06 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "The Drop" (A Entrega)

 Tom Hardy é a pedra de toque de "The Drop", algo que aliado ao bom argumento de Denis Lehane e às sólidas interpretações de Noomi Rapace, James Gandolfini e Matthias Schoenaerts permite elevar um enredo caracterizado por uma atmosfera neo-noir, onde um bairro de Brooklyn é marcado pelo crime e personagens moralmente ambíguos. A atmosfera que rodeia o filme é marcada pela frieza da neve e da temperatura, com o enredo a desenrolar-se entre os dias posteriores ao Natal e ao final do ano, algo que permite expor esta cidade como um local nem sempre aprazível. O protagonista, Bob Saginowski (Tom Hardy), um bartender no bar do seu primo Marv (James Gandolfini), é o paradigma dessa zona cinzenta por onde se encontram os personagens de "The Drop". Não é um indivíduo de má índole, mas nem por isso deixa de tomar actos e decisões violentas e pouco recomendáveis, em parte devido ao meio que o rodeia e no qual este se encontra envolvido. É alguém que fica naquela zona cinzenta, entre o bem e o mal, um tipo solitário e simples no seu modo de agir, quase sempre vestido com o seu blusão de ganga, que frequenta regularmente a igreja embora nunca fique para a comunhão. O quotidiano de Bob muda quando encontra um pit bull bebé, ferido, no interior de um caixote do lixo, algo que o conduz a pegar no cão e ajudá-lo, encontrando-se longe de saber que este momento viria a trazer algumas consequências inesperadas para a sua vida. Esta situação desperta o interesse de Nadia (Noomi Rapace), uma mulher que procura informar-se sobre o que Bob se encontra a fazer junto ao caixote do lixo da sua habitação. Inicialmente desconhecemos praticamente todo o passado de Nadia, com esta a surgir meio arisca e temerosa, mas meiga para com o cachorrinho. Bob não sabe o que fazer ao cão. Nadia também não parece ter grandes possibilidades de ficar com o mesmo devido a trabalhar de noite, embora aceite ficar temporariamente com Rocco, o nome dado ao pit bull, até Bob se decidir se fica ou não com o mesmo. Tudo piora quando o bar de Marv e Bob é assaltado, com Rardy (Michael Esper), outro dos elementos a laborar no estabelecimento, a ser ferido por dois criminosos mascarados que levam cinco mil dólares da caixa registadora, algo que irrita os mafiosos tchetchenos, os verdadeiros donos do negócio gerido pelo personagem interpretado por James Gandolfini. Umarov detém vários negócios de fachada de forma a poder lavar dinheiro relacionado com actividades ilegais, incumbindo Chovka (Michael Aronov), o seu filho, e Andre (Morgan Spector), um funcionário, de procurarem a todo o custo que Marv e Bob recuperem os cinco mil dólares. Bob revela à polícia, nomeadamente ao inspector Evandro Torres (John Ortiz), que um dos assaltantes utilizava um relógio avariado, algo que pode servir como uma pista. No entanto, Torres não parece ficar totalmente convencido com esta situação, procurando ainda investigar Eric Deeds (Matthias Schoenaerts), um personagem misterioso que supostamente matou Richie Whelan, um indivíduo que tinha a alcunha de "Glory Days". Torres não parece muito convencido desta teoria, algo que o leva a investigar a mesma, com o assassino de Whelan a ser uma das surpresas do filme. Deeds é um indivíduo com distúrbios mentais que se prepara para atormentar Bob devido a Rocco pertencer-lhe, para além de ser o violento ex-namorado de Nadia, uma mulher que aos poucos se começa a aproximar do protagonista, com o pit bull a ser um elemento de união entre os personagens interpretados por Tom Hardy e Noomi Rapace. Quando Deeds e Bob se encontram pela primeira vez a tensão é latente. Nem precisam de falar muito. Basta uma troca de olhares para percebermos que Deeds é o perigo e imprevisibilidade em pessoa, enquanto Bob esconde um vulcão de violência prestes a explodir.

Deeds elogia o cão de Bob, após observá-lo de forma misteriosa, uma situação que nos leva a perceber que algo de estranho se prepara para acontecer, com os dois a entrarem em choque com o desenrolar da narrativa. Diga-se que esta tensão entre os personagens interpretados por Tom Hardy e Matthias Schoenaerts é paradigmática da relevância que o realizador dá à troca de olhares entre os personagens e o que estes podem expressar com o seu rosto, com o primeiro a sobressair imenso neste capítulo. Bob vive sozinho no seu apartamento, uma casa relativamente cómoda e simples, que se parece ajustar à sua personalidade. Nem precisamos de diálogos para sabermos que este já perdeu os pais, com o cenário a contar na decoração com duas fotografias acompanhadas pela indicação do falecimento. Já Marv vive com Dottie, a irmã, uma mulher que pretende viajar para a Europa e procura convencer o personagem interpretado por James Gandolfini a desligar a máquina que mantém vivo o pai de ambos, tendo em conta que este já não tem hipóteses de acordar do estado de coma. Aos poucos vamos descobrindo mais elementos sobre as personalidades destes personagens e os episódios que cometeram no passado, algo que nem sempre é agradável de nos depararmos, sobretudo no caso de Bob, apesar deste, no presente, apenas pretender continuar a sua vida calma a servir ao balcão e a cuidar do seu cão. Se Bob pretende uma vida calma, já Marv esconde uns quantos segredos e uma agenda muito própria, com a notícia de que os mafiosos vão deixar as receitas no seu bar para lavar dinheiro, após recuperarem os cinco mil dólares, a aguçar-lhe ainda mais os seus instintos menos recomendáveis. Este outrora fora um "manda-chuva", sendo um agiota e dono do bar até a máfia tchetchena apoderar-se do mesmo, algo que feriu o seu ego. Marv é um indivíduo pouco confiável que tem em James Gandolfini um intérprete capaz de ritmar e elevar as falas que tem para proferir, surgindo bem mais traiçoeiro e falador do que o personagem interpretado por Tom Hardy. Em entrevista ao Deadline, o argumentista Dennis Lehane (autor do conto no qual o argumento do filme é inspirado) salientou que quando soube da notícia da contratação de Tom Hardy decidiu alterar o argumento e diminuir as suas falas: "When I knew Tom was cast, I went back through the script and I began to cut his lines. Tom does so much with stillness, and this sense of the water is running deep beneath the character". Esta situação é particularmente visível nos momentos em que este está a sós perante os seus pensamentos, mas também nos seus diálogos curtos com Deeds, ou Nadia, ou simplesmente a cuidar de Rocco, expressando imenso com o olhar. Hardy concede mistério ao personagem, deixando claro que o mesmo está longe de ser alguém frágil mas também não é um indivíduo de má índole, ou melhor, é alguém que devido ao meio que frequenta por vezes é obrigado a efectuar actos que são capaz de nos chocar devido à frieza demonstrada. Veja-se quando enrola um braço dos assaltantes que é enviado para o bar, utilizando papel metálico e plástico como se estivesse a embalar um rolo de carne.

Impressiona a frieza de Bob, com este acto a expor o quão habituado deve estar a este tipo de situações, contrastando com a afectuosidade que tem para com Rocco e Nadia. Passa praticamente toda a noite no bar, com este a ser um dos cenários primordiais do filme, um espaço marcado pela presença de clientes em grande número e muita violência a rodear as horas de fecho. Durante o dia brinca e treina o seu cão, aproveitando para ajudar Nadia ao pagar uma verba para a personagem interpretada por Noomi Rapace tratar de Rocco quando o protagonista se encontra ausente. É durante o dia que vemos o lado mais calmo de Bob, num espaço citadino marcado por tonalidades muito próprias, com Michaël R. Roskam a tirar inspiração das pinturas de George Bellows para a cinematografia do filme e para representação deste espaço (via FilmDivider): "His subject was Brooklyn life, street life, the people. We discovered the way he used colour and composed light in his paintings was a direct inspiration for the way we made this movie. A lot of colours of Brooklyn at his time are still present in the Brooklyn of today – the burgundy red, the cobalt blue, the pistachio green – and they’re still there. And then we looked at his use of a cold, blue night, especially in some of his paintings of the city in winter. The snow was blue, with just a touch of warm sienna red, and we used that". São estas as tonalidades que vão permear em parte a narrativa de "The Drop", a obra cinematográfica que marca a primeira incursão de Michaël Roskam na realização cinematográfica nos EUA, após ter realizado "Bullhead", um filme nomeado em 2012 para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que despertou a atenção do público e da crítica. Roskam parece genuinamente interessar-se pelas gentes das margens, com os personagens de "The Drop" a regerem-se por regras muito próprias, ou não estivesse a máfia a lavar dinheiro no bairro dos protagonistas e a ingerir-se nos seus negócios. É um meio duro, por vezes marcado por alguma frieza, onde o crime parece predominar e as autoridades revelam alguma incapacidade em gerir a situação, algo latente na investigação quase sempre solitária de Torres. Logo nos momentos iniciais de "The Drop" encontramos Bob a salientar que "Há lugares no meu bairro que as pessoas ignoram. Tu vês os mesmos mas esqueces-te deles todos os dias. Lugares onde as coisas que ninguém pode ver ocorrem. Em Brooklyn, o dinheiro passa de mão em mão todas as noites. Não é o tipo de dinheiro que se deposita no banco. Todo esse dinheiro precisa de acabar nalgum lugar. Chamam-no de bar de entregas. Um bar escolhido aleatoriamente a cada noite pelos chefes para funcionar como cofre para a cidade inteira. Nunca sabe com antecedência quando o seu bar será o escolhido (...)". Ficamos logo com a percepção de que este território é marcado pelo crime e corrupção, com o bar onde trabalham Bob e Marv a surgir como um dos vários negócios de fachada. O bar é marcado pelas tonalidades azuis e vermelhas, bem como pela presença de uma diversidade de bebidas e publicidade às mesmas, num local que se prepara para ser alvo de uma operação de lavagem de dinheiro da máfia. Bob nem parece um tipo habituado a lidar com mafiosos. Nem é só pelo tratamento dado ao cão, as idas à igreja e os momentos com Nadia. Veja-se quando paga uma rodada a um grupo que se encontra no espaço a recordar os dez anos da morte de "Glory Days", ou procura não expulsar uma cliente que não paga há vários dias, algo que em alguns momentos irrita Marv. No entanto estas situações não impedem que os dois estejam a trabalhar para a máfia e tenham de cumprir com as suas obrigações para com os elementos tchetchenos, surgindo como elementos de baixo escalão que estão longe de atingir a notoriedade de um Don Vito Corleone.

A relação entre Bob e Marv parece ser de alguma confiança, com o primeiro a respeitar o segundo, enquanto este último não tem problemas em trair seja quem for, incluindo os perigosos elementos tchetchenos. Se os protagonistas apresentam alguma complexidade e são explorados de forma eficaz ao longo do enredo, já elementos como Chovka e Andre não passam dos mafiosos frios e unidimensionais, tal como a investigação desenvolvida por Torres está longe de nos convencer na totalidade. Torres ainda se encontra por várias vezes com Bob, mas não consegue tirar grande informação deste elemento lacónico. Já Eric Deeds desperta a cólera deste personagem e algum receio. Teme perder o cão e Nadia, mas também perder a calma que até então apresentou. Matthias Schoenaerts protagoniza alguns momentos intensos com Nadia e Bob, parecendo certo que é alguém de quem esperamos o pior. Chegou a namorar com Nadia, numa fase menos positiva da vida desta, procurando utilizá-la para provocar o protagonista, algo que promete dar mau resultado. Nadia é uma mulher algo frágil, desconfiada e inicialmente pouco dada a que se aproximem da sua pessoa, algo latente quando procura tirar logo uma foto da documentação de Bob para enviar por telemóvel a quatro conhecidos de forma a este não lhe poder fazer nada de mal. Nem ele pretende. Aos poucos são reunidos pelo afecto de Rocco, que desperta o melhor lado de ambos, com Michaël R. Roskam a não utilizar as cenas com o cachorro para nos deixar diante de momentos em que comentamos a fofura do bicho, mas sim para evidenciar como é que este pode salvar Nadia e Bob da violência que os rodeia. O próprio nome foi dado por Bob após ver o mesmo num santo da igreja que costuma frequentar, algo que ainda acentua mais esta faceta "salvadora" do cachorrinho. Será que é mesmo assim? Bob parece estar enfiado até ao tutano no mundo da máfia, enquanto Nadia também conta com alguns problemas no passado, incluindo auto-mutilações, tentativas de suicídio e utilização de drogas, com Noomi Rapace a ter espaço para sobressair como esta mulher que é bem mais frágil do que podemos pensar. Bob e Nadia são duas figuras complexas que aos poucos até formam uma certa ligação, num filme marcado por um ambiente negro onde a noite está longe de ser boa conselheira, mas sim palco de vários crimes. Não falta alguma violência a "The Drop", mas também uma enorme humanidade no seu protagonista, numa obra com um trabalho de câmara marcado pela sobriedade, com a cinematografia a ser capaz de explorar a forma como o bar facilmente se transforma num espaço claustrofóbico e de captar o ambiente que envolve a cidade. O que não deixa de ser impressionante se tivermos em conta que Michaël R. Roskam está na sua primeira obra fora da Bélgica. Para o sucesso de Roskam também contribuiu o trabalho de pesquisa do cineasta, algo latente para a criação do ambiente do bar: "What helped was that the location was a bar and scouting bars became an anthropological expedition, meeting people, hearing their stories. Every bar I walked into, there was a guy on the counter, or a couple of guys, and when I told them I was making a movie, they’d start telling me stories".

O ambiente do bar é explorado de forma bastante eficaz por Michaël R. Roskam, com este espaço a ser fundamental no enredo, bem como a própria cidade de Brooklyn, com "The Drop" a apresentar-nos a um universo narrativo e personagens credíveis nos quais parecemos acreditar. O cineasta interessa-se pelas gentes comuns, por aqueles que estão longe de apresentar a perfeição ou dados a falsos moralismos, procurando expor-nos a estas figuras intrigantes que se regem por regras muito próprias e contam com actos no passado que estão longe de ser glorificantes. Roskam recupera a temática dos filmes de gangsters, tão querida em Hollywood desde o final dos anos 20 e o pico nos anos 30 até aos dias de hoje. No caso de "The Drop", o cineasta opta por nos colocar diante de um protagonista complexo e por vezes imprevisível nos seus actos, que parece esconder dentro de si uma bomba relógio que a ser accionada pode ser de enorme perigo para aqueles que o enfureçam. Existe muito mérito de Tom Hardy na composição do personagem, mas também do argumento, embora "The Drop" falhe por vezes na exploração das temáticas secundárias. Veja-se o já citado caso dos mafiosos unidimensionais, para além do próprio Jorge Ortiz pouco tempo ter para conseguir sobressair como Torres, ou a inclusão da relação de Marv com a irmã que pouco é abordada. Temos ainda Rocco, com os momentos entre este e Bob a serem fulcrais para o enredo, com "The Drop" a deixar-nos na dúvida sobre quem salva quem. Rocco é salvo de um dono violento que praticamente o eliminou, deixando-o num espaço deplorável. Bob é alguém que vive num ambiente mais selvagem e por vezes marcado por actos mais irracionais do que Rocco. Inicialmente Bob até pensa que este é um boxer, ficando desconfiado sobre o perfil do cão devido a ser um pit bull, mas Nadia logo lhe salienta que estes cães não têm culpa de por vezes terem donos idiotas que os treinam para actos mais violentos. A relação entre Nadia e Bob nunca entra no romance puro. Nunca os vemos a beijarem-se embora apresentem um interesse gradual um no outro ficando particularmente na memória o momento em que se encontram na loja de animais a comprar utensílios para Rocco, bem como no tenso último terço. Ambos são algo desconfiados e demasiado marcados pelos seus erros no passado e pela vida que levam no presente, com "The Drop" a evitar o caminho fácil de nos deixar perante um romance arrebatador que destoaria do tom do filme. Nesse sentido, "The Drop" mantém-se fiel ao seu tom, mesclando momentos de maior passividade que permitem desenvolver os personagens com trechos de enorme violência e tensão, enquanto assistimos a um conjunto de boas interpretações do elenco principal, ao longo de um filme de gangsters que procura explorar a complexidade do ser humano e a violência que pode ser inerente a este, contando com algumas surpresas à mistura. Bob é violento ou é o meio que o rodeia que o torna capaz de tomar maus actos? No final de "The Drop" continuamos a fazer esta pergunta, mas ficamos a conhecer muito mais sobre este homem, num filme onde Tom Hardy se exibe exímio a expressar imenso com o seu rosto, surgindo bem acompanhado por um James Gandolfini que seria capaz de nos deixar a ouvi-lo falar durante horas com o enorme carisma que lhe era característico (foi o último papel do actor), Noomi Rapace a exibir as fragilidades de Nadia e Matthias Schoenaerts a expor o lado mais imprevisível e intenso do personagem que interpreta, naquela que é uma estreia muito interessante de Michaël R. Roskam na realização nos EUA.

Título original: "The Drop".
Título em Portugal: "O Golpe: The Drop".
Título no Brasil: "A Entrega".
Realizador: Michaël R. Roskam.
Argumento: Dennis Lehane.
Elenco: Tom Hardy, Noomi Rapace, James Gandolfini, Matthias Schoenaerts.

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