13 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "Floating Weeds" (Ukikusa)

 Yasujiro Ozu regressa ao universo narrativo de "A Story of a Floating Weeds" em "Floating Weeds", um remake de um dos seus mais populares filmes mudos, que aborda temáticas muito semelhantes à obra original, contando com a poesia muito própria que o cineasta atribui às imagens em movimento. Nota-se ainda um maior perfeccionismo no trabalhar da imagem, com a cor a ser rentabilizada de forma sublime e cheia de significado, mas também o som, com "Floating Weeds" a colocar-nos perante uma trupe ambulante de teatro de Kabuki que chega a uma pequena cidade costeira em 1958. Os momentos iniciais servem para apresentar o território, rodeado pelo mar, enquanto Kinnosuke entrega os folhetos publicitários da peça de kabuki liderada por Komajuro (Ganjiro Nakamura), um indivíduo que estivera no local há doze anos atrás, ainda antes da rendição do Japão. Komajuro reúne-se com velhos conhecidos, entre os quais o gerente do teatro (Chishu Ryu, um colaborador habitual de Ozu) e Oyoshi (Haruko Sugimura), a sua antiga namorada, com quem tem um filho, Kiyoshi (Hiroshi Kawaguchi), um jovem que trabalha nos correios para juntar dinheiro para a universidade. Kiyoshi pensa que Komajuro é o seu tio, não entendendo o porquê do protagonista não querer melhorar as peças de teatro, embora respeite imenso o parente. A relação entre estes dois é de grande proximidade, com ambos a jogarem jogos de tabuleiro, dialogarem, pescarem, com Komajuro a procurar recuperar o tempo perdido. Enquanto isso, alguns elementos masculinos da trupe procuram divertimento na casa de saqué, uma bebida muito consumida nos filmes de Ozu, com o cineasta a deixar-nos muitas vezes diante de personagens que aproveitam os prazeres momentâneos da vida. O cenário inicial é solarengo, com o calor a ser indiciado não só pelos diálogos dos personagens, mas também pelos constantes leques que os acompanham, as suas vestimentas, os gelados que comem e o céu luzidio, pelo menos até uma tempestade se abater, quer nas vidas destes, quer no próprio cenário. O gerente desaparece temporariamente, o dinheiro começa a escassear, o espectáculo está prestes a ser cancelado, sendo que as constantes saídas de Komajuro começam a causar algum desagrado em Sumiko (Machiko Kyō), a actual companheira do protagonista e actriz na trupe. Sumiko logo descobre que Komajuro vai visitar Oyoshi e que Kiyoshi é filho deste, protagonizando uma cena de ciúmes. Esta situação conduz Sumiko a convencer e pagar a Kayo (Ayako Wakao), uma jovem actriz que pertence à trupe, para seduzir Kiyoshi, algo que não corre como o esperado com esta última a apaixonar-se pelo jovem rapaz. Ficamos perante uma intrincada teia de relacionamentos, que Yasujiro Ozu arquitecta com a habilidade do costume e desfaz com uma delicadeza muito própria ao longo deste sublime drama humano.

 Cada plano surge com enorme significado, mas também a cor e até os momentos aparentemente mais simples, tais como a peça de teatro, onde percebemos que estes actores e actrizes estão longe de formar um grupo requintado. Essa situação fica desde logo expressa num diálogo de Komajuro para com o filho, onde o primeiro salienta que: "as plateias de hoje não entendem boas peças", naquele que também pode ser identificado como um comentário de Yasujiro Ozu ao estado da arte. Se Ozu é um artista magnífico, já Komajuro é um actor mediano, que pouco destaque tem, algo conservador, andando de cidade em cidade com a sua trupe, vivendo em condições nem sempre aprazíveis. Ozu exibe este contraste entre a modernidade e a tradição através de Komajuro e Kiyoshi desde logo pelo guarda-roupa de ambos os personagens. Komajuro aparece sempre vestido com os seus quimonos tradicionais, enquanto Kiyoshi veste uma camisola de manga curta e calças, com excepção do momento em que pretende fugir com Kayo, utilizando vestuário semelhante ao progenitor, simbolizando que esta opção pode significar um futuro pouco promissor. Kayo começa por seduzir Kiyoshi a pedido mas cedo passa a amar o rapaz, existindo uma certa bondade e candura no seu rosto, com o jovem casal a surgir sonhador em relação ao futuro, não existindo um certo conformismo dos adultos nas suas pessoas. Essa situação não implica que Kayo deixe de ser leal ao seu chefe, existindo aqui uma relação entre mestre e pupilo forte, quase a fazer recordar os samurais e os seus líderes. Já alguns membros da trupe pensam em roubar os poucos fundos do protagonista, mas a relação mais complexa é mesmo a deste com Kiyoshi, enquanto Ozu mostra mais uma vez uma capacidade muito própria e única para captar e expor os sentimentos humanos. A relação de Kiyoshi com o pai, que pensa durante boa parte do filme ser seu tio, nem sempre é pacífica, com ambos a divergirem a nível de ideais e pensamento, embora apresentem notório afecto. Ozu gere o elenco, consegue desenvolver mais os personagens secundários em relação ao filme original, enquanto colabora com nomes habituais na sua filmografia. A começar por Haruko Sugimura, a intérprete de Oyoshi, uma mulher leal, calma, que criou o seu filho sozinha, interpretada com enorme subtileza pela actriz. Por sua vez, Machiko Kyō atribui uma maior ferocidade à sua Sumiko, uma mulher disposta a tudo para cumprir os seus intentos, embora seja leal, tendo um passado complicado e um enorme afecto por Komajuro. As mulheres surgem muitas das vezes submissas ao homem ao longo do filme, embora estes não possam viver sem as mesmas, sendo que Kiyoshi apresenta uma postura algo distinta, reflexo de uma geração diferente.

 Gerações diferentes, com tanto a dividir e a unir ao longo desta obra que tanto tem de Yasujiro Ozu. A começar pelos seus "planos tatami", fixos, habilmente trabalhados, prontos a mostrar a realidade criada pelo cineasta. Uma realidade poética, marcada por belas imagens em movimento, onde voltamos a encontrar os célebres planos onde não surgem seres humanos mas tanto nos têm para dizer e acima de tudo servem para dividir as diferentes sequências, focando-se em objectos durante algum tempo. Veja-se o plano da caixa de correio encarnada (uma das cores que mais sobressaem ao longo do filme), mas também do farol, dois pillow shots típicos das obras de Ozu. Temos ainda a presença do comboio, típica das obras do cineasta, com este meio de transporte a surgir pronto a trazer e a levar estes artistas, "ervas flutuantes" que vagueiam pelo destino sem rumo aparente. Como salienta Komajuro, "Nada na vida permanece igual", embora o seu destino até encontre vários elementos comuns aos do seu passado, com este a regressar a uma terra onde cria alguma das suas raízes, mas logo flutua em busca de trabalho. Komajuro é interpretado por um discreto e credível Ganjiro Nakamura, capaz de expor o seu lado mais leve na peça, o seu cansaço perante a antiga amada, a solidão do seu estilo de vida (embora esteja sempre acompanhado) e uma sede de descoberta em relação ao filho. Não quer que o filho assuma a sua profissão, nem este a parece querer seguir, formando com o jovem idealista uma relação tão típica dos relacionamentos entre pais e filhos das obras de Ozu, onde não falta cumplicidade, desilusões, alegrias e uma enorme delicadeza. Visitar uma obra de Yasujiro Ozu, sobretudo os filmes sonoros do pós-Guerra, revela-se uma experiência semelhante a visitar velhos amigos que conhecemos, encontrando temas em comum, um estilo muito próprio, onde não falta uma certa melancolia, os célebres planos e contraplanos onde os personagens parecem estar a olhar directamente para nós e a certeza de muitas das vezes estarmos perante algo de especial. 

"Floating Weeds" é um filme especial, onde os relacionamentos são abordados de forma bela, delicada e melancólica, por vezes com algum humor à mistura (veja-se a esposa do barbeiro que corta o cliente que procurava atrair a filha), onde muito e pouco parece acontecer. Não estamos na cidade de Tóquio de Ozu, nem junto das famílias de classe média mas sim das gentes remediadas, a fazer recordar a obra que deu origem a este filme, mas também "An Inn in Tokyo", embora com um final menos pessimista, onde parece existir espaço para o amor ter lugar. Quem também tem lugar é o simbolismo, seja nos gestos ou os objectos, visível no já sugerido comboio, mas também no chapéu vermelho num cenário chuvoso e marcado por cores frias, com as cores a exacerbarem sentimentos, os objectos a surgirem cheio de significado, enquanto o cineasta deixa espaço para a nossa imaginação funcionar. O chapéu aquece uma atmosfera aparentemente fria, embora Yasujiro Ozu esteja longe de nos proporcionar sentimentos frios em relação à sua obra. “Floating Weeds” parece surgir como uma obra relativamente simples, embora esta simplicidade seja apenas aparente, com Yasujiro Ozu a deixar-nos diante de uma película complexa, bela, capaz de abordar questões aparentemente banais com enorme delicadeza e assertividade, fugindo dos melodramas e introduzindo algumas alterações à obra original. Alguns diálogos e cenas surgem quase a papel químico de "A Story of a Floating Weeds", que até aparece como uma obra mais escorreita e directa ao assunto, mas "Floating Weeds" tem uma maior capacidade de explorar os personagens secundários, de utilizar o som e a cor, não faltando pelo caminho uma banda sonora adequada aos ritmos da narrativa e planos compostos com um enorme perfeccionismo. Entre sentimentos flutuantes, artistas pouco reconhecidos, relacionamentos familiares complexos, relações laborais marcadas por lealdade e traições, "Floating Weeds" exibe-se como um poético drama humano, daqueles que apenas Yasujiro Ozu nos consegue dar e elaborar com tanta mestria.

Título original: "Ukikusa". 
Título em inglês: "Floating Weeds". 
Realizador: Yasujiro Ozu.
Argumento: Yasujiro Ozu e Kogo Noda.
Elenco:
Ganjiro Nakamura, Machiko Kyō, Ayako Wakao, Hiroshi Kawaguchi, Haruko Sugimura. 

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