13 janeiro 2015

Resenha Crítica: "Laggies" (Encalhados)

 Existem casos de filmes que por vezes prendem a nossa atenção sem precisarem de muito. "Laggies" é um desses casos. O enredo está longe de ser original, o argumento não foge das convenções dos romances, a cinematografia é incapaz de sobressair, as suas reviravoltas são mais do que esperadas, os momentos pouco plausíveis surgem em doses acima da média, mas o seu elenco e os personagens que os actores e actrizes interpretam facilmente despertam a nossa atenção e fazem com que "Laggies" se torne num romance agradável de visionar. Diga-se que o próprio universo narrativo que fica entre a realidade e o conto de fadas que Lynn Shelton nos apresenta contribui para aos poucos acreditarmos nestes personagens e na sua história. A realizadora não inventa, nem procura correr grandes riscos, escolhendo os momentos certos para efectuar determinadas revelações e reviravoltas, conseguindo aproveitar a enorme dinâmica entre Keira Knightley e Chloe Moretz, mas também a química entre a primeira e Sam Rockwell, ao mesmo tempo que parece dar tudo aquilo que o espectador espera. Ficamos perante um romance marcado por muito humor, alguns momentos mais dramáticos, mas também diante de uma relação de amizade improvável entre uma mulher a chegar à casa dos trinta e uma adolescente que apresentam imensas dúvidas em relação ao futuro. A mulher na casa dos trinta anos de idade é Megan (Keira Knightley). A jovem adolescente de dezasseis anos de idade é Annika (Chloe Moretz). Geralmente assistimos a crises aos quarenta ou cinquenta anos de idade. No caso de Megan a sua crise chega aos vinte e oito anos, acompanhada por atitudes de alguém que ainda parece pensar estar no ensino secundário. Existem alguns momentos que definem bem a despreocupação desta personagem em relação à vida. Veja-se como se movimenta de forma desengonçada a exibir o sinal para o local de trabalho do seu pai enquanto ouve música, ou quando se atira para o sofá como se tivesse vindo das aulas, ou brinca com uma tartaruga anorética ao subir e descer a mesma, entre vários outros momentos. Megan não tem um emprego motivante e condizente com os seus estudos, não sabe o que fazer da vida, mantém uma relação sentimental com Anthony (Mark Webber), o seu namorado desde a adolescência, para além de contar com as mesmas amigas desde essa idade. Diga-se que Megan não parece ter amadurecido muito, ou pelo menos manteve muita da jovialidade dos tempos de infância, algo visível quando resolve apertar os mamilos de uma estátua do Buda, uma situação que deixa as suas amigas desconfortáveis, embora para ela seja apenas uma piada sobre mamas. Todos em sua volta parecem estar a traçar planos para o futuro, enquanto Megan não tem praticamente nada em vista, nem pretende ter amarras que a impeçam de cumprir possíveis sonhos. Allison (Ellie Kemper), uma das suas melhores amigas, decide casar-se, enquanto que Savannah e Theo pretendem que esta e Anthony sejam os padrinhos dos seus filhos. Tudo piora quando Anthony decide pedi-la em casamento, algo que a leva a passar-se por completo, embora procure não demonstrá-lo junto do mesmo. Anthony é um indivíduo que parece pronto a tomar o próximo passo na sua vida, após vários anos de procrastinação, surgindo como um indivíduo algo afável, aparentemente de boa índole que está longe de pensar que o pedido de casamento deixaria a namorada tão melindrada. Megan quer manter tudo como está, temendo seguir o caminho das suas amigas (casar, ter filhos, etc.). Esta trabalha a expor na rua o sinal para o escritório de contabilidade e conselhos fiscais do seu pai, apresentando uma personalidade próxima de uma adolescente ainda que em corpo de adulto, atravessando uma crise para a qual não parece encontrar resolução.

 Keira Knightley surge longe das personagens de época de "Pride & Prejudice", "Atonement", "The Edge of Love", "The Duchess", entre outras, apresentando uma faceta mais leve, algo que já tinha feito no agradável "Begin Again", conseguindo mais uma vez criar uma protagonista feminina que gera empatia com o espectador, independentemente do argumento por vezes esticar a corda nas situações em que coloca a mesma. Esta sobressai nos momentos de humor quer mais físico, quer de situação, destacando-se a boa dinâmica que mantém com Chloe Moretz. As personagens interpretadas por Knightley e Moretz encontram-se pela primeira vez quando Megan está na rua e encontra Annika (Chloe Moretz) e um conjunto de colegas, com a adolescente a pedir se a primeira pode comprar bebidas alcoólicas para o grupo. Megan não vê grandes problemas nisso e acaba por fazer uma alargada compra de bebidas alcoólicas e snacks, aproveitando pelo caminho para testar o skate destes jovens, algo que não faz desde a adolescência. Diga-se que Megan ainda toma umas quantas bebidas, acabando por formar amizade com Annika que lhe oferece um dos vários telemóveis que conta devido a Misty (Kaitlyn Dever), uma das suas melhores amigas, ser filha do dono de uma loja que vende estes aparelhos. Annika vive com Craig (Sam Rockwell), o seu pai, um advogado divorciado, com a mãe desta a ter saído de casa há sete anos. Megan e Annika acabam por surpreendentemente formar amizade, com a primeira a funcionar como uma espécie de mãe e irmã mais velha da segunda, apesar de por vezes ser tão infantil como a mesma. Veja-se quando Annika telefona a Megan para esta fingir que é a mãe da adolescente junto da directora da escola, com a personagem interpretada por Keira Knightley a mostrar-se claramente desconfortável com a situação, protagonizando um momento algo caricato ao mesmo tempo que efectua alguma introspecção sobre os seus planos a longo prazo. De forma a fugir temporariamente de tomar decisões, Megan decide enganar Anthony e dizer que vai frequentar um seminário durante uma semana e posteriormente irão casar, aproveitando este período para esconder-se na casa de Annika. O problema é que o pai desta facilmente descobre a presença de Megan, surgindo quase como um duplo do espectador ao interrogar a protagonista se esta sabe o quão estranha é toda esta situação de uma adulta formar amizade com uma adolescente. Nem ela sabe explicar de forma articulada o porquê de se ter escondido no quarto da jovem, mas apresenta uma ingenuidade difícil de não contagiar, acabando por ficar temporariamente instalada na casa de hóspedes, após dizer que o contrato de arrendamento da sua habitação terminou e necessita de uma semana até se mudar para uma nova casa. Escusado será dizer que Megan aos poucos estabelece uma relação de proximidade com Craig, chegando mesmo a envolver-se com o mesmo, tal como irá procurar ajudar Annika em questões relacionadas com o baile de finalistas e prestar conselhos à jovem sobre o interesse desta em Junior (Daniel Zovatto). Lynn Shelton procura elaborar uma versão feminina do "bromance", entre as personagens interpretadas por Keira Knightley e Chloe Moretz, com ambas as actrizes a explorarem a capacidade que têm em elaborar personagens dignas de alguma atenção. Moretz sobressai sempre mais a interpretar personagens com alguma força e personalidade, algo que acontece em "Laggies", ao dar vida a uma adolescente a lidar com questões como o primeiro amor, a falta da sua mãe, a rebeldia própria da idade, a ansiedade em relação ao baile de finalistas, encontrando em Megan um apoio relevante. Já Keira Knightley interpreta uma das protagonistas mais leves da sua carreira recente, a par do que efectuara em "Begin Again", com a sua personagem a procurar colocar as ideias em dia, ainda que de forma algo estranha, tendo numa adolescente uma confidente inesperada que a expõe diante de um conjunto de possibilidades inerentes à juventude que esta parecia ter-se esquecido.

 A dinâmica convincente entre Keira Knightley e Chloe Moretz, aliadas a uma procura de Lynn Shelton em expor esta amizade inusitada entre Megan e Annika como se fosse algo possível, conduz a que muitas das vezes consigamos abstrair-nos das situações algo irreais que o enredo nos apresenta. Knightley interpreta com convicção uma mulher que por vezes parece uma adolescente, com "Laggies" a não poupar alguns momentos onde Megan surge claramente deslocada, tais como uma festa de amigos de Annika, parecendo sempre estranho ver uma mulher de vinte e oito anos num espaço rodeado de jovens adolescentes. É um dos vários momentos em que o enredo de "Laggies" cai em excessos, enquanto aguardamos pelo momento em que Annika e o pai vão descobrir que Megan tem um namorado e está noiva, algo que não é assim tão surpreendente, sobretudo se tivermos em conta o género cinematográfico no qual se insere "Laggies", com Lynn Shelton a não primar pela originalidade. Esta é a primeira longa-metragem realizada por Shelton através de um argumento que não foi escrito pela própria, com a cineasta a procura investir menos no improviso entre os seus actores e actrizes do que efectuara nos seus filmes anteriores, embora "Laggies" tenha como ponto forte a interacção entre os diferentes personagens. Veja-se a química entre Keira Knightley e Sam Rockwell, com este último a interpretar um personagem longe das excentricidades que o costumamos encontrar a efectuar em obras como "Seven Psychopaths" ou "Iron Man 3". Rockwell interpreta um advogado aparentemente sensato, algo solitário, que tem em Megan a presença de uma figura feminina mais velha que finalmente parece preencher a falta de alguém para aconselhar a filha, algo que este não consegue efectuar embora seja bem intencionado. O envolvimento entre os dois já seria de esperar, com a dupla a apresentar sempre maior química do que Keira Knightley e Mark Webber, algo que facilmente faz com que o espectador seja conduzido a torcer pelos personagens interpretados pelo primeiro par. No entanto, vale a pena realçar que "Laggies" procura evitar uma representação maniqueísta de Anthony, com este a estar longe de ser um indivíduo antipático, bem pelo contrário, com a sua decisão em casar a fazer despertar várias das dúvidas da protagonista em relação ao seu futuro. Esta não sabe bem o que fazer da vida, encontrando-se ainda demasiado presa ao passado e farta que tomem opções por si. A nível profissional continua sem certezas, o seu namorado é o mesmo da adolescência, o grupo de amigos também, continuando a viver com os pais e a depender imenso destes. Existe ainda uma subtrama relacionada com uma traição do pai de Megan à esposa, algo que é explorado de forma relativamente pueril, embora atribua um pouco mais de densidade à relação destes dois elementos, com Lynn Shelton a ter o mérito de procurar apresentar uma história onde as personagens femininas estão no centro de tudo, apresentando problemas com os quais muitas das vezes qualquer um de nós se pode identificar. Quem é que nunca teve dúvidas em relação ao que está a fazer com a sua vida? Quem nunca teve dúvidas em determinados momentos das relações amorosas? Quem é que nunca teve dúvidas a nível profissional? Já para não falar desta ter concluído uma licenciatura que basicamente não lhe serve para nada (ora aí está algo em que me posso identificar com a personagem), tendo de lidar com algo para o qual ainda não parecia estar preparada: as responsabilidades da idade adulta e a programação de planos a longo prazo. O filme acaba até por jogar um pouco com a ideia dos jovens estarem cada vez mais tempo sob a alçada dos pais e manterem atitudes próximas da adolescência mesmo depois dos vinte e muitos de idade, ainda que num registo exagerado para dar um tom cómico à situação, procurando sempre evitar grandes conflitos ou desafiar o espectador. Com uma estrutura narrativa previsível, alguns momentos de maior romantismo e humor, "Laggies" surge como um romance capaz de despertar alguma simpatia e explorar a sua premissa principal, ancorando-se na dinâmica entre Chloe Moretz e Keira Knightley para sair da mediania, enquanto esta última prova que é uma actriz de enorme talento, seja qual for o registo do filme em que se apresenta.

Título original: "Laggies". 
Título em Portugal: "Encalhados". 
Realizadora: Lynn Shelton.
Argumento: Andrea Seigel.
Elenco: Keira Knightley, Chloë Moretz, Sam Rockwell, Kaitlyn Dever, Jeff Garlin, Ellie Kemper, Mark Webber.

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