23 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "The Quiet Duel" (Shizukanaru kettô)

 Os personagens que povoam as obras cinematográficas de Akira Kurosawa por vezes são colocados perante dilemas morais intrincados. Veja-se o caso do protagonista de "Drunken Angel", um yakuza que padece de tuberculose que fica entre seguir os conselhos do médico e iniciar o tratamento da doença ou continuar o seu estilo de vida errático que o promete conduzir à destruição. Temos também o advogado interpretado por Takashi Shimura em "Scandal", entre defender os seus clientes ou deixar-se corromper. Podemos ainda dar o exemplo do personagem interpretado por Toshiro Mifune em "Throne of Blood", entre trair o seu líder ou ser fiel ao mesmo. Em "The Quiet Duel", uma das várias obras de Akira Kurosawa que abordam a situação do Japão no pós-II Guerra Mundial, com algum realismo e sobriedade à mistura, temos o protagonista indeciso entre contar a verdade sobre a doença da qual padece à noiva ou manter o segredo da mesma e procurar que a amada se afaste e seja feliz com outra pessoa. Também é a segunda colaboração, de dezasseis, entre Akira Kurosawa e Toshiro Mifune, uma parceria de sucesso, com o camaleónico actor a ter uma interpretação antagónica do personagem que interpretara em "Drunken Angel". Se na primeira colaboração com Akira Kurosawa, Toshiro Mifune interpretava um indivíduo violento, rude, temerário em relação à morte e expansivo na exposição dos sentimentos, já em "The Quiet Duel" este destaca-se pela contenção que incute ao protagonista, um médico que contraiu sífilis durante a II Guerra Mundial, enquanto se encontrava a operar um doente. Este médico é Kyoji Fujisaki, um elemento conhecido pelo seu carácter idóneo, que se encontra noivo de Misao (Miki Sanjō). Durante uma cirurgia complexa efectuada a Susumu Nakada (Kenjiro Uemura), Kyoji encontra-se perante a contingência de ter de retirar as luvas, algo que assume contornos trágicos quando se corta a meio da operação e contrai o mesmo vírus do qual padece aquele personagem. Ainda faz análises mas as piores perspectivas possíveis confirmam-se, algo que promete mudar o quotidiano do protagonista. Terminada a II Guerra Mundial, Kyoji regressa ao seu trabalho na clínica que tem com o seu pai, Konosuke Fujisaki (Takashi Shimura), um espaço com poucos luxos mas muitos clientes. Não é preciso Akira Kurosawa dizer-nos que a crise rodeia muitos dos clientes da clínica e parte do território. Vários elementos não podem pagar as contas, o consultório está longe de contar com as condições ideais, os médicos por vezes trabalham apenas para cumprirem os seus ideais. A clínica conta com a presença regular de Minegishi (Noriko Sengoku), uma mulher que se encontra grávida e fora abandonada pelo marido, com os médicos, sobretudo Kyoji, a conseguirem evitar que cometesse suicídio. Toshiro Mifune consegue incutir uma sobriedade e repressão de sentimentos latente a Kyoji, algo que fica paradigmaticamente representado na procura deste em afastar Misao, mesmo com as visitas diárias da mulher que esperou durante seis anos para casar com este e agora se encontra a sofrer perante a frieza do protagonista. Este não quer contar que padece de sífilis, nem infectar a mulher que ama, algo que o conduz a afastá-la de si e procurar quebrar o noivado de forma a que esta possa ser feliz com outra pessoa.

 Poderíamos esperar mais franqueza da parte de Kyoji, mas a verdade é que o próprio parece estar envergonhado por padecer de uma doença associada a quem tem um estilo de vida mais leviano, quando a contraiu em serviço, algo que piorou devido a não ter as condições ideais de tratamento durante a II Guerra Mundial. A certa altura do filme, Minegishi descobre que Kyoji encontra-se a efectuar tratamentos com Salvarsan, uma substância tomada por doentes de sífilis, desconfiando inicialmente deste, até ouvir o diálogo revelador que o protagonista tem com o pai. É um momento emocionalmente marcante, com Takashi Shimura (um colaborador habitual de Akira Kurosawa cujo carisma que empresta aos personagens a quem dá vida é latente) a interpretar um personagem ponderado e compreensivo que aos poucos começa a entender as atitudes do filho. Quer Kyoji, quer Konosuke, laboram imenso, mais para poderem ajudar os seus doentes do que para enriquecerem com a profissão, um sentimento que aos poucos conseguem passar para Minegishi. Esta fica sensibilizada quando ouve a história de Kyoji, decidindo ter o filho e estudar para ser enfermeira, ao mesmo tempo que começa a desenvolver algum interesse por este homem de bons valores morais. Poderia enganar a noiva, mas prefere que esta seja feliz com outra pessoa ao invés de deixá-la a esperar indefinidamente até ficar curado, algo revelador da sua personalidade altruísta, com o argumento a conseguir atribuir densidade a boa parte dos personagens que povoam o enredo. Misao sofre com a situação, surgindo como uma personagem feminina relativamente frágil que ainda tenta manter durante algum tempo a relação com Kyoji. Veja-se que ainda o visita um dia antes de se casar, sendo recebida com enorme delicadeza pelo médico que, quando esta sai, expõe toda a angústia que lhe vai na alma quando fala com Minegishi. É um dos poucos momentos em que assistimos este personagem a abrir a sua alma junto dos outros e do espectador, com Toshiro Mifune a ser capaz de dar a intensidade emocional necessária para estas cenas, no qual Kyoji expõe o desespero perante a situação adversa em que se encontra. É latente que reprimiu muitos dos seus sentimentos ao longo destes anos. Ama Misao, sabe que o amor é recíproco, mas os seus valores morais compelem-no a não expressar os seus verdadeiros sentimentos junto da personagem interpretada por Noriko Sengoku. A actriz consegue explorar a fragilidade desta personagem, bem como a sua incompreensão perante algumas das situações, parecendo certo que se o protagonista contasse a verdade esta esperaria pelo mesmo. É também neste período do pós-Guerra que Kyoji reencontra Nakada, o indivíduo que o contaminou. Se Kyoji decidiu apresentar uma enorme restrição de comportamentos para com a amada e dedicar-se ao trabalho, já Nakada apresenta atitudes completamente egocêntricas, não tendo problemas em ter relações sexuais com a esposa, infectando a mesma com a doença. Diga-se que a esposa de Nakada engravida, algo que vai gerar alguns momentos dramáticos no enredo, com Kyoji e o pai a reprovarem por completo a atitude deste indivíduo, já que esta mulher e o rebento correm perigo de vida.

Kenjiro Uemura tem uma interpretação que contrasta por completo a nível de registo com a de Toshiro Mifune, incutindo uma maior agressividade e impulsividade ao personagem a quem dá vida, tendo em vista a expor a sua personalidade fleumática e nem sempre recomendável. Nakada tem uma atitude completamente antagónica à de Kyoji, algo que ainda atribui maior mérito à capacidade do protagonista em reprimir os seus sentimentos. Minegishi ainda demonstra interesse pelo protagonista, mas este parece destinado a ficar solitário e dedicado à sua causa. Ainda tem um momento onde quase parece ceder aos seus instintos, notando-se o seu enorme dilema, embora prefira magoar a amada e vê-la feliz com outra pessoa do que deixá-la infeliz à sua espera. Os tratamentos continuam, a cura continua sem fim à vista, pelo que Kyoji decide terminar com o noivado, contando com o apoio do pai para esse desiderato. A relação de Kyoji com o pai é de alguma proximidade, com ambos a procurarem tratar dos vários doentes que frequentam a clínica, um dos cenários primordiais do filme. Estes vivem para o trabalho, para ajudar e curar os doentes no interior de um Japão que se encontra a sarar as suas feridas, ainda em notória crise, algo visível não só nas condições precárias da clínica mas também nas dificuldades financeiras dos doentes, com Akira Kurosawa a representar eficazmente o quotidiano dos elementos que frequentam este cenário. Temos ainda o reencontro do protagonista com o homem que o infectou, com a relação entre ambos a estar longe de atingir a densidade da relação médico/paciente de "Drunken Angel", embora permita exibir a preocupação de Kyoji perante Nakada e a esposa deste, com ambos a terem comportamentos antagónicos. É a repressão de sentimentos de Kyoji e a sua ponderação que mais impressionam, com este a lutar contra a doença e os seus instintos, ao mesmo tempo que procura salvar o máximo número de vidas possível. Por vezes surpreende-nos pela força interior que apresenta, algo que pode inicialmente magoar Misao, embora seja Kyoji quem tenha mais cicatrizes por fechar, com os seus sonhos de casar com a amada e ser feliz ao lado desta a serem destruídos pela dura realidade. As sombras por vezes invadem os cenários, com a cinematografia de Soichi Aisaka a conseguir sobressair ao longo desta obra cinematográfica baseada na peça de Kazuo Kikuta, com Akira Kurosawa a mesclar elementos reais da sociedade do pós-Guerra com personagens ficcionais, mesclando um optimismo e pessimismo típico das obras desta fase da sua carreira (veja-se que os valores morais do protagonista deixam-nos perante alguma esperança na humanidade). Akira Kurosawa realiza assim um melodrama competente no desenvolvimento das personalidades e conflitos morais dos seus personagens, destacando-se desde logo o protagonista, com o cineasta a controlar os ritmos da narrativa como poucos conseguem ao mesmo tempo que apresenta os episódios com enorme humanidade e capacidade de nos compelir a seguir os acontecimentos.

Título original: "Shizukanaru kettô".
Título em inglês: "The Quiet Duel". 
Realizador: Akira Kurosawa.
Argumento:
Senkichi Taniguchi e Akira Kurosawa.
Elenco: Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Miki Sanjō, Kenjiro Uemura, Noriko Sengoku. 

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