16 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "No Regrets for Our Youth" (Waga seishun ni kuinashi)

 Lançado originalmente a 29 de Outubro de 1946, já durante a Ocupação americana do Japão, "No Regrets of Our Youth" reflecte de forma paradigmática um sentimento de revolta em relação à entrada do país na II Guerra Mundial e às políticas repressivas que antecederam a mesma. A história é livremente baseada no incidente da Universidade Imperial de Quioto, também conhecido como Incidente Takigawa, para além de ter sido livremente inspirada na figura de Hotsumi Ozaki, um indivíduo que colaborou com Richard Sorge, um espião soviético, tendo sido condenado à morte por traição. Ficamos perante a primeira obra cinematográfica realizada por Akira Kurosawa no período após a II Guerra Mundial, com este a traçar um retrato que fica entre o realismo e o melodrama onde o contexto histórico tem uma enorme influência sobre os personagens. O enredo começa em 1933, com um pequeno texto no prólogo a deixar-nos perante o ponto de situação: "Os militares japoneses usaram o Incidente da Manchúria como um pretexto para pressionar a opinião pública por apoio para invadir o continente Asiático. Qualquer oposição ideológica era denunciada como "Vermelha". O Incidente da Universidade de Quioto foi um exemplo dessa táctica. Apesar deste filme ter sido inspirado por esse evento histórico os personagens aqui retratados são inteiramente ficcionais". Inicialmente até parece estarmos perante algo bem idílico, com um grupo de jovens universitários a efectuar um piquenique no Monte Yoshida. Entre estes encontram-se Ryukichi Noge (Susumu Fujita) e Itokawa (Akitake Kôno), dois amigos e pretendentes de Yukie (Setsuko Hara), a filha do professor Yagihara (Denjiro Okochi), um elemento que foi suspenso das suas funções na Universidade de Quioto devido a considerarem que este tem ideias de esquerda. Noge é um indivíduo mais imprevisível e politicamente engajado do que Yukie, não tendo problemas em contrariar as vontades desta e expressar o seu desagrado em relação ao expansionismo bélico do Japão e às políticas seguidas pelos elementos fascistas. Itokawa inicialmente apoia o pai de Yukie, procurando sempre agradar a esta, tal como procurará agradar a todos, incluindo aos elementos do Governo, surgindo como um indivíduo que representa uma sociedade habituada a acatar ordens. Estes disputam a atenção de Yukie, embora esta jovem, inicialmente inexperiente em relação à vida e pouco informada a nível político, penda sempre para o lado de Noge. Até embirram um com o outro, com esta a não parecer gostar de política, a procurar criticar o excessivo envolvimento e ideais adversos de Noge ao envolvimento do Japão no conflito na Manchúria e na II Guerra Mundial, embora este lhe desperte um estranho fascínio. Os momentos idílicos do piquenique são contrastados pelos sons das balas ao fundo. Yukie diz gostar dos mesmos. Quando encontra um indivíduo morto, no Monte Yoshida, percebe que o som das balas até pode ser "claro e rítmico" mas traz consequências atrozes. Akira Kurosawa filma muitas destas cenas iniciais como se estivéssemos perante um filme mudo, tais como uma brincadeira entre o trio, ou os protestos na Universidade de Quioto, expostos de forma quase documental, onde mais do que os diálogos ficamos perante os sentimentos que sobressaem nos rostos dos seres humanos que povoam os cenários.

 Os protestos na Universidade de Quioto conduzem a uma repressão intensa por parte das autoridades e ao recuo dos professores que apresentaram a demissão em solidariedade para com Yagihara. Também os alunos vão ter de recuar, pelo menos alguns, incluindo Itokawa. Os alunos reuniam-se regularmente na casa de Yagihara, onde este vivia com a esposa e a filha. Yagihara aconselha-os a regressarem às aulas, embora exista o caso de dois elementos que não apareceram à reunião após os protestos: Itokawa e Noge. Itokawa é obrigado pela mãe a regressar às aulas, sentindo-se aliviado quando descobre que os seus colegas decidiram tomar a mesma decisão, com Yukie a mostrar algum desapontamento com o amigo. Salienta que o comportamento deste se deve a já não ir ser considerado um traidor pelos amigos, já que a maioria regressou às aulas. No caso de Noge este desaparece, sabendo-se posteriormente que foi preso. Quatro anos depois, Noge é solto da prisão, conseguindo um emprego no exército graças a Itokawa, agora um promotor público completamente alinhado com o Governo. Itokawa decide reunir Noge com a família de Yagihara, com Yukie a demonstrar algum desapontamento para com as mudanças do personagem interpretado por Susumu Fujita. Este parece mais calmo e subserviente, algo que desagrada à protagonista que se deixou seduzir pelos ideais fortes deste homem. Não esconde a desilusão mas despede-se do mesmo quando sabe que Noge vai partir para a China. É então que a própria Yukie decide sair de casa e ganhar alguma independência. Parte para Tóquio onde, durante três anos, conhece três trabalhos que apenas servem para pagar contas e pouco mais, para além de reencontrar Itokawa e Noge, com este último agora a trabalhar no Centro de Pesquisa de Política e Economia do Leste Asiático. Noge e Yukio reencontram-se e passam a viver em conjunto, com esta a revelar o seu amor e devoção por este, algo que é retribuído pelo protagonista. Esta sabe que Noge esconde as actividades ilegais nas quais está envolvido, algo que vai contribuir para mais uma prisão deste elemento. Perante a detenção e posterior morte de Noge no espaço prisional, Yukie decide ir viver temporariamente com os pais do esposo, de forma a ajudá-los. Os Noge são insultados e alvo de troça pelos locais, apresentando inicialmente alguma resistência à presença da mesma, até Yukio revelar todo o seu zelo nas práticas campestres. Estamos relativamente longe daquela jovem algo naïve que se encontrava a ouvir o som das armas a serem disparadas enquanto estava num piquenique no Monte Fuji. Setsuko Hara, bem como o simples e eficaz trabalho de caracterização que a acompanha e faz transparecer as mudanças da idade e dos acontecimentos que marcaram Yukie, consegue exprimir de forma sublime as transformações da personagem que interpreta. Inicialmente preocupa-se em tocar piano e fazer arranjos florais, mas o reencontro com Noge vem mudar a sua vida, bem como a percepção das dificuldades vividas pelos pais deste. Akira Kurosawa não poupa nos close-ups a exibir o esforço da protagonista para adaptar-se a este espaço rural, após alguns momentos de aparente felicidade com Noge. O próprio guarda-roupa da protagonista muda, bem como o seu modo de encarar a vida, tendo de lidar inicialmente com o taciturno pai de Noge e a mais compreensiva mãe do falecido, mas também com um conjunto de populares sem problemas em persegui-los como se fossem criminosos, num território onde as tradições encontram-se muito presentes, bem como a defesa da política central.

Akira Kurosawa procura transmitir a atmosfera de uma época, onde alguns se revoltavam contra o sistema, outros aderiam ao mesmo, enquanto outros ficavam a meio caminho mas reprimiam os seus sentimentos. É uma demonstração cabal de que nem todos os japoneses eram pró-guerra, mas também da enorme humanidade que o cineasta atribui aos personagens que integram os seus filmes. Kurosawa salientou "Drunken Angel" como a primeira obra cinematográfica onde encontrou o seu estilo/voz como realizador, mas "No Regrets for Our Youth" exibe-nos um cineasta já de grande talento, capaz de realizar um drama com um forte pendor político que facilmente capta a nossa atenção, ao mesmo tempo que expõe um certo sentimento de desencanto presente no Japão do pós-Guerra ao representar de forma ficcional um período conturbado da História do seu país. É certo que muitas das vezes as mensagens são exibidas sem grande subtileza e falta algum rigor, sobretudo quando lemos "A Guerra foi perdida, mas a Liberdade foi restaurada", algo que não é totalmente verdade devido à presença dos EUA no território. No entanto, o que sobressai mais em "No Regrets For our Youth" é o cuidado na representação destes episódios, o trabalho das imagens em movimento e a interpretação sublime de Setsuko Hara. A actriz é o nome que mais se destaca no filme, naquela que é uma das poucas personagens femininas que protagonizam os filmes de Akira Kurosawa. Diga-se que em alguns momentos o cineasta remete-nos para as obras de Yasujiro Ozu e até de Mikio Naruse sobre a família e as relações familiares. Veja-se inicialmente a relação de Yukio com os pais, com estes a procurarem protegê-la, mas também a sua relação com os progenitores de Noge, assistindo-se a um dicotomia latente entre o espaço do campo e da cidade. Se Setsuko Hara sobressai, vale ainda a pena realçar Susumu Fujita e Akitake Kôno. Fujita como o jovem idealista, um elemento inconformado com o crescente militarismo no país, mas também com a entrada do Japão na Guerra, procurando lutar contra os grandes interesses. O seu fervor idealista conquista Yukie, mas não convence boa parte dos elementos em volta deste. Veja-se o caso do personagem interpretado por Kôno. Este surge representado como alguém habituado e criado para obedecer, algo que explica a sua atitude mais alinhada com o Governo. A personalidade deste fica latente quando é incapaz de dizer algo que contrarie a protagonista, chegando a colocar-se de joelhos só porque ela pede, situações que contrastam claramente com as de Noge, um elemento que não tem problemas em causar algum desagrado em Yukie. Diga-se que Akira Kurosawa utiliza Noge e Itokawa para expor dois estilos dicotómicos de encarar os momentos que antecederam a entrada do Japão na II Guerra Mundial, mas também dois indivíduos com ideais políticos distintos que se vão extremar com o avançar do tempo. Torna-se claro que apenas o tempo poderia dizer se Noge teria razão ou não. O que é certo é que seria impossível Akira Kurosawa elaborar este filme durante a II Guerra Mundial, onde, tal como cineastas como Kenji Mizoguchi, teve de desenvolver obras cinematográficas mais "alinhadas" com o sistema. Nesse sentido, "No Regrets for Our Youth" parece também surgir como um elemento catártico do cineasta que viria posteriormente a desenvolver filmes que abordariam que o pós-Guerra está longe de ser um período sem problemas, algo latente em "One Wonderful Sunday", "Drunken Angel", "Stray Dog", "The Quiet Duel", "Scandal", entre outras obras. 

"No Regrets for Our Youth" remete também para os célebres dilemas morais em que são colocados os personagens das obras de Kurosawa, com Yukie a ter de tomar decisões de relevo para o seu futuro, tal como Noge e Itokawa. Diga-se que Akira Kurosawa não demoniza Itokawa, procurando antes expor um indivíduo com uma diferente perspectiva em relação aos acontecimentos, com o contexto político a tê-lo influenciado, bem como a sua personalidade pouco dada a cometer riscos. É por isso pertinente realçar a ideologia presente em "No Regrets for Our Youth", onde ficamos perante uma obra cinematográfica que procura apresentar, ainda que de forma ficcional, os acontecimentos que envolveram o Incidente da Universidade Imperial de Quioto, com os personagens ficcionais a representarem nas suas pessoas os sentimentos de milhares de elementos na época. Nem todos eram a favor da participação na Guerra, nem todos eram contra, com Akira Kurosawa a apresentar-nos a um retrato que está longe de ser exposto de forma unidimensional. Diga-se que o cineasta considerou que "No Regrets of Our Youth" surgiu como "(...) the first film in which I had something to say, and in which my feelings were used", algo que representa paradigmaticamente que esta obra cinematográfica conta com muitos dos sentimentos de Akira Kurosawa em relação a este período histórico do seu país. O último terço, com a personagem interpretada por Setsuko Hara no espaço rural, a laborar nas plantações de arroz, até remete para as obras de neorrealismo italiano, embora não falte algum melodrama à mistura. Ficamos perante a evolução da protagonista, desde uma jovem mimada até se tornar numa mulher independente em Tóquio, viver com o amor da sua vida e aprender a dureza dos trabalhos do campo, parecendo certo que em pouco mais de dez anos esta mudou imenso. São momentos emocionalmente intensos, com Yukie a surgir como a personagem central do filme. É esta quem tem de escolher entre uma vida marcada pela segurança ou seguir os ideais mais controversos de Noge, ao mesmo tempo que exibe a sua força interior e forte personalidade. Neste período do pós-Guerra assistimos a obras de Akira Kurosawa a lidarem com temáticas contemporâneas, que surpreendem pela falta de atenção que por vezes têm em relação aos grandes épicos que realizou, com estes filmes a valerem muito mais para além do facto de serem documentos representativos do período de tempo em que foram desenvolvidos. "No Regrets of Our Youth” surge como um drama humano fortemente politizado, fruto de um cineasta capaz de expor a sua voz mesmo com algumas contrariedades no interior da Toho, ancorando-se numa interpretação sublime de Setsuko Hara para nos exibir as mudanças da personagem interpretada por esta e do Japão durante o período pré e pós-II Guerra Mundial.

Título original: "Waga seishun ni kuinashi".
Título em inglês: "No Regrets for Our Youth". 
Realizador: Akira Kurosawa.
Argumento: Eijirō Hisaita, Akira Kurosawa, Keiji Matsuzaki.
Elenco: Setsuko Hara, Susumu Fujita,Denjirō Ōkōchi, Haruko Sugimura, Kokuten Kōdō, Akitake Kōno.

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