25 dezembro 2014

Resenha Crítica: "The Tenant" (O Inquilino)

 Trelkovsky (Roman Polanski) é um indivíduo introvertido, aparentemente calmo e ponderado que procura alugar um apartamento no prédio de Monsieur Zy (Melvyn Douglas), um idoso que vive com a esposa e tem pavor a qualquer espécie de barulho. A casa que Trelkovsky pretende alugar pertencia a Simone Choule, uma mulher fascinada pelo Antigo Egipto que saltou da janela tendo em vista a cometer suicídio, encontrando-se entre a vida e a morte. Este fica curioso em relação ao estado de Simone, algo que o leva a visitar esta mulher ao hospital, fingindo ser amigo dela, acabando por travar conhecimento com Stella (Isabelle Adjani), uma visitante que conhece Simone. A antiga inquilina de Zy encontra-se quase toda enfaixada, sem conseguir comunicar, soltando um vigoroso e perturbador berro na presença de Trelkovsky e Stella. Os dois ficam notoriamente perturbados, indo a um café onde ambos tomam uma bebida, seguindo-se uma ida ao cinema para verem "Enter the Dragon", onde se beijam após um momento de maior tensão sexual onde Stella toca nas partes baixas de Trelkovsky e este mexe-lhe nos seios. Termina o filme e ambos partem para as suas vidas. Trelkvosky aos poucos procura arrumar a casa com os seus pertences e mudar alguns móveis de lugar, ficando intrigado com o material que ficou de Simone no apartamento, incluindo as roupas. Este fica a viver no local após a morte de Simone, tendo de pagar uma maquia elevada ao seu avarento senhorio, num espaço marcado por estranhos e perturbados vizinhos que o prometem levar à loucura. O personagem interpretado por Roman Polanski ainda tenta levar alguns amigos a sua casa e socializar, mas logo estes momentos são perturbados pelo seu vizinho de cima que não pretende barulho. A habitar o prédio temos ainda elementos como a Madame Dioz (Jo Van Fleet), uma mulher aparentemente desprezível e mesquinha que pretende expulsar Madame Gaderian e a sua filha devido ao suposto barulho que causam, para além da porteira (Shelley Winters), sempre pronta a meter-se nos assuntos e a acusar indevidamente ou talvez não o protagonista de fazer demasiado ruído, entre outros elementos. Todos parecem ter a paranoia pelo barulho, enquanto o protagonista começa cada vez mais a entrar numa espiral descendente, com o seu estado mental a piorar de forma notória, começando a pensar que os inquilinos do prédio pretendem que este assuma a figura da falecida. Roman Polanski é especialista em thrillers psicológicos que apresentam cenários primordiais fechados, tais como "Repulsion" e "Rosemary's Baby", tendo em "The Tenant" uma obra mais uma vez marcada por enorme mistério e uma habitação pronta a ter influência na vida do protagonista. Será que aquilo que o protagonista vê ao longo da narrativa é mesmo real? Estará mesmo a ser alvo de uma conspiração? Ou estará a ficar louco? A última questão parece fazer mais sentido ou então uma mescla de ambas, com Trelkovsky aos poucos a suspeitar que o querem levar ao suicídio, com o espaço da sua casa a tornar-se um local opressor, enquanto Roman Polanski aborda temáticas que já tinha exposto nos filmes citados embora a linha entre a realidade e a imaginação fique demasiadas vezes esbatida ao longo de "The Tenant". Polanski deixa-nos na dúvida em relação aos actos do protagonista e daqueles que o rodeiam, surgindo por vezes questões sobre as situações que envolvem Trelkovsky. Ficamos numa situação incómoda numa obra que por vezes nos causa algum desconforto, tal a forma como Roman Polanski consegue jogar com as nossas percepções em relação aos personagens e ao contexto que os rodeia, com Trelkvosky a parecer claramente entrar numa espiral descendente, começando aos poucos a rever-se na figura de Simone Choule, enquanto lida com um conjunto de vizinhos de difícil trato. A curiosidade que este tem em relação a Simone e as atitudes dos elementos que o rodeiam não o favorecem, tal como Trelkovsky contribui muitas das vezes para afastar aqueles de quem se querem aproximar de si, afundando-se numa perigosa solidão.

 Stella poderia ser um possível interesse amoroso do protagonista, com este até a reencontrar a mesma, mas embebeda-se e tem uma conversa de tal forma mórbida sobre um dente que encontrou num buraco da sua casa, para além de divagações sobre corpos mutilados que tiram qualquer interesse a esta e até nos deixa a questionar onde este tem a cabeça. Roman Polanski cria um personagem complexo, um indivíduo que no seu exterior parece calmo e ponderado, mas gradualmente tem atitudes que beiram a loucura. Não ajuda entrar num café e lhe dizerem que este se senta no mesmo local da falecida e darem-lhe o mesmo pequeno almoço que Simone tomava, para além de pretenderem que o protagonista compre a mesma marca de cigarros desta, algo que aos poucos o deixa a sentir-se cada vez mais como esta mulher que se decidiu suicidar. Mesmo o seu apartamento parece demasiado marcado pela presença de Simone, algo que inicialmente apenas o intriga mas começa a transtorná-lo de forma latente. Gradualmente começa até a utilizar as roupas e maquilhagem de Simone, procurando emular a mesma, chegando ao ponto de comprar uma peruca e sapatos de mulher de forma a andar assim de noite pela casa. Pelo caminho ainda encontra personagens como Georges Badar (Rufus), um apaixonado por Simone que fica devastado com a morte desta mulher, para além de um inspector da polícia que faz mais uma vez questão de salientar a origem polaca de Trelkovsky, apesar deste ter cidadania francesa, após o protagonista ter sido intimado a apresentar-se devido a queixas de barulho nocturno da parte dos vizinhos, algo que este desmente de forma categórica. O que "The Tenant" propõe-se a apresentar-nos é a degradação mental deste personagem, que gradualmente começa a tomar os hábitos de Simone, começando até a fumar Marlboro e a apresentar tendências suicidas. Como é que alguém aparentemente normal cai num estado como o do protagonista? Sentimo-nos impotentes, sem poder nada fazer, enquanto Trelkvosky vai de acto bizarro em acto bizarro até aos momentos de loucura finais, onde nem sempre sabemos se o que este está a ver é mesmo real ou fruto da sua imaginação, incluindo um estranho jogo de tortura efectuado pelos seus vizinhos a Gaderian e a sua filha. Tudo começa com a repressão dos seus actos por parte dos vizinhos. Primeiro sugerem que não faça barulho, nem leve mulheres e amigos para sua casa, depois insistem que este ande de chinelos como a antiga moradora, enquanto nos questionamos porque é que Trelkvosky se mantém neste apartamento situado no interior de um prédio recheado de gente peculiar. Este ao invés de fugir parece seguir aquele ditado do "se não podes vencer junta-te a eles", embora por vezes o seu estado mental também não pareça estar na melhor das condições ao longo deste intrigante thriller psicológico. "The Tenant" completa a chamada "trilogia do apartamento" de Roman Polanski iniciada por "Repulsion" e "Rosemary's Baby", com a casa dos protagonistas a ser palco e personagem para a instabilidade emocional que apresentam. Ao contrário de Rosemary, o protagonista de "The Tenant" não conta com vizinhos prestáveis nem entidades demoníacas, mas nem por isso deixa de estar numa habitação que aos poucos se torna um local opressor da sua liberdade e sanidade mental.

 O personagem interpretado com eficácia por Roman Polanski ainda parece ter uns momentos de regresso à sanidade quando se reúne com Stella pela terceira vez, mas logo volta a deixar a sua paranoia levar a melhor. Não é agradável de se ver esta queda do protagonista em desgraça, ao mesmo tempo que nem sempre percebemos as decisões. Mas será que é possível compreender totalmente alguém que começa a entrar num estado de loucura? Este até parece ter alguns amigos, mas gradualmente afasta-se de tudo e de todos, parecendo inclusive descurar o emprego. Nem este parece ter capacidade para trabalhar. Quando o vemos vestido como se fosse a falecida questionamo-nos sobre o que irá na cabeça deste homem, mas é demasiado inexplicável, com Roman Polanski a criar uma atmosfera de enorme mistério em volta do personagem que interpreta e a explorar mais uma vez a temática da repressão sexual. O realizador nem era para ter dirigido esta adaptação cinematográfica do livro "Le locataire chimérique" de Roland Topor, mas sim Jack Clayon, com o projecto a acabar nas mãos de Polanski que consegue incutir o seu estilo pessoal na obra cinematográfica. Este cria toda uma conjuntura que gradualmente nos deixa a acompanhar este personagem a degradar-se mentalmente e emocionalmente, quer pela sua mente, quer pelo efeito dos outros, ao mesmo tempo que desconfiamos por vezes daquilo que as imagens nos dão, parecendo existir uma ténue linha entre a realidade fabricada pela imaginação do protagonista e aquela que está mesmo a acontecer no enredo. O filme tem ainda espaço para deixar alguns elementos secundários sobressaírem. Veja-se Isabelle Adjani como Stella, uma amiga da falecida que estabelece contacto com o protagonista. Numa ocasião normal Stella e Trelkovsky até poderiam ter iniciado um romance, mas o estado deste encontra-se pouco dado a conseguir iniciar uma relação sentimental. Temos ainda Melvyn Douglas como o vetusto senhorio do protagonista, um homem austero a nível de sentimentos, que coloca regras rígidas de funcionamento no interior do seu prédio, com o actor a conseguir explorar quase sempre o lado pouco simpático do seu personagem, enquanto este vigia rigorosamente as entradas e saídas dos seus inquilinos. O prédio é composto por todo um conjunto de personagens peculiares ao longo de uma obra onde a paranoia e a loucura surgem muito presentes, com Roman Polanski a revelar-se mais uma vez exímio a criar uma enorme inquietação em volta dos acontecimentos da narrativa. A própria situação dos vidros partidos do local onde Simone caiu são perturbadores, com a cinematografia e o trabalho de som a contribuírem para todo o mistério e paranoia que rodeia o enredo. O protagonista envolve-se numa situação complicada, com o ambiente claustrofóbico que grassa no prédio onde habita a não ajudar, para além de um conjunto de coincidências que não contribuem para a manutenção da sua sanidade, com este a passar de alguém céptico em relação ao suicídio para se tornar num indivíduo que contempla o mesmo. Claustrofóbico, arrepiante e capaz de nos causar algum mau estar, "The Tenant" coloca-nos perante um indivíduo que cai em desgraça e cede à loucura, encontrando-se rodeado de todo um meio que sufoca a sua capacidade para tentar levar uma vida minimamente estável do ponto de vista psicológico.

Título original: "The Tenant".
Título em Portugal: "O Inquilino". 
Realizador: Roman Polanski. 
Argumento: Gérard Brach e Roman Polanski.
Elenco: Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Jo Van Fleet, Bernard Fresson, Lila Kedrova, Claude Dauphin, Shelley Winters, Josiane Balasko.

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