16 janeiro 2015

Resenha Crítica: "Never Let Me Go" (Nunca Me Deixes)

 Todos nós temos de morrer um dia. Uns mais tarde, outros mais cedo. É o ciclo da vida e algo de inevitável. No caso dos protagonistas de "Never Let Me Go" estes estão desde cedo marcados para morrer visto serem clones criados para doarem os seus órgãos a quem necessitar de um transplante. Ficamos perante um passado alternativo, onde logo de início ficamos a saber que o progresso nas ciências médicas ocorreu em 1952, sendo que em 1967 a esperança média de vida subiu para cem anos, algo que se deve a esta cruel decisão de criar seres humanos para salvar a vida de outros. Esta situação é moralmente questionável, com as graves consequências e desgaste que provoca nos doadores a ser evidenciado de forma tocante e profundamente humana ao longo de  "Never Let Me Go", um drama mesclado com elementos de ficção científica, embora quase tudo seja exposto com algum realismo, sobretudo os sentimentos. É um filme angustiante e cruel, que não tem problemas em nos magoar e inquietar em relação ao destino do seu trio de protagonistas, com Mark Romanek a apresentar-nos aos mesmos desde as suas infâncias na Hailsham, uma escola que funciona em regime de internato, onde estes são educados com regras bastante rígidas. Mark Romanek pede para que estabeleçamos laços com estes personagens, que nos envolvamos no seu destino para depois nos arrasar e desgastar ao mesmo tempo que estes vão assistindo à sua vida a esfumar-se. Neste espaço, os jovens não só estudam e formam amizades, como também são instigados a desenvolverem o seu lado mais artístico, com as melhores obras de arte a serem seleccionadas para figurarem na "Galeria" da Madame Marie-Claude (Nathalie Richard), uma mulher que se desloca com alguma frequência a Hailsham, um local dirigido por Miss Emily (Charlotte Rampling), uma directora algo austera e fria. A chegada de Miss Lucy (Sally Hawkins), uma professora recém-contratada para dar aulas ao quarto ano, vem trazer uma nova conjuntura a todo este quotidiano dos jovens, sobretudo quando revela abertamente aquilo que estes são: "(...) Nenhum de vós fará outra coisa senão viver a vida que já vos foi destinada. Irão tornar-se adultos, mas só por breves momentos. Antes de se tornarem idosos, antes até de chegarem à meia-idade, vão começar a doar os vossos órgãos vitais. Foi para isso que foram criados. E por volta da vossa terceira ou quarta doação, a vossa vida curta ficará completa. Têm de saber quem são e o que são. É a única forma de levarem uma vida decente". A forma clara e precisa como Lucy expõe esta situação entra que nem uma bomba nos alunos do quarto ano desta escola, sobretudo para o trio de protagonistas formado por Kathy (Izzy Meikle-Small), Tommy (Charlie Rowe) e Ruth (Ella Purnell). Os primeiros trinta minutos do filme, ou, se preferirem, o primeiro acto, centram-se na infância destes personagens e no estabelecimento das suas personalidades. Tommy é um jovem pouco competente no desporto e para as artes, algo arisco, que é gozado por quase tudo e todos, tirando por Kathy H, a sua melhor amiga. Kathy H e Tommy formam uma paixoneta, enquanto Ruth mantém uma relação de amizade com a primeira e de desprezo com o segundo. Existem momentos particularmente ternos entre Kathy H e Tommy. Veja-se quando esta se decide sentar com este no refeitório quando ele está sozinho, ou o procura consolar quando todos o desprezam, mas também quando este lhe oferece uma cassete de música com o tema musical "Never Let Me Go" de Judy Bridgewater. O jovem desconhece se a música é boa ou não mas adapta-se na perfeição aos sentimentos de Kathy em relação a este. Kathy é uma jovem introvertida, observadora e sensível, que não compreende na totalidade quando vê Ruth a iniciar um romance com Tommy, aguardando que estes algum dia se separem, algo que tarda em acontecer.

 A narrativa avança para 1985, quando os personagens completam dezoito anos e são obrigados a deixar Hailsham para irem viver para um conjunto diversificado de locais enquanto aguardam pelas fatídicas chamadas que vão gradualmente retirar os seus órgãos e as suas vidas. Mais do que melodramático, "Never Let Me Go" é um filme que procura ser sensível na exposição dos personagens e dos acontecimentos que os rodeiam. São elementos cujos destinos já se encontram traçados, algo que coarta qualquer hipótese de serem felizes durante um longo período de tempo ou de fazerem planos a longo prazo. Essa situação fica implícita no segundo acto, quando Ruth (Keira Knightley), Kathy (Carey Mulligan) e Tommy (Andrew Garfield) vão viver para uma espécie de quinta localizada nas Cottages, num espaço rural que conta ainda com a presença de elementos como Rodney (Domhnall Gleeson) e Chrissie (Andrea Riseborough), um casal que se encontra no local há um ano e se prepara para partir brevemente para os centros de completação. Neste espaço, assistimos a Ruth e Tommy a formarem amizade com o outro casal, enquanto Kathy é a mais solitária, parecendo nunca ter recuperado do facto da sua amiga ter-se envolvido com o amado. Kathy é a narradora, com Carey Mulligan a ser o elemento que mais se vai destacar ao longo do enredo, não só pela sua personagem ser das mais complexas, mas também por se voluntariar como assistente de doadores, algo que adia em parte o seu destino fatal. Estes momentos nas Cottages desenrolam-se em 1985, com "Never Let Me Go" a procurar atribuir um tom associado a esta década ao filme, algo visível no guarda-roupa destes personagens e nos seus comportamentos, com o filme a apresentar um conjunto de bons valores de produção. No espaço rural, o trio depara-se com uma realidade distinta, enquanto aguarda pelo seu destino, traçado desde que foram criados. Os personagens interpretados por Domhnall Gleeson e Andrea Riseborough representam dois dos primeiros elementos externos a Hailsham que o trio de protagonistas contacta, surgindo bem mais experientes do que estes, algo visível numa saída que fazem até um local onde Rodney e Chrissie acreditam ter visto uma mulher semelhante a Ruth. As semelhanças são poucas, mas nem por isso Ruth deixa de entrar em desespero ao ser confrontada com a sua condição temporária neste mundo, algo que contrasta com os momentos de humor que o trio protagoniza ao não saber o que pedir num restaurante devido a nunca terem frequentado um estabelecimento do género. Diga-se que esta é a primeira saída do grupo, com Rodney e Chrissie a procurarem saber se é verdade o rumor de que os elementos de Hailsham sabem da possibilidade de um contacto que permite a quem está apaixonado poder adiar a doação durante alguns anos para poder viver algum tempo em conjunto se conseguirem provar que os sentimentos são verdadeiros. O trio não sabe. Tommy acredita que as obras de arte serviriam para analisar a alma dos mesmos, algo que não poderá utilizar como comprovativo no caso desta hipótese ser real, não só por nunca ter apresentado um enorme jeito para o desenho mas também por parecer claro que o grande amor da sua vida é Kathy. Diga-se que este parece sempre apresentar maior cumplicidade com Kathy do que com Ruth, algo que esta última sabe e sente, embora este facto não a tenha impedido de se ter metido no caminho da relação de ambos. Existe alguma rivalidade a rodear Ruth e Kathy, mas também uma enorme amizade, com os três a terem um momento tocante na praia no terceiro acto do filme, quando os personagens interpretados por Andrew Garfield e Keira Knightley são enviados para doar órgãos, enquanto a personagem a quem Carey Mulligan dá vida labora temporariamente como ajudante dos doadores.

 O terceiro acto é dramático e desfaz-nos por completo do ponto de vista emocional, com Mark Romanek a conseguir que a construção dos personagens e dos seus relacionamentos nos momentos anteriores consigam causar um maior impacto quando chegam os momentos fatídicos. Não os queremos ver assim, nem eles pretendem estar neste estado. Será que poderiam fugir? "Never Let Me Go" nunca procura explorar esta opção, procurando antes colocar o foco no amor que rodeia a relação destes três personagens que, com maiores ou menores ausências, vão estar quase sempre presentes nos momentos mais relevantes das vidas uns dos outros. O último terço ocorre em 1994, trazendo-nos algumas revelações finais sobre estes personagens e o seu passado, com Kathy a finalmente reencontrar Ruth. Se Kathy procura lidar com um quotidiano onde a morte dos doadores é uma realidade, já Ruth reage mal a dois transplantes, encontrando-se em condições físicas notoriamente débeis. Keira Knightley tem uma interpretação convincente como esta mulher que procurou sempre seguir os outros, amiga de Kathy, mas capaz de trair a mesma, apesar de nunca se querer afastar desta. Esta situação é visível pelo reencontro que procura fazer com Tommy, de forma a finalmente unir este e Kathy, de forma a redimir-se dos erros do passado. O reencontro emociona-os e emociona-nos. Tommy agora tem o cabelo rapado, sofreu dois transplantes embora esteja em melhor estado do que Ruth. A certa altura este diz que o tempo não parece ter passado desde Hailsham e, em certa medida, percebemos que o título do filme não se refere apenas a Tommy e Kathy mas sim ao trio. Estes não querem desfazer a sua amizade, não querem perder a companhia uns dos outros, sobretudo agora que se reencontraram passados quase dez anos. Já sabemos o que os espera. Mark Romanek não nos engana desde o início, carregando a narrativa de uma atmosfera de melancolia e tristeza, que por vezes é quebrada pelos momentos entre o trio de protagonistas. A própria cinematografia vai gradualmente assumindo tons mais frios consoante o estado de alma dos personagens, com o trabalho de caracterização a conseguir expor os efeitos que as operações causaram nos mesmos, bem como as interpretações de Andrew Garfield e Keira Knightley. Garfield interpreta o elemento meio à parte de tudo e todos, um jovem que por vezes revela-se incapaz de esconder as suas inquietações, que conquista duas mulheres embora o seu coração penda para Kathy, algo que explica a maior química entre este e Carey Mulligan. O próprio elenco mais jovem é competente no estabelecimento das relações e personalidades destes personagens, com Mark Romanek a aproveitar para abordar temáticas relacionadas com a amizade, o amor, a alma, a arte, enquanto cria um drama profundamente tocante. Os momentos em Hailsham e nas Cottages são marcados pelo facto destes personagens nunca conseguirem ter uma habitação e vida completamente próprias, apesar de procurarem expor a sua individualidade perante um destino que lhes está traçado. Quer o cenário da escola, quer da habitação são marcados pelo afastamento em relação aos espaços urbanos, embora durante a idade adulta estes se possam deslocar aos mesmos. Claro que percebem estar num limbo, com a presença de Tommy num barco ferrugento e encalhado no meio da praia a parecer simbolizar as suas vidas: encalhadas perante o destino que lhes escolheram.

 O fatalismo que rodeia o destino destes personagens é exposto com enorme impacto na já citada cena onde Sally Hawkins tem espaço para sobressair no pouco tempo que tem na narrativa. Este espaço da escola é marcado por regras rígidas, com os alunos e alunas a viverem num território praticamente à parte da humanidade desconhecendo todos os pormenores sobre aquilo que o futuro lhes reserva, embora descubramos que Hailsham é uma das poucas instituições que procura estimular o intelecto dos clones e provar que são seres humanos com alma. A amizade entre Kathy e Tommy é um dos poucos elementos de ternura a rodear este espaço, enquanto a jovem tem em Ruth a sua maior confidente. Diga-se que a personalidade reservada de Kathy mantém-se ao longo de todo o filme, com Mark Romanek a procurar explorar o carácter observador desta jovem. Carey Mulligan é o elemento que mais se destaca do trio, quer pela sua personagem ser a narradora e um elo de ligação entre o espectador e a narrativa, quer por ser a mais misteriosa e complexa, aquela que acaba por assistir a vários doadores a perecerem e a ver o destino imiscuir-se em demasia na sua vida, com a actriz a atribuir uma ternura imensa a Kathy. O que seria destes elementos se não tivessem sido destinados a doarem os seus órgãos? Qual a legitimidade para tirar estas vidas humanas? Diga-se que o argumento, baseado no livro "Never Let Me Go" de Kazuo Ishiguro, nem sempre consegue problematizar devidamente as temáticas. Consegue criar um universo narrativo credível, marcado por personagens e sentimentos que são capazes de nos dizer algo, mas parece ficar a faltar problematização. Será que estes elementos não poderiam tentar escapar ao seu destino de forma mais decidida? Não existem entidades a condenar estes actos de criação de seres humanos para estes morrerem? Mark Romanek prefere antes concentrar as atenções no seu trio de protagonistas e na forma como estes aceitam o seu destino, numa obra capaz de levantar questões relevantes sobre a condição humana e a clonagem, despertar emoções, embora deixe a ideia que poderia ir muito mais além do que aquilo que nos dá. Diga-se que quando questionado sobre as razões para os personagens não procurarem fugir, Romanek salientou ser um desejo do próprio autor do livro: "Kazuo’s answer, in brief, is that there have been many films with stories about the kind of anomaly of brave slaves rebelling against an oppressive or immoral system, and he just isn’t as interested in telling that story as he was in the ways that we tend not to and the ways that we tend to accept our fates and the ways that we tend to lack the necessary wider perspective that would make that an option". Ficamos assim perante um conjunto de clones cuja alma é testada através da arte, numa obra tocante, terna e capaz de nos fazer questionar sobre os seus temas, ao mesmo tempo que beneficia de contar com um elenco de peso. As interpretações de Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley são competentes, a realização de Mark Romanek consegue incutir um realismo notório a este universo narrativo marcado por elementos de ficção-científica, enquanto o argumento é capaz de explorar a enorme amizade entre o trio de protagonistas, numa obra que é capaz de nos tocar profundamente e mexer com os nossos sentimentos.

Título original: "Never Let Me Go".
Título em Portugal: "Nunca Me Deixes".
Título no Brasil: "Não Me Abandone Jamais".
Realizador: Mark Romanek.
Argumento: Alex Garland.
Elenco: Carey Mulligan, Keira Knightley, Andrew Garfield, Sally Hawkins, Charlotte Rampling, Nathalie Richard, Domhnall Gleeson, Andrea Riseborough.

2 comentários:

Diego Morais Viana disse...

O autor do livro não quis falar de fuga, mas acho que seria bom falar pelo menos que não tinha como fugir, que era impossível, alguma coisa assim. Afinal, eles aceitam de forma muito conformada os seus destinos.

Anna Cebey disse...

Eu assisti a esse filme há um tempo e havia me esquecido quão horrorizada tinha me deixado. Não recomendo para pessoas que estão passando por momentos complicados. Vamos ver uma comédia, invés disso.
A interpretação dos protagonistas, tanto na primeira como na segunda fase é impecável. Tal como a fotografia.
Um filme intrigante é bem pertubador