20 janeiro 2015

Resenha Crítica: "Bonnie and Clyde" (1967)

 A lenda precede Bonnie Parker e Clyde Barrow, uma infame dupla de assaltantes conhecida pelos seus feitos pouco recomendáveis no início da década de 30 até serem assassinados pelas autoridades. A dupla tornou-se lendária junto da cultura popular. Desde o cinema, passando pela televisão até ao panorama musical, onde Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot cantam a inigualável "Bonnie and Clyde", vários foram os meios que romancearam os violentos feitos da dupla e do seu gang. Em "Bonnie and Clyde", um filme realizado por Arthur Penn, ficamos perante uma obra cinematográfica intensa e violenta, onde somos apresentados de forma ficcional a momentos como o primeiro encontro do casal, a formação do gang e a morte violenta da dupla, numa película que gerou enorme polémica na época, tendo em Roger Ebert um dos seus grandes defensores ao considerar que estávamos perante "a milestone in the history of American movies, a work of truth and brilliance". O trabalho de montagem é exímio, a atmosfera que rodeia o enredo é tensa e inquietante, numa obra que mescla a ferocidade de um filme associado a criminosos com alguns momentos de maior leveza e uma certa melancolia por parecer certo que o estilo de vida destes personagens não lhes proporcionará grandes saídas a não ser a morte. Existe uma cena particularmente marcante quando Bonnie reúne-se com a sua mãe e parece perceber de uma vez por todas que a sua rotina de vida parece estar destinada a fugas às autoridades, até mais tarde ou mais cedo ser capturada ou eliminada. Bonnie conhece Clyde quando este se encontra prestes a assaltar o carro da sua mãe. Este homem desperta em si uma enorme atracção, não só a nível carnal mas também pelo perigo que representa e a possibilidade de poder sair da pequena cidade onde vive e trabalha como empregada de balcão. Bonnie é ambiciosa e vê em Clyde uma possibilidade de quebrar a sua rotina monótona. Clyde é um assaltante recém-saído da prisão, impotente, que forma inesperadamente uma dupla com Bonnie. Os dois complementam-se praticamente na perfeição tendo nos crimes momentos de êxtase que compensam a falta de actividade sexual entre ambos. Bonnie é uma jovem que parece entediar-se com as rotinas diárias, que tem nos crimes a lojas e a bancos uma forma de fugir ao marasmo que assolava o seu quotidiano e conseguir um nível de vida que não poderia ter de outra forma, enquanto Clyde aparece como uma figura que procura impressionar a sua cara metade ao mesmo tempo que aprecia a atenção que lhe é dada pela imprensa e polícia, parecendo impressionar-se quando alguém resiste aos seus actos. Ao gang juntam-se ainda C.W. Moss (Michael J. Pollard), um funcionário de um posto de gasolina com conhecimento sobre carros, para além de Buck (Gene Hackman), o irmão mais velho de Clyde, e Blanche (Estelle Parsons), a esposa deste último. Blanche é a filha de um padre, apresentando um notório mal-estar com o quotidiano destes personagens e vários problemas com Bonnie. Ao longo do filme vamos encontrar estes personagens em assaltos e fugas, com o trabalho de montagem a incrementar a intensidade dos momentos das perseguições efectuadas pelas autoridades e as escapadas mirabolantes do grupo, ao mesmo tempo que estes vão assaltando bancos em plena Grande Depressão, com "Bonnie and Clyde" a procurar recuperar a atmosfera da época. O filme não poupa na exibição da violência, não glorificando a mesma embora não tenha problemas em deixar-nos perante a morte que facilmente pode romper um momento de maior leveza entre os personagens, com os assaltos a por vezes poderem resultar em momentos surpreendentemente marcados por humor negro (veja-se quando Clyde assalta um banco falido). Existe um momento de maior leveza onde estes roubam o carro a um casal que posteriormente até transportam no interior do seu veículo, embora não saibamos bem quais as intenções do grupo de criminosos, com Arthur Penn a manter um enorme mistério em volta destas violentas e imprevisíveis figuras.

 Se hoje parece certo que Penn realizou praticamente o filme definitivo sobre Bonnie e Clyde, também não deixa de ser notório que grande parte dos elementos que rodeiam a obra cinematográfica não foram primeiras escolhas: nomes como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Sydney Pollack e William Wyler foram convidados para realizar "Bonnie and Clyde" mas a recusa de várias das primeiras escolhas conduziram à feliz contratação de Arthur Penn; Jane Fonda, Natalie Wood, entre vários outros nomes foram cogitados para o papel de Bonnie Parker, que acabaria por ficar e bem com Faye Dunaway. No caso da intérprete de Bonnie Parker, hoje seria praticamente impossível imaginar outra actriz, com Dunaway a dar à sua personagem um misto de ressentimento, candura e ferocidade que atribuem uma complexidade notória a esta mulher que tem nos assaltos momentos de êxtase embora em alguns momentos pareça começar a sonhar por uma vida normal e como seria a sua relação com Clyde se não tivessem cometido estes actos. Esta forma uma dupla de peso com Warren Beatty, embora os momentos de intimidade do casal estejam limitados pela incapacidade de terem relações sexuais devido à suposta impotência do protagonista. Nem por isso deixam de apresentar uma enorme união e cumplicidade nos actos criminosos, deambulando de local em local, de carro roubado em carro roubado, sempre prontos a transgredirem a lei num tempo onde a crise rodeava a economia e os valores dos EUA. Estes tornaram-se quase anti-heróis, mesmo no filme não são apresentadas como figuras completamente repugnantes, apesar de nos chocarem com alguns dos seus actos, sobretudo quando Clyde efectua o seu primeiro assassinato na narrativa. A violência permeia o enredo, seja esta pelos disparos furiosos das balas que terá o seu culminar nos intensos momentos finais, seja até a nível psicológico com os personagens a entrarem numa perigosa encruzilhada. O próprio grupo começa a apresentar problemas de solidez com a entrada de Blanche, com esta a claramente não se integrar da mesma forma que os outros elementos, aparecendo sempre pronta a berrar e a assustar-se com os acontecimentos, embora aos poucos também queira o seu quinhão nos assaltos. Esta é casada com Buck, um ex-presidiário e irmão de Clyde que se junta ao familiar nos crimes, com estes a tornarem-se lendas locais, sendo perseguidos pelas autoridades. Hackman e Estelle Parsons conseguem destacar-se como estes personagens secundários, bem como Michael J. Pollard com o algo atrapalhado Moss, um indivíduo com claros conhecimentos de carros, embora o destaque maior seja mesmo Faye Dunaway e Warren Beatty. Este aparece inicialmente como um criminoso que até desperta alguma da nossa simpatia, que aos poucos começa a cometer mais assaltos, por vezes para impressionar a amada, outras para se sustentar, não pensando em levar outro estilo de vida, com todos a viverem no limite e a parecer demasiado tarde quando pensam nas consequências.

 O momento em que Bonnie e Clyde humilham Frank Hamer (Denver Pyle), um ranger, é paradigmático da infantilidade da dupla mas também da noção de que os seus actos podem trazer graves consequências. Ambos tiram fotografias com Frank como se fossem amigos dele, com Bonnie a chegar a beijar o ranger, algo que causa repugnância neste homem ao mesmo tempo que este momento permite expor a abertura a nível sexual desta mulher. Bonnie sempre foi habituada a despertar a atenção dos homens, tendo em Clyde um individuo incapaz de lhe dar prazer sexual mas competente a protagonizar êxtase com os crimes. Arthur Penn não poupa nas cenas destes personagens em pleno carro, com a cinematografia a contribuir muitas das vezes para incrementar as violentas perseguições, com o cineasta a realizar uma obra bastante polémica para a época devido à forma intensa como representou a violência, o sangue e as mortes. O momento final é paradigmático dessa situação, num filme que apresenta várias liberdades em relação aos episódios verídicos, embora nem por isso estas retirem o prazer de assistir a uma das grandes obras cinematográficas oriundas dos EUA na década de 60. O filme tirou inspiração em vários trabalhos da Nouvelle Vague, mas também não deixa de ser notório que tenha sido produzido pela Warner Bros., um estúdio conhecido nos anos 30 pela elaboração de vários filmes de gangsters, onde também ficávamos muitas das vezes perante a ascensão e queda destes elementos, algo visível em obras como "The Public Enemy", "The Roaring Twenties", entre outros filmes marcantes que nos apresentavam a estas espécies de anti-heróis. No caso ficamos com o destaque a recair num peculiar casal que tem nos tiros os seus beijos, no assalto aos bancos os seus momentos de carinho, nos assaltos às mercearias os seus abraços, numa obra muito à frente do seu tempo. A crise financeira é exibida logo no início do filme, quando Bonnie e Clyde se instalam numa propriedade que foi penhorada por um banco, mas também pela noção destes elementos de que o crime é o caminho mais fácil para  derrubar com o fraco estatuto social que contam, já para não falar no caricato momento em que o protagonista tenta roubar um banco falido, embora o filme esteja longe de desculpar ou glorificar os seus actos. A banda sonora por vezes parece dar um tom cómico ao filme, bem como algumas situações protagonizadas pela dupla, mas Arthur Penn facilmente nos demonstra que não existe grande espaço para a leveza quando a violência faz parte do quotidiano destes criminosos. Como salienta Frank Miller no seu artigo no TCM, o filme redefiniu ainda a representação da violência como esta era apresentada até então no grande ecrã, tendo causado um grande impacto num período fervilhante associado a um "renascimento" de Hollywood, alcançando um grande sucesso junto do público, para além de ter sido um marco para as obras cinematográficas que lhe seguiriam. Esta mudança de perspectiva na representação da violência foi mesmo salientada por Roger Ebert na sua crítica ao filme: "The violence in most American movies is of a curiously bloodless quality. People are shot and they die, but they do not suffer. The murders are something to be gotten over with, so the audience will have its money's worth, the same is true of the sex. Both are like the toy in a Crackerjack box: Worthless, but you feel cheated it it's not there. In "Bonnie and Clyde," however, real people die. Before they die they suffer, horribly. Before they suffer they laugh, and play checkers, and make love, or try to. These become people we know, and when they die it is not at all pleasant to be in the audience". Intenso, marcante, violento, marcado por interpretações de grande nível de Warren Beatty e Faye Dunaway, e uma realização inspirada de Arthur Penn, "Bonnie and Clyde" continua a surgir como um dos mais memoráveis filmes de gangsters da História do Cinema.

Título original: "Bonnie and Clyde".
Título em Portugal: "Bonnie e Clyde".
Realizador: Arthur Penn.
Argumento: David Newman, Robert Benton, Robert Towne.
Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Michael J. Pollard, Gene Hackman, Estelle Parsons.

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