23 janeiro 2015

Resenha Crítica: "American Sniper" ("Sniper Americano")


   Bem sei que no nosso papel de críticos amadores de cinema fica-nos sempre bem conseguirmos separar as qualidades de um filme daquilo que ele, ao certo, representa na sua sociedade, mas só posso sentir-me grato pelo facto de que quando visionei “American Sniper”, o novo filme de Clint Eastwood, ainda desconhecia as turbulentas polémicas que têm sido geradas ultimamente à sua volta. Assim sendo, resguardado pela minha ignorância, jamais me passou pela cabeça que o retrato pintado por Eastwood do seu heroicizado protagonista, Chris Kyle, tenha sido escandaloso; achei-o ao invés uma coisa comum, para não dizer superficial. Aliás, nem sequer me surpreendeu: Kyle fora reconhecido como um herói de guerra no Iraque por ter alvejado dezenas e dezenas de «inimigos da democracia», pelo que era mais do que provável que, numa biopic que nele se centrasse, a sua figura incorporasse as qualidades de um Verdadeiro Patriota dos Estados Unidos da América.
É claro que nunca adivinharia que Clint Eastwood levasse tão a sério este princípio, mas tal remete unicamente para questões de ingenuidade – por um lado, já todos nos apercebemos que os últimos filmes do cineasta têm vindo perder coragem e profundidade não se sabendo por que motivo (embora nenhum tivesse um bebé falso); por outro, a sua afiliação aos valores conservadores dos norte-americanos nunca constituiu um segredo para ninguém. Não admira, portanto, que o filme comece por salientar que o seu protagonista proveio de uma povoação do Texas e que, logo aos oito anos de idade, lhe foi oferecida a sua primeira espingarda, num momento solene.
     Sobre o seu pai pouco nos é partilhado, mas, ainda assim, compreendemos que é do tipo rígido e conservador. Não necessariamente pela sua frieza, mas pelo discurso que o vemos proferir sentado à mesa de jantar, dirigindo-se ameaçadoramente a Chris e ao irmão. Ensina-lhes ele, perentório, que o mundo se compõe de três tipos de animais, «as ovelhas, os lobos e os cães pastores», exigindo-lhes que personifiquem a terceira criatura e retirando, exaltado, o cinto das suas calças só de pensar na possibilidade contrária. O retrato da infância do protagonista completa-se com a sua ida à missa, celebrada numa igreja branca e humilde cheia de cruzes em todo o lado. O seu padre é um senhor simpático e inteligente, de reflexões calmas e profundas, com uma audiência devota e silenciosa, mas o que intriga o protagonista é mesmo a pequena Bíblia que ele descobre no banco da frente, que será folheada à socapa e resguardada no seu bolso. No plano seguinte o livrito repousa, já, na sua cómoda, entre uma bola de futebol americano e uns soldadinhos de chumbo.
     Os costumes associados e celebrados pela cultura sulista não se ficam por aqui, tanto mais que, anos mais tarde, iniciando-se a sua vida adulta, observamos o protagonista, (agora interpretado pelo talentoso Bradley Cooper), a participar em rodeos noturnos, equilibrando-se com teimosia no dorso de um touro enraivecido, que tanto se apoia nas patas da frente como nas de trás, repetindo com violência os seus poderosos coices até projetar o protagonista violentamente para o chão. O realizador Clint Eastwood, rendido a tal temeridade, (ele próprio conhecido por interpretar cowboys solitários), e com uma notável atenção ao pormenor, não se esquece de ilustrar não apenas a admiração das dezenas de vaqueiros que o admiram das bancadas, mas também a preocupação das mulheres que, no culminar do espetáculo, levam as mãos à cabeça preocupadas com o tombo do herói.
     Não obstante a fama local de que vai granjeando, a verdade é que Chris Kyle se debate com um vazio indecifrável na alma. Pelo menos é isso que confessa ao irmão num raro momento de fraqueza e introspeção, complementado com um bom diálogo e alguma cerveja. Estavam por ventura a recuperar da cena que tinham acabado de testemunhar, a mais insólita do filme em questão, que terá que ser forçosamente descrita. Chegavam então os dois a casa, vindos do referido rodeo, quando dão pela companheira do protagonista na cama com outro homem. Ao invés de demonstrar pânico, a mulher fica visivelmente irritada. Acusa-o de não lhe ter avisado que ia chegar hoje a casa e defende-se em tom acusatório, exclamando que a traição foi feita para chamar a sua atenção. Entre a reação irrealista e o diálogo contraditório não sei o que é causador de maior confusão, mas confesso que se presenciasse um momento tão estranho também eu me refugiaria nas garrafas de cerveja.
     Seja como for, avizinha-se um momento relevante: oportunamente, interrompendo conversa, é transmitida na televisão a notícia de um ataque a uma embaixada norte-americana no Quénia. O protagonista pousa a garrafa na mesa e ergue-se do sofá, resplandecendo de patriotismo. A câmara de Eastwood envereda por um close up para evidenciar o seu ar grave e o acelerar da sua respiração, e, na cena seguinte, o homem já está a alistar-se no exército dos Estados Unidos. Seguem-se treinos intensos e dolorosos, alternados nas folgas pelo florescimento de um romance. A sua nova parceira é uma mulher bela e espirituosa (Sienna Miller), conquistada ao balcão de um bar com diálogos sagazes e cheios de estilo. Dada a química palpável entre os dois atores não estranhamos que, pouco depois, já se estejam a casar. Entretanto sucede-se o 11 de Setembro, novos momentos de consternação, e Chris é enviado para o Iraque como atirador furtivo. A partir deste momento “American Sniper” focar-se-á na campanha do protagonista no Iraque, alternando-a com os momentos em que o soldado regressa temporariamente ao seu lar.
     A narrativa desenrolada em território inimigo chega por vezes a ser emocionante, expondo-nos acima de tudo aos momentos em que Chris se isola estrategicamente nos terraços de prédios iraquianos com a sua arma de longo alcance, resguardando as operações que vão sendo executadas em simultâneo pelos seus companheiros alguns metros mais abaixo. Sabemos que o protagonista tem uma precisão invulgar e uma noção inteligente de onde pode surgir o perigo, mas o que preocupa realmente Clint Eastwood são as questões de foro profundo. Neste sentido, esforça-se por explorar a indecisão do protagonista ao ver-se obrigado a assassinar mulheres e crianças carregadas com explosivos e com intuitos de violência, mostrando-nos ainda a sua obsessão em salvar os companheiros da sua unidade. Pelo meio inventa-se uma rivalidade com um atirador iraquiano que nos faz lembrar “Enemy at the Gates”, partilhando unicamente a sua ideia e não a sua execução, tendo em conta a falta de profundidade concedida ao antagonista.
     Os períodos em que o protagonista regressa aos Estados Unidos marcam-se pelo seu distanciamento emocional em relação à família, evocado em frequentes lamentações por parte da esposa que vai contemplando, assustada, os olhares vazios e distantes de Bradley Cooper. Compreendemos que o soldado sofre de stress pós-traumático, e que, mesmo que ele se recuse a reconhecê-lo, necessitará eventualmente de ajuda psiquiátrica. Pouco mais há a dizer sobre esta questão em concreto, pois Eastwood não se esforçou em aprofundá-la e acabou ainda por resolvê-la de forma simplista. Remeteu o trauma para a incapacidade do soldado em salvar os companheiros, calculamos nós que por não ter cumprido as funções de «cão pastor», exaltando novamente, o seu carácter heroico e ignorando as causas mais complexas e dolorosas que, por norma, estão na origem deste problema.
     Este simplismo exacerbado é, aliás, a característica base do filme em questão. Podemos reconhecer-lhe méritos na sua cinematografia e na exposição dos cenários iraquianos e, por ventura, elogiar a interpretação de Bradley Cooper que se transformou, com naturalidade, num indivíduo calmo e humilde e de poucas palavras. Também não devemos ignorar a fluidez com que se desenrola grande parte da história e a existência, ocasional, de momentos de razoável tensão. No entanto, é por demais evidente que Eastwood e o argumentista Jason Hall abordaram de forma descaradamente superficial as ideias que introduziram ao longo do enredo, por mais complexas que elas sejam na realidade: desde a caracterização inicial de Chris Kyle baseada em clichés introduzidos na narrativa para garantir a aprovação das audiências conservadoras, desde a sua religiosidade, que não voltará a ser abordada, até ao sofrimento do atirador em alvejar mulheres e crianças que acaba por perder qualquer relevância por não ser aprofundada nem deter consequências, passando pela sua situação conjugal que se torna desinteressante por ser demasiado repetitiva e não resultar em nada de novo ou interessante. Até as esporádicas baixas entre os soldados conhecidos por Chris, que tiveram como consequência os seus conflitos interiores, limitam-se a suceder-se sem nos fazer pensar ou emocionar, graças à irrelevância dos falecidos.
     Pela superficialidade com que se desenvolvem estas ideias, muitas delas exploradas com profundidade em outros filmes e até séries televisivas do género, referentes a este ou a outros conflitos, “America Sniper” é uma filme cuja banalidade só é atenuada pela interpretação de Bradley Cooper, que parece ser o único interessado em beneficiar o protagonista de alguma complexidade. E sendo difícil de aceitar que o autor de “Cartas de Iwo Jima” - empenhado em não tomar lados, imerso no sofrimento das suas personagens e retratando sem pudores o inferno que é a guerra – tenha decidido enveredar por um trabalho tão genérico, penso ter noção das intenções que o moveram.
Reconheci, no primeiro parágrafo, que há quem defenda que a análise de um filme deve isolar as suas qualidades daquilo que ele representa; após uma segunda reflexão, a ideia não me convence. Afinal de contas, as ideias de qualquer obra são um reflexo da ideologia do seu autor; aquilo que está na obra é o que ele quis transpor para o ecrã, sendo os desejos de qualquer indivíduo motivados pelas suas convicções. Estas convicções, por seu turno, não são mais do que um reflexo do contexto histórico e social, pelo que é impossível desconstruir um filme sem atentar a tais pormenores. Por exemplo, tal como é necessário ter em conta o contexto histórico para a análise dos filmes produzidos durante a Segunda Guerra Mundial, tanto pelo lado norte-americano como pelo lado alemão, alguns deles exacerbadores de um patriotismo evidente, também devemos enquadrar “American Sniper” como um produto da sua sociedade, principalmente quando o seu pendor político é tão relevante.
Afinal de contas, não é segredo para ninguém que a narrativa da obra em questão se alicerçou na construção de um herói adequado à ideologia republicana do seu realizador – nela está representada a religiosidade, a apreciação das armas de caça desde a sua infância e o papel destinado ao Homem de proteger, à força se necessário, a sua família, composta pelos irmãos de armas ou pela esposa e os filhos. No seu serviço no Iraque Chris é um tipo responsável, com valores morais perfeitos, patriota convicto, não faltando as habituais aparições da bandeira norte-americana ou da águia que simboliza o país. Este desejo de transformar Chris Kyle num verdadeiro ícone de patriotismo, do que significa ser um homem Texas e dos Estados Unidos, impediu Clint Eastwood de tomar quaisquer riscos de forma a não alienar o seu público-alvo.
     Felizmente este blogger, (ao contrário de um certo crítico), não se insere nesse público-alvo, nem consegue deixar de questionar este filme de um ponto de vista moral. Não necessariamente pela representação dos valores sulistas, pois o que não falta são filmes que representem outras culturas com qualidade e boas intenções; antes pelo retrato heroico que fazem de um indivíduo que, na realidade, era precisamente o contrário. Mencionei que Clint Eastwood demonstrou o sofrimento do protagonista ao ter que assassinar mulheres e crianças? Na realidade, Kyle apelida o inimigo de: «Selvagem, desprezivelmente mau. Era aquilo que estávamos a lutar no Iraque. Era por isso que muita gente, eu incluído, chamava ao inimigo “selvagens”. Não havia mesmo outra maneira de descrever o que encontrávamos por lá.» Referi, também, que o que movia era a sua obsessão de proteger os companheiros? Clarifica-nos o soldado orgulhosamente, na sua autobiografia, que: «Há outra questão que as pessoas me perguntam muito: “Incomodava-te matar tanta gente no Iraque?” Eu dizia-lhes: “Não”… eu adorava o que fazia. Não minto ou exagero ao dizer que foi divertido.» Terá Chris Kyle desistido da sua carreira por ter um acesso de patriotismo? Na realidade foi obrigado, pois caiu de um cavalo e partiu o braço. Citei, por fim, que a personagem se afigurava a um nobre cão pastor? Consta que, na vida real, Chris Kyle se assemelhava a um lobo.
     As audiências a quem se destina o filme não se terão incomodado com a ironia de, para credibilizar um herói, o seu criador ter exacerbado precisamente os ideais opostos aos que ele defendia. Tal como aprovam a sua decisão de ter dado um rumo à história para defender os seus ideais políticos, e não para lhe conceder maior profundidade. Comprova-o o facto de “American Sniper” ser o maior sucesso de bilheteira de sempre da carreira do cineasta, e pelo facto de até Sarah Palin o ter elogiado publicamente, defendendo a sua representação de um «freedom fighter» e criticando os seus detratores «de esquerda» por «não serem dignos de engraxar as botas de combate» de Chris Kyle. Esta situação por si só também não deixa de ser irónica, tendo em conta que a “liberdade” defendida por Palin não passou, outrora, de um pretexto que a própria defendeu para justificar a invasão norte-americana do Iraque, justificada pela existência de armas de destruição maciça inexistentes para além de outros motivos pouco altruístas. Da minha parte, volto a reforçar o que disse no início: ainda bem que, quando visionei o filme, não estava ciente de quem era Chris Kyle. Porque se na primeira visualização achei mediano, na segunda só me questiono sobre o bom senso do seu realizador.

Ficha técnica:

Título original: "American Sniper"
Título português: "Sniper Americano"
Realização: Clint Eastwood
Argumento: Jason Hall
Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Ben Reed, Keir O'Donnell, entre outros.

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