27 janeiro 2015

Resenha Crítica: "Gion no shimai" (As Irmãs de Gion)

 Uma das primeiras obras-primas de Kenji Mizoguchi, "As Irmãs de Gion" coloca-nos perante temáticas transversais às obras do cineasta, tais como o papel das mulheres na sociedade, a lealdade da figura feminina ao elemento masculino, o sofrimento humano, a condição das gueixas, entre outras. Existe algum lirismo e dramatismo a rodear o enredo do filme, enquanto somos apresentados a Umekichi (Yoko Umemura) e Omocha (Isuzu Yamada), as irmãs de Gion do título, duas mulheres muito distintas e com visões dicotómicas em relação à profissão. Umekichi é a irmã mais velha, uma mulher pouco dada a desafiar o destino, algo acomodada, que ama Shimbei Furusawa (Benkei Shiganoya), um homem de negócios casados cuja loja foi à falência. Este não tem posses, tendo abandonado a esposa e o filho, indo viver na okiya com as duas irmãs, uma situação que desagrada a Omocha. A personagem interpretada por Isuzu Yamada é pragmática em relação à profissão, parece desprezar todos os homens por igual, procurando a todo o custo um protector abastado, sendo pouco dada a sentimentalismos, incluindo junto de Kimura (Taizo Fukami), um pretendente que trabalha numa loja de tecidos. Omocha recebeu educação escolar, procurando apresentar uma certa independência que a irmã não é capaz. Umekichi foi educada numa casa de gueixas, surgindo submissa em relação ao homem, apresentando valores de lealdade e uma procura de não mexer com o status quo, algo que fica particularmente evidente quando salienta: "não consigo enfrentar o Mundo de cabeça erguida". Estas vivem no distrito de Gion, um local onde podem praticar a sua profissão sem problemas, embora esta actividade esteja longe de ser rentável ou segura visto que ambas não contam com um patrono rico. Tudo piora quando Omocha procura afastar a irmã de Furusawa, mas também quando humilha Kimura junto do chefe depois de ter procurado que este oferecesse um quimono bastante caro para Umekichi poder participar num evento de dança. Temos ainda Jurakudo (Fumio Okura), um negociante de antiguidades, que anteriormente efectuara negócios com Furusawa e nos dias de hoje apresenta interesse por Umekichi, em parte devido a Omocha procurar reuni-los. Kenji Mizoguchi apresenta um tom algo pessimista na exposição da história destas duas mulheres cujos comportamentos, sejam estes marcados por valores de lealdade ou de interesse, parecem contribuir pouco para alterar os seus destinos, com estas a estarem marcadas pelo trágico destino desta profissão e de uma sociedade que não as consegue integrar.

 As últimas palavras proferidas por Omocha no final de "Gion no Shimai" traduzem bem a mensagem clara de defesa pelos direitos das mulheres de Kenji Mizoguchi: "Se somos desonestas no trabalho criticam-nos. O que podemos fazer? O que é que querem que façamos? Porque temos de sofrer tanto? Por que é que existem gueixas neste Mundo? Têm mesmo de existir? Isso está errado. Está completamente errado. Eu queria... Eu queria que elas nunca tivessem existido!". Ficamos perante um dos momentos mais poderosos a nível emocional de "Gion no Shimai", com Isuzu Samada a revelar de forma magnífica as fragilidades que até então a sua personagem tinha procurado esconder. A irmã pouco parece poder fazer e diga-se que provavelmente nem tentaria alterar a situação, deixando-se conduzir pelo destino, aceitando o seu estatuto social. O destino é trágico para estas duas mulheres, sejam estas leais ou não, com ambas a serem meros joguetes na figura dos homens. É certo que Omocha apresenta uma atitude algo fria e oportunista em relação à figura masculina, mas tendo em conta os acontecimentos ocorridos não poderemos deixar de pensar se esta não será uma medida de defesa, sobretudo se tivermos em atenção a atitude final de Furusawa para com a irmã. As figuras masculinas não são representadas de todo da forma mais simpática: Furusawa abandona inicialmente a mulher, vive às custas das duas irmãs, não tem problemas em acreditar numa mentira e sair com dinheiro sem hesitar; Kimura parece apresentar sentimentos reais por Omocha, embora não tenha problemas em procurar a sua atenção através de um quimono e expor um lado mais violento quando é humilhado; Jurakudo procura ser o protector de Umekichi apesar da ligação desta a Furusawa, um indivíduo por quem supostamente até tinha alguma estima; Kudo (Sakurako Iwama), o chefe de Kimura, não tem problemas em enganar a esposa e trair o funcionário ao procurar os serviços de Omocha, ou seja, estamos perante um conjunto de personagens masculinos para quem o papel da mulher na sociedade apenas parece ser o de submissão. Kenji Mizoguchi procura dar alguma dimensão a estes personagens, estabelecendo os seus motivos, explorando a forma como cada um destes elementos se comporta com as mulheres, embora o destaque esteja nas irmãs do título. A okiya surge como habitação e prisão, um espaço que enclausura os sonhos destas mulheres em mudarem de vida ou cumprirem os seus objectivos. Se a okiya surge como um local de clausura, já a loja vazia de Furusawa representa um esvaziar dos sonhos, com Mizoguchi a aproveitar paradigmaticamente o fora de campo quando nos coloca no início do filme perante o leilão das peças do local. Temos Furusawa e o funcionário num lado, o leilão a decorrer no outro, enquanto noutro espaço da casa encontramos a esposa e o filho do personagem interpretado por Benkei Shiganoya, com o núcleo familiar a parecer desintegrar-se com a mesma rapidez a que os objectos se encontram a ser vendidos. 

Existe um enorme cuidado na elaboração e aproveitamento dos cenários, com Kenji Mizoguchi a fazer-nos recordar das obras de Ozu, algo também visível nos planos de longa duração, embora o método de filmar seja distinto dos trabalhos da fase mais madura deste último. Apesar de contarmos com diversos planos fixos, a câmara apresenta alguma mobilidade (veja-se os travellings), por vezes pronta a exacerbar a incerteza e dor em volta das protagonistas, algo latente nos momentos finais quando se aproxima gradualmente do rosto da personagem interpretada por Isuzu Yamada, enquanto esta e Yoko Umemura sobressaem a dar vida a estas mulheres com destinos trágicos. Umemura atribui à sua personagem uma enorme calma e sobriedade, sendo notório que esta parece pouco disposta a tomar opções complicadas, contentando-se com aquilo que o destino lhe dá. Já Yamada expõe na perfeição o carácter ambicioso de Omocha, com esta e a irmã a apresentarem fortes diferenças comportamentais (bem como no guarda-roupa com a mais nova a utilizar roupas ocidentais quando está fora do seu oficio, ao contrário de Umekichi) embora sejam bastante ligadas uma à outra. No fundo estas irmãs apenas se têm uma à outra, algo visível no último terço, onde a solidão da profissão destas personagens fica paradigmaticamente demonstrada e a intimidade entre ambas bastante refletida. Yoko Umemura e Isuzu Yamada colaboraram com Mizoguchi noutras ocasiões, exibindo paradigmaticamente o seu talento a interpretarem as protagonistas de “Gion no Shimai”, uma obra onde Kenji Mizoguchi mostra-se exímio a trabalhar as imagens em movimento e a criar personagens femininas de pleno interesse. Diga-se que não podemos ficar alheios ao facto de durante a sua juventude e início da idade adulta o cineasta ter contado com o apoio fundamental de Suzu, a sua irmã mais velha, uma mulher que foi vendida pelo pai como gueixa, algo que pode em certa parte explicar o apreço deste pelas figuras femininas e pelos sacrifícios que estas são capazes de fazer para ajudar outrem. Mizoguchi abordaria e abordara ainda a condição das gueixas ou das mulheres que se viram na contingência de se prostituírem em obras como "Osaka Elegy" (um filme realizado anteriormente que apresenta claras semelhanças com "Gion no Shimai", incluindo a nível de temáticas, com ambos a abordarem questões ligadas com o papel da mulher na sociedade, a prostituição feminina e o sacrifício em relação ao elemento masculino, com o cineasta a representar de forma pouco apolínea o destino destas mulheres numa sociedade japonesa dominada pelos homens), "The Life of Oharu", "Ugetsu", entre outras, onde a temática surge abordada com a enorme humanidade, assertividade e até alguma crítica social que o cineasta costuma apresentar. As duas irmãs do título surgem algo subjugadas ao destino e a uma sociedade dominada pelas figuras masculinas, apresentando diferentes formas de lidarem com os homens, embora o único elemento que pareça sair por cima no final seja Kenji Mizoguchi ao realizar um drama que merece toda a nossa reverência.

Título original: "Gion no Shimai".
Título em Portugal: "As Irmãs de Gion".
Título em inglês: "Sisters of the Gion". 
Realizador: Kenji Mizoguchi.
Argumento: Kenji Mizoguchi e Yoshikata Yoda.
Elenco: Isuzu Yamada, Yōko Umemura, Benkei Shiganoya, Fumio Okura, Eitarō Shindō.

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