27 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "Gett: O Processo de Viviane Amsalem" (Gett: The Trial of Viviane Amsalem)

 Realizado por Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz, "Gett: The Trial of Viviane Amsalem" marca a passagem para o plano público das diferenças e problemas do casamento entre Viviane (Ronit Elkabetz) e Elisha Amsalem (Simon Akbarian), um casal cuja relação existe apenas no papel, já que na prática vivem de forma separada, a química entre ambos terminou e a primeira não o ama. Em "To Take a Woman", Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz deixaram-nos perante um filme desgastante e sufocante, marcado pelo enorme realismo na representação do ocaso da relação entre Viviane e Elisha. Todos os elementos que se aproximavam destes, incluindo os filhos, podiam aperceber-se disso. Os close-ups foram expostos com grande frequência para exibir paradigmaticamente os sentimentos que perpassavam pelos rostos e alma dos personagens, enquanto o lar do casal surgia como o sufocante espaço primordial. Em "Shiva", o segundo filme que conta com a presença de Viviane e Elisha (Eliyahu nos dois primeiros filmes), o casal já se encontra a viver de forma separada, com o esposo a tentar contactar com a personagem interpretada por Ronit Elkabetz de forma a procurar uma possível reconciliação. Se no primeiro filme assistimos a um desgaste enorme nas relações do casal, já em "Shiva" assistimos ao período de luto em que se encontra a família de Viviane devido à morte de Maurice, o irmão desta. Os seis irmãos e duas irmãs, bem como os respectivos cônjuges e familiares, têm de ficar na mesma casa e prestar culto ao irmão, embora facilmente desrespeitem o mesmo, com ambos os filmes a colocarem-nos diante do espaço fechado de uma habitação, onde facilmente as emoções são soltas. Em "Gett: The Trial of Viviane Amsalem", não estamos durante Israel no período da Guerra do Golfo, mas sim nos dias de hoje. Na realidade, os episódios que nos são apresentados quase que nos deixam incrédulos como ainda podem ocorrer na actualidade. Nos momentos iniciais de "To Take a Wife" encontramos um close-up quase extremo na face de Viviane, sobressaindo o seu rosto pálido, as suas feições pouco esperançosas, as unhas vermelhas e o muito tabaco que fuma, enquanto os irmãos procuram convencê-la a não separar-se do esposo. Procuram salientar as várias qualidades do mesmo, mas a relação entre os dois parece ter chegado a um ocaso, algo que fica exposto com o desenrolar do filme. Em "Gett: The Trial of Viviane Amsalem", esta decide finalmente lutar pelo divórcio, com a privacidade do lar a ser trocada pelo espaço claustrofóbico de um tribunal rabínico, um local onde as mulheres até podem estar presentes mas pouco parecem ser levadas em consideração. Em Israel, os casamentos civis ainda não existem, pelo que apenas se aplica a lei religiosa, que estipula que só o marido pode conceder a separação a não ser em casos muito excepcionais, ou seja, mesmo em tribunal, Viviane está sempre em desvantagem, com o esposo a ter grande parte do poder decisório. As situações em tribunal vão variar entre o tenso e o desgastante, muito a fazer recordar o primeiro filme, sobretudo quando a câmara se concentra nos rostos dos protagonistas, embora também exista algum humor à mistura, sobretudo inerente às situações absurdas que rodeiam este processo que durou cinco anos e parece ter marcado de forma indelével os protagonistas. Diga-se que  Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz voltam conseguir, com a ajuda do elenco, que estes personagens soem reais junto dos espectadores, que facilmente nos esqueçamos que existem actores a interpretá-los a ponto de envolverem-nos e de que maneira na sua intensa história.

 "Gett: The Trial of Viviane Amsalem" remete assim para "To Take a Wife", onde saíamos desgastados do filme e ao mesmo tempo quase que nos questionávamos como se sentiria a dupla de protagonistas. Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz trabalham Viviane e Elisha um pouco a fazer recordar o método utilizado por Richard Linklater nos filmes da trilogia "Before", dispersando as histórias dos protagonistas ao longo do tempo, ao mesmo tempo que vamos acompanhando as transformações destes e dos espaços que os rodeiam. No caso de "Gett", o cenário primordial é o tribunal. Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz pouco se preocupam com grandes adereços, sobressaindo sobretudo as paredes brancas e os sentimentos que envolvem os personagens. Isso não implica simplicidade, bem pelo contrário. Os planos são enquadrados de forma precisa, os momentos de silêncio nos quais a câmara se foca em Viviane são por vezes reveladores de um poder emocional imenso que as imagens conseguem transmitir, ao mesmo tempo que pormenores como o guarda-roupa podem ajudar a exibir pequenas mudanças nos comportamentos. Veja-se o caso de Viviane. Começa vestida de preto, discreta, até mudar para um vestido verde marinho ou azulado, despertando à atenção quando leva vestes vermelhas. A cor é claramente desafiadora do papel completamente secundário que o tribunal atribui à mulher, tal como é desafiador o seu soltar de cabelo (considerado uma afronta devido ao cariz sexual/erótico atribuído ao cabelo nesta sociedade), embora estas atitudes evidenciem acima de tudo uma mulher que está farta de todo o arrastar deste processo. Curiosamente, apesar de estar em foco em quase todo o filme, nos momentos iniciais encontramos esta mulher fora do campo, com "Gett: The Trial of Viviane Amsalem" a exibir num pequeno momento o papel invisível a que as mulheres por vezes podem estar sujeitas numa sociedade onde a lei beneficia e muito as figuras masculinas. Viviane quer o divórcio. Elisha não. No segundo filme da saga, ele já tinha dito que preferia morrer a conceder-lhe o divórcio. Ela chegou a mostrar-se disponível a traí-lo só para lhe manchar a reputação. Nos dois filmes anteriores este demonstrou sempre os seus fortes valores religiosos. Em "Gett: O Processo de Viviane Amsalem" volta a demonstrar o seu conservadorismo e dissimulação. Viviane pretende o divórcio, quer ser livre e finalmente poder ganhar a sua independência, após trinta anos de um casamento do qual resultaram quatro filhos e um desgaste claramente latente. No primeiro filme os filhos estão presentes. Nos dois seguintes nem por isso. Em todos os três filmes deparamo-nos com elementos da sociedade, cultura e tradição de Israel, mas também os valores conservadores de Elisha, um judeu marroquino. O respeito deste pela religião é tal que em tribunal procura inicialmente falar em francês e não em hebraico, de forma a não desrespeitar esta língua num processo que o envergonha. Diz amar a esposa mas, se no primeiro filme ainda parecia existir um pingo de verdade nas suas afirmações, em "Gett" esta situação não acontece, com o problema deste a centrar-se sobretudo no despeito sentido. Falta a várias audiências, procura arrastar o processo, exasperando a esposa e o espectador com os seus comportamentos aparentemente passivos mas capazes de causarem enorme dor. Viviane não partilha a religiosidade deste, tal como os filhos não partilham, com Elisha a ter estado sempre muito ausente da vida dos familiares e a apresentar uma frieza na exposição dos sentimentos que é utilizada como um dos argumentos da primeira em tribunal e exposta no primeiro filme. É um indivíduo difícil de se lidar, cuja relação com Viviane há muito parece ter terminado do ponto de vista amoroso, mas este pretende perpetuá-la, mesmo que ao longo dos três filmes tenha ficado sempre presente que o casamento já não tem hipóteses de "ganhar nova vida". "Gett" é o filme da saga que mais mediatismo conseguiu devido a ter sido nomeado para o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, surgindo também como o primeiro a trazer os problemas e Viviane e Elisha para a esfera pública.

Deixamos de estar perante a esfera íntima do lar, seja a casa de ambos, seja a habitação de Maurice, o falecido irmão de Viviane, e passamos a estar perante um impessoal tribunal rabínico. Sobressaem as duas mesas onde se encontram presentes os réus e os seus advogados/representantes, bem como a mesa dos três juízes/rabinos e o elemento que se encontra a transcrever em acta aquilo que se passa no local. Dos três rabinos que laboram como juízes sobressai Salmion (Eli Gornstein), aquele que lidera o julgamento, com todos, tal como a lei, a parecerem estar do lado do marido, embora aos poucos comecem a apresentar um enorme desgaste com a situação. Até nós nos começamos a desgastar, não com o filme mas pela forma como a lei não consegue defender uma mulher que legitimamente quer ter o direito a prosseguir a sua vida de forma livre. Inicialmente Elisha conta com Shimon (Sasson Gabai), o seu irmão, como uma espécie de advogado, com este último a pretender ajudá-lo na defesa, surgindo como um indivíduo conservador e por vezes algo ridículo que leva ao extremo a defesa do primeiro. Diga-se que Shimon personifica o conservadorismo e a forma perniciosa como estas leis tiram protecção às mulheres surgindo, tal como os rabinos, a defender o lado masculino. Viviane conta com Carmel Ben Tovim (Menashe Noy) como advogado, um indivíduo articulado no seu discurso, pronto a defender a sua cliente e a causa desta, apesar de aos poucos parecer ficar implícito que existe algo mais entre os dois. Shimon levanta a suspeição e Carmel não consegue dispersá-la por completo, tal como não a desmente categoricamente. O tribunal ainda pede que Viviane fique seis meses em casa de Elisha para tentarem a reconciliação mas tudo se revela infrutífero. Ambos são incompatíveis, apesar do orgulho de Elisha não parecer permitir reconhecer essa situação. É então que os rabinos decidem chamar as testemunhas e ficamos perante uma miríade de personagens, alguns dos quais já conhecidos dos outros filmes que defendem sobretudo Elisha, utilizando argumentos como o facto deste nunca ter batido na mulher ou contado com amantes, embora muitas das vezes fique implícito nos discursos que o casal é incompatível. A primeira testemunha a prestar declarações é Meir (Albert Iluz), o irmão mais velho de Viviane, um elemento que salienta já ter sugerido que o melhor era esta ter continuado o casamento e realça as qualidades de Elisha. Meir foi o indivíduo que no período de luto do irmão estava mais preocupado com a campanha política e a sua candidatura do que em respeitar o luto, sendo um dos elementos do primeiro filme que procuraram dissuadir Viviane a divorciar-se. Já Therese (Ruby Porat Shoval), a esposa de Meir, parece estar do lado de Viviane, tal como Evelyn (Evelin Hagoel), com esta última a expressar de forma bem viva a sua opinião contra uma sociedade que trata as mulheres divorciadas de forma penosa. Temos ainda os Aboukassis, um casal de vizinhos. O esposo defende Elisha, enquanto Donna Aboukassis (Dalia Beger) inicialmente vai na onda mas aos poucos começa a contrariar a opinião do esposo. Aboukassis logo procura silenciar a esposa, ficando mais uma vez claro que este espaço serve mais para julgar Viviane do que o processo de divórcio. Fica latente que Elisha pode não ter agredido e traído a esposa, nem faltar com dinheiro para a casa, mas também pouca atenção lhe dava (algo exposto no primeiro filme), enquanto este processo em tribunal arrasta-se excessivamente ao longo do tempo e prova o quão retrograda é esta lei que coloca o poder do marido acima de quase tudo.

Elisha surge quase sempre impassível e irredutível nos seus propósitos, com Simon Abkarian a sobressair mais uma vez como este personagem conservador, nem sempre capaz de expressar os seus sentimentos, que procura a todo o custo manter um casamento que apenas prossegue devido a uma lei arcaica. Akbarian consegue explorar o lado mais dissimulado do seu personagem, um indivíduo que é capaz de levar tudo e todos ao desespero, escondendo muitas das vezes uma malícia que aos poucos se revela, embora o argumento nunca o trate como um personagem unidimensional. É latente que este parece sentir algo pela esposa ou pelo menos os seus valores religiosos compelem-no a querê-la consigo, mas por vezes também parece notório que pretende punir Viviane pela "desfaçatez" de querer ser independente. Diga-se que muitas das testemunhas elogiam a "liberdade" que este dava à esposa, embora raramente frisem que este pouca atenção lhe prestava. Em "To Take a Wife" esta chegou a dizer que preferia que este lhe batesse, que demonstrasse reacção ao invés de a ignorar e não demonstrar quaisquer sentimentos. Simon Akbarian destaca-se, embora caiba mais uma vez à carismática Ronit Elkabetz brilhar e emocionar acima de todos os outros elementos do elenco, com esta a ser capaz de transmitir o cansaço da personagem que interpreta, a força e paciência que esta tem para lutar pelos seus objectivos, mas também a forte personalidade de Viviane. O momento em que utiliza vestes vermelhas e solta o cabelo surge como libertador e paradigmático do cansaço de Viviane, com Ronit Elkabetz a expressar no seu rosto toda a convulsão vivida pela personagem que interpreta. O momento em que a câmara de filmar foca-se no seu rosto por vezes faz pensar que as parecenças do título de "Gett: The Trial of Viviane Amsalem" com "Procès de Jeanne d'Arc" (em inglês "The Trial of Joan of Arc") não são mera coincidência, com a dupla de realizadores a salientar isso mesmo no dossier de imprensa: "Nas nossas mentes, o poder do cinema está no ponto de vista. Num fotograma, os nossos olhos são logo atraídos para o olhar dos atores e atrizes. Depois procuramos o que o ator está a ver, dissecamos a sua alma através da sua visão. Graças a estas perspetivas, o filme existe para além do diálogo". Existe algo de Bressoniano em procurar dissecar a alma dos personagens, em procurar que os actores e actrizes se dispam das suas personas e passem a "viver" os elementos a quem dão vida, algo latente nos casos de Ronit Elkabetz e Simon Akbarian. Diga-se que muitas das vezes somos colocados diante dos personagens através do olhar de outros elementos e dos próprios, com a dupla de realizadores e argumentistas a exibir um trabalho notável a nível da composição e significado dos planos. Um plano demorado, focado em Viviane, pode dizer imenso sobre a personagem e ao mesmo tempo deixar escapar tanto sobre esta mulher. Esta trabalha como cabeleireira, já assim era em "To Take a Wife", algo que a conduz a não ser financeiramente dependente do marido, procurando finalmente a sua independência junto deste no plano matrimonial, justificando o pedido de divórcio devido à incompatibilidade com o esposo. Estes pouco falavam, pouco saíam, pouca intimidade tinham, algo que é exposto paradigmaticamente em "To Take a Wife" e exibido nos diálogos que mantêm ao longo de "Gett". Após as testemunhas concederem as suas opiniões em relação ao casal e à relação, "Gett" avança para os testemunhos de Viviane e Elisha. Fica paradigmaticamente exposto o quanto os separa e o muito pouco que os une, com Viviane a procurar finalmente ter a sua liberdade, após vários anos sozinha. Esta vive nas imediações da casa de Meir, enquanto Elisha manteve-se na casa onde outrora habitavam, parecendo procurar manter tudo como estava embora muito tenha ocorrido entre ambos para que alguma vez se possam voltar a entender. A certa altura do filme, Elisha chega mesmo a ser questionado sobre o que pretenderia fazer se tivesse Viviane de volta e parece certo que mesmo que voltassem a viver juntos, estes não conseguiriam ser felizes, tal como este não parece ser capaz de responder a esta questão.

 É um caso complicado sobretudo devido ao facto das leis, de um país civilizado e moderno em vários aspectos, apresentarem inexplicavelmente um nível retrogrado imenso no que diz respeito ao casamento. O próprio julgamento demonstra o quão tendenciosa é esta situação para favorecer o lado masculino, com poucos elementos a contribuírem para que Viviane consiga o divórcio sem a autorização do marido. A chegada das testemunhas poderia ajudar a resolver o caso, mas estas parecem contribuir mais para arrastar o mesmo do que para resolver algo. Elisha é respeitado na sinagoga, sendo visto como um homem digno, embora alguns elementos tenham coragem de lhe colocar alguns defeitos. Diga-se que a religiosidade deste e de muitos elementos encontra-se bastante presente, bem como o conservadorismo em relação ao papel da mulher. Veja-se o caso de Meir, mas acima de tudo Shimon e Aboukassis, com estes dois últimos a encararem as mulheres como figuras que devem ser submissas ao homem. Viviane não preenche estes requisitos e, felizmente, nem pretende, tentando a sua independência, embora também  a própria por vezes pareça mentir em tribunal. Essa situação é notória quando Shmuel (Abraham Celektar), a sétima testemunha, a diz ter visto num café com um homem e ela salienta que estava reunida com o advogado. Carmel parece surpreendido com a situação mas entra na jogada, mas ao mesmo tempo é impossível não nos recordarmos a reunião que esta teve com Albert, o ex-amante no primeiro filme, ou o beijo que trocou com Ben Loulou em "Shiva". Ou seja, quando a encontramos a dizer que foi sempre fiel ao marido, acreditamos apenas se não tivermos visto os outros filmes. O próprio Carmel não desmente o interesse em Viviane. Este é interpretado por Menashe Noy, um actor que se destaca pela forma intensa como procura defender a sua cliente em tribunal, expondo as limitações e cinismo da lei. Os próprios juízes variam entre o inflexível e um lado mais humano, muitas das vezes fartos com os constantes recuos e momentos deste caso rocambolesco. A contribuir para estes momentos rocambolescos encontra-se o personagem interpretado por Sasson Gabai, com este a não ter problemas em atacar a protagonista, desde que consiga defender a causa do seu irmão. Gabai surge expansivo, por vezes algo caricatural e pronto a deixar-nos perplexos com o conservadorismo do personagem que interpreta, um elemento religioso numa obra que mescla a religiosidade com o profano (voltamos a salientar o soltar do cabelo por parte de Viviane). Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz conduzem a narrativa com uma mestria próxima de "To Take a Wife" mesclada com a assertividade com que expunham os diversos personagens em "Shiva". A atmosfera por vezes surge tão mais sufocante, desgastante e claustrofóbica do que em "To Take a Wife", embora em "Gett: The Trial of Vivian Amsalem" também exista espaço para o humor. Diga-se que o humor surge muitas das vezes das próprias situações, seja pelo comportamento das testemunhas, seja por uma asneira largada, seja pelos momentos caricatos, entre outros que ajudam a expor uma situação completamente inadmissível numa sociedade civilizada. Nesse sentido, "Gett" junta ao seu enorme valor cinematográfico uma notável relevância social ao despertar a atenção do público em relação a uma situação que é real em Israel. Estamos perante personagens judeus marroquinos, ainda muito ligados aos valores religiosos, mas a própria sociedade não dá passos para alterar situações como a lei do casamento que claramente prejudicam a mulher.

 Apesar de contarmos com uma protagonista forte, marcante e carismática, "Gett" nunca deixa de exibir que estamos diante de uma sociedade que trata a figura feminina como algo inferior ao homem. Neste sentido, mais do que discursos pueris como o de Patricia Arquette nos Oscars sobre o salário das mulheres quando na plateia tinha pessoas como Oprah Winfrey, são filmes como "Gett" que permitem dar uma real situação do quão frágil pode ser o papel destas em algumas sociedades e a necessidade premente de se ter de fazer algo para mudar esta situação. "Gett" pode não valer uns quantos memes e quotes como os discursos de Arquette ou um "you go girl" de Meryl Streep (outra senhora claramente depauperada), mas a sua relevância social é indelével. Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz procuram expor o julgamento com enorme realismo, mesmo em alguns momentos nos quais as situações nos possam parecer algo caricaturais, com cada testemunha a dar uma nova perspectiva sobre elementos que integram esta sociedade. Ora são familiares, ora são vizinhos, ora são elementos que frequentam a sinagoga, numa diversidade de figuras que ajudam a dinamizar uma narrativa fluida, filmada com enorme acerto por Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz. Estes dão ainda enorme importância aos momentos em que os protagonistas estão em silêncio. Veja-se já perto do final, quando o rosto de Viviane é focado e tanto nos é dito sobre o seu estado de espírito, com a câmara de filmar a parecer querer captar exactamente algo de espiritual em relação à personagem, enquanto a sua tez pálida sobressai no interior do espaço do tribunal. Por sua vez, Elisha surge mais frio e calculista, procurando manter a esposa junto de si embora nunca pareça justificar bem o porquê dos seus actos quando já vivem separados há três anos e pouco parecem se amar. Nem grandes amigos em comum conseguiram gerar, relacionando-se sobretudo com elementos da família e, no caso de Elisha, com os elementos da sinagoga, onde chegou a exibir o seu lado mais vingativo junto de um fiel que desafinou a cantar uma canção. Diga-se que este ainda procura em alguns momentos que o irmão não ofenda Viviane, parecendo também abalado com a situação que o próprio arrasta. "Gett" pode ser visto separado de "To Take a Wife" e "Shiva". No entanto, é impossível não notar o quão relevante estas obras são para a perspectiva que temos destes personagens, ao mesmo tempo que nos fornece mais informação sobre os mesmos ao longo deste demorado processo que serve acima de tudo para julgar Viviane e tirar algumas dúvidas que pudéssemos ter sobre Elisha. A cinematografia incrementa e muito a obra, seja num close-up cheio de significado, seja a filmar os personagens de perfil, seja a transmitir a atmosfera intensa e claustrofóbica deste julgamento. As legendas a indicarem a passagem do tempo exibem o quão demorado foi este processo, mas também as razões para os comportamentos dos personagens extremarem-se cada vez mais, enquanto Viviane luta pela sua independência, pelo direito ao gett (o papel que oficializa o divórcio). Intenso, desgastante e emocionalmente intenso, "Gett: O Processo de Viviane Amsalem" exibe-nos uma mulher que procura lutar pela sua independência numa sociedade que parece fazer de tudo para negá-la, numa obra cinematográfica que mescla com enorme eficácia os momentos mais dramáticos com o humor, ao mesmo tempo que exibe o talento de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz, uma dupla que tem aqui um filme onde apresenta o culminar de uma maturidade cinematográfica assinalável. "Gett: O Processo de Viviane Amsalem" surge assim como um filme de visualização praticamente imprescindível, quer pelos seus valores cinematográficos, quer pela sua enorme relevância social, quer pela magnífica interpretação de Ronit Elkabetz.

Título original: "Gett".
Título em inglês: "Gett: The Trial of Viviane Amsalem. 
Título em Portugal: "Gett: O Processo de Viviane Amsalem". 
Realizadores: Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz.
Argumentistas: Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz.
Elenco: Ronit Elkabetz, Simon Abkarian, Gabi Amrani, Dalia Beger, Sasson Gabai, Albert Iluz, Menashe Noy, Rubi Porat Shoval.

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