04 dezembro 2014

Resenha Crítica: "The Story of Qiu Ju" (Qiu Ju da guan si)

 Na sua quinta longa-metragem como realizador, Zhang Yimou volta a criar uma personagem feminina forte, capaz de apresentar uma resiliência e teimosia incansáveis para defender a honra do marido e ver ser cumprida justiça. Esta mulher é Qiu Ju (Gong Li), uma camponesa que espera um bebé de Qinglai (Liu Peiqi), com o casal a viver da plantação de pimenta malagueta. Este é agredido por Wang Shantang (Lei Kesheng), o líder da aldeia e seu superior, devido a uma discussão que começou quando o casal pediu para construir um local para abrigar as malaguetas, algo recusado pelo superior embora não tenha apresentado o documento que permitisse rejeitar essa construção. Num momento mais acalorado, Qinglai diz que Shantang não vai ter herdeiros, tendo de passar a sua vida a criar galinhas (remetendo para o facto deste só ter filhas), algo que este responde com uma agressão que resulta em contusões na parede torácica direita e um inchaço no testículo esquerdo do personagem interpretado por Liu Peiqi. Com uma gravidez saliente devido à sua barriga notoriamente larga, roupas associadas à sua personalidade reservada (lenço na cabeça) e às mulheres do campo (algo que surge em contraste quando esta vai à cidade), Qiu Ju vai procurar fazer de tudo para que seja feita justiça e, acima de tudo, que Shantang peça desculpas e justifique os seus actos. Ainda procura reunir-se com este homem, mas Shantang ainda parece escarnecer de Qiu Ju, algo que conduz a protagonista a contactar o Oficial Liu, o elemento encarregue da justiça local. Liu procura resolver o conflito, incluindo obrigar Shantang a pagar 200 yuans para amenizar as despesas e os dias que Qinglai falta ao trabalho. Shantang paga a quantia atirando as notas para o chão, algo que Qiu Ju recusa recolher, dirigindo-se ao Condado acompanhada por Meizi, a irmã de Qinglai, tendo em vista a efectuar uma reclamação junto das autoridades locais. Liu logo é contactado, procurando mais uma vez resolver a situação, mas a teimosia de Shantang em desculpar-se e justificar-se junto de Qinglai conduz a que a protagonista se dirija até à cidade, acompanhada novamente pela cunhada, tendo em vista a contactar com o director da Agência de Segurança Pública. Na cidade, assistimos a um contraste latente com o espaço do campo, com Zhang Yimou a voltar a expor a dicotomia latente entre estes territórios distintos. Ambos são superpovoados. Enquanto no espaço rural quase todos os elementos se parecem conhecer e ter uma forma muito própria de lidar uns com os outros, já na cidade estas mulheres são enganadas desde logo pelo indivíduo que as transporta, procurando adaptar-se a toda uma nova realidade onde as próprias estradas apresentam essas diferenças, aparecendo povoadas por bicicletas, carros e um conjunto de veículos que se assemelham a ciclo-riquexós. 

Pese todas as dificuldades encontradas, esta mulher parece disposta a tudo para conseguir um pedido de desculpas e que seja cumprida justiça, com Gong Li a ter mais uma interpretação magnífica e a convencer-nos da resiliência de Qiu Ju. O rosto da personagem que Gong Li interpreta aparenta alguma revolta, contida pela esperança de confiar que mais cedo ou mais tarde vai conseguir os seus intentos, contando com o filho no ventre, com a sua barriga a expor o estado avançado da gravidez. Qiu Ju é uma mulher aparentemente comum que se distingue e muito da "espécie de vamp" que Gong Li interpretaria em "Shanghai Triad" e até da sua personagem em "Ju Dou", uma mulher adúltera. Diga-se que Zhang Yimou, um dos nomes de relevo da chamada Quinta Geração de Cineastas chineses, já anteriormente tinha procurado dar atenção a estes elementos aparentemente comuns que se destacam pelas suas fortes personalidades. Foi assim em "Red Sorghum" e "Ju Dou" e também é assim em "The Story of Qiu Ju". A personagem do título é uma mulher obstinada que procura a todo o custo que seja feita justiça, surgindo tudo menos passiva. Veste-se com um casaco vermelho, que contrasta com o seu lenço verde na cabeça, com a cor a ser mais uma vez um elemento relevante nas obras de Zhang Yimou. Veja-se ainda as malaguetas bem encarnadas, para além da presença da neve, branca, a rodear inicialmente o espaço do campo, bem como as carregadas tonalidades azuis nas cenas nocturnas, incluindo quando Qiu Ju parece estar em perigo. Por vezes, esta mulher parece tão teimosa como Shantang, algo que no final até a vai conduzir a um arrependimento, mas o sistema judicial do seu país e o alvo da sua revolta muito contribuem para esta indignação. Lei Kesheng atribui uma atitude pouco cordial ao seu personagem, com este a parecer pouco preocupado para com o homem que agrediu, encontrando-se pouco disposto a conceder o pedido de desculpas esperado por Qiu Ju. Qinglai até parece apresentar alguma abertura em resolver de forma rápida esta situação, mas a esposa toma este acto do chefe da aldeia como uma ofensa que apenas pode ser perdoada perante uma justificação e respectivo pedido de desculpas. Zhang Yimou aproveita para explorar as questões ligadas com o território rural onde habitam estes personagens, mas também as dificuldades sentidas por esta mulher para ver a justiça ser cumprida, envolvendo-se por entre a intrincada teia da burocracia. Esta burocracia conduz a que gaste tempo e dinheiro, numa jornada desgastante, por vezes pontuada por algum humor, onde procura a todo o custo encontrar responsáveis capazes de fazerem cumprir a lei (esta missão faz-nos recordar a procura de Wei Minzhi em encontrar o seu antigo aluno na cidade em "Not One Less", outra das obras recomendáveis de Zhang Yimou). Diga-se que é complicado, sobretudo quando esta se depara perante uma teia burocrática intrincada, chegando até a ir a tribunal para defender a sua causa.

 Mais do que ver a lei a ser cumprida, Qiu Ju pretende um pedido de desculpas, algo que tarda em surgir e o dinheiro parece impossível de a fazer calar. A acompanhá-la encontra-se quase sempre Meizi, uma mulher que raramente fala, mas procura defender a honra do irmão e da cunhada. Apesar do elenco secundário surgir relativamente competente, "The Story of Qiu Jiu" é praticamente dominado pela interpretação de Gong Li, naquela que é mais uma feliz colaboração com Zhang Yimou. A sua personagem é algo conservadora, uma característica relativamente visível quando se dirige à cidade e procura, em conjunto com a cunhada, comprar roupas que as aproximem de um estilo citadino mas nem por isso deixam de parecer desadequadas a este local. O momento varia entre o constrangedor e o humor, com Zhang Yimou a não deixar de permear a obra de alguma leveza, com as cenas na cidade a por vezes apresentarem um cariz documental. A certa altura do filme podemos ver algumas imagens em movimento de gentes anónimas a circularem e a atravessarem as estradas, com Zhang Yimou a ter utilizado a câmara escondida durante estes momentos para captar elementos deste local citadino. Temos ainda os hábitos, costumes e rituais dos elementos que vivem e trabalham no campo, algo notório aquando do nascimento do filho de Qiu Ji, com o território rural a parecer ter praticamente ficado parado no tempo, uma situação que explica o contraste destas duas mulheres em relação ao espaço citadino. Zhang Yimou interessa-se por estas mulheres e até pelas figuras anónimas que as rodeiam, ao longo desta história aparentemente simples, mas envolvente ao longo de toda a sua duração, com o cineasta a ser capaz de nos transportar para o interior das gentes comuns do seu país. "The Story of Qiu Ji" coloca-nos perante a procura de uma mulher em conseguir um pedido de desculpas formal e ver justiça a ser feita ao longo de uma obra onde Gong Li tem mais uma interpretação capaz de despertar a atenção, ao mesmo tempo que Zhang Yimou nos deixa perante alguns elementos típicos da sociedade do seu tempo, apresentando um tom algo crítico em relação à burocracia que envolve a justiça.

Título original: "Qiu Ju da guan si".
Título em inglês: "The Story of Qiu Ju".
Realizador: Zhang Yimou.
Argumento: Liu Heng.
Elenco: Gong Li, Liu Peiqi, Yang Liuchun, Lei Kesheng.

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