos perante um dos célebres duelos internos efectuados por alguns dos personagens das obras criadas por Akira Kurosawa, com o cineasta a elaborar um drama de pendor crítico, onde expõe a necessidade da lei em proteger as liberdades individuais e os direitos dos indivíduos. A representação da revista cor-de-rosa exibe o tom crítico de Akira Kurosawa numa sociedade que ainda está a aprender a lidar com todo um novo contexto do pós-Guerra, incluindo a liberdade de imprensa, sendo necessário meios para que essa não transgrida a lei. Diga-se que este é um tema ainda polémico nos dias de hoje, embora em modos distintos (hoje a notícia do possível affair espalhar-se-ia de forma efusiva pela internet), num filme capaz de nos apresentar a um conjunto de personagens de pleno interesse. Veja-se o pintor que procura marcar a sua identidade, expor a sua visão do mundo nas obras de arte e apresenta fortes valores morais, mas também a cantora, uma mulher capaz de fazer carreira de forma independente, sem precisar de contar com um homem ao seu lado, para além da frágil filha do advogado, entre vários outros elementos que permitem ao elenco principal e secundário sobressaírem. Vale ainda a pena realçar a procura de Akira Kurosawa em não transformar a dupla de protagonistas num casal amoroso, fugindo a possíveis lugares-comuns e simplismos narrativos. No final, quem mais sobressai é Akira Kurosawa com uma obra que remete bastante para os seus trabalhos do pós-Guerra, com um notório pendor social, mesclando elementos de drama, filme de tribunal, ao mesmo tempo que são abordadas questões relacionadas com a defesa da lei, a falta de advogados, a imprensa sensacionalista, a forma como doenças como a tuberculose surgiam mortais (veja-se que esta é uma doença que afecta também o protagonista de "Drunken Master"), o culto das celebridades, entre outras que enriquecem "Scandal" de maneira inolvidável.

Título original: "Shûbun".
Título em inglês: "Scandal". 
Realizador: Akira Kurosawa. 
Argumento: Akira Kurosawa e Ryuzo Kikushima.
Elenco: Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Shirley Yamaguchi, Noriko Sengoku.

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