19 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "One Wonderful Sunday" (Subarashiki nichiyôbi)

 Entre a esperança e o desespero, a alegria e a tristeza, os sonhos por concretizar e a realidade que trava a concretização dos mesmos, o casal de protagonistas de "One Wonderful Sunday" procura desfrutar da melhor forma possível a tarde e uma noite de Domingo, embora as contrariedades sejam mais do que muitas. A começar pela falta de dinheiro. Yuzo (Isao Numasaki) e a sua noiva Masako (Chieko Nakakita) apenas contam com 35 ienes, um valor praticamente irrisório que vai obrigá-los a puxar pela cabeça para fazerem algo de diferente. Dá para pouco, muito pouco, mesmo utilizando a imaginação. A cidade de Tóquio, pela qual deambulam, apresenta sinais latentes de alguma desolação e destruição, não faltando alguns edifícios recém-construídos que se encontram a ser vendidos ao "preço especial" de cem mil ienes aos primeiros cem compradores. Apesar de não terem dinheiro para comprar um apartamento, Yuzo e Masako visitam os mesmos, com esta a começar desde logo a imaginar como seria a vida de ambos no local e a decoração. Ela é uma optimista. Ele é um pessimista, não tendo problemas em realçar que não têm dinheiro suficiente para comprar uma casa. Ambos precisam notoriamente um do outro para dar um rumo às suas existências nem sempre agradáveis. Yuzo é um antigo militar que vive no quarto de um amigo. Masako vive com a irmã e vários outros familiares. Os trabalhos de ambos mal permitem que estes tenham dinheiro que chegue até ao final do mês. Diga-se que não são os únicos, com o território urbano que nos é apresentado a ser marcado por alguns momentos desoladores que variam entre as gentes com alguma prosperidade financeira e outras completamente depauperadas. Ao longo do filme, acompanhamos as desventuras de Yuzo e Masako por uma diversidade de locais de Tóquio, ao mesmo tempo que contactam com uma miríade de pessoas, embora seja quando estão sozinhos que mais nos comovem, sobretudo quando esta fura a quarta parede e dirige-se aos espectadores. Diga-se que nem parece estar apenas a falar de si e de Yuzo, enquanto este finge estar a conduzir uma orquestra, mas sim de todo o Japão e da esperança que o país necessita nesta fase difícil do pós-Guerra, algo notório quando comenta "Por favor, encontrem uma forma de encorajá-lo. Por favor. Há tantos pobres apaixonados como nós neste Mundo. Por favor, ajudem-nos. Estamos congelados pelos ventos frios deste Mundo. Façam isso por todos os pobres apaixonados deste Mundo. Por favor, encorajem-nos. Ajudem-nos a sonhar lindos sonhos". É um dos momentos emocionalmente mais poderosos do filme, com Akira Kurosawa a focar a câmara de filmar em Chieko Nakakita, enquanto a personagem que esta interpreta expressa de forma paradigmática o desespero que sente, num gesto profundamente humano onde a emoção é difícil de ser contida.

Masako é a optimista por natureza. Quando vê o noivo a ter um momento de maior leveza a procurar alegrar-se e alegrá-la tenta que esse acto não seja arruinado pela dura realidade. É um combate com a realidade que Masako e Yuzo efectuam ao longo da narrativa de "One Wonderful Sunday", com o título do filme a vir carregado de alguma ironia, ou não estivéssemos perante uma dupla de protagonistas cujos sonhos e desejos muitas das vezes embatem de frente com o quotidiano de ambos. Estamos perante uma das obras de Akira Kurosawa típicas do pós-Guerra, marcadas por algum realismo social, comentários sobre a sociedade do seu tempo, com o Japão a surgir representado como um país a atravessar um período difícil de transição, algo exposto em filmes como "Drunken Angel" e "The Quiet Duel". Kurosawa deixa-nos perante um território de Tóquio marcado pela pobreza de dois protagonistas, mas também de outros elementos, como um jovem aparentemente órfão com quem estes se deparam, para além de um conjunto de aproveitadores. A jornada destes personagens ao longo da tarde e noite é marcada por uma estrutura algo episódica onde a esperança e desesperança andam quase sempre lado a lado. Veja-se as casas que visitam, bem como o quarto decrépito para alugar, ou o momento em que Yuzo decide jogar basebol com um grupo de crianças e a bola vai parar a um café onde este se vê obrigado a gastar dez ienes em bolinhos para compensar o dono, para além do momento caricato em que decidem ir a um concerto devido aos bilhetes de série B estarem a dez ienes cada um. No entanto, contrabandistas logo compram os bilhetes a dez ienes e começam a vender por quinze, algo que coarta a possibilidade dos protagonistas em assistirem ao concerto ao mesmo tempo que permite ao cineasta exibir como o mercado negro estava a permitir que diversos elementos enriquecessem. Yuzo, um antigo militar que participou na II Guerra Mundial, ainda se envolve numa zaragata com estes contrabandistas mas acaba por ser espancado. É um Japão marcado por contrabando, pobreza, gentes pouco confiáveis, mas também um casal apaixonado que luta para conseguir divertir-se e sair. É difícil. Ainda visitam o Jardim Zoológico, com Yuzo a não poupar em alguns comentários sarcásticos, até decidirem ir a casa deste. Têm um arrufo, os silêncios dominam o local, mas logo se voltam a reunir. São o yin e o yang, embora sem um tusto para alguma possível extravagância, algo que os leva a recorrer à imaginação, com Akira Kurosawa a deixar-nos perante um final emotivo, comovente mas também optimista. Yuzo e Masako calçam sapatos desgastados, vestem-se de forma simples, vivem alguns momentos de humor e dramatismo enquanto procuram manter viva a esperança de um futuro melhor mesmo quando esse parece ser uma miragem. Veja-se quando sonham em finalmente terem um café que seja propriedade dos dois, uma ideia que tinham antes de se iniciar a II Guerra Mundial e voltam a ter na cabeça quando são enganados num estabelecimento comercial que leva preços caríssimos e tem um menu enganoso.

Estes pretendem vender e produzir muito, mas barato para chegar às massas e mostrar que é possível singrar sem ser aproveitador, sendo particularmente notável como conseguem sempre manter os escrúpulos e moral no meio de tantas dificuldades. Yuzo poderia facilmente tentar envolver-se no mercado negro, algo que ainda chega a falar, mas mantém-se sempre no caminho correcto. Este representa um dos muitos militares que saíram da II Guerra Mundial em condições precárias, tendo de lidar com todo um conjunto de difíceis privações. Isao Numasaki destaca-se como este personagem algo pessimista, que vive num quarto marcado por parcas condições (até cai água no mesmo), tendo em Masako o seu maior apoio. Não tem grandes amigos. Quando tenta contactar um antigo colega do exército, agora dono de um luxuoso clube nocturno, logo é ignorado por este, acabando por não conseguir conduzir a namorada a entrar no mesmo. Os close-ups expressam paradigmaticamente os sentimentos destes personagens, enquanto Akira Kurosawa deixa-nos perante um retrato de uma cidade de Tóquio marcada por dificuldades latentes. Não representa directamente a presença americana (embora um caixote com as indicações "Trash" indiquem a mesma devido à língua utilizada), nem poderia devido à censura dos elementos responsáveis pela ocupação não permitirem uma representação negativa dos mesmos, mas nem por isso deixa de efectuar os seus comentários. Veja-se quando nos deixa perante uma cidade marcada por edifícios destruídos ou decrépitos, enquanto outros encontram-se a ser construídos à pressa, bem como o pouco poder de compra de vários personagens e a menção à inflação, entre vários outros momentos. No entanto, "One Wonderful Sunday" é também uma obra marcada por algum humor, seja de Yuzo a jogar basebol com jovens, seja de uma visita marcada por comentários irónicos no jardim zoológico, seja pelo personagem interpretado por Isao Numasaki a fingir que está a servir a amada no café que pretendem abrir, para além de alguns momentos algo idílicos. Veja-se quando Yuzo e Masako balançam nos baloiços ou este serve de tenor para uma orquestra imaginária, enquanto Akira Kurosawa nos deixa perante um casal que facilmente desperta a nossa simpatia e empatia. Queremos que tudo corra bem para os mesmos, embora quase sempre as expectativas para os seus planos saiam goradas, mas estes mantêm uma união que nos fascina e uma vontade de desafiar o destino surpreendente. Entre o realismo, o drama, alguns momentos de humor e idílicos, "One Wonderful Sunday" deixa-nos perante uma tarde e uma noite marcadas por uma diversidade de episódios vividos por Masako e Yuzo, enquanto Akira Kurosawa atribui uma enorme humanidade aos mesmos. A facilitar o trabalho de Akira Kurosawa encontra-se o argumento escrito por este e Keinosuke Uegusa, mas também a dinâmica entre Isao Numasaki e Chieko Nakakita, uma dupla convincente e competente, numa obra cinematográfica que nos remete para a capacidade do ser humano em resistir às adversidades, mesmo em períodos mais conturbados das suas vidas pessoais e da História dos seus países.

Título original: "Subarashiki nichiyôbi".
Título em inglês: "One Wonderful Sunday".
Realizador: Akira Kurosawa. 
Argumento: Akira Kurosawa  e Keinosuke Uegusa.
Elenco: Chieko Nakakita, Isao Numasaki, Midori Ariyama, Masau Smikizu.

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