17 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "Rashomon" (Às Portas do Inferno)

 Akira Kurosawa dá-nos uma lição de como dinamizar uma narrativa e fazer-nos desconfiar dos personagens que povoam a mesma em "Rashomon", aquela que é uma das obras cinematográficas mais marcantes da carreira do realizador. Várias versões do mesmo acontecimento são contadas, diversos flashbacks são apresentados, mas gradualmente vamos ficando diante de um puzzle narrativo que não permite encaixar todas as peças de forma a chegarmos a uma conclusão contundente sobre os episódios expostos, algo que torna este filme ainda mais apaixonante. Os personagens principais que povoam os enredos das obras de Akira Kurosawa são muitas das vezes colocados diante de dilemas morais. No caso de "Rashomon" a situação não é diferente, a ponto de um padre começar a colocar em causa a sua fé na humanidade. Ficamos perante os acontecimentos que antecedem, decorrem e sucedem a um assassinato e uma violação, mas também diante do julgamento do crime, apresentados através de diversos flashbacks, bem como de flashbacks no interior de flashbacks. Nos momentos iniciais do filme ficamos diante de uma forte chuva que consome os cenários e se adapta na perfeição à atmosfera de pessimismo que rodeia os estados de espírito de um lenhador (Takashi Shimura) e um padre (Minoru Chiaki), dois elementos que ainda se encontram a recuperar do choque relacionado com os acontecimentos que envolveram o julgamento de Tajōmaru (Toshiro Mifune), um indivíduo acusado de eliminar um samurai (Masayuki Mori) e violar a esposa (Machiko Kyō) deste. A estes elementos junta-se um indivíduo (Kichijiro Ueda) relativamente grosseiro e pouco dado a grandes contemplações que se interessa pela história que a dupla tem para contar enquanto espera, tal como os outros dois, que a chuva pare de vez para poder sair do local. Encontram-se junto ao portão de Rashomon, num espaço algo degradado que prosperou durante o período Heinan da História do Japão, com o enredo a desenrolar-se algures durante o século XI. A degradação não é apenas do local. Também existe a nível simbólico. Excepção feita ao padre (e mesmo esse tem dúvidas sobre a sua fé na humanidade), poucos são aqueles ao longo do enredo que podem servir de exemplo moral, com Akira Kurosawa a explorar elementos que decorrem no passado do país para comentar o presente, ou "Rashomon" não tivesse sido lançado em 1950, uma data ainda bastante próxima da II Guerra Mundial. Veja-se desde logo a exibição do pessimismo em relação ao ser humano, algo que evidencia uma atmosfera de malaise que parece envolver não só a trama mas também a realidade, com a incapacidade de se encontrarem consensos sobre os factos que rodearam os episódios expostos pelos personagens a poder remeter para a dificuldade em explicar o envolvimento do Japão na II Guerra Mundial e as políticas seguidas nesse período. O argumento foi inspirado em "Rashomon" e "In a Grove", dois contos da autoria de Ryūnosuke Akutagawa, permitindo a Akira Kurosawa exibir-se mais uma vez como um exímio contador de histórias mas também como um cineasta sublime a trabalhar as imagens, embora neste capítulo também seja justo realçar o trabalho de Kazuo Miyagawa na cinematografia.

Este trabalho no plano das imagens é visível não só a nível da composição dos planos, mas também na iluminação, com a luz natural a ser utilizada de forma sublime, tal como as sombras, por vezes rodeada de enorme simbolismo. Veja-se as cenas do julgamento que decorrem no jardim do palácio da justiça, onde os elementos que esperam encontram-se ao Sol e os personagens que falam diante das autoridades situam-se numa zona mais cinzenta, próxima das sombras, ou os relatos sobre os acontecimentos na floresta, com o significado da iluminação a ter gerado interessantes debates. Elementos como Tadao Sato consideram que a luz simboliza pecado e o mal, enquanto Keiko I. McDonald tem uma interpretação completamente distinta considerando que as sombras e escuridão é que simbolizam o mal nas cenas da floresta, com a minha opinião a pender para o lado do segundo, embora em "Rashomon" essa fronteira entre luz/trevas por vezes seja difícil de discernir tendo em conta as personalidades dos personagens. "Rashomon" é uma obra que procura exactamente gerar esses debates e dúvidas, algo notório na forma como nos são expostos os acontecimentos e os personagens, com estes últimos a questionarem muitas das vezes os relatos uns dos outros. A primeira história que encontramos a ser contada é a do lenhador que diz ter sido o primeiro a encontrar o corpo, algo que o conduziu a ter sido obrigado a testemunhar em tribunal. Este deslocara-se à floresta para cortar madeira, mas pelo caminho encontrara o chapéu de mulher preso num ramo de uma árvore e um chapéu de um samurai, um pedaço de corda perto do cadáver e um amuleto brilhante com forro vermelho. A sequência é uma das mais inspiradas do filme. A banda sonora surge com ritmos hipnotizantes, a câmara aventura-se com o protagonista pela floresta expondo este território meio labiríntico onde se vão desenrolar os episódios que vão marcar a narrativa, incluindo aqueles que já foram mencionados. É também nestes momentos que assistimos ao Sol a ser directamente filmado pela câmara, algo raro de se ver no cinema japonês da época, tal como a estrutura narrativa de "Rashomon" foi considerada revolucionária, com Akira Kurosawa a utilizar os flashbacks para explorar a complexidade do ser humano e a sua dificuldade em contar toda a verdade ou como "as verdades" de uns podem divergir das "verdades" dos outros. Estes são apenas os preliminares, com o último terço a premiar-nos com uma reviravolta ao descobrirmos que o próprio lenhador não contou todos os pormenores em relação à sua história, tendo mentido aos espectadores e ao tribunal, embora a verdade que conte nos momentos finais também tenha alguns "plot holes" que vão ser expostos pelo personagem interpretado por Kichijiro Ueda. Takashi Shimura, um colaborador habitual de Akira Kurosawa, já nos tinha dado mostras da sua capacidade a interpretar personagens de grande complexidade psicológica em obras como "Scandal", onde interpretara um advogado que se vê entre ceder à tentação da corrupção e defender os seus clientes. Em "Rashomon", Akira Kurosawa atribui a Takashi Shimura o papel de um lenhador que revela uma complexidade notória no último terço. Tanto é capaz de um acto que restaura a fé do padre na humanidade (num raro momento em que encontramos optimismo em "Rashomon"), como é capaz de mentir, surgindo como um dos personagens profundamente humanos que rodeiam as obras de Akira Kurosawa, marcados por defeitos e virtudes, dilemas morais e intérpretes capazes de exporem estas problemáticas que afectam os elementos a quem dão vida.

Diga-se que "Rashomon", devido às suas características narrativas, que nos colocam diante de diversas versões do mesmo acontecimento através de diferentes personagens, permite que os vários elementos do elenco sobressaiam. Veja-se o caso de Toshiro Mifune, em mais uma recomendável colaboração com Akira Kurosawa, com o actor a destacar-se como este criminoso expansivo nos seus gestos (veja-se o seu sorriso perverso), pouco polido a nível da oratória, feroz e violento, que ganha uma enorme dinâmica e dimensão com a forma como o intérprete utiliza o corpo e os seus gestos ao serviço do personagem que interpreta. Esta capacidade de utilizar a sua expressividade corporal é uma característica que encontramos em Mifune desde que iniciou a colaboração com Akira Kurosawa em "Drunken Angel", onde dava vida a um yakuza que padecia de tuberculose. Este yakuza era um indivíduo violento com um estilo de vida errático e enorme receio da morte cuja degradação é notória com o desenrolar da narrativa, com Mifune a tanto ser capaz de nos convencer com este tipo de personagens como a exibir a procura do protagonista de "The Quiet Duel" em reprimir as suas emoções. Tajōmaru é o primeiro a dar a sua versão da história junto das autoridades (o lenhador inicialmente apenas salientou que encontrou o corpo e os objectos), com o padre e o lenhador a abordarem os acontecimentos que decorreram neste espaço que contou ainda com a presença da esposa do falecido e do espírito do mesmo. Ou seja, vamos ficar perante quatro versões da história, com a narrativa do lenhador a mudar do discurso apresentado no início do filme em relação ao que apresenta no último terço, para além do próprio padre ter salientado que chegou a ver o casal com vida antes dos nebulosos acontecimentos que vão ocupar grande parte do enredo de "Rashomon". A história apresentada pelo criminoso é marcada por uma mescla de fanfarronice e incapacidade de nos fazer confiar totalmente naquilo que nos relata. Até pode ter sido aquele que se aproxima mais da verdade, mas Toshiro Mifune e o argumento atribuem características ao personagem que facilmente fazem que não confiemos no mesmo. Este salienta que se encontrava a descansar na floresta, tendo sido acordado pelas folhas a esvoaçarem perante a brisa. Ao acordar este depara-se com o casal, ficando desde logo encantado com a personagem interpretada por Machiko Kyō a ponto de pretender capturá-la, mesmo que para isso tivesse de eliminar o esposo da mesma. Se não tivesse de o matar tanto melhor mas, segundo o personagem interpretado por Toshiro Mifune, esta até irá pedir para eliminar o esposo, após ter sido seduzida pelo criminoso, cedendo perante a agressiva investida sexual do mesmo. Nesse sentido, após ter armado um plano para amarrar o samurai e violar esta mulher, logo decide libertar o primeiro para um combate que termina com a morte do personagem interpretado por Masayuki Mori. A segunda história é da esposa que apresenta uma versão completamente diferente, algo que faz o padre ter muitas dúvidas em relação ao relato do bandido. Esta salienta a frieza do marido perante a mesma após a violação, retratando estes dois homens de forma pouco simpática, ao mesmo tempo que se apresenta como uma vítima. Ainda pede ao marido para ser morta, mas este ignora o pedido. Salienta que desfaleceu e, ao acordar, deparou-se com o cadáver do esposo, algo que não convence o lenhador e deixa-nos algumas dúvidas sobre a total veracidade dos episódios que relata. A terceira história é apresentada pelo espírito do marido, que possui temporariamente o corpo da personagem interpretada por Machiko Kyō, com este a salientar que disse à esposa que poderia viajar com Tajōmaru, se assim pretendesse, após ter sido violada, com esta a pretender que o criminoso assassinasse o primeiro. Tajōmaru fica chocado com o pedido desta, algo que difere das duas primeiras histórias, tal como a forma como o samurai morreu, algo que atribui alguma honra à morte do falecido.

A última vez que estes acontecimentos nos são retratados são através do lenhador que procura finalmente apresentar a versão verdadeira dos factos, aquela que não contou em tribunal, nem ninguém supostamente saberá se é mesmo o relato definitivo sobre este crime hediondo. É a versão que parece estar mais perto da verdade e até da história do criminoso, com os três intervenientes a não estarem livres de um lado mais negro. Se nas histórias do bandido, da esposa e do falecido estes pretendiam expor a sua personalidade com alguma dignidade, já o lenhador procura exibir as facetas negras destes elementos, com o próprio a mentir por duas vezes e demonstrar que está longe de ser um exemplo. Ficamos assim perante uma narrativa complexa e intrigante que facilmente desperta a nossa atenção, ao mesmo tempo que procura fazer-nos duvidar de quase todos os elementos que povoam o enredo. Diga-se que é complicado confiar seja em que personagem for, bem como traçar totalmente as suas personalidades, quando cada um apresenta uma versão da história e todas divergem em alguns elementos. É certo que podemos discernir o carácter violento e expansivo do criminoso, a frieza do casal, bem como a personalidade complexa do lenhador, mas Akira Kurosawa revela-se bastante competente a explorar temáticas que contrariam as verdades absolutas, ao mesmo tempo que procura instigar o público a questionar-se sobre os personagens e os acontecimentos da narrativa. Diga-se que "Rashomon" é uma obra que parece servir para Akira Kurosawa expor ao espectador a necessidade de questionar aquilo que o rodeia e reflectir sobre isso, algo que pode ser válido para uma obra cinematográfica e os seus personagens, mas também para a própria sociedade japonesa. Em obras como "No Regrets for Our Youth", Akira Kurosawa apresentava-nos a uma jovem que se apaixonou por um revolucionário que questionava a narrativa oficial do Governo Japonês no período que antecedeu a entrada da II Guerra Mundial e o conflito, com Ryukichi Noge (Susumu Fujita) a surgir como um elemento questionador e informado do Mundo que o rodeia. Mesmo em obras como "One Wonderful Sunday" e "Drunken Angel", o sentimento de desilusão em relação ao envolvimento na II Guerra Mundial e a crise que se seguiu parece ser latente em diversos momentos dos filmes. No caso de "Rashomon", algo parece claro: Akira Kurosawa quer que desconfiemos dos seus personagens, da história que nos apresenta e fazer-nos pensar sobre tudo o que envolve o filme. Esta situação, por si só torna o visionamento de "Rashomon" fundamental, mas o cineasta dota o filme de todo um conjunto de elementos que o elevam e exibem como uma das suas obras maiores. As próprias interpretações do elenco principal contribuem para elevar o filme, com os actores e actrizes a saberem dar a dimensão necessária aos personagens que interpretam. Se Toshiro Mifune e Takashi Shimura já foram elogiados neste espaço, não podemos ainda deixar de destacar Machiko Kyō, com esta a conseguir transmitir as diferentes facetas que cada elemento expõe em relação à esposa do falecido. Ora é uma mulher angustiada pela violação, ora é uma mulher que acaba por se deixar seduzir, ora é leal, ora é traiçoeira, enquanto Machiko Kyō convence em qualquer uma destas situações, para além de ainda interpretar esta mulher possuída pelo marido. As cenas na floresta, apresentadas em flashback, são marcadas por alguma violência física e sentimental. Entre muitas mentiras e verdades, é certo que ocorreu uma violação e uma morte, mas também um casamento foi desfeito e um criminoso desencadeou toda esta confusão. A floresta (filmada num espaço florestal localizado em Nara, bem como na floresta do templo Komyoji em Quioto) é um dos espaços primordiais do filme, a par das proximidades do portão onde o trio de personagens aguarda abrigado da chuva e trovoada e das imediações do tribunal. Três cenários chegam e sobram, com a simplicidade dos mesmos a contrastar com o exímio aproveitamento que Kurosawa faz destes e a complexidade do enredo. O cineasta até lidou com um orçamento relativamente baixo por parte do estúdio Daei e a desconfiança dos seus executivos em relação ao trabalho que estava a desenvolver, mas conseguiu superar qualquer possível constrangimento com uma narrativa dinâmica e envolvente que se revela capaz de manter a sua vivacidade e interesse após múltiplos visionamentos.

Todos os personagens contam a sua "verdade", embora a história de cada um difira e as mentiras pareçam ser mais do que muitas, com Akira Kurosawa a deixar-nos perante a complexidade do ser humano e das memórias que este guarda. Será que estes personagens mentem propositadamente ou acreditam piamente naquilo que estão a falar? Parece que se acreditam, ou pelo menos é o que dão a entender, caso contrário o personagem interpretado por Toshiro Mifune não teria assumido a autoria do assassinato quando esta não parece ser assim tão linear. O próprio Akira Kurosawa, num texto publicado pelo site da Criterion, explicou da seguinte maneira a decisão para representar os personagens com esta complexidade: "Human beings are unable to be honest with themselves about themselves. They cannot talk about themselves without embellishing. This script portrays such human beings–the kind who cannot survive without lies to make them feel they are better people than they really are. It even shows this sinful need for flattering falsehood going beyond the grave—even the character who dies cannot give up his lies when he speaks to the living through a medium. Egoism is a sin the human being carries with him from birth; it is the most difficult to redeem". Ficamos perante um dos exemplos do melhor que Akira Kurosawa tem para nos dar, onde quase tudo parece pensado ao pormenor, incluindo a utilização da banda sonora, enquanto ficamos perante um enredo intrigante onde nada é tão linear como pode parecer, bem pelo contrário. Vários dos intervenientes procuram apresentar a sua versão da história, existindo direito até a espíritos do outro mundo, mas poucos conseguem dar certezas, algo que ajuda a tornar "Rashomon" ainda mais apaixonante. É um filme capaz de consumir toda a nossa atenção, de nos deixar a pensar e a procurar vê-lo logo de seguida para juntarmos ainda melhor as peças. Visto pela segunda vez e logo apetece ver uma terceira. Nem que seja para ver Toshiro Mifune a fazer de um sacana do pior, numa interpretação intensa como ele tão bem sabe ter, ou para assistir à ambiguidade que Machiko Kyō atribui à esposa do falecido ou ao desempenho sublime de Takashi Shimura. Muito é exposto durante os diálogos, mas também muito é explanado nos momentos de maior silêncio, com Akira Kurosawa a procurar aproveitar a expressividade dos elementos do elenco, utilizando os close-ups de forma eficaz, concentrando muitas das vezes a câmara no rosto dos seus actores e actrizes. Temos ainda o cuidado na representação e utilização de cada cenário. As imediações de Rashomon deixam os personagens presos ao local devido à tempestade, com o tempo a ser de forte chuva e trovoada, algo que contrasta com o calor nas cenas da floresta e do jardim do Palácio da Justiça. Na floresta assistimos a uma violação, a uma morte, a intrigas, a correrias e sentimentos díspares, enquanto no tribunal ficamos perante personagens presos ao espaço e às memórias que formaram ou fingem ter formado, com ambos os espaços a diferirem do tempestuoso local onde o trio de personagens aguarda por uma melhoria do tempo. Junte-se a estes elementos uma cinematografia cuidada, uma história onde não faltam ingredientes suficientes para nos agarrarem e o talento de Akira Kurosawa e ficamos perante uma obra cinematográfica a não perder de vista. A cada visualização existe algo de novo a descobrir, a cada visionamento existe a sensação de estarmos perante um trabalho que não é apenas fundamental para Kurosawa, mas também para a História do Cinema. Deixa marca, vence a passagem do tempo e as repetidas visualizações, surgindo como um exemplo paradigmático da genialidade de Akira Kurosawa. Vale a pena realçar que depois de "Rashomon" este ainda viria a realizar "Seven Samurai", "Throne of Blood", "Yojimbo", "Red Beard", "Ran", "Kagemusha", entre tantas outras obras que marcaram a história do cinema. Não é para todos.

Título original: "Rashômon".
Título em Portugal: "Às Portas do Inferno". 
Título em inglês: "Rashomon".
Realizador: Akira Kurosawa. 
Argumento: Akira Kurosawa e Shinobu Hashimoto.
Elenco: Toshiro Mifune, Machiko Kyō, Masayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki.

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