24 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "I Live in Fear" (Ikimono no kiroku)

 Ao terminar de ver "I Live in Fear" recordei-me imediatamente de "Throne of Blood", uma obra cinematográfica que Akira Kurosawa lançara dois anos depois do filme inicialmente mencionado. Ambos contam com protagonistas marcados pelo medo e paranoia. Em "Throne of Blood" ainda existia sede de poder. No caso de "I Live in Fear" o medo consome a alma e promete afectar a mente do protagonista. O medo é das bombas atómicas e de hidrogénio devido à capacidade de destruição destas. Os episódios de Nagasáqui e Hiroxima, bombardeadas pelas forças dos Estados Unidos da América, no final da II Guerra Mundial, ainda estão bem vivos na memória deste personagem, tal como o medo do possível recurso a esta arma. Não é uma paranoia exclusiva do protagonista, embora tenha sido uma temática até então algo ignorada pelos realizadores no Japão. Kurosawa resolveu expor os medos e os receios dos japoneses, com alguns exageros e realismo à mistura, através da figura de Kiichi Nakajima (Toshirō Mifune), o veterano dono de uma fábrica de fundição. No início do filme, encontramos o Dr. Harada (Takashi Shimura), um dentista que foi designado pela Associação Odontológica para exercer a função de juiz de um tribunal de causas familiares, em tempo parcial, a ser chamado para participar na decisão do caso que envolve o pedido de vários elementos da família de Nakajima para que o protagonista seja considerado legalmente incapacitado e assim proibido de mexer nos bens e fundos da família. Kiichi pretende sair do Japão e ir viver para a América do Sul, o único continente que considera estar livre do perigo da bomba atómica, chegando até a um acordo para adquirir uma propriedade no Brasil. Jiro (Minoru Chiaki) e Ichiro (Yutaka Sada), dois dos filhos de Kiichi, parecem concordar em retirar poderes decisórios ao pai, bem como Yoshi (Haruko Togo), uma das filhas do protagonista, enquanto Toyo Nakajima (Eiko Miyoshi), a esposa do personagem interpretado por Toshiro Mifune, parece claramente incomodada com esta situação. Na leitura do processo, descobrimos que Kiichi anteriormente já tinha despendido uma quantia avultada num espaço para construir um abrigo nuclear, algo que não chegou a concretizar e resultou num prejuízo latente para as contas da família. No tribunal, o juiz Araki (Ken Mitsuda), Harada e Hori (Toranosuke Ogawa) encontram-se com grande dificuldade em avaliar o caso. Kiichi encontra-se paranoico em relação às armas nucleares mas não estaremos diante de uma ameaça que efectivamente pairava sobre a população? É certo que o protagonista apresenta atitudes exageradas, com Toshiro Mifune a conseguir dar a credibilidade e expressividade necessária ao personagem que interpreta, um indivíduo disposto a tudo para alcançar os seus objectivos de sair do país e levar consigo a família. Os familiares são contra a ideia, com o protagonista a também não parecer disposto a apresentar cedências. Dos elementos responsáveis por avaliarem o caso, Harada é aquele que mais parece ficar sensibilizado com a atitude do protagonista, a ponto de se chegar a questionar se estes receios de Kiichi não terão algum fundamento. Akira Kurosawa apresenta estes receios de Kiichi num misto de sátira e drama, procurando ao mesmo tempo explorar uma relação familiar longe de ser pacífica. Kiichi parece ter em Sue (Kyoko Aoyama) uma das suas poucas defensoras no interior da casa, com esta a entrar muitas das vezes em guerra com os irmãos, enquanto estes parecem dispostos a tudo para travarem as ideias do pai. Diga-se que Kiichi ainda conta com uma série de casos extra-conjugais, dos quais resultou um filho (Ryoichi Sayama, interpretado por Hiroshi Tachikawa) ilegítimo, para além de contar com duas concubinas e duas filhas, uma delas já de idade adulta (Taeko, interpretada por Saoko Yunemura). Kiichi quer levar esta gente toda para o Brasil, mas poucos são aqueles que aderem à ideia, apesar de até ficarem agradados com o território quando assistem a um vídeo sobre o mesmo.

Toshiro Mifune interpreta um personagem muito mais velho do que o actor aquando dera vida ao mesmo, conseguindo através dos seus gestos e comportamentos, bem como de um competente trabalho de caracterização, convencer que é mesmo um indivíduo praticamente sexagenário. Sobressai não só a expor as paranoias do personagem que interpreta, mas também nas cenas de maior silêncio, ficando particularmente na memória alguns momentos sublimes protagonizados por Toshiro Mifune, onde este expõe paradigmaticamente a quebra a nível psicológico de Kiichi. O caso que opõe os familiares contra si em tribunal coloca também em evidência os problemas no seio da família de Kiichi, com Sue a ser dos poucos elementos que defende o pai, embora quase todos dependam do mesmo. É este quem gere a fábrica e criou a riqueza da família, embora coleccione casos extra-conjugais, como podemos notar perante Ryoichi e Hiroshi. Este representa, ainda que de forma exagerada, todos os medos em relação às armas nucleares e aos efeitos secundários das mesmas, com "I Live in Fear" a evidenciar um medo latente na época, quer no Japão, quer um pouco por outros países durante a Guerra Fria. Veja-se um teste efectuado a 1 de Março de 1954 no Atol de Bikini que contaminou vinte e três elementos que se encontravam no barco Daigo Fukuryū Maru, algo que aumentou os receios relacionados com os testes e utilização das bombas nucleares. Este episódio terá sido uma das fontes de inspiração para a criação de "Godzilla", com o receio em relação aos efeitos da radioactividade a fazerem-se também sentir na Sétima Arte, com estes filmes da referida franquia a serem exemplo disso. Também nos Estados Unidos da América vamos assistir a este fenómeno nos filmes de ficção-científica, mas não nos desviemos de "I Live in Fear" ou, pelo menos, das obras de Akira Kurosawa, apesar da obra cinematográfica em questão ser um dos importantes pontos de referência dos filmes que representam o medo da bomba atómica e do Apocalipse que esta pode gerar. Diga-se que "I Live in Fear" pode ser paradigmaticamente integrado num conjunto de obras cinematográficas realizadas por Akira Kurosawa, tais como "Drunken Angel", "One Wonderful Sunday", "Scandal", "The Quiet Duel", que abordam temáticas relacionadas com o pós-Guerra, tais como a crise financeira, a inflação, o pessimismo, sentimento de engano pela participação num conflito sem o mínimo sentido, as mudanças sociais e culturais, embora existam sempre alguns focos de esperança pelo meio. No caso de "I Live in Fear" a ameaça nuclear é o que parece atemorizar mais o protagonista, ainda preocupado com os efeitos dos testes que contaminaram os marinheiros, embora o personagem interpretado por Takashi Shimura também pareça ficar algo afectado pelos medos de Kiichi. Shimura interpreta um dos muitos personagens que integram as obras de Akira Kurosawa que lidam com dilemas morais, algo que não é uma novidade para este ou não tivesse interpretado vários elementos do género nos filmes do cineasta. Veja-se o seu papel em "Drunken Angel", onde dava vida a um médico alcoólico que procura ajudar um yakuza que padece de tuberculose, ou o advogado que interpreta em "Scandal" que fica indeciso entre a lealdade para com o seu cliente e a corrupção. Em "I Live in Fear", Shimura convence-nos da preocupação de Harada para com Kiichi, surgindo como um dos poucos mediadores em tribunal que procuram problematizar a questão sobre as faculdades mentais do protagonista, um indivíduo que representa os medos de boa parte da população, ainda que de forma bem exagerada.

O próprio Harada parece ficar ainda mais consciente destes perigos potencialmente provocados pelas armas atómicas. Veja-se que em casa demonstra essa mesma preocupação junto do filho, tal como é o único elemento do trio de mediadores a pretender escutar a opinião de Kiichi na segunda reunião. Diga-se que Harada nem sempre parece compreender o protagonista, nem nós o conseguimos fazer, mas encontra-se consciente do facto que as preocupações deste fazem algum sentido. Na reunião é deliberado que Kiichi deve ser considerado mentalmente incapaz, não tanto pelo seu estado a nível mental, mas sim por uma questão de "bom senso" de forma a não obrigar a família a ir para o Brasil ou a ficar no território na miséria. Kiichi parece querer o melhor para todos, algo latente na sua ideia, mas também em tribunal, quando todos aguardam pela sua derrota ou pela sua saída do local e o protagonista regressa com refrigerantes para os diversos elementos num gesto que gera mais silêncios do que agradecimentos. Nota-se que é bem intencionado, mas também imensamente paranoico, algo que dificulta o seu relacionamento com aqueles que o rodeiam, enquanto procura a todo o custo contornar a decisão do tribunal e conseguir os fundos necessários para sair do território. A relação de Kiichi com a família é complicada, tal como os seus comportamentos começam a revelar-se cada vez mais extremistas, algo que promete terminar da pior maneira, apesar das boas intenções deste personagem. O medo excessivo consome-o a ponto de entrar numa paranoia que degrada as suas relações com aqueles que lhe são próximos, com Akira Kurosawa a variar entre a sátira e o drama, enquanto explora temáticas de enorme relevo para a época. Diga-se que a expressão "produto do seu tempo" adequa-se na perfeição a "I Live in Fear", embora a obra cinematográfica desafie na perfeição o teste da passagem dos anos, apesar de estar longe de ser um dos filmes maiores de Akira Kurosawa. No entanto, revela a capacidade do cineasta em criar imagens em movimento que causam impacto (não falta mais uma vez as cenas onde a chuva forte permeia os cenários), em contribuir para o seu elenco sobressair, a conceder densidade psicológica aos personagens que povoam o enredo, bem como a efectuar um comentário sobre a sociedade do seu tempo. Veja-se ainda a cena em que Kiichi adoece e a discussão que se gera em volta da herança, como se o protagonista estivesse morto ou perto disso, algo que não era o caso. Revela alguma ganância da parte de alguns elementos da família, bem como de alguns familiares ainda não oficializados do ponto de vista legal, com Akira Kurosawa a expor-nos também a uma relação familiar intrincada. Nem todos são como estes elementos descritos, algo visível em Sue, numa obra onde assistimos ainda à procura de Akira Kurosawa em deixar-nos subtilmente perante o fenómeno da saída de população do território, com as idas para o Brasil a não serem uma novidade. O final varia entre o perturbador e comovente, com um homem a surgir-nos destruído perante os seus medos e Toshiro Mifune a exibir o actor magnífico que foi, tendo nas suas colaborações com Akira Kurosawa alguns momentos brilhantes. "I Live in Fear" deixa-nos assim diante da degradação mental e a nível de relacionamentos de um homem que teme a bomba atómica, surgindo consumido pelos seus receios, com Akira Kurosawa a colocar-nos perante um último terço onde procura expor com algum realismo os efeitos nocivos dos comportamentos de Kiichi, numa obra fundamental para nos ajudar a exibir os receios da época em relação aos testes nucleares. No entanto, por muito louco que Kiichi venha a ficar, nunca conseguirá atingir os níveis daqueles que consideram a destruição da vida humana como algo viável para vencer um conflito, seja através das armas atómicas, seja por qualquer outro método ou arma.

Título original: "Ikimono no kiroku".
Título em inglês: "I Live in Fear". 
Título em Portugal: "Vivo no Medo". 
Realizador: Akira Kurosawa. 
Argumento: Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Fumio Hayasaka, Hideo Oguni.
Elenco: Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Eiko Miyoshi, Kyoko Aoyama.

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