09 janeiro 2015

Resenha Crítica: Force Majeure (Força Maior)

     Parece fazer frio, muito frio nas belíssimas montanhas enevoadas dos Alpes franceses, mas as gélidas temperaturas não parecem constituir qualquer tipo de problema para Tomas (Johannes Kuhnke), para a sua esposa Ebba (Lisa Loven Kongsli) e para as suas duas crianças Harry e Vera. Aliás, tendo em conta que esta família sueca, aparentemente pertencente à classe média-alta, optou por selecionar como destino de uma semana de férias uma estância de luxo na neve, para esquiarem e divertirem-se livremente e em conjunto, só faz sentido que assim seja. Para se aquecerem, de qualquer modo, poderão usufruir não só dos seus quartos bem guarnecidos e das suas roupas condizentes com o clima de enregelar mas, também, e quando necessário, do calor humano do familiar mais próximo. Funcionam, essencialmente, como uma unidade: acordam na mesma cama, lavam os dentes em simultâneo, esquiam e passeiam e convivem em paisagens idílicas, com total harmonia e em alegre descontração.
     O que cada um faz nos restantes dias do ano, isso, raramente é partilhado ao espetador, e desconhecemos até o seu apelido familiar; quaisquer particularidades que os distingam dos restantes membros da sua raça são praticamente inexistentes. Vislumbramos, unicamente, o esforço despendido por Tomas em cumprir as suas responsabilidades de patriarca, investindo nuns dias de férias com a sua esposa e com os seus dois filhos após um ano laborioso, e a preocupação de Ebba em zelar pelo bem-estar das crianças, evidenciada, no início do filme, ao efetuar uma subtil dedução de que o pequeno Harry não está com boa disposição porque não comeu nada a tarde toda, desde o longínquo pequeno-almoço. Constituem uma família típica e digna de um postal, e é assim que se assumem, orgulhosamente, à sociedade e aos amigos.
     Porém, o realizador e argumentista Ruben Östlund sabe, e a audiência também, que o ser humano é um bicho demasiado complexo e que se debate, constantemente, com as suas próprias dúvidas e numerosos pavores, o que faz com que harmonia completa seja uma ideia superficial e praticamente inexistente. Ainda assim a ilusão terá que ser mantida, e o animal racional convence-se de que tudo está bem, não ousando sequer refletir no contrário.
     Este interessante ponto de vista servirá de base para a narrativa de “Force Majeure”, e há uma cena que me permite demonstrá-lo de forma bastante ilustrativa. A certo ponto da história, Ebba sentar-se-á frente a frente a uma amiga nas poltronas do lobby do hotel, ouvindo-a relatar sem pudores a forma como tanto ela, como o marido, mantêm casos extraconjugais com anuência de parte a parte, e que são mais felizes em tais circunstâncias. Ebba, incrédula e desorientada com tamanha promiscuidade, responderá, com ênfase inabalável, que a interlocutora TEM que reconhecer que «construir uma relação com outra pessoa, passarem uma vida juntos, casarem, terem filhos, tem muito mais valor que dar umas voltas com um tal “Alberto Tomba” num hotel qualquer em França». As respostas da amiga serão difíceis de contrariar, levando a protagonista a demonstrar agressividade numa postura inflexível. Compreendemos, imediatamente, que mais do que tentar convencer a amiga, Ebba está a tentar convencer-se a si própria de que o seu estilo de vida é aquele que deve ser seguido, e que a possibilidade de uma alternativa é perentoriamente rejeitada.
     Seja como for, o momento chave da narrativa não é o que acabo de descrever; esse desenrolara-se momentos antes, à hora de almoço. Nele, começamos por observar a família unida numa bela esplanada da luxuosa estância, a desfrutar de mais uma refeição ao sol na base de uma colina coberta de neve. Subitamente, ouve-se um ruído semelhante ao do rebentar de um foguete. Imediatamente, no topo da encosta, começa a ser formada uma pequena avalanche, que, pouco a pouco, começa a ganhar espessura. Os clientes da esplanada alegram-se, curiosos, e erguem os telemóveis para fotografar o invulgar fenómeno, ao mesmo tempo que Tomas, irradiando confiança, assegura os ouvintes de que estão a testemunhar uma avalanche controlada e, portanto, inofensiva. O avolumar da massa de neve, porém, continuará a efetivar-se, e o seu aspeto vai-se tornando cada vez mais ameaçador. Ciente de que algo não está a correr como planeado, Ebba começa a erguer-se nervosamente do assento, e até o discurso de Tomas, mesmo sem mudar de conteúdo, passa a ser reproduzido com menor convicção. Numa fração de segundo, apercebemo-nos que a avalanche embaterá, perigosamente, na esplanada. O pânico generaliza-se, sucede-se o caos e Ebba agarra instintivamente as crianças para resguardá-las do perigo. Quanto a Tomas, já se encontra bem longe; pegara na sua carteira e no telemóvel e partira, sozinho, como um animal assustado.
     Na realidade, a avalanche até não era tão ameaçadora como acabara por parecer. Embatera poucos metros antes de chegar à esplanada e a sua única consequência foi o espalhar de uma espécie de neblina que, volvidos poucos instantes, deu novamente lugar ao sol. Ebba e as crianças sentam-se novamente para acabar a sua refeição e, segundos depois, observamos o regresso de Tomas que, em silêncio, reocupa o seu posto como se nada tivesse acontecido.
     Os protagonistas prosseguirão as suas rotinas esquiando, em família, montanha acima e montanha abaixo, mas o silêncio que entretanto impera torna evidente a existência de uma mudança. O episódio que experienciaram concedeu aos protagonistas um importante motivo de introspeção que, no caso da esposa, se transformou em ressentimento e, no do marido, em negação. As reações de parte a parte estão longe de serem as mais corretas do ponto de vista ético mas são, ainda assim, plenamente compreensíveis. Para as clarificar, Ruben Östlund introduz na narrativa um casal simpático e curioso conhecido dos protagonistas, composto pela jovem Fanni (Fanni Metelius) e pelo mais adulto Matts (Kristofer Hivju), este último um indivíduo cheio de barba e de algum estilo, abençoado com uma sensatez invulgar que nos é evidenciada, desde logo, numa das melhores cenas do filme, desenrolada num quarto de hotel moderno e a meia-luz. Ladeado de um lado pelo desespero de Ebba e, do outro, pelo olhar vazio de um angustiado Tomas, Matts expõe, com elegância, um princípio que nos remete para reflexões profundas, por dizer respeito não apenas às personagens mas, também, ao espetador: «Em situações como estas nem sempre estás consciente do que estás a fazer. Tentas sobreviver. Mas, quando estás em modo de sobrevivência, podes não conseguir agir à altura dos teus valores (…) Se olhares para os humanos e, também, para os animais, a verdade é que, quando somos confrontados com uma sensação extremamente perigosa, há uma força em nós que desperta e que nos diz “Eu quero sobreviver”. Isso significa que reages nesse instante. É uma força primitiva para simplesmente fugir
Perguntamo-nos, posteriormente, como procederíamos em semelhante circunstância. Independentemente daquilo em que queiramos ou não acreditar, teremos alguma vez a certeza de que não faríamos o mesmo? Ou que, caso o fizéssemos, não reagiríamos da mesma maneira que Tomas, negando a sua cobardia aos outros e a ele próprio? Esta questão remete-me, novamente, para a minha divagação de alguns parágrafos acima – a segundo a qual todos nos debatemos com receios intrínsecos sobre os quais evitamos ponderar, nem que seja pela singela possibilidade de poderem ser fundados. Convencemo-nos de que somos criaturas cheias de força e de coragem e valorizamos as atitudes honrosas. Em contrapartida, Tomas foi confrontado com um perigo de morte e, ao contrário da sua da esposa, procedeu como um cobarde. Diz-nos Ebba que «o meu foco principal está nos meus filhos. São demasiado pequenos para se defenderem por eles próprios. Enquanto o foco natural do Tomas é fugir de nós», com alguma razão. Matts responder-lhe-á com novo episódio de sabedoria, argumentando que um homem deve ser julgado pelos valores e não pelos seus instintos. Mas a ação instintiva de um indivíduo não será igualmente importante? E de que forma é que este episódio se reflete em Tomas como pai de família e, até, como ser humano?
     O peso incomensurável que estas questões exerceram sobre os frágeis ombros dos dois protagonistas foi representado de forma perfeitamente natural pelos seus talentosos intérpretes, que demonstraram com naturalidade as transformações das respetivas personagens: desde o seu início como simples turistas em férias numa paisagem idílica, passando pelo desenrolar de um simples pormenor, sem consequências práticas, e contudo exagerado pelas complexidades da conturbada mente humana, acabando nos tormentosos conflitos internos que os assolaram silenciosamente. Pelo caminho a união deu lugar a um crescente afastamento, e as belíssimas montanhas, outrora motivo de reiterada admiração, passaram a constituir uma barreira isoladora entre Tomas e Ebba e a restante civilização, forçando-os a conviver com um espaço restrito para pensar.
     Parece-me ter havido uma razão para Ruben Östlund não ter enriquecido os seus protagonistas com traços particularmente distintivos a qualquer ser humano comum, e penso que se relacione com a noção de que o que lhes aconteceu poderia ter sucedido a qualquer outro indivíduo. Limitou-se, assim, o carácter singular da história, valorizando-se a importância das suas ideias centrais, as quais já tentei defender nas minhas estranhas divagações. De facto, o mérito de “Force Majeure” não reside apenas na ilustração de uma história intensa e bem construída com impressionantes intérpretes; reside também no seu profundo realismo, na maneira com que nos faz acreditar que essa história poderia, perfeitamente, suceder a qualquer um de nós e na noção de que, se de facto ocorresse, poderia desenrolar-se exatamente da mesma forma. Embrenha-nos ainda em reflexões profundas, fazendo-nos questionar sobre o que causará maior transtorno – ficarmos soterrados, por um lado, por uma avalanche ou, por outro, pela confirmação das dúvidas geradas pelos nossos piores receios.

Fica técnica:

Título original: Force Majeure
Título em português (Brasil): Força Maior
Realização: Ruben Östlund
Argumento: Ruben Östlund
Elenco: Johannes Kuhnke, Lisa Loven Kongsli, Clara Wettergren, Fanni Metelius, Karin Myrenberg, entre outros.

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