15 janeiro 2015

Resenha Crítica: "Domino" (2005)

 Deliciosamente caótico e frenético, "Domino" foge às convenções dos filmes biográficos e surge como um paradigma dos exageros de Tony Scott, numa obra pulsante de emoções que mais do que compreendida procura ser sentida. Nem sempre é coerente, a sua estrutura narrativa anda entre o passado e o presente, as narrações nem sempre correspondem à verdade, por vezes engana-nos, enquanto nos deixa perante um conjunto de reviravoltas para lá do razoável, quase que a atirar-nos para fora do enredo mas ao mesmo tempo a hipnotizar-nos para o interior do mesmo. O argumento é convulso, a cinematografia estilizada, muito marcada por tonalidades verdes, enquanto a banda sonora adequa-se ao ritmo frenético de uma obra que mais do que respeitar a veracidade histórica sobre Domino Harvey procura estimular os nossos sentidos. Não é algo para ficar indiferente. Pode-se odiar, adorar, ficar a meio caminho talvez seja mais difícil, eu não consegui largar o enredo e deixar de seguir com atenção este pedaço de cinema marcado por enorme violência, traições, caçadores de recompensas, crítica à superficialidade da sociedade contemporânea ao mesmo tempo que nos deixa perante um grupo de personagens que variam entre o peculiar e muito bizarro. Não faltam vigaristas, caçadores de recompensas, mafiosos, actores em decadência, um afegão especialista em aparelhos explosivos e até Jerry Springer, enquanto Tony Scott se diverte a brincar com as nossas expectativas e parece estar completamente a lixar-se se vamos ou não gostar do produto final que tem para nos dar. A certa altura de "Domino" podemos encontrar elementos como Domino (Keira Knightley), Ed Moseby (Mickey Rourke), Choco (Edgar Ramirez) e Alf (Riz Abbasi) a beberem involuntariamente uma substância estupefaciente. As cenas são marcadas por alguma distorção das imagens, das cores e surgem paradigmáticas do delírio que é este filme. Por vezes cai em exageros completamente desnecessários que arrastam a narrativa mais do que aquilo que o argumento pode realmente dar, mas nem por isso nos sentimos entediados a ver este guilty pleasure destroçado pela crítica mas apreciado aqui por esta pessoa. Cabe a Keira Knightley interpretar Domino Harvey. Esqueçam a doce Elizabeth Bennet, a sensual Vera Phillips e tantas outras personagens que Keira Knightley interpretou. Em "Domino" esta surge completamente fora da sua zona de conforto, arrasando como esta mulher entediada com o estilo de vida luxuoso que levava, uma jovem violenta, pronta a disparar palavrões, bela mas vestida de forma bem masculina, sabendo utilizar o seu corpo quando é necessário, mas é na sua personalidade forte e irreverente que mais se destaca. A actriz é fundamental para o filme funcionar, com Tony Scott a saber explorar a dinâmica entre esta, Mickey Rourke e Edgar Ramírez, os intérpretes dos criminosos. No início do filme encontramos Domino a ser interrogada por Taryn Mills (Lucy Liu), uma agente que procura saber a verdade sobre o paradeiro dos dez milhões de dólares que desapareceram num assalto a um carro blindado, um evento que vai marcar vários destes personagens, contando com diversas reviravoltas e mentiras pelo meio.

O dinheiro supostamente pertencia a Drake Bishop (Dabney Coleman), o dono do Stratosphere Hotel e do Casino associado a este espaço localizado em Las Vegas, embora mais tarde descubramos que os fundos surgem como lavagem de dinheiro da máfia, em particular do perigoso gangster Anthony Cigliutti (Stanley Kamel). Com a narração de Keira Knightley como Domino, somos colocados ao corrente de como aconteceu este assalto, mas também sobre o tédio desta em relação à vida que levava, a sua entrada no mundo dos caçadores de recompensas, a cobertura da actividade do grupo num reality show produzido por Mark Heiss (Christopher Walken), até à sua detenção. Keira Knightley é fulcral para "Domino" funcionar, não só pela interpretação magnífica na qual a encontramos de corpo e alma como esta irreverente e violenta caçadora de recompensas, mas também pela narração desenvolvida pela sua personagem, por vezes pronta a enganar-nos, tal como Domino nem sempre soube de toda a verdade dos acontecimentos. Domino é filha de Laurence Harvey, um actor que morreu quando esta era jovem, e da então modelo Paulene Stone, apresentando enormes dificuldades em lidar com os luxos. Tenta ser modelo mas espanca uma colega, entra na universidade mas é expulsa, participando num seminário para caçadores de recompensas que contaria com a presença de Claremont Williams III (Delroy Lindo), um famoso fiador/agiota, bem como organizador do grupo, conseguindo utilizar como informações os dados do Department of Motor Vehicles, fornecidos por Lateesha Rodriguez (Mo'Nique), uma das suas muitas amantes e funcionária do local. O curso é um embuste para sacar dinheiro aos alunos, mas Domino vai a tempo de espetar desde logo com uma faca no vidro do carro de Ed, o líder, e Choco, um venezuelano que aos poucos se interessa por esta e tem o estranho hábito de falar em espanhol quando ninguém à sua volta percebe a língua. Ed convence Choco a deixar Domino integrar o grupo, com o trio a perseguir elementos devedores, formando uma equipa competente, à qual se junta ainda Alf, o motorista, um afegão especialista em explosivos, algo que permite a Tony Scott explorar alguns clichés associados ao mesmo. Tudo parecia correr bem, com estes a chegarem a participar num reality show que conta ainda com a presença de Brian Austin Green e Ian Zierieng, a interpretarem versões ficcionais de si próprios, ou seja estrelas da série 90210 que se encontram agora em decadência (ok, esta parte não é assim tão ficcional). Domino não fica muito agradada com este regresso ao mundo do espectáculo mas adere ao mesmo, protagonizando um momento delicioso ao partir o nariz a Green e a expor que não é mulher para grandes brincadeiras. No entanto, tudo sofre uma reviravolta quando Claremont decide roubar dez milhões de dólares a Bishop, traçando um plano rocambolesco tendo em vista a conseguir uma recompensa de trezentos mil dólares pelo resgate do dinheiro furtado e assim obter os fundos necessários para o tratamento da neta de Lateesha. Quando tudo corre mal, Claremont decide enviar os caçadores de recompensas para capturarem Locus Fender (Lew Temple), o motorista do furto, um elemento que fica isolado após os quatro elementos que se encontravam com máscaras de Hillary Clinton, Jacqueline Onassis, Barbara Bush e Nancy Reagan, quatro mulheres de ex-presidentes dos EUA, terem desaparecido do carro blindado. Os caçadores tinham como missão inicial capturar um conjunto de elementos que supostamente forjaram assinaturas de cheques com identidades falsas, mas o caso é bem mais complexo, com Claremont a envolver o grupo numa enrascada de proporções elevadas.

Como se pode verificar pela menção da utilização destas máscaras não vai ainda faltar algum humor negro a esta obra marcada por enorme violência, com Locus a ir para casa da sua mãe (Dale Dickey), algo que suscita os frenéticos acontecimentos do início do filme, onde o grupo corta o braço do mesmo e obriga a personagem interpretada por Dale Dickey a abrir o cofre no qual se encontra o dinheiro. Tudo é rocambolesco e não irá ficar por aqui, com vários personagens a contarem com agendas muito próprias, enquanto Tony Scott nos coloca perante identidades trocadas, caçadores de recompensas violentos, muita acção, cor e ritmo. É notório que comete alguns exageros, tais como a participação de Lateesha, a avó mais nova de sempre, no programa de Jerry Springer a discutir sobre novas nomenclaturas para raças, num momento que varia entre o hilariante, o completamente idiota e o desnecessário. Mas este é o paradigma de "Domino". É uma obra que varia entre o brilhantismo e o vulgar, entre a violência e o humor negro, entre as metáforas com sentido e a vacuidade, com Tony Scott a conseguir ainda que Mickey Rourke, Edgar Ramirez e Delroy Lindo consigam destacar-se, já para não falar na hilariante participação especial de Brian Austin Green, entre vários outros elementos de um filme que não se cansa de "atirar" com novos personagens para a narrativa, sempre em grande estilo e pronto a atordoar-nos. Mas voltemos ao elenco. Mickey Rourke tem um papel de relevo como o líder do grupo, um veterano musculado, aparentemente pouco sentimental, que gosta de ver o seu filme porno sossegado, sendo mais do que competente na sua actividade e um exemplo a seguir para a protagonista. Ramirez sobressai como o elemento completamente destravado, tanto capaz de cortar um braço alheio como apaixonar-se por Domino, enquanto Delroy Lindo surge como o personagem mais traiçoeiro, pronto a contar com algumas surpresas que vão sair caras para o grupo, embora o objectivo da sua traição até passe por uma causa relativamente nobre. Vale ainda a pena salientar Mo'Nique como a espampanante Lateesha, uma mulher sem grande cultura, pronta a conseguir fornecer cartas de condução falsas, informações pouco claras às autoridades e a ter comportamentos pouco discretos, tendo na doença grave da sua neta um factor que vai pesar na procura em ter um plano muito próprio. Estamos a lidar com elementos à margem da lei, enquanto Tony Scott vive à margem dos géneros, numa obra dada aos exageros, que mescla elementos de filmes de assalto, gangsters, biográfico, acção, humor negro, tudo de forma nem sempre homogénea, mas incrivelmente intensa e sentida. Mais do que ser coerente, "Domino" procura despertar sensações e não nos deixar indiferente. Não consegue gerar indiferença. É uma obra intensa, marcada por muitos exageros, personagens que variam entre o complexo e o caricatural, mas consegue hipnotizar-nos de forma quase inexplicável para o interior do seu intrincado enredo.

Título original: "Domino".
Realizador: Tony Scott. 
Argumento: Richard Kelly.
Elenco: Keira Knightley, Mickey Rourke, Edgar Ramirez, Jacqueline Bisset, Delroy Lindo, Mo'Nique, Mena Suvari, Dabney Coleman, Lucy Liu, Christopher Walken.

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