23 fevereiro 2015

Entrevista a Elena Piatok sobre a Terceira Edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura

 A terceira edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura está de volta ao Cinema São Jorge de 4 a 8 de Março de 2015 e estreia em Belmonte no Auditório Municipal Museu Judaico de 7 a 10 de Maio. Tal como no ano passado, tive a oportunidade de entrevistar a Directora da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura, Elena Piatok, a quem agradeço a enorme disponibilidade. Na entrevista foram abordados temas como as expectativas sobre a terceira edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura, a extensão para Belmonte, a programação, entre outros assuntos. A entrevista pode ser lida já de seguida. 


Rick's Cinema: Quais as expectativas para a terceira edição da Judaica?

Elena Piatok: Eu espero pelo menos triplicar o nosso número de espectadores, incluindo aumentar o número de participantes nas sessões de escolas. Temos quase o dobro dos filmes em relação ao ano passado. Este ano temos um total de doze longas-metragens de ficção, entre as quais três antestreias nacionais, mais seis documentários, oito curtas-metragens e três sessões especiais. Eu espero que o público adira em grande.

RC: Quando criou a Mostra esperava que esta tivesse a aderência que alcançou a nível do público?

EP: Uma pessoa tem sempre que sonhar que vai ter imenso sucesso. Este ano vamos para Belmonte. Pode ser uma coisa engraçada. Sabemos de pessoas que escolheram os filmes em Lisboa para coincidir com as exibições em Belmonte de forma a poderem ver as obras cinematográficas nos dois locais. Não sei se podemos fazer alguma rota do ponto de vista turístico. Penso que sim, que é uma aposta que tem tudo para dar certo. Estou muito satisfeita com os apoios conseguidos, bem como com a resposta do público. A resposta dos portugueses tem sido maravilhosa e deixa-me muito emocionada. Os filmes relacionados com os judeus e o Holocausto despertam a atenção do nosso público. Por exemplo, o DocLisboa passou um documentário sobre os campos de concentração que eu pensei exibir mas pensei: "Eu não posso mostrar uma coisa destas, ninguém vai ver". Mas, a verdade é que teve duas sessões cheias, uma no Grande Auditório da Culturgest, outra no Cinema Ideal. Significa que a minha aposta na Mostra está certa. Cada vez que existe um filme sobre o assunto existe uma aderência monumental.


RC: A nível cinematográfico a Mostra abre com "Labirinto de Mentiras" e fecha com "Kaplan". Porquê estas escolhas?

EP: Não foi planeado de início. O “Kaplan” não estava previsto para ser o filme de encerramento, mas as vicissitudes na programação fizeram com que acabasse por ser assim! O filme estava inicialmente planeado para ser exibido na altura do “Purim”, uma festividade judaica, digamos que equivalente ao Carnaval, mas não foi possível, pelo que decidi passar para o encerramento para dar um final alegre à terceira edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura. O "Labirinto das Mentiras" surgiu na altura ideal, pois necessitávamos de um filme forte para a abertura. Existiram alguns percalços em relação a alguns filmes que procurei trazer mas não consegui, mas o "Labirinto das Mentiras" foi uma excelente escolha, sobretudo se tivermos em conta que estamos a recordar os setenta anos da libertação de Auschwitz. Não tem parado de haver filmes e iniciativas sobre o tema. A programação da terceira edição da Mostra também procurou marcar essa data relevante que foi o final da II Guerra Mundial.


RC: O "Labirinto de Mentiras" é distribuído pela Films4You. A Judaica conta ainda com "Gett: O Julgamento de Viviane Amsalem" da Alambique e "Corre Rapaz Corre" da Cinemundo. Qual a importância que as distribuidoras tiveram na exibição destas obras e na programação da Judaica?

EP: É muito engraçado quando eu escolho um filme e respondem que este já conta com distribuidor em Portugal, algo que aconteceu mais do que uma vez. Tem sido uma relação estupenda com todos eles. Procuramos construir uma acção em conjunto que penso ser benéfica para ambas as partes. Temos de ter a sorte da data de lançamento dos filmes também coincidir com a mostra. Tive de esperar pelo "Kaplan" que também esteve para ser comprado por uma distribuidora portuguesa. Inicialmente nunca sabemos se podemos ou não contar com um filme. Eu não sou distribuidora, nem consigo chegar e dizer que quero adquirir os seus direitos, nem quero imaginar o que isso envolve. Tenho de estar um bocado à mercê daquilo que os distribuidores negoceiam. Mas fico muito, muito contente porque até agora só tive uma experiência muito má, em que o distribuidor português me pedia uma verdadeira fortuna, até posso dizer que representava 15% do total dos direitos que pago pela totalidade dos filmes, por me ceder o direito de uma antestreia…e por uma filme que não é nada de extraordinário! Foi mesmo caricato!


RC: No caso do "Gett: O Julgamente de Viviane Amsalem" estamos perante aquele que é provavelmente o filme mais mediático do festival. Pode falar-nos um pouco sobre o mesmo?

EP: Para já vale a pena dar a notícia que vamos contar com a presença de Shlomi Elkabetz (co-realizador e co-argumentista), o irmão de Ronit Elkabetz, uma das artistas mais famosas de Israel (co-realizadora, co-argumentista e protagonista de "Gett"). O filme foi nomeado para o Globo de Ouro para Melhor Filme em língua não inglesa, mas infelizmente não venceu. Este é o terceiro volume de uma trilogia que aborda a vida de Viviane Amsalem, iniciada em "Ve'Lakhta Lehe Isha" e "Shiv'ah", também protagonizados por Ronit Elkabetz e Simon Abkarian. A Ronit Elkabetz é um nome icónico em Israel, sendo ainda conhecida por outros filmes, tais como "A Visita da Banda" ("Bikur Ha-Tizmoret"). Para além disso, este filme está ainda a despontar um movimento em Israel que pretende contestar esta lei rabínica de divórcio ainda em vigor. De acordo com a lei, a mulher primeiro tem de obter a autorização do marido e depois o processo de divórcio é julgado e decidido num Tribunal Rabínico, algo que é um anacronismo num país ultra-moderno noutros sentidos. É um filme que tem causado grande repercussão. Não é um filme light, é uma obra cinematográfica difícil mas que nos toca. Penso que a recepção ao filme vai ser muito boa.


RC: A Mostra vai contar com a presença de outros realizadores?

EP: Temos ainda a presença do realizador e actor polaco Jerzy Stuhr. Ele ganhou o "Grande Prémio do Ambiente" na edição de 2002 do CineEco, na Serra da Estrela, por uma obra cinematográfica magnífica chamada de "O Grande Animal" ("Duze zwierze") que é uma metáfora fantástica. Jerzy Stuhr é muito conhecido na Polónia. O filme conta ainda com a presença de Maciej Stuhr, o filho de Jerzy, que interpreta o protagonista quando este é mais jovem em "O Cidadão". É uma tragicomédia, o Jerzy Stuhr é uma pessoa altamente sonhadora e metafórica. Eu conheci o Jerzy Stuhr no Verão passado, em Varsóvia, falei-lhe da Mostra e ele disse: "Eu tenho um filme para ti e quero ir a Lisboa". Conseguimos que ele viesse. "O Cidadão" é um filme muito engraçado. O cinema polaco não é muito divulgado em Portugal e tem alguns filmes magníficos, pelo que procuro também ter sempre alguma obra cinematográfica deste que é também o meu país. Este ano também temos duas curtas-metragens em formato de documentário oriundas da Polónia, "Inventário" e "Depois". "Inventário" é realizado por Pawel Łoziński, um documentarista muito conhecido. "Depois" trata do quotidiano de Auschwitz nos dias de hoje. É muito interessante também.


RC: Um filme que poderia passar algo despercebido para quem está mais desatento mas ganhou ainda mais relevância nos últimos dias foi "Esclavo de Dios", não só devido à temática do terrorismo mas também devido à estranha morte do procurador na Argentina que acusou a presidente Kirchner de ter encoberto a responsabilidade do Irão no atentado à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994. O filme já estava seleccionado antes destes casos?

EP: Já estava planeado. Eu assustei-me um pouco, tal como em relação ao "24 Dias", com os acontecimentos em Paris. É um filme muito bem realizado, com boas interpretações e muito forte. Este contexto torna-o ainda mais relevante. Claro que é uma ficção, não é um documentário. É um filme que aborda uma história sobre dois escravos de Deus, não só o extremista islâmico mas também o agente da Mossad.


RC: "O Escravo de Deus" é também um exemplo da diversidade a nível de origens dos filmes em exibição na Judaica. Esta diversidade foi propositada? 

EP: Eu tento diversificar o mais possível. Ir para além da Alemanha, da Áustria, da França. No entanto, procuro que sejam sempre bons filmes. Existem festivais de cinema judaico que passam oitenta filmes, pelo que não se importam de passar um filme bom, um filme mediano e um filme mau. Eu não tenho dinheiro para fazer isso. Tenho de pensar nos custos que a exibição do filme vai representar. Se não gostar de um filme, eu não selecciono. Não tenho formação como crítica de cinema, nesse sentido tenho tido o apoio do Roni Nunes na programação. No entanto, a decisão é minha. Se eu gosto e acho que o filme tem alguma relevância, então este é escolhido. Quando é um filme interessante de um país diferente gosto ainda mais de o seleccionar.


RC: Existiu alguma temática que procuraram evitar?

EP: Este ano procurámos não seleccionar filmes sobre o conflito israelo-palestiniano porém, não ficou completamente excluído, só que…numa vertente…gastronómica! O documentário "Faça Hummus, não Guerra”, em que israelitas, palestinianos e libaneses disputam a “invenção” do hummus...hilariante e, se calhar, mais eficaz que a política toda junta…


RC: Existe um filme que tem sido muito bem recebido o "Zero Motivation"...

EP: Já tenho muitos filmes de Israel e queria abrir mais o leque. Já existe uma mostra de cinema israelita em Portugal e eu queria diversificar as opções. Se entretanto não for exibido em Portugal, pode ser uma possibilidade para 2016, mas em cada ano há uma quantidade enorme de filmes produzidos em Israel.


RC: A Mostra abre com o evento de cariz literário "Romain Gary: a sua História na História", que contará com a presença da sua biógrafa, Myriam Anissimov, e do escritor/comentador político Pedro Mexia. O que podemos esperar deste evento?

EP: Um dos propósitos da Mostra é não ser apenas sobre cinema. Claro que não tenho espaço para fazer tudo aquilo que pretendo. No caso, a Sextante editou em Portugal o livro "As Raizes do Céu", e fez coincidir o lançamento com o calendário da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura. A minha relação com o mundo editorial também é excelente, algo que já vem desde os tempos em que eu fui Conselheira Cultural da Embaixada do México. Ainda mantemos essa relação. O Instituto Francês de Portugal já tinha convidado a Myriam Anissimov, cuja presença foi adiada para coincidir com a Mostra, algo que eu agradeço imenso. Esta não só é romancista (já publicou dezasseis livros), mas também foi biógrafa do Primo Levi e do Romain Gary. Foi cantora, actriz, crítica literária, foi condecorada, é uma mulher muito especial. Já para não falar da presença importante de Pedro Mexia que gosta bastante de Romain Gary. O Romain Gary esteve casado com Jean Seberg. Gary é uma figura que dava para imensos filmes. Vou contar um episódio da minha vida: na altura era eu uma rapariga com dezanove anos, com aspirações a ser escritora, era grande amiga de Gustavo Sainz, um escritor mexicano, que organizou um jantar no qual estiveram presentes Jean Seberg com Carlos Fuentes, levei-os a um hotel da zona rosa da cidade do México. Ela suicidou-se ou pelo menos teve uma morte em condições estranhas, esteve muito ligada aos Black Panthers, teve uma vida muito complicada. Romain Gary suicidou-se passado algum tempo, embora tenha dissociado esse acto da morte de Seaberg numa carta.


RC: Uma das novidades da nova edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura passa pela extensão para Belmonte. Qual a importância desta extensão?

EP: Para mim tem um significado muito especial. Não é uma localidade qualquer. Claro que todas as localidades que me convidassem para fazer uma extensão seria uma honra. No entanto, Belmonte é um reduto importante da cultura judaica. Espero que tenha um enorme sucesso e chame pessoas das imediações, como da Guarda, da Covilhã, de toda esta região onde existe uma Universidade, uma escola de Cinema. Penso que será uma parceria de sucesso. Algumas pessoas já demonstraram a sua intenção em deslocarem-se a Belmonte para visitarem o local e verem os filmes.


RC: Existem planos para estender a Mostra para outras cidades?

EP: Ainda mais ninguém me contactou. Eu prefiro ser chamada do que chamar.


RC: Já experimentou contactar as Câmaras Municipais? Por exemplo a Festa do Cinema Francês e o 8 1/2 Festa do Cinema Italiano expandiram-se para vários locais...

EP: Eu não tenho uma grande organização por trás, a Judaica é algo quase unipessoal. Tenho uma pequena equipa que me ajuda de forma fundamental numa altura específica de tempo. No caso do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, a associação Il Sorpasso tem sido um apoio fundamental em áreas que eu ainda não domino como a legendagem dos filmes. Existem ainda questões logísticas que dificultam a nossa tarefa. Veja-se que não pago os direitos por um filme polaco, embora tenha de pagar o alojamento do realizador, mas para pagar o transporte do DCP pedem trezentos e cinquenta euros.


RC: Quais os principais desafios que encontraram a programar a Judaica? Tiveram algum filme que não conseguiram programar?

EP: O "The Monuments Men" se fosse noutra altura teria sido o filme de abertura. O "Suite Française" tinha tudo a ver com a Miriam Anissimov mas não tinha estreado em parte nenhuma do Mundo, pelo que não o conseguimos obter, entre outros exemplos. Mas conseguimos boa parte dos filmes que pretendíamos O facto de contarmos com o apoio de Belmonte ajudou muito...


RC: Pagam algum valor para a exibição dos filmes?

EP: Alguns não. Uns não pedem verba nenhuma, outros pedem um valor mais elevado, outros um valor mais baixo. Procuro muitas das vezes negociar o valor a pagar. No geral, a relação tem sido positiva. As brochuras que envio lá para fora ajudam a convencer as pessoas da seriedade do nosso trabalho.


RC: Em alguns casos até pode ajudar os filmes a encontrarem distribuição em Portugal. Por exemplo, o "Félix e Meira" é um filme magnífico.

EP: Exacto. O facto de ser em Lisboa também é um atractivo. Pode também ajudar a proporcionar um bom arranque para a promoção do filme. O ano passado penso que "O Atentado" funcionou muito bem. Sem a Mostra provavelmente teria estreado sem o mesmo impacto. Ainda ocorreram muitas entrevistas ao realizador. Penso que as distribuidoras estão a compreender que sou uma colaboradora que vale a pena manter.


RC: Qual tem sido o papel da imprensa na divulgação da Judaica?

EP: Muito importante, mas é um processo que demora. Sinto que estamos a melhorar cada vez mais, que temos mais canais de divulgação e esperamos atrair ainda mais meios. Teríamos que ter um filme como "Cinquenta Sombras de Grey" para termos o mediatismo que uma obra cinematográfica extraordinária como "Félix e Meira” não consegue ter.

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