19 janeiro 2015

Resenha Crítica: "Network" (1976)

 A guerra para conquistar as audiências encontra-se ao rubro em "Network", uma obra que apresenta com um tom mordaz e eloquente o lado negro da procura de algumas estações televisivas em cativarem a todo o custo a atenção do público. O filme foi lançado originalmente em 1976 mas continua a ter uma actualidade e relevância assustadoras, com Sidney Lumet a deixar-nos perante um drama capaz de abordar as alterações no interior das estações televisivas, expondo a procura cada vez mais agressiva dos seus elementos em conquistarem o público, ao mesmo tempo que crítica os responsáveis por estas medidas e as audiências que consomem o lixo que lhes é dado. Basta olharmos para a programação das principais estações televisivas nacionais para encontrarmos algo demasiado formatado: RTP, SIC e TVI têm programas matinais quase nos mesmos moldes; a programação da tarde não anda distante e já não vamos falar da febre dos reality shows que chegou a colocar-nos perante produtos como Big Brother, Survivor, Secret Story, Master Plan, Acorrentados e outros que tais. A televisão pode também ser um meio cruel, com as estrelas de outrora a poderem facilmente serem os elementos caídos em desgraça nos dias de hoje, algo que nos aparece representado na figura de Howard Beale (Peter Finch), o apresentador do Evening News, um programa de notícias do canal ficcional Union Broadcasting System, mais conhecido como UBS. O programa de Howard outrora fora líder de audiência, mas, tal como a sua vida privada (perdeu a sua esposa), foi gradualmente caindo em desgraça, indo ser cancelado dentro de duas semanas. Tudo muda quando Howard anuncia em directo que irá cometer suicídio dentro de uma semana, com a estação a ficar em polvorosa e o canal a ser notícia um pouco por todo o lado. Max Schumacher (William Holden), o seu melhor amigo e director da divisão de notícias da estação, o elemento responsável por lhe dar a notícia, procura resguardar o personagem interpretado por Peter Finch, embora Howard procure apresentar-se mais uma vez em público. Estes dois ainda carregam no seu interior uma visão idealista de jornalismo que não é partilhada pela maioria dos seus pares, incluindo a ambiciosa Diana Christensen (Faye Dunaway), a líder do departamento de programação da UBS, uma mulher praticamente sem grandes escrúpulos que apenas pretende o maior número possível de audiência. Diga-se que a política da estação mudou imenso desde que foi adquirida pelo conglomerado Communications Company of America (CCA), com Nelson Chaney a ser o presidente da emissora mas a não ter praticamente poder de decisão no interior da mesma, enquanto que Frank Hackett (Robert Duvall), um elemento ligado à CCA, vai conquistando maior poder junto de Arthur Jensen (Ned Beatty), o presidente máximo da estação. Quando Edward Ruddy (William Prince), o superior de Schumacher, tem um ataque cardíaco, logo Hackett assume o lugar, despedindo o personagem interpretado por William Holden, ao mesmo tempo que começa a deixar Diana Christensen, uma mulher capaz de mesclar a sua enorme frieza e sensualidade, ganhar poder no interior da estação. Outro elemento que surpreendentemente regressa ao estrelato é Howard Beale ao pedir para ter um último discurso onde expõe de forma furiosa as suas ideias, com o público a apreciar a ferocidade dos seus dizeres, embora pareça certo que este se encontra a decair cada vez mais do ponto de vista mental. É criado todo um circo mediático em volta do mesmo, com Diana a elaborar um espectáculo de variedades onde não falta uma mulher oráculo no programa a procurar prever as notícias, entre outras atracções no "Howard Beale Show".

 Peter Finch tem uma interpretação que facilmente deixa marca no espectador pela forma intensa como interpreta Howard Beale, um elemento caído em desgraça cuja queda no abismo a nível emocional parece ser a diversão de milhões de espectadores. Este representa um novo tipo de apresentador de programas que parecem ir de encontro ao público, com Diana Christensen a aproveitar-se desta situação, enquanto Peter Finch atribui um enorme vigor a este personagem e às suas falas. Beale vai da depressão à nostalgia, passando da fúria à inconveniência, tendo um programa moralmente reprovável, provavelmente até para os padrões do próprio nos dias de glória, mas que é capaz de conquistar o público. O argumento de Paddy Chayefsky dá espaço para Peter Finch trabalhar este personagem complexo, mas também a todo um conjunto alargado de actores, permitindo a William Holden, Faye Dunaway, Robert Duvall, Ned Beatty, entre outros sobressaírem nos respectivos papéis. William Holden como um director da divisão de notícias idealista e amigo de Beale, que procura a todo o custo resguardar o amigo e manter a independência na sua função. O despedimento conduz a que Max Schumacher procure seguir com a sua vida, acabando por iniciar um caso extra-conjugal com a fria Diana Christensen. Os dois não podem ser mais distintos. Max é um idealista. Diana é uma mulher que apenas pensa em alçar a estação televisiva ao sucesso, tendo mais orgasmos a pensar na liderança da audiência do que nos actos de cariz sexual. Faye Dunaway tem um dos grandes papéis do filme, com a personagem que interpreta a apresentar uma frieza notória, mas também algumas fragilidades, colocando o trabalho à frente de qualquer assunto pessoal, procurando a todo o custo alcançar o êxito. Para Diana não parecem existir limites morais para conquistar o público, incluindo filmar a morte em directo ou criar o "Mao Tse-Tung Hour", um programa sobre o "Ecumenical Liberation Army", um grupo comunista extremista que efectua actos como assaltos a bancos, entre outros gestos pouco recomendáveis. A ideia desta passa por colocar ainda uma líder comunista a comentar os acontecimentos, numa salganhada ideológica que pouco interessa a Diana desde que o público veja o programa e os líderes da estação fiquem satisfeitos com os números apresentados pelo mesmo, quer a nível de audiência, quer de patrocínios, quer da repercussão que gera nos restantes media. Dunaway arrasa como esta personagem entusiasmada por conquistar o público, sobressaindo não só nas cenas de maior intimidade com Max onde exibe um lado mais frio, mas também nos escritórios da estação televisiva, com estas salas fechadas a serem alguns dos palcos primordiais do filme. É nestes cenários que se desenrolam várias das medidas decisivas para a estação, com o personagem interpretado por Robert Duvall a ter em Diana um activo importante, enquanto Howard Beale é um dos trunfos pelo menos até ficar inconveniente e começar a perder audiências. Estamos em plena década de 70, o filme não tem problemas em explorar este contexto, mas também como elementos como Diana, Hackett e companhia procuravam a todo o custo captar o interesse e raiva do público para conquistar os seus corações e mentes. Existe um tom satírico a rodear toda esta representação da estação televisiva, parecendo valer tudo para conquistar a audiência e manter o financiamento do canal, algo visível na reunião entre Howard Beale e Arthur Jensen, com Ned Beatty a ter um grande momento de cinema no seu quase monólogo. A reunião entre Howard Beale e Arthur Jensen decorre numa sala praticamente às escuras, de enormes dimensões, decorada por uma mesa própria para reunir muita gente, embora apenas estejamos perante estes dois homens com ideias e ideais bem distintos.

 Arthur procura fazer com que Howard se retrate das críticas que efectuou ao investimento árabe na UBS expondo desde logo a sua visão sobre o Mundo: "Você acha que parou meramente uma negociação? Não! Não foi só isso. Os árabes têm tirado biliões de dólares deste país e agora eles devem devolvê-los! É a lei da gravidade, aquilo que sobe tem que descer. É o balanço ecológico! Você é um homem velho que pensa em termos de nações e pessoas. Não existem nações. Não existem pessoas. Não existem russos. Não existem árabes. Não existe terceiro mundo. Não existe Ocidente. Só há um sistema holístico de sistemas! Um vasto e imanente, interligado, interagente multi-variante, multinacional domínio de dólares! (...) É o sistema internacional da moeda corrente que determina a totalidade de vida neste planeta. Esta é a ordem natural das coisas hoje em dia. Esta é a estrutura atómica, sub-atómica e galáctica das coisas hoje em dia. E você mexeu com as forças primitivas da natureza!" A citação é longa mas é bem representativa dos ideais do personagem interpretado por Ned Beatty e da forma como este encara tudo o que o rodeia, com o actor a ter um momento único num filme marcado por excelentes diálogos, muitos deles quase monólogos, fruto de um argumento praticamente inatacável, capaz de explorar e problematizar as temáticas que nos apresenta, bem como de criar um conjunto de personagens completamente memoráveis que ganham e muito com o elenco de excelência e a realização imaculada de Sidney Lumet. Howard Beale é um indivíduo que facilmente desperta a nossa simpatia, que não parece estar completamente inteirado do abismo em que caiu, tendo de lidar com um mundo corporativo e um público que pouco parece ligar ao seu bem estar, com excepção de Max, aquele que parece ser o seu único amigo verdadeiro. Mesmo o personagem interpretado por William Holden, um elemento ponderado e já na casa dos seus sessenta anos, acaba por trair a mulher e cometer os seus erros, com a sua relação com Diana a parecer apenas um devaneio sem grande futuro que está destinado ao fracasso. O próprio Max parece saber disso, embora esta mulher desperte em si um enorme fascínio. Diga-se que vários dos personagens parecem conscientes das suas personalidades e do contexto que os rodeia, com excepção de Beale, cujo estado mental há muito parece ter conhecido melhores dias. Mesmo a relação de confiança de Diana Christensen e Frank Hackett parece estar sempre muito dependente da ambição e liderança das audiências, com ambos a partilharem a procura a todo o custo de arrasarem com a concorrência, mesmo que para isso fosse praticamente necessário entregarem um assassinato em directo. Duvall é mais um dos elementos que sobressai ao longo do filme, interpretando um elemento ambicioso, que faz parte de um enorme e triturador sistema que tem no lucro e audiências os objectivos primordiais. A perda de valores da sociedade, demasiado sujeita e submetida ao lucro, também é outro dos temas do filme, com "Network" a não criticar, com algum humor, drama e sátira à mistura, apenas estes elementos, mas também o público que consome os programas da estação e instiga o circo mediático em volta de Beale. Nesse sentido ficamos perante uma obra plena de actualidade que nos apresenta em parte àquilo em que se transformaram algumas estações televisivas, prontas a deixarem-nos com programas de conteúdos vazios mas de audiências recheadas no interior das respectivas grelhas.

Quem se lixa são os Howard Beales desta vida, com este a conhecer a queda como jornalista sério e a ascensão como "profeta louco", com a sua frase "I'm mad as hell, and I'm not going to take this anymore!" a ter ficado na memória do público da estação e do filme. "Network" sobressai ainda pelos grandes momentos de cinema e interpretações que nos proporciona. Seja Howard Beale a dizer para o público ir gritar para a janela e vermos várias pessoas a gritarem, seja Diana e Max numa cena de sexo onde a intimidade é corrompida pelo discurso desta sobre o trabalho, seja o personagem interpretado por William Holden a contar ao amigo no início do filme que este vai ser despedido, seja Robert Duvall em momentos de enorme gritaria, com Sidney Lumet a controlar o filme como poucos. Diga-se que Lumet também é inteligente o suficiente para deixar os seus personagens proferirem praticamente monólogos com enorme classe ao mesmo tempo que o elenco exibe o seu talento, com Peter Finch a aparecer praticamente possuído como Howard Beale no programa onde é exposto quase como um profeta. Esse sempre foi o objectivo de Diana assim que tomou conta do programa de Beale, algo que salienta "Eu vejo Howard Beale como um tipo de último profeta tardio, um Messias que critica toda a hipocrisia dos nossos dias. Um novo Martinho Lutero de Segunda à Sexta.". Esta também apresenta ideias meio lunáticas e sensacionalistas que adensam o tom satírico do filme, com "Network" a surgir como uma obra praticamente obrigatória sobre as temáticas ligadas à televisão e ao jornalismo televisivo. Os próprios momentos iniciais do filme deixam-nos perante as escolhas efectuadas para serem colocadas no noticiário, com algumas das notícias a serem seleccionadas mais devido ao seu sensacionalismo, com "Network" a deixar-nos perante uma escalada que não parece ter limites em busca das audiências. O edifício da UBS é marcado por elevadas proporções, com o seu exterior a ser filmado logo no início do filme, embora Sidney Lumet interesse-se é pelos seus gabinetes, pelos escritórios fechados e os bastidores dos programas que chegam ao público, procurando problematizar as temáticas apresentadas ao mesmo tempo que dá espaço para o espectador reflectir sobre as mesmas e ainda divertir-se um pouco com os exageros colocados em algumas das cenas e atitudes dos personagens. Com uma realização praticamente exímia de Sidney Lumet, um argumento recheado de bons diálogos, grandes momentos de cinema e excelentes interpretações, "Network" continua a apresentar uma assustadora relevância nos dias de hoje, com vários dos temas em debate a continuarem na ordem do dia e a merecerem a nossa atenção.

Título original: "Network". 
Título em Portugal: "Escândalo na TV". 
Realizador: Sidney Lumet. 
Argumento: Paddy Chayefsky.
Elenco: Faye Dunaway, William Holden, Peter Finch, Robert Duvall, Ned Beatty.

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