09 fevereiro 2015

Resenha Crítica: Foxcatcher

     Mark Schultz (Channing Tatum), um dos protagonistas de “Foxcatcher”, não é um indivíduo wrestling que venceu uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1984, em conjunto com o seu irmão mais velho; porém, poucos anos volvidos, por motivos que não nos são aparentes, parece estar consumido por angústia. O seu dia-a-dia parece-nos triste e excessivamente simples, iniciando-se com o próprio a levantar-se e a comer, sozinho, na sua pequena habitação, o pequeno-almoço, e a dirigir-se para um ginásio de reduzidas proporções, mal iluminado, onde treina durante horas com o irmão; os treinos começam por ser calmos, mas rapidamente nos apercebemos de que, quando a técnica do irmão começa a prevalecer sobre o físico poderoso de Mark, o protagonista, confrontado com a sua impotência, começa a perder a compostura e os embates aumentam de intensidade. Findos os treinos Mark recebe boleia de volta até casa e, mal se vê à frente do espelho da casa de banho, esmurra-se a ele próprio atormentado por pensamentos tenebrosos. Até não parece ser mau tipo, demonstra respeito e simpatia para com aqueles que, ocasionalmente, o rodeiam, mas, independentemente das circunstâncias, não se libertará da carranca triste e soturna que carregará permanentemente consigo.
completamente normal. É-nos dado a conhecer, logo nos primeiros minutos do filme, inspirado em personagens e factos reais, que é um atleta de
     O irmão, Dave (Mark Ruffalo), é um tipo caloroso e mais equilibrado, e estes traços da sua personalidade refletem-se no seu estilo de luta baseado na utilização da técnica com sangue frio e racionalidade. É um atleta muito capaz, patriarca responsável de uma simpática família composta por uma bela esposa e duas crianças, e, no momento mais oportuno, saberemos que, no meio de uma infância turbulenta, foi ele o responsável pela criação do irmão. Não é, assim, de espantar que a ideia de contactar a imprensa desportiva, em busca de auxílio para a situação de Mark, tenha partido às escondidas do seu telefone.
     O auxílio chegará poucos dias depois, por intermédio de um telefonema. Com convicção e algum mistério, Mark é informado de que John E. Dupont (Steve Carell, completamente transformado não só devido a uma interpretação num registo distinto àquele que já nos habituou na comédia, mas também devido ao eficaz trabalho de caracterização) tem intenções sérias de falar consigo. Pedem-lhe que, assim que possa, apanhe um avião, cujo bilhete, obviamente de primeira classe, será pago depois com prontidão. O protagonista desconhece a identidade do solicitador mas, com necessidades de mudança de ares, acede prontamente ao requerido. Aterra no estado da Pensilvânia, onde o esperarão no aeroporto, prontos para encaminhá-lo com toda a naturalidade para um helicóptero que o levará para o meio de uma propriedade vastíssima, encabeçada por uma mansão imponente. Depois de entrar, hesitante, no casarão e de lhe ser ordenado que espere uns minutos numa sala luxuosa, Mark conhecerá finalmente John E. Dupont.
     A idade deste indivíduo não é fácil de discernir pelas suas feições magras e invulgares, mas calculamos que tenha mais de quarenta anos de idade. Apresenta-se como um digno herdeiro de uma linhagem histórica e milionária e como um defensor acérrimo da honra norte-americana, que, defende ele, está em vias de extinção. Tendo ele cultivado um interesse em luta greco-romana, considerando-se naturalmente como um treinador experiente, a sua ideia passa por instalar Mark na sua propriedade. Dispor-lhe-à de um ordenado chorudo, de um ginásio amplo e bem equipado e, com ele, apadrinhará a equipa Foxcatcher (o nome da sua propriedade). Treinarão afincadamente, como uma unidade, com o propósito de fazer de Mark o vencedor do mundial de wrestling que decorrerá dali a uns meses. Entusiasmado pela oportunidade, encorajado pelo irmão mais velho, o atleta acederá facilmente ao convite.
     A partir deste momento, vai-se tornando mais evidente o foco do realizador Bennett Miller e dos argumentistas E. Max Frye e Dan Futterman, com quem já colaborara em “Capote” (a biopic sobre os acontecimentos que inspiraram Truman Capote a escrever o romance Em Sangue Frio). Tendo-nos apresentado a este conjunto restrito de personagens, Miller explorará a evolução do relacionamento entre Mark e o seu novo padrinho, descortinando, subtilmente, os contornos das atormentadas psiques destes dois protagonistas. Neste sentido, tal como “Capote” se centrava mais na evolução da personagem de Truman Capote do que no julgamento dos criminosos que servia de pano de fundo para a narrativa, “Foxcatcher” afigurar-se-à, não necessariamente como um filme sobre wrestling, mas antes como uma imersão às mentes destes indivíduos que o praticam, com especial incidência para a de John E. Dupont. Assim, mais uma vez, o cineasta centrará a sua obra numa figura de personalidade forte, excêntrica, com intensos conflitos psicológicos, que nos serão desvendados ao mesmo tempo que vai sendo desenvolvida a sua relação com um outro indivíduo, (neste caso Mark) com quem ele formará uma marcante relação.
     Aperceber-nos-emos gradualmente de que Dupont é acima de tudo um indivíduo frágil, obcecado em obter a aprovação da mãe, uma velhota intragável que o rebaixa constantemente; e que a iniciativa de acolher Mark não passa de uma forma de alimentar a ilusão de que é um verdadeiro líder e uma figura extraordinária, de forma a combater a sua notória falta de confiança. Os seus transtornos e a sua imprevisibilidade são magnificamente representados por um irreconhecível Steve Carell, que representa de forma exímia os gestos e o tom de voz do verdadeiro John Dupont, tal como foi salientado numa entrevista posterior concedida por Mark Schultz na qual este confidenciou que: «when I saw Steve Carell dressed up as du Pont, I had to take a second look because it was so close to the way he actually looked, I thought he had been resurrected from the dead or something. ... Not only does he look like du Pont, he acts just like him too. He's got his mannerisms down. He's got his facial expressions down. It's really just incredible
     As ações levadas a cabo por Mark Schultz, interpretada com competência por um Channing Tatum constantemente reservado, e de semblante carrancudo, também se adequam cuidadosamente ao conceito do seu personagem. Afastado do irmão na sequência da sua mudança para a herdade de Foxcatcher, dependente da figura de um protetor e agarrado desesperadamente ao seu título olímpico - exposto na forma como, anos depois, ainda enverga o fato de treino da seleção pela qual foi medalhado – é com naturalidade que aceitará como líder John Dupont, dando-lhe a oportunidade de exercer um papel pelo qual ele tanto ansiava. A presença desta espécie de pai adotivo irá não apenas acalmá-lo, atenuando temporariamente as suas frustrações, mas também proporcionar-lhe um rumo para a vida, até então inexistente. Parecerá perfeitamente natural, portanto, que quando as paranoias e os fantasmas de Dupont começarem a afetar o relacionamento entre ambos, Mark, novamente desorientado, entrará numa fase espiral de inevitável depressão. A Mark Ruffalo, por sua vez, será concedida menor relevância, mas a verdade é que não obstante o maior equilíbrio psicológico da sua personagem e, como tal, uma menor propensão para a manifestações de sensações mais extremadas, o ator consegue sobressair, facilmente, pela sensibilidade e franqueza que concede à sua personagem, criando com facilidade uma sensação de empatia com a audiência.
     À coerência com que são construídas estas personagens, e à assertividade com que realizador e argumentistas exploram os seus constrangimentos, juntam-se outras qualidades como a fluência dos seus diálogos ou a criação de um clima de constante tensão, fortalecido pela banda sonora melancólica de Rob Simonsen e, acima de tudo, pela aura de imprevisibilidade que rodeia Mark e John Dupont, que perpetua a noção de que, dada a sua inconsistência mental, quaisquer circunstâncias adversas poderão culminar num final transtornável. Realce-se ainda a cinematografia de Greig Faser, ansioso em explorar a imponência dos espaços exteriores, colocando as personagens em ponto pequeno face à grandiosidade da natureza que os rodeia, igualmente capaz de ilustrar o esplendor da mansão e até do ginásio de Dupont.
     É claro que, como tantas vezes sucede, ao enveredar por um filme biográfico, o seu realizador tomou algumas liberdades criativas que o fazem diferir da realidade: é disso exemplo uma cena que sugere a possibilidade de um aproveitamento a nível sexual, por parte do milionário, da inocência do atleta olímpico, contestada veementemente por Mark Schultz no seu Facebook, tendo adicionalmente a cronologia de alguns acontecimentos chegado mesmo a ser alterada. Verifica-se, porém, que ao contrário do que foi, por exemplo, realizado por Clint Eastwood em “American Sniper”, as alterações foram tomadas para dar sentido e coerência à história apresentada por Bennett Miller. Aliás, o que se verifica entre a obra de Eastwood e esta de Miller é um perfeito contraste: enquanto a primeira traçava um retrato propositadamente superficial do seu protagonista, a segunda esforça-se por entrar na mente das suas personagens, confrontando-nos com as suas perturbações; curiosamente, ao passo que “American Sniper” foi um sucesso estrondoso de bilheteira, “Foxcatcher” terá que depender da receita externa para compensar o seu orçamento. É caso para dizer que os norte-americanos não sabem o que perderam; salvaram-se, por lá, as justas nomeações para os Óscares, e por cá as convicções de que, das cabeças de Bennett Miller e dos seus colaboradores, só saem obras que tornam ainda mais interessantes os eventos reais que retrataram.

Ficha técnica:

Realização: Bennett Miller
Argumento: E. Max Frye e Dan Futterman
Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Sienna Miller, entre outros.

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