12 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "Big Eyes" (Olhos Grandes)

 Elevado pela interpretação de Amy Adams e em alguns momentos de Christoph Waltz, "Big Eyes" surge como mais um dos muitos filmes biográficos que têm chegado às nossas salas de cinema, embora desperte desde logo à atenção por ser realizado por Tim Burton. É um registo relativamente distinto em relação a outras obras mais extravagantes do cineasta, mas está longe do brilhantismo de "Ed Wood", um filme biográfico onde a marca de Tim Burton era visível para além da sua assinatura como realizador (curiosamente os argumentistas são os mesmos). Diga-se que a carreira de Tim Burton já passou por melhores momentos, com "Big Eyes" a não apresentar o nível pueril de "Alice in Wonderland" mas também a não elevar-se da mediania. Não é que Tim Burton elabore uma obra nula, bem pelo contrário, com o cineasta a procurar apresentar a vida de uma mulher alvo de repressão psicológica por parte do esposo, através deste retrato de Margaret (Amy Adams) e Walter Keane (Christoph Waltz), mas também de uma sociedade que conscientemente ou inconscientemente nem sempre parece encarar da mesma forma o trabalho artístico de um homem e de uma mulher. Veja-se ainda nos dias de hoje na Sétima Arte onde as mulheres são presença diminuta na realização em filmes de estatuto ou alto orçamento, ou até em posições como directora de fotografia (já na montagem, Thelma Schoonmaker dá um exemplo do que é ser uma mulher de enorme talento na sua função). Diga-se que até nos populares filmes de super-heróis, uma das maiores discussões passa pela incerteza se um filme protagonizado a solo por uma super-heroína terá sucesso nas bilheteiras. Ou seja, esta temática atravessa não só as décadas de 50 e 60 do Século XX que nos são apresentadas em "Big Eyes", mas também muito do nosso tempo. Não é que as mulheres devam assumir posições de relevo no meio artístico só por serem mulheres, mas é inacreditável a disparidade encontrada, pelo que seria curioso ver mais figuras femininas a assumirem posições de força como Kathryn Bigelow. No entanto, esta mensagem de Tim Burton acaba muitas das vezes por ficar esbatida pela redundância do seu enredo (e da narração) que passa muitas das vezes por Margaret a pintar, Walter a assumir a autoria das pinturas, esta a ser mal-tratada em casa, este a parecer um bon vivant simpático no meio exterior. Christoph Waltz parece desfrutar imenso (por vezes até em demasia) da oportunidade que tem a interpretar este personagem completamente cínico, incapaz de gerar simpatia e oportunista que é um exímio contador de histórias e vendedor mas um pintor medíocre. O personagem interpretado por Christoph Waltz conhece Margaret quando esta se encontrava a expor e vender os seus trabalhos numa feira de rua, tal como ele. Walter apresentava as suas pinturas de ruas como se fossem obras-primas, enquanto Margaret pretendia apenas conseguir um pouco de dinheiro e pintar as suas figuras de crianças com enormes olhos. Mais tarde esta explica que os olhos são o espelho da alma, algo que a leva a elaborar estas pinturas, na maioria dos casos inspiradas em Jane, a sua filha. Nos momentos iniciais do filme encontramos Margaret a sair da casa do primeiro esposo, apelidado de Ulbrich, tendo em vista a ter a liberdade que este não lhe dava. Esta muda-se para San Francisco, nomeadamente North Beach, onde reencontra DeAnn (Krysten Ritter), uma amiga bastante mais extrovertida e conhecedora do espaço citadino e dos homens. Margaret encontra trabalho a pintar numa empresa imobiliária, numa época que é descrita como complicada para as mulheres, algo que o enredo e o narrador fazem questão de frisar e fica bem expresso ao longo da narrativa.

 A narração de Dick Nolan (Danny Huston), um jornalista, por vezes torna-se redundante por apenas realçar o que estamos a ver (veja-se quando salienta que tudo o que a protagonista  "tinha era a sua maquilhagem na mala e a sua filha no banco de trás" e as imagens em movimento exibem-nos exactamente isso), apesar de em alguns momentos o tom sardónico deste elemento ser desejável para incutir algo mais ao filme. Veja-se desde logo o comentário irónico: "Os anos 50 foram uma época maravilhosa se você fosse homem". No entanto, falta essa ironia e humor negro em diversos momentos de "Big Eyes", um filme que se tivesse sido realizado por outro nome menos sonante do que Tim Burton provavelmente também não estranharíamos, com o cineasta a nem sempre conseguir deixar a sua marca. É certo que a história de Walter e Margaret, bem como os desenhos desta, já são estranhos o suficiente, mas falta a "Big Eyes" algo mais que lhe permita distinguir-se de tantos filmes do género. Se filmes biográficos como "The Imitation Game" são acusados, injustamente, de parecerem telefilmes, pelo menos ainda cumprem o propósito ao exibirem as suas mensagens e estabelecerem os relacionamentos entre os personagens. Diga-se que no caso citado ainda existe uma procura de Morten Tyldum em dinamizar o enredo ao deambular o mesmo por entre três tempos diferentes da narrativa. No caso de "Big Eyes" ficamos perante uma obra relativamente convencional, que se destaca acima de tudo pela dupla de protagonistas e as mensagens relevantes que pretende transmitir, para além dos bizarros desenhos de Margaret (coleccionados por Tim Burton na vida real) que conquistam o apelo do público e o desprezo da crítica. A relação entre Walter e Margaret avança de forma rápida, por vezes até em demasia. Este aparece como um elemento bem falante, capaz de convencer tudo e todos que estudou em França e é um homem viajado, acabando por casar com Margaret para esta não perder a guarda da filha. Aos poucos, a verdadeira personalidade deste começa a ser exibida. Na discoteca onde consegue que as suas obras sejam exibidas nas paredes que vão dar à casa de banho, assume pela primeira vez a autoria das pinturas das crianças com olhos grandes elaboradas por Margaret, uma atitude que mantém quando estas começam a efectuar um enorme sucesso. Margaret inicialmente não parece ficar agradada com a ideia, mas aos poucos deixa-se reprimir por este homem cada vez mais louco e violento, completamente consumido pela fama, até tudo atingir um ponto de exaustão. Nesse sentido vamos assistir a repetições de momentos de Margaret a pintar, Walter a assumir os louros, enquanto este consegue gerar a ira da crítica ao tornar estes desenhos um sucesso comercial. Se Christoph Waltz parece tirar um enorme gozo a interpretar um personagem com um ego enorme (o próprio actor muitas das vezes parece fora de controlo, quase a roçar a caricatura), um talento diminuto e uma personalidade questionável, já Amy Adams destaca-se pela repressão a nível de sentimentos que incute a esta personagem, uma mulher que parece uma boneca de porcelana pronta a quebrar-se diante das contrariedades. Procura a sua independência do primeiro marido, mas logo acaba por se tornar quase numa escrava do seu talento e do segundo esposo, com Adams a dar mais nuances a Margaret do que o argumento que tem à sua disposição parece contar. O próprio Tim Burton em alguns momentos também contribui para o talento da actriz sobressair. Veja-se a cena à porta da discoteca, quando perguntam de quem é o quadro e Margaret fica meio amedrontada enquanto Walter avança e assume a autoria do mesmo. As tonalidades vermelhas dominam devido à luz, embora esta cor provavelmente represente a raiva interior desta mulher, tal como os quadros da parede da frente e de trás surgem cheios de significado, algo que a juntar à expressão corporal da actriz diz muito de como Margaret se sente. 

 O último terço vem fazer alguma justiça à história de Margaret, embora tudo pareça demasiado apressado e episódico, com "Big Eyes" a temporariamente mudar o seu registo para filme de tribunal onde Christoph Waltz "faz a festa, atira os foguetes e apanha as canas". Diga-se que Margaret acaba muitas das vezes confinada a uma sala fechada a pintar, longe dos holofotes da fama, mas Amy Adams também está longe de se destacar acima de Christoph Waltz quando este está em cena, com o personagem a interpretar um sacana do pior que facilmente nos desperta desprezo mas também uma enorme curiosidade. É inicialmente desprezado pelo dono (Jason Schwartzman) de uma galeria de arte, é desprezado pela crítica, começa a ser odiado pela esposa mas é um sucesso de vendas e um fenómeno de popularidade nos meios de comunicação social. Margaret ainda compactua inicialmente com o esposo e desfruta dos luxos inerentes à venda das suas obras de arte, parecendo não só temer Walter mas também que o público não adira às mesmas se forem assinadas por uma mulher. É uma questão pertinente que Tim Burton levanta mas nem sempre aborda da forma sagaz, ao mesmo tempo que explora ainda a oposição da arte para as massas e a arte apreciada pela crítica, com estes bonecos e bonecas dos olhos grandes a nunca encontrarem nos críticos, personalizados na figura de John Canaday (Terence Stamp), um elemento que devasta por completo aquela que Walter Kane pretendia que fosse considerada como a sua obra prima (embora tivesse na realidade sido elaborada por Margaret), elementos favoráveis aos desenhos. Walter é exímio em criar todo um espectáculo em volta do produto que tem para vender ao consumidor, algo que o diferencia da concorrência a ponto de conseguir abrir uma galeria. Em certa medida até podemos comparar estes desenhos com "Alice in Wonderland", um dos trabalhos de maior sucesso a nível de bilheteira de Tim Burton, que contou com uma campanha de marketing avultada por parte da Disney, divergindo com outras obras cinematográficas bem mais moderadas a nível de receita do realizador, mas mais bem recebidas pela crítica. No entanto, Walter é um aproveitador pouco talentoso, enquanto Tim Burton é um cineasta com várias demonstrações da sua capacidade como realizador. Apesar desse talento, não deixa de ser notório que em "Big Eyes" parece sempre faltar algo, quer do ponto de vista da realização onde sentimos a necessidade de ter "mais Tim Burton" (tirando a cena em que Margaret alucina com toda a gente à sua volta a ter os olhos dos seus bonecos e bonecas, bem como a presença constante dos bizarros quadros das crianças com olhos negros e grandes), mais arrojo, mas também um argumento capaz de abordar eficazmente as temáticas e subtramas apresentadas. Veja-se a forma pouco competente como é abordada a relação da protagonista com a filha, bem como a puerilidade da exibição da amizade de Margaret com DeAnn, já para não falar da presença inesperada da filha de Walter numa cena, faltando sempre algo que dê mais dimensão ao universo que rodeia os dois protagonistas. É certo que o humor negro de Tim Burton e o estilo muito peculiar que é associado aos seus filmes não necessita de estar presente de forma arreigada em todas as suas obras e o cineasta até pode sentir a necessidade de fazer algo diferente. O problema é que "Big Eyes", mais do que marcar a diferença, surge como algo convencional que roça a banalidade. É notória a procura de Tim Burton em apresentar uma visão muito própria dos anos 50, ao mesmo tempo que nos apresenta à história deste problemático casal e deixa-nos perante a importância do autor ser reconhecido pelo seu trabalho e não outrem. 

 A sociedade dos anos 50 não ajudava à imposição das mulheres, embora esta representação de Margaret muitas das vezes também nos deixe perante uma figura feminina que está longe de parecer conseguir impor-se de forma isolada. É óbvio que se encontra a ser reprimida e alvo de coerção por parte de Walter, mas também é notório que é o facto deste ser exímio na oratória barata e nos negócios que permite que estes trabalhos ganhem outra dimensão. Walter quase que parece os indivíduos responsáveis pelo marketing dos filmes, prontos a fazerem de cada blockbuster um evento, conseguindo pelo menos na primeira semana gerar avultadas receitas de bilheteira para as obras cinematográficas, com Tim Burton a deixar-nos perante um homem exímio na arte de vender. O próprio cineasta é um admirador do trabalho de Margaret Keane procurando fazer justiça à complexa história de vida desta mulher que esteve durante muito tempo na sombra do marido, um indivíduo aproveitador e de poucos escrúpulos. A complexa história de vida desta mulher, na sombra quando deveria estar perante os holofotes da fama, é intrigante o suficiente para nos despertar à atenção, embora Tim Burton também não nos ofereça muito mais do que aquilo que podemos encontrar numa pesquisa rápida pelos meios online. No entanto, é de elogiar e exaltar a procura do cineasta em expor a relevância desta mulher na cultura popular, ao mesmo tempo que nos faz questionar se a situação encontra-se assim tão distinta em relação à forma como as mulheres são encaradas no meio artístico nos dias de hoje (as facilidades que apresentam para encontrar trabalhos em lojas de centros comerciais, com todo o respeito pelos mesmos, não se parece reflectir em meios como a Sétima Arte, bem como na crítica profissional). As cenas em que Margaret está confinada, numa casa de luxos, mas pouco afecto e muita repressão, exibem exactamente a situação opressora em que se encontra esta mulher, embora "Big Eyes" nem sempre consiga atingir a coesão necessária a explorar estas temáticas, com o último terço, exposto de forma apressada, a ser o paradigma dessa situação. A certa altura do filme, podemos encontrar o tema sonoro "Big Eyes", cantado por Lana Del Rey, a ser exposto num momento de relevo da narrativa. Por muito que a canção esteja bonitinha e bem arranjadinha, parece claramente encontrar-se desajustada de tudo aquilo que nos fora apresentado na banda sonora, surgindo como um corpo estranho que pouco acrescenta ao enredo. Este é também um dos problemas de "Big Eyes". Até é bem filmado, a paleta cromática é bem aproveitada, conta com uma interpretação sublime de Amy Adams, apresenta alguns temas relevantes que a serem explorados de forma mais assertiva teriam ainda maior impacto, mas no final fica sempre a faltar algo para que surja como uma adição de enorme valia ao currículo de Tim Burton. No entanto, antes ter no currículo um "Big Eyes" do que um "Alice in Wonderland".

Título original: "Big Eyes".
Título em Portugal: "Olhos Grandes".
Título no Brasil: "Grandes Olhos". 
Realizador: Tim Burton.
Argumento: Scott Alexander e Larry Karaszewski.
Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Danny Huston, Jon Polito, Krysten Ritter, Jason Schwartzman, Terence Stamp.

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