11 fevereiro 2015

Resenha Crítica: "As Cinquenta Sombras de Grey" (Fifty Shades of Grey)

 Se a adaptação cinematográfica de "Fifty Shades of Grey" surgisse estruturada como se fosse uma receita de culinária certamente iríamos encontrar os seguintes ingredientes: 

- Uma campanha de marketing pronta a gerar controvérsia a ponto de criar interesse sobre o resultado final da adaptação e as temáticas abordadas pelo filme. 

- Fazer com que essa campanha de marketing gere uma venda inicial de bilhetes que permita desde logo criar um burburinho em volta das pré-vendas.

- Uma realizadora relativamente desconhecida do grande público mas reveladora de algum talento e capacidade de sobressair mesmo quando o argumento é do mais pueril possível e as cenas de cariz sexual apenas ensinam algo a quem nunca entrou na internet ou em sites de pornografia, ou não tenha visto obras cinematográficas bem mais arrojadas na abordagem do sexo (veja-se "In the Realm of the Senses", "Nine 1/2 Weeks", "Bitter Moon", entre outras).

- Uma dupla de protagonistas a procurar ganhar mais mediatismo na carreira, que não se preocupa com a pouca qualidade dos diálogos e do argumento que tem à disposição.

- Um conjunto de cenários interiores que se revelam como o melhor do filme, a par da cinematografia, capazes de expressarem a personalidade dos personagens, algo sobretudo latente na casa de Christian Grey. 

- Muitos objectos de BDSM em exibição para fingir que os vamos ver a serem utilizados, com a "sala do prazer" de Christian Grey a surgir como um local onde esperamos que muito aconteça embora seja o paradigma do filme: pouco é explorado.

- Não correr riscos para não ofender os espectadores e chegar a um público alargado, embora qualquer crítico que diga que isto é um filme para ser vendido a adolescentes ou mulheres sexualmente reprimidas fique desarmado, pois até esses têm acesso à Internet e a sites de pornografia que exibem melhor a temática.

- Personagens secundários completamente unidimensionais que contribuem ainda mais para a pouca densidade do enredo que envolve Christian e Anastasia.

- Uma banda sonora cheia de estilo que pode nem sempre adequar-se ao filme mas... tem estilo. 
 
- Ignorar que os diálogos funcionam melhor como comédia involuntária do que como romance de pendor erótico.

- Fingir que Anastasia nunca ouviu falar de BDSM. Ignorar que Christian parece um stalker misógino.

 Junte-se todos estes ingredientes e o que resulta é um filme que de erótico tem muito pouco, incapaz de explorar devidamente as temáticas pelas quais se aventura, vendendo a falsa ideia de arrojo quando não passa de uma obra cinematográfica pueril e anedótica em muitos dos seus diálogos. É um prato mal cozinhado, onde Sam Taylor-Johnson e a dupla de protagonistas parecem ser os menos culpados, a não ser de terem alinhado na estratégia de participarem no filme. O enredo acompanha Anastasia Steele (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan). Ela é uma estudante de literatura que se encontra a terminar a licenciatura. Ele é um empresário de sucesso que facilmente desperta a atenção das figuras femininas que povoam a narrativa. Anastasia entrevista Christian a pedido de Katherine Kavanagh (Eloise Mumford), a melhor amiga desta, uma jovem extrovertida com quem a protagonista partilha a casa. Anastasia atrapalha-se por completo na entrevista, embora desperte a atenção de Christian, um indivíduo que sobressai pelo seu poder a nível de oratória e frieza na forma como se parece exprimir. Todo o edifício e escritório onde este trabalha são marcados por uma frieza latente, tal como a casa onde habita, com Christian a surgir como uma figura controladora e confiante, ao contrário de Anastasia. Ela veste-se de forma informal, é insegura, pouco experiente, acumulando um trabalho numa loja de ferragens com os estudos. Ele é formal, confiante, pouco dado a grandes demonstrações de afecto. A entrevista corre pessimamente, tal como os diálogos são do pior que se pode esperar, bem como as analogias efectuadas, não faltando Anastasia a colocar um lápis preto nos lábios a dizer “Grey”, com o objecto fálico a simbolizar algo que nunca será mais tarde exposto nas cenas de cariz sexual. No entanto, Christian decide responder às questões por e-mail, voltando a encontrar-se com Anastasia, iniciando-se uma certa proximidade entre ambos, até o personagem interpretado por Jamie Dornan apresentar-lhe um contrato com uma série de alíneas. Poupemos os detalhes: basicamente ele quer garantir que esta seja a sua dominada, enquanto ele é o dominador, para além de pretender que a informação não transpareça cá para fora. Christian salienta que não é um homem dado a relações normais, que não faz amor, nem dá ursinhos e corações de peluche, nem vai a encontros. Segundo as palavras do próprio, ele não faz amor: ele fode. Claro que "as fodas" do filme surgem mais à paciência e inteligência do espectador do que aquelas que Christian pratica com Anastasia. Ela representa uma jovem sexualmente pouco experiente, ainda virgem, que fica num misto de curiosidade e receio em relação a todo este contexto. É certo que fica impressionada com a confiança de Christian e os luxos deste, embora ainda tente mudá-lo e alterar algumas cláusulas do contrato (talvez um dos melhores momentos do filme, até a nível de fotografia), enquanto "Fifty Shades of Grey" deixa muito pouco espaço à imaginação. Christian e Anastasia surgem desprovidos de mistério, a história de ambos está longe de gerar interesse e as cenas de sexo entre os dois por vezes geram mais desconforto do que excitação (poderiam ter pedido umas lições a Abdellatif Kechiche sobre como filmar estas cenas de forma a ficarem a meio caminho entre a arte e a pornografia). A ideia da mulher ter que ser subjugada ao homem surge muito presente, embora Anastasia nunca seja obrigada a nada, mas também não pareça totalmente convencida de que uma relação deste cariz possa resultar. Jamie Dornan e Dakota Johnson, dois actores a procurarem uma afirmação no cinema, procuram dar o seu melhor e não parece ser nestes que reside o maior problema do filme mas sim na puerilidade com que é explorado o jogo sexual entre Anastasia e Christian, bem como na falta da problematização desta procura do protagonista em subjugar a jovem.

Um dos muitos méritos da série "The Affair" é a forma como nos deixa perante o nascimento de um caso extra-conjugal, gerando um enorme mistério em volta da dupla de protagonistas, ao mesmo tempo que exibe paradigmaticamente o desejo entre ambos. Não se envolvem em qualquer momento sádico ou masoquista, mas toda a construção do desejo crescente entre os personagens interpretados por Ruth Wilson e Dominic West é exposta com enorme competência, a ponto do espectador quase se sentir culpado por estar a partilhar o segredo (inicial) destes. Se quisermos ir para a temática das relações sexuais marcadas por um jogo latente entre os intervenientes e algum sadismo/masoquismo, vale a pena realçar a forma como Roman Polanski aborda o relacionamento entre os personagens interpretados por Peter Coyote e Emmanuelle Seigner em "Bitter Moon". Roman Polanski vence de goleada ao conseguir despertar a nossa curiosidade e a do personagem interpretado por Hugh Grant em relação à história, apresentada em flashback, do início da relação entre Mimi (Seigner) e Oscar (Coyote). No entanto, em "Bitter Moon", Oscar e Mimi tinham este tipo de relações por consentimento mútuo, com ambos a terem uma personalidade complexa, algo que não acontece na obra cinematográfica realizada por Sam Taylor-Johnson. Em "Fifty Shades of Grey" o que encontramos é um homem a tentar subjugar uma mulher do ponto de vista emocional e sexual, escondendo-se na capa de que está a dar prazer a ambos, enquanto esta parece ficar entre o intrigada pela situação e o desconfortável. Nem por isso deixa de se envolver com Christian, parecendo ter alguma curiosidade em relação a todo este novo mundo, enquanto este apresenta-lhe um contrato recheado de alíneas que nunca chega a ser assinado. Jamie Dornan e Dakota Johnson fazem o que podem com o material que têm à disposição. Estão longe de ter uma enorme química, os personagens que interpretam estão longe de ter uma complexidade que nos impressione e os seus relacionamentos com outras pessoas pouco são desenvolvidos. Os personagens secundários são do mais unidimensional possível, o argumento é risível, o trabalho de montagem deixa a desejar (visível nas cenas de cariz sexual), as cenas de sexo são coreografadas sem qualquer tipo de brio, a exploração das temáticas fica quase sempre pela rama, para além da protagonista ser quase o equivalente a Bella da saga "Twilight". Não sabe bem o que quer, está longe de gerar grande interesse, para além de muitas das vezes deixar-se subjugar pela figura masculina, embora ainda apresente uns laivos de personalidade. Não li o livro, nem tenho grande interesse. Estou a analisar o filme e não a efectuar um artigo comparativo entre filme e livro, nem tenho de analisar a película à luz daquilo que esta não dá só porque a obra literária de E.L. James contém elementos que despertam a atenção e o libido das(os) leitoras(es). Aquilo que o que o filme dá é tudo muito raso, inconsequente e incapaz de explorar a complexidade das temáticas que aborda, com "Fifty Shades of Grey" a surgir mais como um produto de marketing do que como uma obra cinematográfica. Diga-se que "Fifty Shades of Grey" fica quase sempre na sombra de si próprio, prometendo muito mais do que oferece, não só por culpa do seu argumento sofrível, mas também por uma falta de coragem notória do estúdio a explorar o jogo de cariz sexual entre a dupla de protagonistas e a complexidade que deveria estar inerente ao mesmo. Christian e Anastasia até se podem envolver sexualmente e emocionalmente, embora "Fifty Shades of Grey" falhe no essencial: envolver o espectador. Pior que isso, duvida da sua inteligência, ou pelo menos é aquilo que dá a entender pela fraca qualidade dos seus diálogos.


Título original: "Fifty Shades of Grey".
Título em Portugal": "As Cinquenta Sombras de Grey".
Título no Brasil: "Cinquenta Tons de Cinza".
Realizadora: Sam Taylor-Johnson.
Argumento: Kelly Marcel.
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eloise Mumford, Luke Grimes, Rita Ora, Victor Rasuk, Max Martini

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