28 janeiro 2015

Resenha Crítica: "Ugetsu monogatari" (Contos da Lua Vaga)

 Um dos filmes mais populares de Kenji Mizoguchi e arriscamo-nos a dizer que da História do Cinema Japonês, "Ugetsu monogatari" coloca-nos perante uma obra preenchida por personagens masculinos marcados pela ambição, cobiça, misticismo, morte, guerra, traição, no interior do Japão do Século XVI. A história acompanha inicialmente dois casais, que habitam em Nakanogo, um território rural nas imediações do Lago Biwa na província de Omi, no começo da Primavera, num período de guerra civil  no Japão. Estes casais são formados por Genjuro (Masayuki Mori) e Miyagi (Kinuyo Tanaka), bem como Tobei (Eitaro Ozawa) e Ohama (Mitsuko Mito), quatro elementos cujas vidas são marcadas pelos poucos recursos financeiros e pela chegada do exército de Shibata Katsuie ao território. Genjuro e Tobei são ambiciosos, procurando lucrar com o confronto militar, vendendo as suas peças de cerâmica/barro em Nagahama. Genjuro tem um filho com Miyagi, chamado Genichi, enquanto Tobei parece disposto a tudo para ser um samurai. A entrada dos homens de Shibata no território, prontos a destruir, roubar e até a violar mulheres, muda a vida destes personagens que são obrigados a ter de abandonar temporariamente as suas habitações, deslocando-se até Omizo, um local considerado ainda mais próspero do que Nagahama. Genjuro e Tobei deixam temporariamente as suas esposas para venderem as peças de cerâmica no mercado, algo que lhes permite alcançarem um lucro relativamente aceitável. Tobei gasta os seus ganhos numa armadura e lança de samurai, fugindo da sua esposa, enquanto esta procura desesperadamente pelo mesmo. A cena de Ohama a procurar desesperadamente o marido é marcada por algum brilhantismo, sobressaindo não só a meticulosa cinematografia e o desempenho de Mitsuko Mito, mas também a banda sonora, com esta a ser essencial para adensar o clima de inquietação em volta do momento. A desgraça aproxima-se de Ohama quando é violada por militares, um acto que a marca, bem como o abandono pela parte do esposo. Surpreendentemente, também Genjuro abandona a sua esposa, nomeadamente quando conhece Wakasa (Machiko Kyo), uma mulher de origens nobres e ricas posses, que surge acompanhada pela sua criada e pronta a seduzir o personagem interpretado por Masayuko Mori. Na casa de Wakasa, em Kutsuki, este descobre que, com excepção desta mulher e a criada, todos os elementos foram eliminados pelos homens de Oda Nobunaga, com o espírito do pai da personagem interpretada por Machiko Kyo ainda a fazer-se sentir. A habitação de Wakasa aparece marcada por um espaço amplo, por vezes iluminada com a luz das velas, decorada com adereços que indicam algumas posses e uma riqueza que a pobre casa do protagonista não tinha, seduzindo o mesmo, um pouco como esta mulher que posteriormente descobrimos também ser um espírito de outro mundo. 

Fica desde logo criada uma atmosfera marcada por algum misticismo e sobrenatural, com "Ugetsu monogatari" a remeter-nos para as histórias de fantasmas da cultura popular japonesa que tão bons resultados trouxeram para o cinema. Veja-se o magnífico "Kwaidan", mas também “Kuroneko”, entre muitos outros que em certa parte tiveram em "Ringu", "Dark Water", "Ju-on" e companhia alguns felizes herdeiros. No caso de "Ugetsu" estamos perante uma obra marcada pela realização brilhante de Kenji Mizoguchi, uma cineasta capaz de explorar esta história de forma credível, criando uma atmosfera que gradualmente ganha alguma tensão, onde a morte pode surgir quando menos se espera e os fantasmas do passado não têm problemas em aparecer diante dos vivos, embora nunca esteja nos planos do cineasta assustar o espectador. Nesse sentido, "Ugetsu monogatari" remete ainda para as histórias de fantasmas onde os personagens humanos comuns lidam inesperadamente com situações sobrenaturais, enquanto estes seres se envolvem no mundo terreno. Os personagens humanos nem precisam da ajuda dos espíritos para entrar por caminhos mais turbulentos. Genjuro deixa a mulher, embora posteriormente ainda pense em regressar para a mesma, enquanto que Tobei abandona temporariamente a esposa, deixando-a cair em desgraça. As personagens femininas dos filmes de Kenji Mizoguchi nem sempre têm a melhor sorte (veja-se em "Gion no Shimai", "Zangiku Monogatarai"), algo que também acontece em "Ugetsu monogatari". Ohama é abandonada e vê-se na contingência de se ter de prostituir, ao passo que Miyagi também tem um destino pouco aprazível, algo visível no último terço da narrativa. A ambição move Genjuro e Tobei, embora não pareçam realmente satisfeitos quando conseguem os seus objectivos. Tobei procura desde logo exibir junto da esposa o seu novo estatuto, mas descobre esta destroçada por ter de se prostituir. Genjuro sobe socialmente mas não esquece a esposa, envolvendo-se num caso amoroso que promete ter um fim desastroso. O elenco é bastante competente a aproveitar o bom argumento de Matsutaro Kawaguchi e Yoshikata Yoda, criando um conjunto de personagens bastante interessantes de acompanhar. Veja-se desde logo Machiko Kyo, uma das grandes actrizes do cinema japonês ("Gate of Hell", "Rashomon", "Street of Shame", "Floating Weeds", entre outras obras) como a típica personagem que indica ser um espírito, marcada por sobrancelhas cortadas e pintadas, face bastante pálida e longos cabelos negros, com a actriz a interpretar uma mulher aparentemente delicada e de ricas posses, que gradualmente revela a sua verdadeira faceta. Já Mitsuko Mito e Kinuyo Tanaka (uma lenda do cinema japonês que colaborou com cineastas como Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu, Mikio Naruse, Akira Kurosawa, Kon Ichikawa, entre outros) interpretam duas mulheres trágicas, fiéis ao marido, cujas vidas sofrem reviravoltas pouco positivas. 

Temos ainda Eitaro Ozawa como um indivíduo ambicioso e algo ingénuo, que pretende a todo o custo ser um samurai embora não pareça medir as consequências que esta ambição pode trazer à sua vida, algo que se aplica também ao personagem interpretado por Masayuki Mori. Genjuro trai a esposa e engana Wakasa, ficando entre o passado e o presente, enquanto lida inesperadamente com espíritos. Estes elementos associados ao sobrenatural permitem atribuir alguns "salpicos" de terror a "Ugetsu monogatari", remetendo para as lendas japonesas, com o argumento do filme a ter como base "Ugetsu Monogatarai", um livro de Akinari Ueda que reúne nove contos de cariz sobrenatural. "Ugetsu" teve como base "Asaji ga Yado" e "Jasei no In", procurando explorar não só estes elementos, mas também a forma como a guerra afecta os seres humanos. Estamos perante uma guerra civil no Século XVI, embora as consequências do conflito sejam universais e possam ser aplicadas até à actualidade, sobretudo na forma como é sentido pelos civis. Será que estes personagens cometeriam os mesmos actos se estivessem em clima de paz? Contribuirá esta atmosfera de violência para impulsionar um lado mais ambicioso dos personagens masculinos? A resposta que "Ugetsu" nos dá é claramente afirmativa, com a cobiça a surgir quer nas figuras militares que saqueiam, violam mulheres e destroem lares, quer nos civis que parecem dispostos a tudo para ascender em tempos de crise acentuada, não olhando a meios para obter tal desiderato. Esta situação fica particularmente representada quando Genjuro pretende regressar a Omizo apesar do perigo da chegada eminente do exército de Shibata, mas também na forma como este é facilmente compelido a casar com outra mulher. Se os personagens masculinos não têm problemas em trair ou abandonar as esposas, já estas apresentam valores de lealdade para com os mesmos, ao longo de uma obra que também é sublime a explorar os relacionamentos humanos. O adjectivo sublime serve também na perfeição para descrever a cuidada cinematografia de Kazuo Miyagawa. Veja-se desde logo os momentos magníficos em que os dois casais atravessam o rio Azuchi num pequeno barco a remos, com o cenário a ser marcado por fortes nevoeiros que adensam a incerteza em volta do destino destes personagens, mas também pelo mau presságio da morte de um marinheiro. Esta não é a única cena a sobressair, com o momento em que Wakasa esfrega o corpo do marido no banho a surgir marcado por um estranho erotismo, algo visível no fumo que sobe devido ao calor da água nas pedras frias, para além da magnífica conjugação de luz e sombras na habitação desta mulher, entre vários outros momentos ao longo de uma obra que muito tem das temáticas de Kenji Mizoguchi. O sofrimento humano e o papel da mulher da sociedade são dois temas abordados com a subtileza do costume, bem como a prostituição feminina. 

A prostituição é uma temática que atravessa boa parte das obras do cineasta, tais como o já citado "Gion no Shimai", mas também "Osaka Elegy", "The Life of Oharu", entre outras, algo que também acontece em "Ugetsu monogatarai" com Ohama. Esta é uma mulher dedicada ao esposo, cuja vida sofre uma reviravolta quando este foge, algo que também acontece com Miyagi, com Mizoguchi a também voltar a explorar a dedicação da figura feminina ao marido ou ao elemento masculino, uma situação que atravessa filmes como "Zangikou Monogatarai", "Gion no Shimai", entre outras obras deste magnífico cineasta da chamada "era dourada" do cinema japonês. O sofrimento da mulher e as "provações" a que esta está sujeita afecta também as figuras masculinas, ao longo de uma obra onde estes personagem vivem problemas bem reais, mesclados com algum misticismo inerente à presença das duas fantasmas. Apesar de pretenderem prendê-lo, os dois espíritos estão longe de tratarem mal Genjuro, bem pelo contrário, com o protagonista a conhecer os luxos que raramente poderia ter quando vivia com a esposa, embora gradualmente sinta a falta desta. Este até é um indivíduo inicialmente bem intencionado, utilizando o dinheiro da primeira venda arriscada para comprar um quimono para a esposa, algo que nunca conseguira fazer, mas também se revela capaz de trair aqueles que ama. Quer Genjuro, quer Tobei são bem sucedidos a alcançar os objectivos que ambicionam, mas cedo percebem as consequências dos seus actos, com Kenji Mizoguchi a deixar entendido não tanto um conformismo que devemos ter em relação ao estatuto social de cada um, mas acima de tudo um aviso para os "efeitos secundários" destas abruptas ascensões sociais. Pode ainda remeter para um aceitar do papel de cada um na sociedade, ao longo de uma obra onde os personagens conhecem um arco que os modifica gradualmente, uma situação que beneficia ainda do argumento capaz de atribuir uma enorme densidade emocional a estes elementos. Temos ainda outros elementos que marcam as obras do cineasta, tais como os planos de longa duração, um perfeccionismo notório, imagens em movimento marcantes, para além de assistirmos a um notável trabalho de câmara cuja mobilidade por vezes contribui para o adensar da situação instável dos personagens. "Ugetsu monogatari" não é apenas um dos grandes filmes do cinema japonês, revelando-se uma das obras cinematográficas maiores da História da Sétima Arte, expondo o magnífico talento de Kenji Mizoguchi.

Título original: "Ugetsu monogatari".
Título em Portugal: "Contos da Lua Vaga". 
Realizador: Kenji Mizoguchi. 
Argumento: Matsutarō Kawaguchi e Yoshikata Yoda.
Elenco: Masayuki Mori, Machiko Kyō, Kinuyo Tanaka, Eitaro Ozawa, Mitsuko Mito, Ikio Sawamura.

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