30 janeiro 2015

Resenha Crítica: "Zangiku monogatari" (O Conto dos Crisântemos Tardios)

 É praticamente impossível visionar "Zangiku monogatari" e não pensar que estamos perante um filme bastante pessoal de Kenji Mizoguchi, com Kikunosuke Onoue (Shotaro Hanayagi), o protagonista, a parecer partilhar alguns elementos da vida do cineasta. Onoue é um actor de teatro considerado pelos seus pares como alguém pouco talentoso, que trabalha neste ofício devido a ser o filho adoptivo de Kikugoro Onoue, uma lenda na representação teatral. Elogiado pelos colegas quando se encontra próximo destes e alvo de troça quando está afastado dos mesmos, Kikunosuke tem apenas na figura de Otoku (Kakuko Mori), a ama do seu irmão mais novo, o único elemento que é capaz de apresentar alguns sentimentos sinceros e calorosos para consigo, indo ter um papel relevante na vida deste. Já Kenji Mizoguchi é um realizador de enorme talento, mas que no início da carreira realizou uma série de filmes que pouco reconhecimento lhe deram, até sobressair em 1936 com "Gion no Shimai" e "Naniwa erejī", duas obras de enorme valia. O cineasta contou ainda com o apoio da irmã mais velha, uma figura feminina que foi vendida como gueixa, algo que mais uma vez nos pode fazer traçar um paralelo entre o protagonista e Mizoguchi, enquanto este último aproveita ainda a obra para traçar os seus habituais comentários de pendor social. Ao longo do filme encontramos questões ligadas com a estratificação social, o papel mais frágil da mulher na sociedade, a hipocrisia nos relacionamentos humanos, a dicotomia entre o ser e o parecer, entre outros elementos, com a história a ter como pano de fundo o Japão do final do Século XIX. A estratificação social fica desde logo presente na forma como Kikugoro e a sua esposa procuram evitar o relacionamento entre Kikunosuke e Otoku, devido ao escândalo que esta situação poderia causar, algo que conduz o jovem actor a abandonar a cidade de Tóquio e partir para Osaka. A relação entre Kikunosuke e Otoku é marcada pela fidelidade que esta apresenta junto do amado, tendo sido a única a não ter problemas em colocar em causa as suas interpretações, enquanto todos o elogiavam pela frente e criticavam pelas costas. Kikunosuke procura singrar como actor embora tenha enorme dificuldade em triunfar, reunindo-se um ano depois com Otoku com quem vai habitar em união de facto. Durante quatro anos, Kikunosuke trabalha juntamente com uma trupe itinerante, até regressar a Tóquio e conhecer a glória e o reconhecimento do seu pai graças a Otoku. Esta elabora um acordo com os familiares de Kikunosuke para que este seja aceite novamente no núcleo familiar, oferecendo como moeda de troca o seu afastamento, sacrificando-se em prol do seu amado. O sacrifício da mulher em relação à figura masculina é uma temática transversal a várias obras de Kenji Mizoguchi, uma situação visível em filmes como os já citados "Gion no Shimai" e "Naniwa erej", mas também “Ugetsu”, com este cineasta a apresentar uma notória preocupação em denunciar esta excessiva subjugação numa sociedade patriarcal algo machista.

Otoku é uma mulher submissa em relação aos seus chefes e a Kikunosuke, sendo notório o seu respeito pelos valores tradicionais. Muitas das vezes de cabeça abaixada, voz delicada e pronta a não se fazer sobressair, esta personagem interpretada com enorme delicadeza por Kakuko Mori apresenta uma grande fidelidade em relação ao protagonista (o sentido de giri de várias figuras femininas dos filmes de Mizoguchi), dedicando a sua existência a ajudá-lo a superar as adversidades e as limitações que este tem na arte da interpretação, surgindo como o grande baluarte de Kikunosuke. Estreante na interpretação cinematográfica, Shôtarô Hanayagi surpreende como este actor amargurado por viver na sombra do padrasto, um indivíduo duro que não apresenta grandes contemplações em relação ao protagonista. Kikunosuke quer vingar no mundo do teatro, mas tarda em conseguir sair da alçada do seu pai, apresentando desempenhos desastrosos ao longo dos espectáculos, apesar de parecer inicialmente pouco preocupado em reverter a situação. Logo nos momentos iniciais do filme ficamos perante uma peça de teatro de kabuki onde Kikunosuke integra o elenco, com os elementos teatrais a serem relevantes ao longo deste filme onde os sentimentos surgem bem reais. Veja-se a dita cena, mas também no final da segunda metade do filme, quando Kikunosuke tem o momento catártico de finalmente poder representar um papel que lhe permite provar aquilo que aprendeu, sobressaindo o elevado cuidado colocado por Kenji Mizoguchi e a sua equipa na representação da peça de kabuki, quer a nível de guarda-roupa, quer da maquilhagem, quer da atmosfera algo estilizada que rodeia este mundo onde sobressai o pai do protagonista. O pai adoptivo pouco aprecia a interpretação do filho nos momentos iniciais do filme, duvidando das capacidades deste para ser o seu sucessor, enquanto os restantes elementos ironizam com a falta de talento de Kikunosuke, algo que este vai procurar contrariar. Assistimos assim a uma família que se desintegra, a um casal que vive um romance proibido devido ao diferente estatuto social e a um actor a procurar singrar num meio onde as oportunidades parecem depender muito do nome de cada um. Nesse sentido, parece também existir um comentário de Kenji Mizoguchi sobre a arte e o estado da mesma, com Kikunosuke a apenas parecer conseguir ascender se ceder aos anseios da família e recuperar o nome do pai, com o nome a contar e muito para ajudar ao reconhecimento. 

Também Mizoguchi tardou em alcançar o reconhecimento de nome maior do cinema japonês, tendo em "Zangiku monogatari" um drama de época bastante recomendável, que raramente descai para melodramas excessivos, apresentando de forma bastante humana a procura de Kikonosuke em ascender no mundo da interpretação. A ascensão profissional nem sempre é fácil ou possível. Kikonosuke apenas o conseguiu com muita dedicação e sacrifícios, um pouco como Kenji Mizoguchi, com o cineasta a voltar a brindar-nos com um filme de época cujos temas ainda podem ecoar no Japão do seu tempo (veja-se a sua preocupação com a pouca valorização do papel da mulher na sociedade, bem como a sua postura contra a posição inferior das figuras femininas, algo que também encontramos em diversas obras de Mikio Naruse). Mizoguchi é um perfeccionista, algo visível não só nas interpretações acima da média que este consegue tirar dos seus actores e actrizes, mas também no enorme cuidado na composição dos planos e no trabalho de câmara (mérito também para Shigeto Miki e Yozô Fuji, os directores de fotografia). Temos ainda vários outros elementos típicos do cineasta, tais como os travellings, a utilização do deep focus, uma exímia utilização da iluminação, sendo tudo arquitectado ao pormenor, algo que lhe valeu a fama de gostar de puxar os limites dos seus colaboradores. "Zangiku monogatarai" remete ainda para a boa safra de filmes de época realizados por Kenji Mizoguchi, com o cineasta a expor e explorar eficazmente as estruturas sociais e culturais do período representado ao mesmo tempo que aproveita para efectuar um comentário sobre a sociedade do seu tempo, contrastando nesta obra cinematográfica os valores sociais aparentemente imóveis com um amor que parece procurar desafiar essas "regras". Mais do que uma paixão calorosa, estamos perante um enorme sentimento de lealdade e gratidão de parte a parte, apesar de Kikonosuke por vezes tomar algumas decisões irreflectidas que magoam fisicamente e sentimentalmente Otoku. Kikonosuke até surge representado com maior simpatia do que as figuras masculinas de "Gion no Shimai" e "Naniwa ereji", mas nem por isso deixa de contar com algumas atitudes irreflectidas sobre as mulheres. Os momentos finais surgem como algumas das cenas mais marcantes que o cinema tem para nos dar, onde a glória e a morte se reúnem e o poder das imagens em movimento surge expresso de forma paradigmática.

Título original:"Zangiku monogatari".
Título em Portugal: "O Conto dos Crisântemos Tardios".
Realizador: Kenji Mizoguchi.
Argumento: Matsutarō Kawaguchi e Yoshikata Yoda (baseado no livro de Shôfû Muramatsu).
Elenco: Shôtarô Hanayagi, Kôkichi Takada, Gonjurô Kawarazaki.

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