21 janeiro 2015

Resenha Crítica: "The Night of the Hunter" (A Sombra do Caçador)

 Aliado a um magnífico trabalho de fotografia de Stanley Cortez, uma banda sonora capaz de se adequar de forma quase perfeita aos momentos de maior tensão ou calmaria e um argumento extremamente coeso, "The Night of the Hunter" é obra para nos manter inquietos durante grande parte da sua duração, enquanto nos apresenta a um "lobo em pele de cordeiro" interpretado por um surpreendente Robert Mitchum, com este a ser capaz de atribuir uma malícia única ao seu personagem. Esta é uma história marcada pela presença dos valores religiosos, mas também do crime, traições, pecados, algum humor negro e até pitadas de fantasia, com um assassino de mulheres a prometer atormentar a vida de uma viúva e dos seus dois filhos. Charles Laughton, na sua primeira e única incursão na realização de longas-metragens, realiza um thriller psicológico inquietante com uma segurança notável, tirando muita da inspiração nos filmes do expressionismo alemão. Veja-se os planos algo surreais marcados pela presença do nevoeiro e das sombras (a utilização da luz e sombra também a remeter para o expressionismo), bem como a própria atmosfera que envolve diversos momentos da obra, tais como a presença das duas crianças no barco rodeadas por um bosque onde as árvores ganham um cariz meio assustador. A história foi livremente inspirada em Harry Powers, um indivíduo que foi enforcado em 1932 devido ao assassinato de duas mulheres e três crianças. O enredo do filme também se desenrola na década de 30 do Século XX, durante a Grande Depressão, num território do Sul dos EUA, acompanhando inicialmente Harry Powell, um serial killer vestido de padre (ou se preferirem um padre serial killer), que tem por hábito assassinar mulheres e roubar as suas posses financeiras. Este tem tatuado na mão esquerda Hate, enquanto na mão direita encontra-se Love, com as iniciais a encontrarem-se gravadas nos seus dedos, algo que lhe dá a oportunidade de utilizar motivos bíblicos e despertar logo a atenção dos seus ouvintes. Harry sabe a bíblia e é capaz de convencer os mais incautos, mas nem por isso deixa de ser preso no início do filme devido a ter furtado um carro, tendo sido condenado a uma pena de trinta dias. A prisão acaba por proporcionar uma nova oportunidade de roubo a Harry já que o seu novo colega de cela é Ben Harper (Peter Graves), um indivíduo condenado à morte, que eliminou dois elementos num assalto a um banco. Ben é casado com Willa Harper (Shelley Winters), tendo dois filhos desta, os jovens John (Billy Chapin) e Pearl (Sally Jane Bruce), com a família a desfazer-se perante a morte do primeiro. Antes de ser preso, Ben revelou a John e Pearl o paradeiro dos dez mil dólares furtados, obrigando os mesmos a guardarem segredo de tudo e todos, tal como pediu ao primeiro para cuidar da irmã. Na prisão, Ben acaba por revelar durante o sono que "um menino os conduzirá", algo que deixa Harry curioso, procurando tirar mais informações do primeiro ainda que sem sucesso. Após cumprir a pena, Harry prepara-se para seduzir Willa de forma a procurar ficar a viver na casa desta e descobrir o paradeiro do dinheiro, até se livrar da mesma. Quem também pretende que Willa case de forma a poder cuidar de forma mais adequada dos filhos é Icey Spoon (Evelyn Varden), uma mulher religiosa que possui o "Spoons", um café onde trabalha com Walt (Don Beddoe), o marido, e a viúva. A comprovar a sagacidade do trabalho de montagem, encontramos a cena do diálogo entre Icey e Willa sobre o casamento a ser entrecortada pelo comboio onde Harry viaja, com a banda sonora a transmitir desde logo uma inquietação latente. A procura de Icey em casar novamente Willa exibe também um pouco os valores conservadores da época, existindo a ideia de que uma mulher não seria capaz de ser totalmente independente, sendo que no caso de Willa até daria jeito que esta procurasse manter-se sem companheiro. Harry finge ser um religioso convicto, convencendo Icey de que é mesmo um padre, ao mesmo tempo que começa a entrar na vida de Willa ao revelar que conheceu o marido desta. É um lobo em pele de cordeiro, fingindo-se um homem de boa índole, que trabalhava como padre na prisão mas demitiu-se por não aguentar mais as terríveis e trágicas histórias dos presos.

Robert Mitchum tem aqui aquela que é uma das grandes interpretações da sua carreira, conseguindo criar um personagem que mescla uma sacanice e crueldade imensas com uma calma e frieza impressionantes. O rosto de Robert Mitchum exibe uma malícia pura, protagonizando momentos de enorme inquietação quando está a sós com os jovens, bem como no último terço, beneficiando imenso da realização de Charles Laughton, com o cineasta a ser capaz de dar impacto necessário aos momentos que nos exibe. Se inicialmente Harry convence quase todos da sua inocência, incluindo a jovem Pearl, o mesmo não acontece com John. O personagem interpretado por Billy Chapin nunca esconde a sua desconfiança em relação a Harry, tal como o falso padre deixa claro junto do jovem que sabe mais sobre o dinheiro do que a informação que deixa passar para Willa. Esta convence-se com facilidade das mentiras contadas por Harry, enquanto John, embora seja algo incompreendido pela mãe e Icey, é aquele que melhor julga o assassino. John tem como único grande companheiro Birdie Steptoe (James Gleason), um viúvo algo beberrão que vive perto do mar, onde pesca e vive de forma isolada. Apesar de todas as reticências de John, a relação entre Willa e Harry vai mesmo avançar. Harry casa com Willa mas a noite de núpcias é marcada desde logo pela frieza que definirá a relação destes dois. Esta prepara-se para ter relações sexuais com o noivo, mas Harry logo salienta que as relações apenas servem para procriar, fingindo-se de pudico e fervoroso religioso. Chega a convencer esta a considerar-se culpada pelo marido cometer o assalto numa cena pública com vários fiéis fervorosos, que tem o seu quê de irónico e pitadas de humor negro já que o "rebanho" se encontra a ser liderado por um lobo pronto a esperar pelo momento exacto para causar vítimas. É assim que questiona John sobre o paradeiro do dinheiro, mas ninguém se acredita que este faz essas perguntas, pelo menos até Willa presenciar as mesmas. A desgraça parece pronta a abater-se sobre esta casa, com Willa a ser o novo alvo de Harry, enquanto este inicia um jogo entre "o gato e o rato" com os dois jovens. Sem um argumento e um elenco forte seria impossível que Charles Laughton conseguisse tornar estes acontecimentos tão "palpáveis" e nos inquietasse em relação aos destinos dos seus personagens de maneira tão sublime, dando espaço para os vários elementos sobressaírem e exibirem as suas personalidades. Veja-se o caso de Billy Chapin como John, com o jovem a ter vários momentos de destaque, quer a confrontar Harry, quer a proteger a irmã, sobretudo a partir do momento que entram em fuga, com a viagem no barco a surgir rodeada por uma atmosfera que fica entre o pesadelo e a fantasia. Já Shelley Winters interpreta uma personagem marcada por uma enorme passividade e demasiada confiança nos outros, parecendo certo que ainda não está totalmente recomposta pela morte do marido, algo que talvez explique a sua aderência a "reconverter-se". Por sua vez, Icey é uma mulher religiosa, bastante conservadora e apreciadora da conduta de Harry, tendo um casamento estável e marcado pela vacuidade com Walt. Actor que se aventurou na realização, Charles Laughton consegue potenciar o talento dos elementos que tem ao seu dispor no elenco, beneficiando de um sólido argumento (baseado no livro "The Night of the Hunter" de Davis Grubb) e de um talento para a realização que não foi devidamente apreciado na época, algo que é praticamente incompreensível. Charles Laughton escolhe os tempos certos para nos apresentar os episódios de relevo, constrói com perícia os personagens, dota a obra de uma estranha beleza, cria o nosso receio em relação aos destinos dos dois jovens, ao mesmo tempo que nos coloca diante de um serial killer que nos deixa quase sempre receosos em relação ao seu próximo passo.

No último terço existe mais um momento que fica facilmente na memória, com Harry a cantar à porta de Rachel Cooper (Lillian Gish), uma mulher que acolheu os dois jovens, esperando a calada da noite para caçar as suas presas, com tudo a ser elaborado com minúcia. A escuridão da noite atribui um enorme mistério e sensação de perigo a esta sequência, as luzes apagadas na sala de Rachel deixam tudo ainda mais assustador, com "The Night of the Hunter" a fazer justiça ao título, enquanto os ritmos da narrativa são controlados ao máximo e as imagens trabalhadas de forma exímia, ao mesmo tempo que ficamos na expectativa em relação ao que vai acontecer. Rachel está no lado interior da casa juntamente com as cinco crianças adoptadas. Harry está do lado de fora montado no seu cavalo à espera. Ela tem uma espingarda. Ele tem uma faca. Já se tinham encontrado anteriormente, mas a falsa religiosidade de Harry e as suas mentiras foram rapidamente colocadas a descoberto por esta mulher. Lillian Gish interpreta uma mulher religiosa e conservadora, dedicada a criar crianças abandonadas, procurando acolher Pearl e John após estes efectuarem uma longa jornada para fugirem de Harry. Esta jornada é marcada por alguns planos magníficos, com Charles Laughton por vezes a fazer com que nos apeteça pausar por completo o filme só para ficar a observar a composição dos mesmos. Veja-se quando temos os jovens no barco a remos enquanto bem ao fundo encontramos Harry a cavalo, numa cena nocturna simultaneamente bela e aterrorizadora. A própria banda sonora integra-se de forma sublime com os acontecimentos da narrativa, potenciando os mesmos, algo visível nos momentos onde os planos de Harry estão longe de nos deixar sossegados. Robert Mitchum inquieta-nos como este personagem frio e calculista que pretende a todo o custo encontrar o dinheiro, encontrando-se disposto a tudo para ser bem sucedido nos seus intentos. A ganância consome o âmago do seu ser. A possibilidade de enriquecer está bem perto. Ele sente. Nós sentimos. Mas o jovem filho de Willa parece disposto a tudo para sabotar os planos deste criminoso, procurando respeitar o desejo do seu pai. No entanto, também não deixa de ser brilhante ver os momentos em que este personagem profere os seus discursos de falsa honestidade religiosa, abrilhantados pelo tom de voz que Mitchum incute a Harry. Veja-se quando convence Icey que foi abandonado, quando fala sobre as suas conversas (que nunca aconteceram) com o falecido marido de Willa, para além das cenas em que reúne a mão esquerda e direita para expor que a segunda tem mais força (associada a Love), entre muitos outros exemplos. É uma das interpretações em que o actor não pode ser acusado de se encontrar em piloto automático, atribuindo uma complexidade e variantes ao personagem que interpreta que vão muito para além do carisma que apresenta nas várias obras que protagoniza. A inquietação é provocada não só pelo perigo que este personagem representa mas também por aquilo que Charles Laughton nos sugere que pode acontecer, com o cineasta a procurar muitas das vezes deixar-nos na expectativa, com o medo a ser provocado mais pela atmosfera criada do que pelo sangue ou pela brutalidade dos assassinatos (curiosamente a cena de uma personagem cujo corpo se encontra no fundo do mar encontra-se rodeada de enorme lirismo). Diga-se que "The Night of the Hunter" é uma vitória cinematográfica, um thriller psicológico exímio, onde não falta algum terror, crime e motivos religiosos pelo caminho, com Charles Laughton a ter uma estreia em grande nível na realização cinematográfica. Boa parte do enredo é explorado através do ponto de vista das crianças, com Billy Chapin e Sally Jane Bruce a mostrarem-se à altura do desafio, enquanto Robert Mitchum tem um dos grandes personagens da sua carreira e Lillian Gish, estrela do cinema mudo, tem aqui um papel falado de algum relevo.

Não deixa de ser curioso verificar como Charles Laughton percebe o legado cinematográfico que o antecedeu e sabe explorar alguns dos elementos do mesmo, tendo sido capaz de criar algo de praticamente único na época. Mescla elementos do expressionismo alemão e góticos, tem um momento de populares a perseguirem Harry que nos faz recordar "Frankenstein" (1931), utiliza uma actriz de enorme história como Lillian Gish, ao mesmo tempo que acrescenta mais uma obra digna de ser recordada pelos amantes da Sétima Arte. Gish interpreta a "mãe ganso", pegando nas palavras de Charles Laughton que descreveu a obra como "a nightmarish sort of Mother Goose tale (...) "We tried to surround the children with creatures they might have observed, and that might have seemed part of a dream. It was, in a way, a dream for them". A personagem interpretada por Gish é protectora, pronta a ajudar as crianças e a defendê-las dos males do mundo que as rodeia, mesmo que para isso tenha de andar de arma na mão e coloque em risco a própria vida, enquanto "The Night of the Hunter" deixa-nos perante a clássica luta entre o bem e o mal, com Rachel a personificar o bem e Harry a representar o mal. Gish é a actriz feminina que mais sobressai no filme, com Winters a ficar quase na sombra de Robert Mitchum quando ambos estão em conjunto, algo que deve ter agradado ao actor, tal o desprezo que sentia pela actriz, uma situação salientada na célebre frase que lhe é atribuída: "She looks and sounds as much like a wasted West Virginia girl as I do. The only bit she'll do convincingly is to float in the water with her throat cut". No entanto, Shelley Winters convence-nos da sua personagem, tendo provavelmente como ponto alto o momento que Willa procura expor os seus pecados juntos dos fiéis num momento acalorado e de algum fanatismo. Diga-se que a religião e o fanatismo religioso também surgem muito presentes no filme, uma situação notória na cena rapidamente descrita mas também nos próprios valores de personagens como Icey, Rachel, Harry (embora uma religiosidade transviada), num território sulista muito marcado pelo conservadorismo e pela crise. Essa situação pode ajudar a explicar a aceitação que Harry teve no território, ao longo desta história negra, com uma atmosfera próxima de um pesadelo, onde a ganância do ser humano é exposta mas também a sua bondade. Se a casa de Rachel, uma personagem representante dessa bondade, é o paradigma da segurança para as crianças que sentem ter ali uma protectora, já a habitação de Willa facilmente se transforma num local quase tão temível como ser obrigado a ficar na mesma sala que Hannibal Lecter, tenha este mordaça ou não. Quando Harry está sozinho com as crianças e estas escondem-se no porão os momentos são de puro medo, com este a surgir quase como o "bicho papão" bem real, que tem planos pouco recomendáveis para as crianças. Ainda existe algum humor negro a envolver os actos de Harry, um elemento que é simultaneamente um padre e um serial killer, com Charles Laughton a não ter medo de correr alguns riscos ao mesmo tempo que nos arrasta para o interior de um enredo que tendemos a não querer libertar. Do medo e tensão aos momentos algo etéreos e belos, "The Night of the Hunter" é uma obra cinematográfica para ficar na memória, ser revista, admirada e reverenciada, com todos os seus méritos e sensações provocadas a dificilmente conseguirem ser expostos totalmente com palavras, sejam estas escritas ou faladas.

Título original: "The Night of the Hunter". 
Título em Portugal: "A Sombra do Caçador".
Realizador: Charles Laughton.
Argumento: James Agee e Charles Laughton.
Elenco: Robert Mitchum, Shelley Winters, Lillian Gish, Billy Chapin, Evelyn Varden, Sally Jane Bruce.

Sem comentários: