23 dezembro 2014

Resenha Crítica: "Tess" (1979)

 Obra relativamente distante dos filmes mais claustrofóbicos e tensos de Roman Polanski, "Tess" surge como um melodrama com toques de alguma classe à mistura, enquanto somos apresentados com algum lirismo à história da personagem do título. Esta é interpretada por Nastassja Kinski, na época ainda na sua adolescência, uma actriz capaz de explorar as diferentes nuances da sua personagem, uma jovem que se vê diante de um conjunto de situações devido aos seus relacionamentos com os homens, algumas más decisões e aos valores conservadores da sociedade da época, que prometem conduzi-la à desgraça. Inicialmente esta é apresentada como uma jovem algo naïve e pouco consciente do mundo que a rodeia, que gosta de dançar e habita num território rural localizado em Wessex com os seus pais e os irmãos. Estamos em pleno Período Vitoriano, com "Tess" a apresentar um guarda-roupa e caracterização que procura respeitar a atmosfera de filme de época que rodeia a narrativa (apesar de algumas liberdades à mistura), algo exposto até nos comportamentos dos personagens. Veja-se quando temos logo uma cena de bailado, coreografada de forma bela, no espaço exterior rural, com a música a ter um papel de relevo no enredo. A vida de Tess muda quando Parson Tringham (Tony Church), um clérigo e estudioso sobre genealogia, revela a John Durbeyfield (John Collin), o pai da protagonista, que este é descendente dos d'Urbervilles, uma linhagem que conta com um elemento que regressou com William o Conquistador no passado. Durbeyfield questiona-se sobre o que isso lhe poderá valer a nível financeiro, mas Tringham logo salienta que já não existem terras e propriedades no nome dos d'Urbervilles. Claro que John não fica por aqui, procurando saber mais sobre possíveis famílias com a mesma linhagem, descobrindo que existem uns elementos com o apelido d'Urbervilles a viver nas proximidades, enviando Tess para conhecer os mesmos e, quem sabe, conseguir os fundos para o novo cavalo de que este personagem necessita. Tess é recebida na rica propriedade por Alec d'Urberville (Leigh Lawson), o seu suposto primo, um indivíduo galanteador e bem falante que fica desde logo encantado com a beleza da protagonista. Os dois reúnem-se durante breves momentos, onde não falta um pouco de tentativas de sedução por parte deste homem, incluindo dar um morango à boca de Tess e oferecer-lhe flores, ao mesmo tempo que a apresenta à longa propriedade. Pouco tempo depois, os Durbeyfield recebem na sua casa uma carta da senhora d'Urberville, uma mulher que nem conhece Tess, que mais tarde até descobrimos ser cega, onde se oferece a contratar os serviços da protagonista para trabalhar na nova granja. Tess não se mostra muito agradada com a ideia, mas a pressão familiar conduz a que esta saia de casa e vá temporariamente trabalhar e habitar com os d'Urbervilles. Existem algumas rivalidades no interior do local com as outras funcionárias, sobretudo devido a esta ser claramente defendida pelo patrão, enquanto Alec continua com os seus avanços sobre a jovem até a forçar a ter relações sexuais. Surpreendentemente, ou talvez não se tivermos em linha de conta os valores da época, esta ainda fica quatro meses no território, até se decidir a abandonar o mesmo. Apesar das suas fragilidades e indecisões, Tess tem uma personalidade muito própria, não tendo problemas em prescindir da riqueza e ir viver de novo com os seus pais. Esta encontra-se grávida, dando à luz um bebé que morre pouco tempo depois do nascimento, algo que a leva a partir do território e ir trabalhar na quinta do Sr. Crick (Fred Bryant) a ordenhar vacas e ajudar na preparação do leite para venda. Esta trabalha com várias colegas e Angel Clare (Peter Firth), um indivíduo pouco falador, que supostamente despreza os elementos da nobreza, filho de um padre que conta com planos para o futuro do filho que destoam com o que o jovem tem planeado. Angel pretende sair do país, sendo um aspirante a agricultor, encontrando-se a aprender ofícios junto do Sr. Crick. Todas as mulheres parecem sentir um fraquinho por Angel, mas o coração deste pende para Tess, algo que é retribuído, embora esta coloque diversas reticências para avançar com a relação, sobretudo quando o personagem interpretado por Peter Firth a pede em casamento.

 Tess teme que o seu passado conturbado possa minar a relação, procurando inicialmente rejeitar os avanços de Angel, até aceitar o pedido. Inicialmente deixa uma carta a revelar todo o seu passado, mas esta não é lida por Angel, com o passado da protagonista a prometer ensombrar a felicidade desta, seja com Angel, seja para o resto da sua vida. É na história desta mulher que se centra boa parte do enredo de "Tess", ao mesmo tempo que Roman Polanski aproveita para explorar questões ligadas aos territórios rurais, à tradição e ao conservadorismo desta sociedade, numa obra profundamente pessoal como podemos ver logo nos momentos iniciais com a indicação que é dedicada a Sharon Tate. Foi esta que lhe deu o livro "Tess of the d'Urbervilles", escrito por Thomas Hardy, salientando que daria um bom filme e pretendia o papel de protagonista, algo que nunca viria a acontecer devido à actriz ter sido assassinada pelos elementos da "família Mason", um episódio que marcou a vida de Roman Polanski. Se tivermos em linha de conta que os dois trabalhos de Roman Polanski anteriores a "Tess" foram "Chinatown", um neo-noir que se afirmou como um dos trabalhos mais populares do realizador, e "The Tenant", uma das obras mais perturbadoras do cineasta, na qual este nos deixa perante o findar da "trilogia do apartamento", onde não faltam vários elementos presentes nos seus filmes, tais como a utilização de um cenário primordial, a tensão crescente, a repressão/humilhação sexual, o humor negro e até algum terror, percebemos que este melodrama de época surge em contraste com boa parte da filmografia do cineasta (apesar do último terço ter algo de Polanski, embora esses momentos até pareçam respeitar o livro de Thomas Hardy). Nem por isso deixa de apresentar uma enorme competência na realização deste delicado melodrama, com a revelação do título nobiliárquico da família de Tess a ser o propulsor para uma série de episódios que vão envolver esta jovem numa época onde os títulos parecem cada vez mais um meio para dar prestígio, ao mesmo tempo que pouco simbolizam a nível de poder e riqueza. Veja-se o caso da família de Alec d'Urbervilles, que adquirira o título no passado apenas para ter prestígio, algo revelador de que este e Tess não são da mesma família. A relação entre estes dois é sempre marcada por alguma frieza, com Tess a nunca parecer muito interessada em Alec, embora após o acto sexual ainda se mantenha algum tempo com o mesmo. Leigh Lawson procura dar ao seu personagem um aspecto aparentemente refinado que facilmente se destrói perante o seu comportamento com as mulheres, incluindo com Tess, uma situação que não promete terminar bem para os dois, apesar deste bem tentar ter um caso com a protagonista. Diga-se que Tess não tem uma relação fácil com os homens, surgindo muitas das vezes como um elemento passivo das suas vontades. O pai praticamente obriga-a a ir visitar os d'Urbervilles, o padre não quer dar um enterro cristão ao filho devido a este ter sido baptizado de forma não oficial, para além de que o casamento com Angel promete ferver quando os segredos sobre o passado de Tess vierem ao de cima. Peter Firth atribui um tom aparentemente calmo ao seu personagem, embora este entusiasme-se imenso com uma vida em comum com Tess, pelo menos até descobrir sobre o envolvimento desta com Alec, arrependendo-se pelo caminho de algumas atitudes tomadas. Os personagens de "Tess" erram muito, tal como qualquer ser humano, acabando por ter de lidar com as consequências dos seus actos, algo que pode nem sempre ser agradável. Roman Polanski estrutura a narrativa de forma precisa e fluída ao longo destas quase três horas de filme, explorando as personalidades dos seus personagens, concentrando as suas atenções quase sempre no trio formado por Tess, Alec e Angel.

A concentração da atenção em Tess, Alec e Angel não implica que o cineasta descure alguns elementos secundários, tais como a mãe e o pai de Tess, as funcionárias do Sr. Crick, entre outros. A par do trio de personagens já citado, outros dos personagens de maior relevância no enredo são os cenários. Ficam particularmente na memória as cenas em Stonehenge, um monumento pagão numa sociedade cristã, surgindo quase como último reduto de um desespero de apelar a algo que parece impossível para os protagonistas: passarem incólumes aos seus actos. Roman Polanski tem no aproveitamento dos cenários e dos espaços dos mesmos uma característica sempre interessante de ver, mesmo quando os enredos se desenrolam num número variado de locais. Veja-se a casa da família de Tess, relativamente modesta, em contraste com a propriedade enorme de Alec onde vários funcionários procuram gerir o trabalho, para além do território rural onde o Sr. Crick tem as suas vacas leiteiras, entre todo um conjunto variado de cenários que povoam uma obra marcada por bons valores de produção. O cenário onde Tess trabalha a ordenhar vacas é paradigmático dessa atenção ao pormenor, com Polanski a expor-nos a este trabalho e aos cuidados necessários para a fabricação do leite, para além da propriedade estar recheada de galinhas, algo que explica o elevado número de ovos no interior da casa. A cinematografia, apesar do falecimento de Geoffrey Unsworth, que filmou boa parte das cenas externas e a entrada posterior de Ghislain Cloquet, é cativante, pronta a fazer parecer que estes territórios rurais são pequenas pinturas que ganharam vida, enquanto a própria iluminação seja esta natural ou artificial parece adequar-se e muito aos momentos que nos são expostos ao longo da narrativa. A certa altura do filme encontramos Tess a escrever uma carta para Angel onde revela o caso com Alec e que teve um filho, após várias dúvidas se deveria ou não revelar o seu passado. Alec não vê a carta e Tess adia temporariamente a revelação. Já Roman Polanski não parece ter apresentado grandes dúvidas ao longo da realização deste melodrama delicado que foge em grande parte à maioria dos trabalhos do cineasta. O humor negro não está presente, a tensão e inquietação é distinta, os relacionamentos humanos apresentam uma maior delicadeza, para além de ser muito raro ver Polanski a enveredar pelos romances melodramáticos. É uma oportunidade para verificarmos a versatilidade de um dos grandes cineastas do nosso tempo, ainda em actividade, embora nem sempre seja consensual, ao mesmo tempo que assistimos a Nastassja Kinski a ter um dos papéis mais marcantes da sua carreira. Esta interpreta uma jovem ainda inexperiente, que vai aprendendo sobre a vida da forma mais difícil, a errar e a ver os outros errarem em relação à sua pessoa, tal como por vezes acerta nos seus actos mas não deixa de ser uma personagem trágica que está muitas das vezes "nas mãos do destino". Os momentos em que temos close-ups sobre o rosto de Tess permitem expor a expressividade da actriz e o encanto que a personagem desperta nos homens, algo evidente ao longo do enredo. Roman Polanski já nos inquietou na sua "trilogia do apartamento" e em obras como "Knife in the Water", apresentou uma versão marcada por algum humor dos filmes de vampiros em "The Fearless Vampire Killers", tendo em "Tess" um filme belíssimo, marcado por três interpretações dignas de relevo, um bom aproveitamento dos cenários, surpreendendo como o mesmo homem que anteriormente tinha realizado o perturbador "The Tenant" se sai com um trabalho tão delicado.

Título original: "Tess". 
Realizador: Roman Polanski. 
Argumento: Gerard Brach, John Brownjohn, Roman Polanski.
Elenco: Nastassja Kinski, Peter Firth, Leigh Lawson, John Collin.

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