18 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "Drunken Angel" (Yoidore tenshi)

 Primeira de dezasseis colaborações entre o actor Toshiro Mifune e o realizador Akira Kurosawa, "Drunken Angel" apresenta-nos a um Japão a lidar com as transformações do período do pós-Guerra e a manutenção de várias tradições, algo que promete gerar um choque nem sempre agradável para os personagens que rodeiam o enredo. É um filme distinto das obras mais grandiosas associadas ao cineasta, tais como "Kagemusha", "Ran", "Seven Samurai", entre outras, mas nem por isso menos ambicioso, remetendo para o clima quente de "Stray Dog", bem como para vários filmes de gangsters dos EUA dos anos 30 e para os noir dos anos 40. Os momentos iniciais deixam-nos perante o Dr. Sanada (Takashi Shimura) a retirar uma bala do interior da mão de Matsunaga (Toshiro Mifune), um elemento da yakuza, após este último ter sido ferido numa rixa com um grupo rival. Sanada trata Matsunaga com algum desprezo, nem se dando ao luxo de utilizar anestésicos para tratar da ferida, embora faça questão de salientar que o gangster tem sintomas de tuberculose. Matsunaga não aceita bem a notícia e até revela uma atitude agressiva mas esta é uma doença que tem afectado uma parte considerável da população, pelo que Sanada aconselha-o a efectuar um raio-x para comprovar se padece mesmo de tuberculose. Sanada e Matsunada são dois personagens peculiares e complexos cujas acções surgem muitas das vezes ligadas aos seus valores morais. Matsunada é um yakuza mulherengo, beberrão e violento, aparentemente respeitado ou temido por quase tudo e todos(as), tomando conta de um pedaço de território a mando do seu chefe. Sanada é um médico que pouco prestígio conseguiu devido aos seus hábitos boémios durante a juventude e pelo vício do álcool nos dias de hoje, embora seja alguém preocupado com todos os seus doentes, uma situação que o conduz a tentar ajudar Matsunada. É o anjo do título, embora esteja longe de ser uma figura angelical, procurando despertar a consciência do gangster em relação ao vírus do qual padece. Toshiro Mifune incute uma violência latente ao personagem que interpreta, um indivíduo que pensa poder controlar tudo o que o rodeia mas padece de uma doença que o promete conduzir à desgraça se não tomar medidas para a curar. O actor é exemplar a explorar a queda do personagem, quer a nível mental, quer a nível corporal, com o desgaste a ser óbvio com o avançar do estado da tuberculose, chegando a surgir praticamente como um morto-vivo. O trabalho de caracterização é competente, bem como a cinematografia, com Toshiro Mifune a parecer saído de um filme mudo, em particular do expressionismo alemão, enquanto o personagem que interpreta aparece muitas das vezes engolido pelas sombras. O próprio contraste latente das luzes e sombras remete para o expressionismo alemão, bem como para os filmes noir dos anos 40 (a luz que passa pelos estores a reflectir sobre os personagens é paradigmática dessas obras), enquanto os códigos de lealdade de Matsunada remetem para o passado e tradições do Japão, uma evidência realçada por Sanada. Diga-se que o personagem interpretado por Takashi Shimura surge como um elemento pronto a romper com o passado, que parece traduzir um sentimento de engano por ter lutado por uma causa perdida na II Guerra Mundial. Veja-se quando salienta que "Os sacrifícios humanos já não estão na moda. Os japoneses fazem tantos sacrifícios sem sentido", algo que remete para a sua procura em proteger Miyo (Chieko Nakakita), a sua enfermeira, uma mulher que se encontrava envolvida com Okada (Reisaburo Yamamoto), um perigoso gangster que está prestes a sair da prisão.

Sanada procura que Miyo não regresse para junto de Okada, tentando defender a dignidade desta mulher e os direitos da mesma, algo que remete para uma tradição do cinema japonês deste período, com cineastas como Mikio Naruse e Kenji Mizoguchi a também abordarem diversas temáticas que realçam a relevância da figura feminina na sociedade. A juntar a tudo isto, Sanada critica ainda os valores feudais da yakuza, com os laços de lealdade de Matsunada a contribuírem mais para a sua desgraça do que para a sua salvação. Este gangster vai formar uma estranha ligação com o médico, com ambos a perceberem que têm muito em comum, incluindo a capacidade de se auto-destruírem e atitudes erráticas embora sejam regidos por valores de enorme lealdade. Se Sanada gosta de beber os seus copitos, já Matsunada não perde uma oportunidade de frequentar clubes nocturnos, bem como ingerir muitas bebidas alcoólicas. Este tem um caso com Nanae (Michiyo Kogure), uma mulher que trabalha num dos clubes nocturnos geridos pela máfia, muito semelhante aos que encontramos no Ocidente, com este espaço a exibir uma clara influência ocidental. Não falta um número musical a fazer recordar alguns momentos de Marlene Dietriech nos filmes de Josef von Sternberg, mas também um guarda-roupa revelador de uma clara influência ocidental ou o território não estivesse neste período perante a ocupação dos EUA (existe muita ironia na forma como este clube nocturno é representado, algo visível desde logo na forma desconjuntada como o personagem interpretado por Mifune dança). Diga-se que esta ocupação traduziu-se numa censura de vários elementos dos filmes, com Kurosawa a utilizar estes detalhes exactamente para escapar à mesma. Veja-se ainda a exibição do lago contaminado, exposto por diversas vezes ao longo do filme, simbolizando não só o facto do território estar a passar por uma crise latente, mas também a contaminação a que o protagonista está sujeito em relação aos outros elementos da máfia que apresentam uma falsa preocupação consigo, para além da comparação óbvia que pode ser efectuada entre os micróbios neste espaço pantanoso e o vírus que devasta Matsunada. Quando Okada regressa da prisão, Matsunada logo vê a sua vida mudar. As tentativas para começar o tratamento - que incluíam instruções para deixar de beber, fumar e largar o mundo boémio - falham devido a Okada considerar um desrespeito o facto de Matsunada não brindar ao seu regresso, com ambos a acabarem numa enorme farra, onde o protagonista exibe mais uma vez as suas atitudes erráticas. Enquanto isso, Okada, um indivíduo claramente traiçoeiro, recupera o controlo do território e, inclusive, conquista Nanae, ao mesmo tempo que assistimos a um degradar do estado de saúde do protagonista e ao cruel jogo estratégico no interior da yakuza, com o superior de Matsunada a jogar com os seus homens como se fossem meros peões num jogo de xadrez. O único que se parece preocupar verdadeiramente com este homem é Sanada. Takashi Shimura concede uma enorme credibilidade a este médico meio errático que sente ter muito em comum com o gangster. Ambos perderam-se por caminhos menos correctos. No caso do gangster tornou-se no seu modo de vida. No caso do médico, perdeu a oportunidade de ter uma carreira próspera como Takahama, um antigo colega, agora dono de uma clínica de prestígio. Agora já parece tarde mas, apesar do seu vício intrínseco pelo álcool, Sanada não perdeu a ética da prática como médico, conhecendo cada doente que tratou. Diga-se que Matsunada, apesar de reagir inicialmente mal aos conselhos do médico, parece entender que existe algum fundo de razão nas preocupações do mesmo, embora procure muitas das vezes evitar aceitar que está doente.

Matsunada ainda tenta cumprir algumas das recomendações do médico mas acaba por não conseguir evitar trair as mesmas devido às influências alheias e à sua personalidade. Este encontra-se ao serviço de uma causa perdida, um pouco como o Japão durante a II Guerra Mundial, embora o território no período representado também não esteja a viver os seus melhores dias. Durante a ocupação era proibido representar negativamente a presença dos EUA no território, pelo que Akira Kurosawa teve de ser criativo na abordagem, embora seja notório que surtos de tuberculose e febre tifoide, bem como lagos contaminados, territórios dominados pelo crime organizado, a presença avultada de mosquitos e as habitações algo degradadas demonstram que nem tudo vai bem no Japão. É um drama de pendor social mesclado com filme de gangsters ou vice-versa, com o presente e o passado do território a influenciarem de forma bem viva o quotidiano dos personagens. Matsunada é um exemplo disso, parecendo demasiado preso a laços que o prejudicam, com os seus valores de lealdade para com os "irmãos" da yakuza a nem sempre serem recompensados da melhor maneira. Este ainda desperta a atenção da empregada de um bar que pretende ir viver com Matsunada para o campo mas é uma ideia que não parece ter "pernas para andar", não só devido à doença deste homem, mas também ao seu carácter errático. Por muito que queira libertar-se dos seus valores não consegue, tal como o médico não consegue desistir dos pacientes numa obra onde a violência mais cedo ou mais tarde irá fazer-se sentir. Também a banda sonora se faz notar, sobretudo a música diegética, algo visível para marcar o regresso de Okada, entre outros momentos, com Akira Kurosawa a elaborar uma obra capaz de explorar as dicotomias de um território em mudança, ao mesmo tempo que nos deixa perante um gangster e um médico muito presos aos seus ideais. Kurosawa destaca-se ainda a conseguir que Mifune e Shimura sobressaiam quando estão em conjunto (os dois trabalhariam posteriormente em obras como "Stray Dog", “The Quiet Duel”, “Rashomon”, entre outras obras de Akira Kurosawa), proporcionando alguns momentos fisicamente e emocionalmente intensos. Os personagens que estes interpretam acabam por formar uma estranha relação de respeito e até de alguma amizade, parecendo notório que o gangster a certa altura pretende cumprir as recomendações do médico. Mifune acaba por ser o nome que mais se destaca pela forma bem viva como interpreta este personagem complexo, conseguindo expressar-se de forma exímia a nível corporal, algo latente quando as condições de saúde de Matsunada começam a deteriorar-se, ou quando resolve protagonizar cenas de pancadaria. Este é um personagem que fica entre a luz e as sombras, tal como o médico. Diga-se que a utilização das sombras por vezes remete-nos para as obras do expressionismo alemão, bem como para os filmes noir dos EUA (bem em voga nos anos 40), com a cinematografia de Takeo Ito a sobressair pela positiva.

O próprio território de Tóquio que nos é apresentado é típico de uma cidade marcada pelo pós-Guerra e os bombardeamentos a que foi sujeita, com o contexto político, cultural e social do Japão deste período a ser indissociável da análise que podemos fazer a este filme. Pode-se ignorar todas estas situações, mas assim ficaríamos perante um comentário ainda mais irrelevante do que este texto sobre este recomendável filme, embora alguns críticos se pareçam esquecer da influência do contexto e da ideologia que acompanha os filmes quando não lhes convém ou quando pretendem defender acirradamente um cineasta. Existe uma atmosfera de malaise, marcada por edifícios destruídos, um lago poluído, gentes longe de viverem na prosperidade, algo realçado de forma pertinente por Ian Buruma no seu artigo para a Criterion "One of the wonders of the early postwar Japanese cinema was the public appetite for realism, and the pestilential sump, filled with toxic garbage, stood as a symbol for all that was rotten about life in the wake of a catastrophic wartime defeat. The cheap hookers lurking in the shadows, the young thugs fighting over territory, loot, and 'face'”. É uma obra marcada por enorme realismo, mas também de valores em mudança, com a tradição e a modernidade a contrastarem num território japonês em recuperação, onde um médico procura redimir-se dos seus pecados a ajudar os seus doentes e um gangster prepara-se para lidar com uma doença cujos efeitos podem ser fatais, tal como o seu estilo de vida e o daqueles que o rodeiam. "Drunken Angel" é também citada como a primeira obra em que Akira Kurosawa considera ter encontrado "o seu estilo" ou "a sua voz" como realizador, com este a conseguir criar uma obra que transcende e muito aquilo que podemos esperar quando lemos a sua sinopse. As próprias imagens em movimento são capazes de deixar marca, ficando particularmente na memória a cena da luta entre Matsunada e Okada num espaço rodeado de tinta, com ambos a escorregarem pela mesma enquanto lutam pelas suas vidas. Reisaburo Yamamoto consegue atribuir uma aura temível e implacável ao personagem que interpreta, um gangster sem problemas em trair outros elementos do seu bando para poder manter o seu estatuto. Veja-se quando procura recuperar o lugar entretanto atribuído a Matsunada, com este último a perder o estatuto que tinha no território. Matsunada roubava flores e sorriam. Bebia sem pagar e ninguém refilava. Tinha quase todas as mulheres que queria. No entanto, o poder que Matsunada tem é passageiro, com este a ser traído, tal como foram muitos japoneses durante a II Guerra Mundial tendo em vista a participarem num conflito bélico catastrófico. É um filme que mescla um pessimismo e optimismo típicos de algumas obras de Akira Kurosawa neste período do pós-Guerra, tais como "One Wonderful Sunday", com o destino pouco auspicioso de Matsunada a contrastar com o de uma jovem estudante que segue à risca as instruções do médico. "Drunken Angel" surge não só como um dos primeiros trabalhos de enorme relevo de Akira Kurosawa, mas também como um importante documento sobre a sua época, com o contexto que rodeou o território no pós-Guerra a ter uma clara influência nesta produção artística.

Título original: "Yoidore tenshi".
Título em inglês: "Drunken Angel".
Realizador: Akira Kurosawa. 
Argumento: Akira Kurosawa e Keinosuke Uegusa.
Elenco: Takashi Shimura, Toshiro Mifune, Reisaburo Yamamoto, Noriko Sengoku.

1 comentário:

Pedro disse...

Ótima resenha. Não conhecia o blog, parece ótimo pelo conteúdo expresso aqui.
Acabei de assistir o filme, e inicialmente não gostei muito dele; o que me abalou um pouco, já que a avaliação geral não é baixa como eu supus que fosse. Bem, cá estou eu lendo o seu post, e descubro/passo a notar várias coisas que não captei durante o filme. Realmente, é uma grande obra, e minha avaliação inicial foi amadora e vergonhosa.