12 janeiro 2015

Resenha Crítica: "The Imitation Game" (O Jogo da Imitação)

 A certa altura de "The Imitation Game" assistimos a um momento emocionalmente poderoso entre os personagens interpretados por Benedict Cumberbatch e Keira Knightley, no qual esta salienta: "Now, if you wish you could have been normal. I can promise you I do not. The world is an infinitely better place precisely because you weren't". Existe uma enorme carga emocional a rodear esta troca de diálogos no último terço, com a dupla a mostrar ser merecedora dos mais variados elogios pela densidade e complexidade que conseguem colocar nos personagens que interpretam, ao longo de uma obra que inicialmente apresenta uma estrutura narrativa que se estranha, intercalando a infância de Alan Turing, os momentos em que este consegue ser contratado para integrar uma equipa designada para decifrar o código da máquina Enigma dos Nazis e o período posterior à II Guerra Mundial, mas tudo ganha um sentido prático no último terço do filme. Alan Turing é representado como uma figura que aprecia resolver puzzles, pelo que Morten Tyldum decidiu estruturar partes da história da sua vida de modo a posteriormente complementarem-se de forma homogénea, uma situação que o próprio comentou em entrevista ao Coming Soon: "I mean, he was obsessed with puzzles, so the whole ideas was that he had to piece him together to understand him a little bit, to understand that he’s gay. That’s why he’s hiding the break in. You’re piecing the whole character together as the movie goes along and that was the big structural idea of the whole movie. It’s created as a mystery". Ficamos perante o presente, em 1951, e vários flashbacks que variam entre a II Guerra Mundial (o fulcro do filme) e a infância do protagonista. Turing não é uma figura comum, bem pelo contrário e é exactamente essa situação que o torna num personagem fascinante de descobrir ao longo de "The Imitation Game". As palavras de Joan Clarke (Keira Knightley) assim o evidenciam e os seus comportamentos ao longo do filme logo tratam de corroborar. Liberdades históricas à parte, "The Imitation Game" surge desde logo como uma obra de algum relevo nem que seja por suscitar alguma curiosidade para saber mais sobre esta figura fundamental durante a II Guerra Mundial, embora muitos dos seus feitos nem sempre tenham sido exaltados, com a sua vida a terminar de forma trágica aos quarenta e um anos de idade devido a ter cometido suicídio após ter sido sujeito a um programa de castração química devido a ser homossexual. Este surge representado como um matemático introvertido, frio, inteligente, mais capacitado a decifrar puzzles e enigmas do que a lidar com os seres humanos, que é contratado para uma operação secreta tendo em vista a decifrar os códigos da máquina Enigma dos Nazis, em plena II Guerra Mundial. A arrogância de Turing na entrevista é extrema, com este a revelar-se "agnóstico" em relação à Guerra e a apresentar uma postura petulante perante o Comandante Alastair Denniston (Charles Dance), um indivíduo pouco dado a grandes impertinências que acaba por o integrar no projecto. Estes não podem revelar a ninguém que se encontram a participar no programa que é inicialmente liderado por Hugh Alexander (Matthew Goode), um exímio jogador de xadrez e especialista em decifrar códigos, um indivíduo que vai chocar de frente com o protagonista, com as personalidades fortes de ambos a serem testadas. Na equipa encontram-se ainda elementos como Christopher Morcom (Jack Bannon), Peter (Matthew Beard), Keith e Charles. Enquanto os restantes elementos trabalham em equipa a procurar decifrar as mensagens através de uma máquina Enigma furtada, Alan Turing procura criar sozinho uma máquina para descodificar os códigos dos Nazis, ao invés de seguir o método obsoleto dos seus colegas. É alvo de desconfiança e troça, quase acabando por ser despedido por Alastair, mas uma carta enviada a Winston Churchill, através do General Stewart Menzies (Mark Strong), conduz a que seja colocado à frente do projecto. É desde logo implacável ao despedir Keith e Charles por incompetência, trazendo para o projecto Jack Good (James Northcote) e Joan Clarke, após um concurso a nível nacional que conduz estes elementos a Bletchley Park, o local onde estes personagens se encontram a investigar (diga-se que este local foi utilizado para as filmagens),

A personagem interpretada por Keira Knightley é a única mulher no meio destes homens, algo que inicialmente até leva a que seja confundida como candidata a secretária, com "The Imitation Game" a procurar exacerbar a sua presença, com esta a ser um importante apoio para o protagonista durante alguns momentos fulcrais da narrativa. Joan é uma mulher habituada a estar sob a alçada dos pais, que aos poucos revela a sua forte personalidade, apresentando uma inteligência acima da média e capacidade de ser um dos poucos elementos a compreender Alan e a conseguir que este aprenda a colaborar em equipa. Esta não tem problemas em desafiar Alan e a colocá-lo perante a sua constante incapacidade de expressar os sentimentos correctamente, chegando muitas das vezes a ironizar com a relação de ambos. Veja-se quando este entra a meio da noite com um conjunto de documentos e Joan salienta que os homens costumam trazer flores, ou quando procura salientar a incapacidade deste em agradecer, entre vários momentos que revelam o espírito sardónico desta mulher, algo que Keira Knightley consegue expor com enorme à vontade. Não existe romance entre os dois, embora cheguem a ficar noivos, algo que não avança devido a Alan ser homossexual, um segredo que o protagonista procura manter longe do conhecimento daqueles que o rodeiam. Existe uma enorme subtileza na forma como este personagem consegue reprimir os seus sentimentos, que são expostos ao longo dos flashbacks da sua infância, onde pela primeira vez este se apercebe da sua orientação sexual. Na época ser homossexual era considerado um crime, algo que este procura esconder de tudo e todos, embora alguns elementos desconfiem, incluindo a própria Joan. Turing surge assim como uma figura complexa e intrigante, com Benedict Cumberbatch a conseguir explorar não só as características latentes do personagem que interpreta, mas também as pequenas nuances que facilmente o transformam numa figura que gera empatia, mesmo quando a sua arrogância o leva a ser considerado um monstro por aqueles com quem trabalha e não o conhecem bem. Estamos em plena II Guerra Mundial. "The Imitation Game" não poupa no sentido de urgência destes elementos em conseguirem decifrar o código para poderem ler as mensagens enviadas pelos alemães, enquanto Alan procura ganhar tempo para construir, em equipa, uma máquina que os colocará à frente dos Nazis e perante um conjunto de dilemas morais difíceis de lidar. Ficamos perante os bastidores da Guerra, perante aqueles que não foram para o campo de batalha, mas ajudaram de forma indelével a salvar vidas e a vencer o conflito, embora não tenham ficado com os louros da vitória. Como é salientado no filme, estima-se que, ao quebrar o código da Enigma, Turing e a sua equipa tenham conseguido encurtar a Guerra em dois anos e salvar a vida de cerca de catorze milhões de pessoas. Estamos perante uma história fascinante, intensa e a espaços inquietante, com "The Imitation Game" a conseguir manter a nossa curiosidade em relação à elaboração da máquina preparada por Alan Turing, mas também aos episódios que se sucederem posteriormente à II Guerra Mundial com o filme a ganhar traços de thriller. Veja-se que "The Imitation Game" começa com uma investigação a um possível assalto à casa de Alan Turing, com o Detective Nock (Rory Kinnear) a procurar averiguar o caso e o passado do protagonista. A narrativa logo recua para 1939, quando o protagonista é contratado, com o filme a ser capaz de exibir o porquê deste indivíduo ter sido tão relevante, especial e genial, com o comentário óbvio do elogio à diferença a ficar bem presente. Várias liberdades históricas são tomadas, mas Morten Tyldum, na sua estreia a realizar um filme em inglês, consegue que as mesmas sirvam a narrativa e os propósitos cinemáticos das mesmas, enquanto Benedict Cumberbatch exibe mais uma vez  ser um actor de enorme talento. É particularmente sublime ver o actor a colocar sentimento na elaboração deste aparelho, com o argumento a explorar que esta obsessão de Turing em querer criar uma máquina quase com inteligência artificial encontra-se ligada a uma perda no passado (exposta nos flashbacks), com o protagonista a surgir como alguém genial, complicado, mas incrivelmente frágil.

Benedict Cumberbatch consegue ainda sobressair nos trechos de maior alívio cómico, sobretudo nos momentos mais petulantes do personagem ou quando este leva demasiado à letra aquilo que lhe dizem, com "The Imitation Game" a procurar muitas das vezes descomprimir, com sucesso, o espectador dos momentos de maior carga dramática. Este surge ainda acompanhado por um elenco secundário que a espaços consegue sobressair, para além da já mencionada Keira Knightley. Essa situação surge inerente à procura de Morten Tyldum em investir na dinâmica de funcionamento do grupo de trabalho para a elaboração da Christopher, a máquina arquitectada por Turing, e a procura em decifrarem os códigos nazis, algo que permite a actores como Matthew Goode, James Northcote e Jack Bannon destacarem-se. A demora em conseguirem que a máquina funcione por vezes conduz o grupo a situações desesperantes, mas a sua colocação em funcionamento deixa-os ainda perante mais dúvidas do que esperavam em relação à utilidade a dar à informação recebida. Temos ainda casos como o de Mark Strong como Menzies, um agente do MI6 que é um estratega nato, um indivíduo algo dissimulado que não tem problemas em mentir a quem quer que seja para conseguir os seus intentos e ser bem sucedido. Diga-se que o próprio Alan Turing em alguns momentos apresenta uma frieza perturbadora, com "The Imitation Game" a deixar-nos perante a crueza da guerra e a necessidade de por vezes serem tomadas algumas decisões moralmente questionáveis para a obtenção de uma vitória final. A representação da II Guerra Mundial e como esta afectou a Inglaterra é representada não só na Blitz alemã, mas também pelo contingente militar britânico que é enviado para o exterior do país e até nas notícias dos avanços alemães. Os revezes na Guerra e na construção da Christopher, a máquina para decifrar os códigos nazis, conduz a que os sentimentos por vezes se exaltem, enquanto assistimos a toda esta luta de Alan Turing em conseguir construir o aparelho e efectuar avanços notáveis a nível tecnológico. A banda sonora de Alexandre Desplat consegue ritmar os acontecimentos, mas é a precisão a controlar os ritmos do enredo de Morten Tyldum, quer a aumentar a tensão, quer em momentos de maior alívio, bem como as interpretações, que elevam "The Imitation Game". Morten Tyldum teve a vida relativamente facilitada. O material que teve de adaptar, baseado no livro "Alan Turing: The Enigma" de Andrew Hodges, é interessante o suficiente para captar a nossa atenção, enquanto o realizador consegue manter o nosso interesse nos vários episódios do enredo e no desenvolvimento dos personagens. A própria delicadeza e humanidade com que aborda a temática da homossexualidade de Alan Turing são paradigmáticas da assertividade do realizador, com Benedict Cumberbatch a ser capaz de expressar de forma sublime os sentimentos que passam pela cabeça do personagem que interpreta. O momento em que revela a Joan Clarke, após pedir a mesma em casamento, que é homossexual é revelador da enorme dinâmica entre Benedict Cumberbatch e Keira Knightley, algo que advém não só do argumento mas também da excelência destes dois actores. Diga-se que Knightley não é propriamente uma novata em filmes onde a II Guerra Mundial surge como pano de fundo, algo visível em "Atonement" e "The Edge of Love", com este último a expor-nos também à blitz alemã ao território londrino.

Keira Knightley volta a interpretar uma personagem que se destaca num meio onde as mulheres ainda não se conseguem impor, com o argumento a procurar explorar o facto de estarmos perante dois elementos que em condições normais seriam colocados meio de lado pela sociedade, que conseguem ter um papel de relevo na elaboração de um aparelho que salvou milhares de vidas. O próprio grupo de trabalho é formado por indivíduos meio à parte da sociedade que são génios na arte de decifrar códigos e na elaboração de aparelhos informáticos mas apresentam claras lacunas a nível de integração na sociedade que os rodeia. É o elogio de "The Imitation Game" à diferença, ao mesmo tempo que fica subentendido um apelo à aceitação da mesma. Independentemente da raça, cor, religião, opções sexuais, feitios, somos todos seres humanos com qualidades e defeitos, embora no período de tempo retratado a homossexualidade de Turing tenha conduzido a consequências nefastas para o mesmo (vale a pena realçar que nem cem anos se passaram). Ao informarmo-nos minimamente sobre a vida de Alan Turing os episódios retratados em "The Imitation Game" poderiam facilmente perder impacto na representação para o grande ecrã, mas Morten Tyldum consegue que o filme mantenha sempre a nossa atenção, ancorando-se numa interpretação sublime de Benedict Cumberbatch, mas também na intriga internacional. Veja-se a procura em tentar decifrar os códigos nazis, as tentativas de lado a lado em ludibriar o inimigo, tendo como enfoque os gabinetes secretos por onde trabalharam Turing e companhia. Tyldum evita explicar em demasia toda a ciência em volta das transmissões e da construção da máquina, procurando antes focar-se na relevância dos aliados estarem à frente dos alemães e assim terem finalmente hipóteses de os derrotarem. No final ficamos perante a representação de um homem genial e da relevância das pessoas que o rodearam, um grupo de outsiders de enorme inteligência, mas também dos preconceitos da época e a forma degradante como Alan Turing foi ostracizado devido às sua orientação sexual. Muitos episódios relevantes da vida de Alan Turing ficam de fora, tais como o período no pós-Guerra no qual trabalhou no Laboratório Nacional de Física do Reino Unido, onde criou um dos primeiros projetos para um computador com um programa armazenado (ACE), mas Morten Tyldum procurou antes focar-se em três períodos específicos da vida deste homem que em certa parte retratam um pouco quem foi este matemático, criptoanalista e cientista de computação brilhante. Poderia ter sido mais incisivo na representação dos preconceitos da sociedade em relação à homossexualidade, embora a questão seja devidamente abordada. Já no que diz respeito à infância de Alan Turing ficamos diante de alguns dos momentos mais delicados do filme, em particular a sua inadaptação a tudo e a todos, formando uma forte ligação com Christopher, um elemento que marcará a sua vida, com Alex Lawther a ter uma interpretação convincente como o jovem Turing. O próprio guarda-roupa procura respeitar o espírito da época, saltando à vista os chapéus utilizados pelas mulheres, mas também o facto das peças se adequarem e muito às personalidades dos personagens. "The Imitation Game" surge assim como um filme biográfico relevante, interessante, a espaços inquietante, competente na representação dos períodos de tempo em que se desenrola o enredo ao mesmo tempo que nos deixa perante mais uma demonstração de talento por parte de Benedict Cumberbatch e Keira Knightley. Não apresenta a complexidade do código da Enigma, nem pretende, procurando antes compelir o espectador a envolver-se perante esta história que varia entre o drama, o thriller, o humor e o estudo de personagem. A maior ironia é que um indivíduo que contribuiu para salvar milhões de vidas no final tenha sido conduzido a uma situação desesperante que o levou ao suicídio. A 24 de Dezembro de 2013, Alan Turing recebeu o perdão póstumo por parte da rainha Elisabete II. Depois de ver "The Imitation Game" e pesquisar um pouco sobre a vida de Alan Turing a questão que se coloca é: qual foi o crime cometido para ter de ser perdoado?

Título original: "The Imitation Game". 
Título em Portugal: "O Jogo da Imitação". 
Realizador: Morten Tyldum.
Argumento: Graham Moore.
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Mark Strong, Charles Dance, Allen Leech, Matthew Beard, Rory Kinnear.

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